
JORGE AMADO

TIETA DO AGRESTE
Pastora de cabras Ou A volta da filha prdiga, melodramtico folhetim em cinco sensacionais episdios e comovente eplogo: emoo e suspense!




EDITORA RECORD




Para Zlia rodeada de netos.
Para Glria e Alfredo Machado, Hayde e Paulo Tavares, Helen e Alfred Knopf, Lcia e Paulo Peltier de Queiroz, Lygia e Juarezda GamaBatista, Lygiae Zitelmann Oliva,
Toninha e Camafeu de Oxossi e para Carlos Bastos.




Lugar bom para esperar a morte.
(Frase de um caixeiro-viajante sobre Sant'Ana do Agreste)


. esses Que transformam o mar numa lata de lixo...
(Juiz Viglietta, sentena condenando  priso os diretores da Montedison, na Itlia)


Que belo p de buceteiro!
(Exclamao de Bafo de Bode ao ver Tieta)








Silncio e solido, o rio penetra mar adentro no oceano sem limites sob o leito despejado, o fim e o comeo. Dunas imensas, lmpidas montanhas de areia, a menina
correndo igual a uma cabrita para o alto, no rosto a claridade do sol E O zunido do vento, os ps leves e descalos pondo distncia entre ela e o homem forte, na
pujana dos quarenta anos, a persegui-la.
Arfando, o homem sobe, o chapu na mo para que no voe e se perca. Os sapatos enterram-se na areia; o reflexo do sol cega-lhe os olhos; agudo fio de navalha, o
vento corta-lhe a pele; o suor escorre pelo corpo inteiro; o desejo e a raiva - quando te pegar, peste t arrombo e mato.
A menina volta-se e olha, mede a distncia a separ-la do mascate, o medo e o desejo: se ele me pegar vai meter em mim, estremece apavorada; mas, se eu no esperar,
ele desiste, ah; isso no, no pode permitir mesmo que queira pois o tempo  chegado.
O homem tambm parou e fala, grita palavras que no alcanam a menina, perdidas na areia, levadas pelo vento. Ela no ouve mas adivinha e responde:
- BCI.; - assim cantam as cabras que ela pastoreia.
O desafio bate na face, penetra nos ouvidos do mascate, ergue-lhe as foras, ele avana. Atenta, a menina espera.
L atrs o rio, na frente o oceano, os olhos adolescentes percorrem e dominam a paisagem desmedida. Naquele momento de espera, de nsia e de angstia, a menina fixou
na memria a deslumbrante imensido da cama de noiva que lhe coube. Do outro lado da barra, a beleza da praia larga e rasa do Saco, em mar de guas mansas, no Estado
de Sergipe, a ampla aldeia de pescadores, com armazm, capela e escola, um vilarejo. O oposto dos cmoros monumentais onde ela se encontra, a invadirem as guas,
o espao do mar, contidos pelos vagalhes na fria da guerra. Aqui o vento deposita diria colheita de areia, a mais alva, a mais. fina, escolhida a propsito para
formar a praia singular de Mangue Seco, sem comparao com nenhuma outra, aqui onde a Bahia nasce na convulsa conjuno do rio Real com o octano.
Dzia, dzia e meia de casebres provisrios, mudando-se ao sabor do vento e da areia a invadi-los e soterr-los, morada dos poucos pescadores a habitar desse lado
da barra. Durante o dia, as mulheres pescam no mangue de caranguejos, os homens lanam as redes ao mar. Por vezes partem em pesca milagrosa, audazes a cruzar os
vagalhes altos como as dunas nos nicos barcos capazes de enfrent-los e prosseguir mar afora, ao encontro marcado com navios e escunas, em noites de breu, para
o desembarque do contrabando.
O falso mascate vem na lancha a motor recolher as caixas de bebidas, de perfumes, os fardos de seda italiana, de casimira e linho ingleses, outras especiarias, e
fazer o mdico pagamento - dinheiro para a farinha, o caf, o acar, a cachaa, o fumo de rolo. De quando em quando, traz uma vadia na lancha e enquanto caixas
e fardos so transportados dos casebres, vai despach-la nas dunas, sobre as palhas dos coqueiros para aproveitar o tempo. Um garanho, o mascate; os pescadores
o apreciam. Em mais de uma ocasio ele no os acompanhou nos barcos, indiferente s vagas, at o alto- mar de navios e tubares.
A menina deixa que o homem chegue bem perto - s ento dispara areia acima e do alto novamente canta o exigente e assustado chamado das cabras. De amor, no conhece
outra expresso, outra palavra, outro som. linda naquele dia O ouvira da cabrita no primeiro cio quando O bode Incio, pai do rebanho, se encaminhou para ela, balanando
o cavanhaque e as trouxas. Depois o mascate apareceu e a menina aceitou o convite para o passeio de lancha, vinte minutos de rio, cinco de mar agitado e o esplendor
de Mangue Seco. Como resistir, dizer obrigada, mas no vou. Mentira: no a seduzira a corrida no rio, a travessia do pedao de mar, nem sequer as dunas bem-amadas
desde a infncia. A menina no tenta inocentar-se. Recusara convites anteriores, o mascate a tinha de olho h tempos. Desta vez agora ela disse vamos, sabendo a
que ia.
Quando, porm, sente a mo pesada segurar-lhe o brao o medo a invade inteira, da cabea aos ps. Contm-se, no entanto no busca fugir.
O homem a derruba sobre as folhas dos coqueiros, suspende-lhe a saia, arranca-lhe a calola, trapo sujo. De joelhos sobre ela, enterra o chapu na areia para que
no voe e se perca, abre a braguilha. A menina o deixa fazer e quer que ele o faa. Para ela soara o tempo, como para as cabritas a hora temida e desejada, a boca
implacvel do bode Incio, o saco quase a arrastar por terra de to grande.
Sua hora chegara, j no lhe corria sangue entre as coxas todos os meses Nas dunas de Mangue Seco, Tieta, pastora de cabras, conheceu o gosto do bomom, mistura de
mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a arrombou, igual  cabrita horas atrs, ela berrou. De dor e de contentamento.
Primeiro episdio morte e ressurreio de Tieta ou a filha prdiga contendo introduo e palpites do autor, inesquecveis dilogos, finos detalhes psicolgicos,
pinceladas de paisagens, segredos, adivinhas, alm da apresentao de algumas figuras que desempenharo destacado papel nos acontecimentos passados e futuros narrados
neste apaixonante folhetim em cada pgina a dvida, o mistrio, a vil traio, o sublime devotamento, o dio e o amor. Jorge Amado faz uma introduo onde o autor,
um finrio, tenta eximir-se de toda e qualquer responsabilidade e termina por lanar imprudente desafio a argcia do leitor com sibilina pergunta comeo por avisar:
no assumo qualquer responsabilidade pela exatido dos fatos, no ponho a mo no fogo, s um louco o faria. no apenas por serem decorridos mais de dez anos mas
sobretudo porque verdade cada um possui a sua, razo tambm, e no caso em apreo no enxergo perspectiva de meio-termo, de acordo entre as partes.
Enredo incoerente, confuso episdio, pleno de contradies e absurdos, conseguiu atravessar a distancia a mediar entre a esquecida cidadezinha fronteiria e a capital
- os duzentos e setenta quilmetros de buracos no asfalto de segunda e os quarenta e oito de lama de primeira ou de poeira de primeirssima, p vermelho que seincrusta
na pele e resiste aos sabonetes finos - indo ressoar na imprensa metropolitana.
Noticirio de comeo entre galhofeiro e sensacionalista, logo aps patritico e discreto pois muito bem pago, dissolvendo-serpido em anncios, alguns de pgina
inteira.
Certo semanrio de tradies duvidosas - adjetivo mal-empregado:
por que duvidosas? - meteu-se a valente em editorial de primeira pgina, com vermelha manchete agressiva, ameaou enviar reprter e fotgrafo queles confins para
esclarecer a gravssima denncia, o monstruoso conluio, o perigo estarrecedor, etc. e tal. Arrogncia e indignao duraram apenas um nmero, a valentia o probo diretor
a enfiou no rabo e esqueceu o escaldante tema. Ainda jovem mas j veterano nas lides da imprensa, arrotando em surdina ideologia radical e princpios explosivos,
visando porm fins benficos, Leonel Vieira afogou protesto e ameaas em usque escocs, na grata companhia do doutor Mirko Stefano e de algumas apetitosas moas,
todas elas relaes pblicas de muita animao e pouca vestimenta. Pouca, em termos: duas entre as mais bem modeladas exibiam longas tnicas transparentes e por
baixo nada ou quase nada, tnicas essas, na opinio de entendidos, mais excitantes que os curtos shortes ou os sumrios biqunis. Amvel tema de debate entre o doutor
e o jornalista, nica divergncia a separ-los, no bar,  borda da piscina. No mais, acordo total. Quanto a mim, se me permitem opinar, prefiro os longos transparentes
lambidos por uma rstia de luz, revelando volumes e sombras, ai! Mas que importa minha opinio?
A minha, a vossa, outra qualquer ante os potentes argumentos do doutor Stefano, argumentos em divisas, afirmam, se bem no haja absoluta certeza sobre a moeda original,
dlares ou marcos ocidentais, as duas talvez. To irresistvel dialtica do simptico testa- de- ferro, levou o trafego cronista social Dorian Gray Jnior a proclam-lo
Mirlais, o Magnfico Doutor, em desbunde de adulao. Simples testa-de-ferro de ignotos patres, conforme insinuou o semanrio naquele exclusivo e atrevido editorial
- atrevido, exclusivo e muito bem capitalizado; sendo, alm do mais, uma garantia  esquerda pois que outro rgo da imprensa falada ou escrita ousou interpelar
e ameaar? Posio clara e definida, prova a ser exibida, se necessrio; ningum sabe o que pode acontecer no dia de amanh, recente, a est, o exemplo de Portugal,
quem poderia prever? ao demais, no ho de ser um simples cheque, por mais polpudo, garrafas de escocs e o ventre em Flor das permissivas relaes- pblicas que
abalaro as convices ideolgicas, os slidos princpios do intemerato e dctil jornalista: Leonel Vieira possui fibra e carter capazes de digerir cheques, licores
e beldades, conservando imutveis princpios e ideologia. Embolsa o cheque, escorna no usque, baba cangotes e xibius, maneira o jornal e ao mesmo tempo proclama
- baixinho - os princpios, radicalssimo. Um porreta.
Quanto aos grandes patres, esses no se mostram em bares, no brindam com jornalistas de cavao e preferem as formosas nuinhas de todo, no conforto e no recato,
longe de qualquer exibio pblica. Ai, quem me dera a honra, a glria suprema de que pelo menos um deles venha a aparecer nas mal-alinhadas pginas deste relato;
seria o mximo para o modesto escriba contar com tamanha personagem. Realista, os ps na terra, no espero acontea esse milagre; onde foras capazes de arrastar
um lorde estrangeiro quele cu-de-mundo, atravs de lama e poeira? Caso tudo d certo, aprovado o projeto, instalado o complexo industrial, quando o progresso chegar
com asfalto slido, estradas de mo nica, motis, piscinas, moas de tnicas transparentes, polcia de segurana, a sim, talvez tenhamos o privilgio de enxergar,
com nossos olhos que a terra h de comer, um desses grandes do mundo, envolto em ouro.
De qualquer maneira, vou em frente, mesmo sabendo que alguns detalhes dificilmente merecero crdito de parte das pessoas sensatas, pespeg-los exige martelo russo
e prego caibral, para usar expresso da velha Mil repetida cada vez que o bardo Barbozinha termina de narrar sobre o alm e o passado ou, indmito, penetra futuro
adentro, voz eloqente e empostada - empostada por uma embolia que o acometera anos atrs e por pouco O desencarna. no deu para tanto, suficiente porm para aposent-lo
do quadro de funcionrios da Prefeitura da Capital, onde exerceu, com relativa capacidade e certo desleixo, funes de escriturrio, e traz-lo de volta s ruas
poucas e pacatas de Sant'Ana do Agreste, cujos limites culturais, com tal retorno, logo de muito se ampliaram pois Barbozinha - Gregrio Eustquio de Matos Barbosa
-  autor de trs livros, publicados na Bahia, dois de poesia e um de mximas filosficas.
De tudo isso se dar notcia no decorrer da ao. Aqui venho apenas livrar a cara, declinar de qualquer responsabilidade. Relato os fatos conforme me foram narrados,
por uns e por outros. Se de quando em quando meto minha colher e situo opinies e dvidas,  que tambm no sou de ferro nem me pretendo indiferente s agitaes
sociais, vendavais do sculo a convulsionas o mundo (De Matos Barbosa, in Mximas e Mnimas da Filosofia - Demeval Chaves Editor- Bahia, 1950). Sou apenas prudente,
o que nos tempos de agora no  virtude nem mrito e sim necessidade vital.
De uma coisa desejaria realmente ter certeza no momento em que colocar o ponto final nas pginas deste folhetim, e para isso conto com a ajuda dos senhores, lano-lhe
s um desafio: respondam-me quais os heris da histria, quem lutou pelo bem da terra e do povo. Em nome da terra e do povo todos falam, cada qual mais ardente e
gratuito defensor. A gente vai ver descobre dinheiro pelo meio, no bolso dos sabidos, povo e terra que se danem.
Nesta embrulhada, cujos ns comeo a desatar, quem merece nome em placa de rua, avenida ou praa, artigos laudatrios, homenagens, comendas, cidadania, ser proclamado
heri? - digam-me os senhores. Aqueles que propugnam pelo progresso a todo custo - pague-se o preo sem reclamar, seja qual for - o exemplo de Ascnio Trindade?
Se pagasse com a vida, teria pago menos caro. Se no forem eles, que outros? no h de ser a Barbozinha ou a dona Carmosina, a Drio, comandante sem tropa a comandar,
que se confira tais honrarias, muito menos a Tieta, melhor dito,  madame. As palavras tambm valem dinheiro, heri  vocbulo nobre, de muita considerao.
Agradecerei a quem me elucidar quando juntos chegarmos ao fim,  moral da histria. Se moral houver, do que duvido.
Cerimonioso captulo onde se trava conhecimento com as trs irms, a pobre, a remediada e a rica; estando a ltima ausente - quem sabe para todo o sempre; onde se
conhece da carta mensal e do cheque idem, ansiosamente aguardados, sobretudo o cheque, como  natural, e tambm de pequenas misrias e mnima esperana, na hora
do mormao; onde em resumo se coloca inquietante pergunta: Tieta est viva ou morta singra os mares em cruzeiro de turismo ou...
Empertigada na cadeira, as mos cruzadas sobre o peito magro, toda em negro dos sapatos ao xale, coberta assim de luto fechado desde a morte do marido, Perptua
baixa a voz, lana a fnebre hiptese:
- E se sucedeu alguma coisa com ela? - adianta a cabea para onde est a irm, sussurra: - E se ela bateu a caoleta? - mesmo sussurrada, a voz, sibilante e rspida,
 desagradvel: - E se ela morreu?
Elisa estremece, solta o pano de prato, derrotada pelo mau pressgio. H dois dias e duas noites longas tenta arrancar da cabea esse maldito pressentimento a persegui-la,
a roubar-lhe o sono, a deix-la com os nervos em ponta.
- Ai, Senhor meu Deus!
Perptua descruza as mos, alisa a saia de gorgoro bem passada, ratifica com um movimento de cabea; no fez uma pergunta e sim uma afirmao.
De comprovao fcil, alis:
- Estamos a vinte e oito, praticamente no fim do ms. A carta sempre chega por volta de cinco, nunca passa de dez. Para mim, ela bateu a caoleta.
Mesmo no desalinho da manha de ocupaes domsticas, o rosto de Elisa bonito: morena de tez plida, olhos melanclicos, lbios carnudos. Sob o desleixo do vestido
velho e amarfanhado, chinelas gastas, ergue-se o corpo esbelto, de ancas altas e seios rijos. Um lampejo de curiosidade brota nos olhos assustados. Elisa busca na
face da irm outro sentimento alm da preocupao pelo dinheiro. no encontra: a proclamada morte de Tieta no aflige Perptua, teme somente pela sorte do cheque.
A cessao da remessa mensal assusta igualmente Elisa: no s perderiam a ajuda indispensvel como teriam de sustentar o pai e a me, onde arranjar o necessrio?
Um horror, Deus no permita!
Um horror, sem dvida, porm havia mais e pior. ao calafrio de medo sucede a tristeza, um aperto no corao. Se ela morreu, ento tudo se acabou para sempre, no
somente o cheque, tambm a tnue esperana; sobrar apenas o vazio. Essa irm Antonieta -meia- irm, alis, pois Elisa nascera do segundo e inesperado casamento
do velho Z Esteves - de quem no conserva lembrana, a respeito de quem sabe to pouco,  a razo de ser de Elisa.
Nos ltimos anos, sobretudo aps o casamento, comeara a idealizar a figura da ausente, espcie de gnio bom, herona de conto da carochinha, imagem fugidia, quaseirreal,
a se fazer concreta no auxlio mensal, nos espordicos presentes. Reunindo frases ouvidas, narrativas de antigos enredos, comentrios do pai e da me; a letra larga
e redonda nas pequenas cartas - parcas em palavras e notcias, reduzidas s mesmas perguntas pela sade dos velhos, das irms, dos sobrinhos, mas no secas e frias,
contendo, alm do cheque, abraos e beijos -o perfume ainda a evolar-se do envelope aps tantos dias de correio; os embrulhos de roupa usada, pouco usada, quase
nova; o ttulo de comendador ostentado pelo marido; a fotografia na revista, Elisa construra pouco a pouco imaginrio retrato da irm, fada alegre, bela e bondosa,
habitando um mundo rico e feliz. Nessa viso pensa e nela se apoia quando sonha com outra vida, mais alm da pasmaceira e do cansao. Morta Antonieta, que restar
a Elisa? As revistas de fotonovelas, nada mais. Nem isso, meu Deus! Onde os nqueis, sobrados das despesas, com que compr-la s?
Tristeza por tudo quanto perder, o dinheiro mensal, os presentes, o devaneio, o sonho, mas tambm tristeza simplesmente pela morte da irm;
gostar de algum tanto quanto gosta dessa meia- irm que no conhece?
Reage, na necessidade de conservar pelo menos a esperana: Perptua imagina sempre o pior, boca de agouro.
- Se ela tivesse morrido, a gente j tinha sabido, algum havia de dar a notcia. Em casa dela tem nosso endereo, todo ms ela escreve, no ?
Haviam de avisar... - h dois dias, na labuta da casa, na cama de insnia, repete esses argumentos para si mesma.
- Avisar? Quem? S se o marido dela e a famlia dele forem malucos.
- Malucos? no vejo por qu.
Perptua estuda a irm em silncio, a se perguntar se deve ou no contar, decide-se por fim, de qualquer maneira ela ter de saber:
- Porque, com a morte dela, agente tem direito a uma parte da herana.
Ns trs: o Velho, eu e voc. Elisa volta a enxugar os pratos, de onde Perptua tirara aquela idia de herana? Cada bobagem!
- Quem vai herdar  o marido dela, o Comendador. Por que a gente havia de herdar? Pro pai, pode ser que ela deixe alguma coisa, tem sido boa filha, boa at demais.
Mas, pra ns duas, por qu? Quando ela saiu de casa, eu tinha menos de um ano. E tu, no foi por tua culpa que ela foi embora?
- Ela foi embora porque quis. no me cabe culpa.
- No foi tu que xeretou ao Pai? Abriu o bico, ele quebrou a pobre no pau, tocou ela rua afora, no foi? me me contou como se deu e Pai confirmou, disse que tu
foi a culpada.
- Dizem isso agora, para adular. Depois que ela comeou a mandar dinheiro, virou santa. Por que tua me no tomou as dores na ocasio? Quem foi que deu a surra,
quem botou ela pra fora de casa? Eu ou o Velho?
Elisa estende sobre a mesa a toalha manchada de azeite, de feijo, de caf - Astrio tem mo podre, no sabe se servir sem derramar caldos e molhos, o infeliz. Encolhe
os ombros, no responde  pergunta de Perptua, o pai e a irm que decidam entre eles de quem a culpa; dela, Elisa,  que no foi, no completara um ano de idade
quando denncia, expulso e fuga aconteceram.
Perptua semicerra os olhos gzeos, por que Elisa se empenha em recordar o passado? A prpria Antonieta no esquecera, h muito, agravos e injustias? no envia
dinheiro, presentes? no ajuda nas despesas? Ademais, h males que vm para bem, no  mesmo? Se ela no tivesse sido posta no olho da rua, em vez de partir para
o Sul e triunfar em So Paulo, bem casada, cheia de dinheiro, feliz da vida, teria ficado ali, naquele buraco, vegetando na pobreza, sem direito a noivado e casamento
pois a histria com o caixeiro viajante logo se tornara de domnio pblico. Sem direito a nada, mera criada do pai e da madrasta.
- Se ela no lembra essas coisas por que tu h de lembrar?
- No fiz por mal, s para mostrar que ela no tem motivo pra querer deixar herana pra ns duas.
- No depende dela querer ou no querer... - Perptua descerra os olhos, compe a saia, retira invisvel cisco da blusa: - Quando ela morrer, metade da fortuna fica
para o marido e, como ela no tem filhos, a outra metade  dividida entre os parentes, os parentes prximos, o Velho e ns, o pai e as irms.
- Como  que tu sabe?
- Doutor Almiro me disse...
- O promotor? E tu foi falar isso com ele?
- Propriamente falar, no falei. Ele estava conversando com padre Mariano, eu e outras zeladoras de junto, ouvindo. Estavam falando da herana de seu Lito, que deixou
o dinheiro todo para o padre dizer missa pela salvao da alma dele na Igreja da Senhora Sant'Ana. Pois j vai para mais de seis meses que ele morreu e at agora
o padre no viu a cor do dinheiro. Est depositado na mo do juiz, em Esplanada, porque os parentes botaram questo, com advogado e tudo. Doutor Almiro disse que,
pela lei, metade  deles. Da eu fui perguntando, como quem no quer nada...
- Tu quer dizer que quando uma pessoa morre, metade do que ela tem fica pros parentes?
-  isso mesmo... - Perptua busca no bolso da saia um leno para enxugar o suor fino na testa, com o leno aparece um tero de contas negras.
- Quer dizer que, se tu morrer, metade do que  teu fica pra mim e pro pai...
- Tu no presta ateno no que se fala. S quando o falecido no tem filhos;  o caso dela, mas no o meu. O que eu deixar quando morrer vai ser repartido entre
Ricardo e Peto, meus filhos, meus nicos herdeiros. J foi assim quando o Major morreu - faz o sinal-da-cruz, eleva os olhos murmurando Deus o tenha em sua glria
-, a herana foi dividida, metade para mim, metade para os meninos. O doutor Almiro...
- Tu perguntou isso tambm?
- Sempre vale a pena saber.
- Tu pensa que ela morreu e que o marido no diz nada para ficar com tudo?
- E no pode ser? Por que ela nunca deu o endereo para ns? Mandou a gente escrever para a caixa-postal, onde j se viu? Proibio do marido, para a gente no saber.
Voc sabe o sobrenome dele? Nem eu.  Comendador pra c, Comendador pra l, e acabou-se, nada de sobrenome. Por qu? Tu no atina nessas coisas mas eu tenho pensado
muito nisso e tirei minhas concluses.
Tambm Elisa havia atentado naquelas esquisitices. Em sua opinio, porm, outro era o significado da falta de endereo, de sobrenome, da ausncia de maiores detalhes
sobre vida e famlia: Antonieta perdoara os agravos, no guardara mgoa, mas no esquecera o passado, no queria maior aproximao com os parentes, gente mesquinha
do interior, no desejava mistur-los a seu mundo maravilhoso. Ajudava pai e irms como cumpre s filhas quando em boa situao. Obrigao cumprida, a conscincia
em paz, ponto final: reserva e distncia. Se querem saber, faz ela muito bem! Era isso e nada mais, no passando o resto de inveno de Perptua, a cachola sempre
a pensar malfeitos e desgraas. Se Antonieta decidisse deixar alguma coisa para o pai e as irms, aps a morte, tomaria as medidas necessrias com antecedncia,
estaria tudo disposto e estabelecido.
- No acredito, no. Se ela tivesse morrido, a gente havia de saber.
Termina de botar a mesa, fica parada, o olhar perdido:
- Est  viajando, gozando a vida. Toda vez que sai a passeio, a carta atrasa. Atrasa mas chega. Lembra quando foi a Buenos Aires e mandou aquele carto to bonito?
Vida  a dela: viagens, passeios, festas. Tieta  muito boa de pensar na gente no meio de tanta animao. Se fosse comigo que tivesse acontecido, nunca mais, nunca
mais mesmo, eu havia de dar notcias.
Volta a vista para Perptua, agora a passar as contas do tero:
- Vou dizer uma coisa, acredite se quiser. Mesmo se fosse para herdar o dinheiro todinho, sem ter que dividir com ningum, nem assim eu desejo a morte dela.
- E quem deseja? - Perptua suspende a reza, a conta negra entre os dedos: - Mas, se no chegar mais cartas, ento  sinal que Antonieta morreu.
A eu vou mover mundos e fundos at descobrir o marido dela e tomar minha parte.
- Tu acaba lesa de pensar tanta maluquice. Ela est  passeando, se divertindo. Por que agourar criatura to direita? A carta no passa de amanh.
- Tomara mesmo. Fui em casa do Velho, ele est nos azeites. Sabe o que me perguntou? Se Astrio no tinha metido a mo no dinheiro e pago alguma dvida, como fez
daquela vez que usou o cheque para resgatar a letra vencida. O Velho pensa que a gente vive roubando ele. - Volta a dedilhar o tero, os lbios sem pintura movem-se
em silncio.
Com Perptua  assim, taco a taco: Elisa fizera referncia  intriga que resultara na partida de Antonieta, Perptua, na volta da conversa, deu o troco, desentocou
o malsinado assunto da duplicata, velho de cinco anos. A voz cansada, Elisa revida sem veemncia:
- Tu sabe que, se ele no pagasse a letra, a loja ia  falncia. Tu sabe, o Pai sabe...
No cresce o tom de voz, montono:
- Mas que a gente vive roubando, ah!, isso vive, no adianta tu ficar a sentada de tero na mo, mastigando padre- nosso com esse ar de santa.
- Nunca toquei num tosto do Velho. ..
- Nem ele ia deixar.  dela que a gente rouba. Para que ela manda o cheque todo ms?
- Para as despesas do Velho.
- E para que mais?
- Para ajudar na educao dos sobrinhos.
- Isso mesmo. Para ajudar na educao dos filhos da gente. O meu no chegou a completar dois anos e eu nunca mais peguei menino. Nunca mais, Deus no quis...
Os olhos vo da sala de jantar para o quarto de dormir, pela porta aberta v a cama de casal ainda por arrumar. Deus no quis? Nem pra isso Astrio serve... A voz
neutra, prossegue:
- E tu? Ser que tu mandou dizer a Tieta que Peto est no Grupo Escolar, no paga nem um vintm? Que padre Mariano arranjou com o Bispo o seminrio de graa para
Cardo? Eu sei o que tu mandou dizer: o preo da Escola de Dona Carlota, a mensalidade do seminrio. Isso, sim, tu mandou dizer, pro resto boca trancada. Por que
tu puxa de novo essa histria de letra que Astrio resgatou, se cada um de ns tem seus podres?
- Foi o Velho que falou, s repeti o que ele disse.
- Um dia eu ainda tomo coragem, escrevo a ela contando a verdade: que no tenho mais filho nenhum, o que tinha a doena levou mas que a gente precisa tanto do dinheiro
que ela manda, mas tanto a ponto de me ter faltado foras para comunicar a morte de Toninho. Era capaz dela ficar com pena e mandar at mais do que manda. S que
no tenho coragem de arriscar... Por que a gente  assim, Perptua? Por que a gente no presta?  por isso que ela no quer aproximao, no manda endereo, ajuda
de longe.
A voz se faz pesada, spera, quase desagradvel como a de Perptua:
- E ela age muito bem porque, se eu tivesse o endereo...
Os olhos fitam o vazio:
- Ah!, se eu soubesse o endereo j tinha arribado pra l!
Perptua chega ao fim do tero, beija a pequena cruz:
- Tem horas que tu nem parece mulher feita e casada, fala o que no deve. O que tu precisa  ir ajudar na igreja em vez de ficar em casa lendo revista e ouvindo
rdio, gastando o tempo com essas porcarias.
Elisa deixa cair os braos, a voz novamente neutra:
- Amanh, logo que a marinete chegue, passo no correio. Vem amanh, tu vai ver.
- Deus te oua. Com a desculpa da doena, Lula Pedreiro h trs meses no paga aluguel. Agora mandou a chave, foi morar com o filho, deixou a casa imunda, um chiqueiro.
Para alugar, vou ter que dar pelo menos uma demo de cal.
- Tu te queixa sem razo. Mora em casa prpria e ainda tem mais duas para alugar, fora a penso do falecido. A gente, se no fosse pelo dinheiro que ela manda pro
anjinho, nem numa sesso de cinema podia ir.
- Amanh, me avise logo se chegou ou no. Se no chegar, vou tomar minhas providncias.
- Por que no fica para almoar? O que d pra dois, d pra trs.
- Eu? Comer carne em dia de sexta- feira? Tu bem sabe que  pecado.
 por isso que vocs no vo para a frente. no cumprem a lei de Deus.
Ergue-se da cadeira, guarda o tero no bolso da saia. Toda em negro, a blusa de mangas compridas, sem decote, fechada no pescoo, o coque alto coberto pela mantilha,
o rosto severo, virtuosa e devota viva. Benze-se ao ouvir o sino da Matriz nas badaladas do meio-dia, encaminha-se para a porta.
Na rua deserta, ressoam os passos de Astrio. O mormao sobe do cho, desce do cu. Elisa suspira, dirige-se para a cozinha.
E Elisa, linda de morrer, diante do espelho, e do marido Astrio, bom de taco - captulo onde nada acontece quando no dia seguinte a marinete de Jairo buzinou na
curva prxima  entrada da cidade, Elisa, sentada  mesa antiga, quem sabe de valor, a servir de penteadeira, terminara de passar batom nos lbios e sorriu para
a imagem refletida no espelho barato pendurado na parede. Achou-se bonita.
A negra, bravia cabeleira, agora cuidada, solta sobre os ombros, emoldura-lhe a face plida, o langor dos olhos, a boca de lbios gulosos, acentuados pelo batom.
Linda de morrer, como diz, ao referir-se a estrelas de rdio, tev e cinema, o admirado locutor Mozart Cooper - pronuncia-se Cu...u...per -, voz de veludo nas ondas
hertzianas a embalar os coraes solitrios. Corao solitrio, linda de morrer.
Durante alguns minutos esqueceu-se de tudo quanto a afligia e ensaiou poses e trejeitos, imitados das cenas das fotonovelas: um muxoxo com os lbios, olhar apaixonado,
sorriso tentador, desmaio de paixo, a boca se abrindo para o beijo, a ponta da lngua a surgir entre os lbios, vermelha e mida. Beijar a quem? Num gesto cansado,
encolheu os ombros, os olhos cobriram-se de sombra. Volta a pensar na carta, busca tranqilizar-se : est chegando na mala do correio, trazida pela marinete, de
hoje no passa. E se no chegar?
Na vspera, na mesa do almoo, Astrio, comilo e apressado, a boca cheia, mastigando feijo e palavras, repetira pergunta e lamria:
- Por que tanta demora? Logo em novembro, ms de pouca venda, quase nenhuma. Que diabo pode ter acontecido?
Elisa trancara os lbios, se lanasse a suspeita a lhe queimar o peito o marido entraria em pnico. Esmorecido de natureza, incapaz de esforo e luta, o dia inteiro
encostado ao balco da loja  espera da minguada freguesia, animando-se apenas quando um dos parceiros do bilhar Seixas, Osnar, Aminthas ou Fidlio - aparece para
comentar apostas e jogadas; se Ascnio Trindade treinasse, Astrio teria adversrio pela frente. Osnar, desocupado, faz ponto na loja, o cigarro de palha pendurado
no lbio. Infalvel aos sbados, quando o movimento cresce por causa da feira. Aps vender a farinha, a carne- de- sol, o feijo, as frutas, o cultivo das roas
e o barro cozido em pequenos fornos rudimentares - moringas e quartinhas, cavalos e bois, jagunos e soldados, o padre- cura e os noivos de mos dadas, potes e panelas
-, os sitiantes e roceiros enchem a loja a comprar fazendas, sapatos, calas e camisas, quinquilharias, vez por outra um rdio de pilha. Na moita, equilibrado numa
velha cadeira, Osnar espreita as caboclas novas, puxando conversa quando lhe parece valer a pena. Nos sbados, o moleque Sabino ganha cinco cruzeiros para ajudar,
atendendo a maioria dos rudes fregueses - cinco cruzeiros e o que rouba no troco.
Se Elisa contasse a conversa com Perptua, Astrio era capaz de ter um daqueles vexames repetidos a cada aperto maior de dinheiro, a cada problema com os fornecedores;
suores frios, fraqueza nas pernas, tontura, vmitos.
Recolhe-se  cama, batendo o queixo, tiritando, a loja entregue a Sabino. S Osnar consegue levant-lo, arrastando-o para o bilhar, no Bar dos Aores, de seu Manuel
Portugus.
No bilhar transforma-se, vira outro homem. Ri e graceja, arrota valentia, aposta sem medo, manda desafiar Ascnio, certo da vitria. Bom no taco. No taco do bilhar,
somente no bilhar taco de ouro, surpreende-se Elisa a resmungar. Censurveis resmungos, pensamentos ruins, surgiam assim de repente, perseguiam- na os malditos,
cruz credo.
A face pensativa no espelho. Linda de morrer, ali perdida, a envelhecer naquelas ruas paradas,  espera da carta e do cheque. no fossem o rdio de pilha e as revistas,
que seria de Elisa?
Se revelasse a Astrio o tema debatido com Perptua, a probabilidade para a irm, a certeza- da morte de Tieta, ele vomitaria o feijo, o arroz, a carne, os pedaos
de manga, ali mesmo em cima da mesa do almoo. Tirante o bilhar, um molengas, sem nimo, sem ambio, sem conversa, sem alegria.
As raras prosas, as poucas risadas provinham ainda do bar, picantes histrias dos parceiros, de Seixas e Aminthas, raramente Fidlio, reservado de natureza e por
clculo, quase sempre Osnar, abastado, obsceno e mulherengo. As histrias de Osnar, entre as quais figura o notvel caso da polaca, so de morrer de rir, em geral
tm a ver com o descalibrado tamanho de seus rgos sexuais. Estrovenga de jumento, afirma Astrio, distanciando as mos para indicar a medida espantosa: daqui para
maior.
O cansado motor da eletricidade deixa de trabalhar s nove da noite, marcando a hora de dormir, confirmada pelas badaladas do sino da Matriz.
Astrio conclui a partida, encosta o taco, recolhe ou paga as apostas, toma o caminho de casa. Vez por outra, se Elisa ainda no pegou no sono, Astrio, ao despir-se,
repete a mesma frase, prlogo do caso a narrar: Acontece cada uma!
Osnar ou Aminthas, Seixas ou Fidlio, fosse qualquer dos quatro O personagem, fosse outra figura da cidade, o enredo era quase sempre escabroso, envolvendo mulher
e cama - cama ou mato, na beira do rio. Elisa ouve em silncio, tensa, atrevendo-se de raro em raro a pedir detalhes, to necessrios no entanto  construo do
imaginado mundo em que se trancara para subsistir, onde cada elemento importava; a grandeza de Antonieta, o postal de Buenos Aires, o perfume no envelope, as tramas
de Seixas, os segredos de Fidlio, as patifarias de Aminthas, a anatomia de Osnar. Durante o dia, o rdio ligado sem parar, Elisa passa e remenda roupa, lava pratos,
cozinha, l e rel revistas, visita dona Carmosina no Correio, suporta, aps o jantar, a lenga-lenga da vizinha, dona Lupicnia, cujo marido se mandara h mais de
um lustro para as bandas do sul da Bahia e no tinha previso de regresso; vai ver no volta nunca.
Linda de morrer, s mesmo para morrer, para que outra coisa, qual? A boca ante o espelho abre-se vida para o beijo. Que beijo? Elisa levanta-se, ai quem lhe dera
possuir espelho onde pudesse se ver de corpo inteiro! Linda de morrer, no fino da moda.
Afinal, pergunta-se a encolher os ombros novamente, por que gasta esse tempo em pintar-se, em ajeitar a negra cabeleira, em fazer-se to elegante no vestido restaurado,
presente de Tieta como todos que possui, cada qual de melhor fazenda e de padro mais moderno - usados mas pouco, quase novos.
Para que tanto apuro, tanto cuidado com a maquiagem, para que o decote a mostrar os ombros, o nascer dos seios?
Para atravessar as roas desertas, de raros passantes, perceber o peso do olhar do rabe Chalita, a bigodaa de sulto, a barba por fazer, eterno palito entre os
dentes, dono do Cinema Tupy e da sorveteria, velho e descuidado, ou sentir sem ver a mirada matreira do moleque Sabino fixa nos meneios das ancas da inacessvel
mulher do patro, ouvir o assovio do pestilento Bafo de Bode, mendigo e bbado? To podre e miservel, pode-se dar a todos os atrevimentos sem temer represlias.
Esses trs infelizes e acabou-se. Alm disso, um boa tarde, dona; um chapu levantado em muda saudao; a bno do vigrio e a incontida inveja das mulheres: At
parece que se vestiu para um baile, querida.
Discreta e comedida, esposa honesta e virtuosa, ao passar Elisa recolhe no decote o cpido olhar do levantino: ao v-la certamente recorda tempos de antanho e corpos
de mulheres; a cobia do moleque acentua-lhe o requebro da bunda, assim de noite Sabino sonhar com ela. no despreza sequer o assovio ftido do esmoler. Quanto
 inveja das mulheres, tem igualmente merecimento e sabor. Modesta, Elisa responde: vestido mandado por minha irm Tieta,  dela o gosto e a elegncia, hei de botar
fora. Louvam ento em coro a ausente Antonieta, irm generosa, filha exemplar, a infalvel ajuda mensal, os presentes rgios - rgios, sim senhora, cada vestido
desses vale um dinheiro!
Elisa recomenda  pequena Araci ateno na casa, fecha a porta da rua, dirige-se para o Correio. Atravessar a feira, passar pelo rabe, pelo moleque, pelo maluco,
pelas comadres no adro da igreja. O rosto srio, como cumpre a uma senhora casada, bem casada. O corao apertado, l dentro a certeza de que a carta no chegou.
Breve explicao do autor para uso daqueles que catam pulgas em elefante e apenas inicio o relato e j recebo criticas. Amigo ntimo, colega de trabalho e de letras,
cultivando-as como eu ainda em amargo anonimato, Flvio D'Alambert (Jos Simplicio da Silva, na vida civil) tem a primazia da leitura dos meus originais que, em
geral, me devolve entre elogios, agradveis de ouvir, e uma ou outra correo ortogrfica eu gramatical - vrgulas e pontos, tempos de verbo. Desta vez, porm, atreveu-se
mais longe e eu retruco de imediato, enquanto Elisa marcha em direo ao Correio.
Flvio considera um absurdo o uso da palavra marinete, por ultrapassada, para designar veculo automotor para transporte de passageiros. nibus, autobus, pulman
seriam termos modernos, corretos, prprios para a poca desenvolvimentista em que nos cabe o privilgio de viver. Acusa-me de subdesenvolvido e argumenta. Quando
rasgamos novas rodovias comparveis s melhores do estrangeiro; quando so implantadas indstrias a granel; quando, atendendo s clarinadas do progresso, desperta
um novo Nordeste redimido das secas, das epidemias, daquela fome centenria, e no esqueamos do analfabetismo rapidamente erradicado; quando a imprensa, o rdio,
a televiso uniformizam costumes, moral, modas e linguagem, varrendo como lixo os hbitos regionais, as expresses, os folguedos, quando os monumentais arranha-cus
unificam a paisagem citadina, erguendo-se de sob os escombros da histria e de casarios de pretenso valor artstico; quando nossa msica popular se baseia por fim
em melodias e temas universais, sobretudo ianques, abandonando ritmos de um desprezvel folclore nacional; quando o misticismo hindu (e adjacentes) ilumina a alina
dos jovens na fumaa da maconha alagoana; quando avanados idelogos se esforam para liquidar os princpios da mestiagem e implantar o racismo entre ns, o branco,
o negro e o amarelo, para que nada fiquemos a dever s naes realmente civilizadas e a violncia marque nossa face, lavando-a da antiga cordialidade brasileira,
sinal de atraso; quando a arte consciente de seu papel desconhece a terra e o homem e faz-se concreta, abstrata, objeto, igualzinha sem tirar nem pr  europia,
 norte-americana,  japonesa; quando criamos uma linguagem nova para a escrita dos literatos, esotrica mas extremamente revolucionria na forma e no contedo,
tanto mais atuante quanto mais ininteligvel; quando, na base da censura e da porrada, criamos a democracia, a verdadeira, no aquela antiga a conduzir o pas ao
abismo; quando entramos milagrosamente na poca da prosperidade ao ritmo das naes ricas, produtoras de petrleo, de trigo, da bomba atmica e dos satlites, do
usque e das histrias em quadrinhos, pice da literatura; quando passamos a ocupar nosso posto entre as grandes potncias e, em fbricas aqui instaladas, produzimos
veculos nacionais -mercedes Benz, Ford, Alfa-Romeo, Volkswagen, Dodge, Chevrolet, Toyota, etc. e tal e etc. e tal. - como se atreve um autor a apelidar de marinete
o bus a conduzir passageiros de Sant'Ana do Agreste para Esplanada e vice- versa? Um quadrado, o autor, perdido no tempo, nas calendas gregas.
Perdoe-me D'Alambert, perdoem-me tambm os emritos crticos universitrios, com mestrado e doutorado, mas, no caso, trata-se mesmo de marinete. A ltima talvez
- a fazer companhia s secas, s epidemias,  obstinada fome que, serto afora, resistem, subversivas,  patritica ofensiva dos artigos e dos discursos.
A ltima, sem dvida, a trafegar em estrada brasileira mas trafegando impvida. Jamais ultrapassando a velocidade de trinta quilmetros por hora - mdia obtida no
trecho dos cuidados seis quilmetros que cortam a fazenda do coronel Vasconcelos, na sada de Esplanada. Nos outros quarenta e dois, arrasta-se aos trancos e barrancos
pois a estrada  apenas carrovel e nela no se aventuram veculos modernos, no possuem para tanto audcia e competncia. S o longo hbito permite o prodgio
cotidiano - de segunda a sbado, com descanso aos domingos - praticado pela marinete de Jairo, familiar das crateras, dos lamaais, dos mata- burros apodrecidos,
das rampas e curvas impossveis. A marinete de Jairo data da Segunda Grande Guerra Mundial, foi viatura moderna, de molejo macio, bancos confortveis e at possua
vidros nas janelas. Naquele ento, por mais incrvel que parea, cumpria ela o trajeto de ida- e- volta, Agreste - Esplanada - agreste, num s dia, saindo manhzinha,
regressando ao entardecer.
Tanto tempo depois ainda vale a pena v-la, pea digna de museu, tudo nela  substituio e remendo. No motor e na carcaa coexistem peas de marcas e procedncias
as mais estranhas, inclusive um rdio russo. Engenhosas adaptaes, inovaes mecnicas, arames, pedaos de corda. Jornais velhos so teis para tapar as janelas
quando a poeira se faz insuportvel. Os fregueses assduos, experientes, levam almofadas para os bancos e lanches reforados, garrafas de refrigerantes.
Velha e batida, imbatvel, ltima e eterna, parte nas segundas, quartas e sextas de Agreste para Esplanada, nas teras, quintas e sbados regressa de Esplanada para
casa. Bufando, tossindo, rateando, parando, parando muito, ameaando pane definitiva, jamais definitiva, prosseguindo em ateno  capacidade de Jairo, aos pedidos,
juras e adulaes - Jairo trata o desmantelado veculo com ternuras de amante, a marinete  seu ganha- po, seu nico bem e a nica ligao entre Sant'Ana do Agreste
e o mundo.
Se tudo marcha  perfeio, a viagem dura trs horas, com a excelente marca de tempo de dezesseis quilmetros por hora. No inverno, com as chuvas, a travessia torna-se
mais prolongada, de horrio imprevisvel. Exato na partida, Jairo no admite atraso; a chegada, quando Deus quiser. J aconteceu a marinete de Jairo dormir na estrada,
enterrada na lama,  espera de juntas de boi. Para tais ocasies Jairo conta com razovel repertrio de anedotas familiares e com a colaborao do rdio russo. Fanhoso,
rabugento, indolente, de humor instvel, com apitos e descargas, o inslito aparelho concorre para matar o tempo com fragmentos de msicas e notcias. Isso de passar
a noite na estrada se conta nos dedos da mo, raridade. Habitualmente, no inverno, o trajeto demora de cinco a seis horas.
Boa viagem, confortvel e rpida, pelo menos na opinio expressa pelo coronel Artur da Tapitanga, octogenrio plantador de mandioca e criador de cabras, chefe poltico,
h mais de trinta anos sem pr os ps fora das roas e currais e das ruas de Agreste. Aps quase sete horas de caminho-a marinete rebentou trs vezes -o fazendeiro,
pondo-se de p, declarou:
- Bicho mais ligeiro, essa marinete de Jairo. Um viajo!
- Ligeiro, coronel?
- No meu tempo se gastava dois dias a cavalo e olhe l. ..
Seca, bexiga, maleita, lepra e fome, menino morrendo que d gosto, isso eu sei que ainda sobra serto afora. Agora marinete, penso no existir outra alm dessa de
Jairo. Ele a trata de condessa, minha negra, estrela-d'alva, dengosa, me West, beleza do Agreste, meu amor. Quando se dana, perde a cabea e a xinga de puta para
baixo.
Onde se trava conhecimento com dona Carmosina, cidad importante, agente dos correios, e serem noticias dos filhos de seu Edmundo Pacheco, coletor, compensando a
falta de carta e cheque de Tieta sobre cujo estado de sade cresce o pessimismo ainda de longe, antes de transpor a porta dos correios, Elisa, na atitude de dona
Carmosina, a comprovao do que j sabia com certeza: a carta no chegara. Braos cados, semicerrados os olhos midos, o ar grave, a ativa funcionria vive, ela
tambm, o drama do inexplicvel atraso. Faz-se mais plida a face de Elisa, os ps de chumbo, a voz inarticulada, quase um gemido:
- Nada?
Cinqentona, sarar, corpulenta, cara larga, voz rouca, dona Carmosina indica a correspondncia do dia, escassa, espalhada no balco:
- Nada! Hoje no veio nenhuma carta registrada. Por via das dvidas, passei as malas duas vezes, carta por carta. O que chegou est a, pouca coisa.
Ainda no entreguei nada, voc  a primeira a aparecer. Vieram jornais e revistas, isso sim, hoje  sbado. - Repara na palidez da amiga: - Quer um pouco d'gua?
- no, obrigada. - as palavras saem estranguladas.
- Que demora, hein? Em todos esses anos, nunca atrasou tanto...
- Mais de dez anos... - gemeu Elisa.
- Onze anos e sete meses- corrigiu dona Carmosina, escrupulosa nos detalhes: - Inda me lembro da primeira carta, como se fosse hoje. Quando abri o saco, senti logo
o cheiro, naquele tempo ela usava um perfume mais forte que o de agora, encheu a sala. Que carta ser essa?, perguntei a mim mesma e li correndo o sobrescrito e
o nome do remetente. Estava dirigida a seu pai ou a qualquer membro da famlia Esteves e quem enviava era Antonieta Esteves, Caixa-Postal 6211, So Paulo, Capital.
Vou buscar gua para lhe dar, com esse caloro e nada de carta, coitadinha...
Enquanto, de costas, dona Carmosina toma da moringa e enche o copo, Elisa curva-se sobre a correspondncia, no por manter esperanas, mas por desencargo de conscincia.
- Botei duas gotas de gua de flor. Faz bem pros nervos.
Elisa bebe em pequenos goles, dona Carmosina retoma a narrativa:
- O envelope cor- de- rosa, lindo, parece que estou vendo. Pelo falecido seu Lima mandei recado para seu marido na loja, vocs estavam casadinhos de novo. Ele veio
com Osnar, entreguei, leu aqui mesmo. Carta mais bonita, pedindo notcias do pai, das irms, como iam de sade e devida, se precisavam de ajuda. At colaborei na
resposta, se lembra?
- Me lembro... o Major era vivo, foi ele quem escreveu...
- Era burro como uma porta mas tinha a letra bonita... Letra dele, redao minha. De l pra c nunca mais falhou. Todo ms a carta com o cheque, com o rico dinheirinho...
Empolgada, dona Carmosina nem sente o mormao a entrar pelas duas portas, asfixiante. Pensativa, a olhar para Elisa:
- Nunca demorou desse jeito... esquisito mesmo.
Elisa percebe, na voz da amiga, inquietante sinal de alarme. Tenta acalm-la e acalmar-se :
- Uma vez, quando ela estava passeando em Buenos Aires...
- Chegou no dia dezessete... dezessete de fevereiro, exatamente. Hoje estamos a vinte e oito de novembro. A que voc atribui? Doena? - Os olhos pequeninos de dona
Carmosina observam Elisa que segura o copo vazio sem encontrar resposta, o choro preso na garganta.
Felizmente aparece seu Edmundo, Edmundo Ribeiro, o coletor, enfarpelado, palet, gravata e chapu, deseja boa tarde:
- Alguma coisa para mim, Carmosina?
- Duas cartas, uma do filho, outra do genro... - ri com os lbios descorados, divertida: - aposto que os dois esto pedindo dinheiro...
O coletor recolhe as cartas, olha atravs dos envelopes contra a luz, quem pode impedir que dona Carmosina saiba e comente a vida a idia, no passam por suas mos
(e vistas) telegramas e cartas? Carmosina, quase alheia, mais que ladina, voz masculina, lngua ferina, doce assassina - declamava Aminthas, seu primo segundo e
comensal assduo. Dona Carmosina  de bom tempero, famosa no piro de leite e no molho pardo. E o cuscuz de milho?
- Como se eu fosse um saco sem fundo, entupido de dinheiro... - se o Edmundo suspira, sem pressa de abrir os envelopes apesar do desejo de saber dos filhos. Dirige-se
a Elisa: - Feliz  Z Esteves, seu pai, dona Elisa. Tem filha rica que manda em vez de pedir. Comigo  o contrrio...
Dona Carmosina relanceia a vista, considera Elisa, informa:
- Este ms a carta de Tieta ainda no chegou. Esquisito, no acha, seu Edmundo? Um atraso desses...
O coletor no esconde a surpresa, um dos envelopes aberto:
- Ainda no? Que  que houve, dona Elisa?
- Quem sabe, seu Edmundo? Para mim, ela est viajando, esses passeios que faz todos os anos, de navio...
- Cruzeiros martimos... - esclarece dona Carmosina mas o olhar sob as sobrancelhas ruas exprime dvida. Seu Edmundo balana a cabea, no encontra comentrio a
fazer, retorna  carta do genro.
Elisa despede-se, uma fraqueza nas pernas que nem Astrio:
- Obrigada, Carmosina.
- Agora, querida, s tera- feira. - Para levantar-lhe o nimo, no deix-la partir to por baixo, acrescenta: - Voc hoje est uma tetia. Esse vestido eu ainda
no conhecia...
- Foi Tieta quem mandou...
Seu Edmundo suspende a leitura da carta, escapa-lhe o desgosto da notcia:
- Suzana est esperando menino outra vez...
Elisa rene foras:
- Parabns, seu Edmundo. Quando escrever a Suzi, mande um abrao meu...
- O quarto, no ? O senhor ainda to moo e j cheio de netos. Bonito, acho isso bonito.
- A voz rouca de dona Carmosina, sincera ou gozadora?
- Bonito? Eu  que sei quanto me custa... falta de juzo.
- Que  caro, l isso ... Logo agora, to fcil de evitar, com a plula.
Na Bahia, se encontra em qualquer farmcia, a venda  livre... at a Igreja j aprova o uso - Acentua dona Carmosina, doce assassina.
Elisa diz at breve, atravessa a feira barulhenta, em direo  casa de Perptua. no sente o peso do olhar do rabe, no lhe alisa a bunda a mirada de nenhum moleque
nem lhe fere o ouvido o assovio do mendigo. Doena, insinuara Carmosina, para no falar no pior. Morta, sim. Elisa j no duvida, Perptua sabe o que diz.
H vinte e trs anos na agncia dos Correios, dona Carmosina emite julgamentos definitivos sobre pessoas e fatos:
- Moa boa e sria est a, seu Edmundo. Conheo Elisa de menina, sempre direita, cumpridora. Faz tudo no capricho. Trabalhadeira, a casa dela  um brinco e gosta
de se vestir, de se arrumar, no  como outras por a, que vivem no desmazelo. S que agora, pobrezinha...
Seu Edmundo, para melhor ouvir, interrompe a leitura da carta do filho estudante:
- A que atribui tanta demora?
- Se Tieta no morreu, deve estar muito doente. O marido dela bem podia dar notcia mas ele nunca quis conversa com os parentes daqui. Vou aconselhar Elisa ou Perptua
a telegrafar.
De volta  carta, o coletor explica:
- Idiota! S serve para isso...
- O que  que Lelu fez dessa vez, seu Edmundo?
- Pegou uma carga de gonorria; desculpe, Carmosina, quero dizer blenorragia, e pede dinheiro urgente para mdico e remdios...
- Com duas doses de penicilina fica bom.  tiro e queda. Tratamento bacato, nem precisa de mdico.
Dona Carmosina l os jornais, antes de entreg-los, sabe do que vai pelo mundo, entende de cinema, poltica, cincia. Acumula o cargo nos Correios com a representao
de ? Tarde, da Bahia, de revistas do Rio e de So Paulo.
- Coitada de Elisa, ficou to transtornada, nem levou as revistas.
Depois deixo em casa dela.
Separa a carta endereada a Ascnio Trindade pois o v do outro lado da rua; carta de Mximo Lira, um amigo da capital, sem interesse. Antigamente, sim, to romntico:
quando Astrud escrevia cartas de amor e Ascnio em resposta enchia laudas de juras e saudades. Um poeta, Ascnio, pena no escreva versos, seriam lindos. Retorna
dona Carmosina ao silncio de Tieta:
- Quer saber minha opinio, seu Edmundo? Antonieta j no pertence a este mundo. Mortinha da silva.
Onde Ricardo, sobrinho e seminarista, acende veias contraditrias aos ps dos santos; capitulo banhado em lagrimas, algumas de crocodilo - Ento cad? - Interroga
Perptua e ela prpria responde vitoriosa, aflita vitria: - Carta e cheque, babau, minha miss Bahia! derrama sobre a irm o fel a lhe amargar a boca: -se eu fosse
Astrio, voc no saa para a rua nesses trajes indecentes, de peitos de fora. Mas agora tudo vai acabar, esse desbarate de vestidos. Vai acabar tudo. Vai comear
o tempo da pobreza.
Elisa deixa-se cair na cadeira, cobre o rosto com as mos, no retruca:
poderia lembrar que, na hora da diviso dos presentes, Perptua no critica os vestidos, trata de empalinar os mais finos e ousados para vend-los a bom preo em
Aracaju, a senhoras ricas. Cala-se, porm; gostaria, isso sim, de tapar os ouvidos para no escutar; a voz avinagrada da irm torna as palavras mais cruis.
Antes Elisa passara na loja, naquela hora j repleta, Osnar escorrega na cadeira. Trocara apenas um olhar com o marido, suficiente para Astrio largar o metro e
a pea de madrasto. Osnar pusera-se de p: bom dia, dona Elisa.
Bom- dia, patroa - Sabino brechou rpido do decote no alto s ancas embaixo, salve salve quem inventou esses vestidos justos, colados ao corpo, marcando at as pregas
da bunda, moda mais jeitosa. Um felizardo, o patro.
- Trs metros... - reclamou a freguesa a reparar tambm na elegncia de Elisa, aquilo sim era fazenda.
Astrio voltara a medir, mal sustendo metro e tesoura.
- Vou at a casa de Perptua, daqui a pouco mando Araci com a marmita -avisara, despedindo-se - At logo, seu Osnar, esteja a gosto.
Durante o percurso, no pudera impedir as lgrimas. Cada palavra, na loja, custara-lhe esforo e conteno. Agora, arreia na cadeira, sob a voz de Perptua a criticar-lhe
o decote como se no bastassem as mos vazias de carta e cheque.
- Bateu a caoleta, eu te disse. Tu ainda duvida? - Alm da voz sibilante, o dedo em riste.
Elisa descobre a face, balana a cabea, vencida, as lgrimas escorrem.
Lgrimas, de que adiantam? no resolvem nenhum problema, no substituem o cheque, no ressuscitam a morta, no determinam as medidas a tomar.
Perptua, no entanto, conhece e respeita as convenincias, exigente nas formalidades. Do bolso da saia negra retira o leno e com ele toca o canto dos olhos- nem
por invisveis deixam de ser lgrimas de luto. Coloca um acento de dor na rispidez da voz, ao gritar pelo filho mais velho:
- Cardo! Vem aqui, depressa! Ai, meu Deus!
Leva o leno novamente aos olhos, Elisa deve ver, testemunhar o sentimento a afligi-la quando a hiptese se confirma e a morte de Antonieta j no admite controvrsia.
Deus a tenha em sua guarda e lhe perdoe os pecados; a assistncia ao pai e s irms h de contar a seu favor na hora do juzo final.
Surge correndo um rapago suado, os ps descalos. Forte, alto, bonito, dezessete anos desabrochando em espinhas no rosto. Sobre o lbio risonho, a sombra do buo.
Vestido apenas com um calo estava chutando bola no quintal - T me chamando, me? - aonotar Elisa, acrescenta: - Bno, tia.
Respira sade e satisfao, no percebe de imediato a atmosfera fnebre da sala. Pela terceira vez, ante a presena do filho, Perptua enxuga lgrimas escassas mas,
finalmente, visveis. O adolescente d-se conta, pe-se srio:
- Aconteceu alguma coisa ao Av? De manh cedinho, quando fui ajudar a missa, vi ele na feira fazendo compras...
Perptua ordena:
- V buscar uma vela benta, acenda no oratrio. Tua tia Antonieta, coitada...
- Tia Tieta? Morreu?
Vencida, sim, convencida, no, Elisa levanta a cabea, rebela-se :
- Ainda no se sabe de nada certo. .. de nada!
Perptua nem responde, reafirma a ordem:
- Faa o que estou mandando, sei o que digo: uma vela nos ps de Nosso Senhor Jesus Cristo pela alma de Antonieta. Em seguida, tome banho, vista a batina, por hoje
o recreio terminou. Cad Peto?
- Foi pescar no rio. ..
- Diga a ele para vir para casa. Depois do almoo vamos falar com padre Mariano. - Um suspiro, a mo sobre o peito, a conter certamente o corao.
Atnito, Ricardo, sem palavras, preso  sala pela notcia. Volta-se para Elisa. Os ombros curvos acentuam o decote no colo moreno. Apesar das crticas constantes
da me, o moo jamais reparara na elegncia da tia. Pela primeira vez d-se conta de como ela se veste bem e se enfeita; parece uma santa, ali desamparada na cadeira,
sofrida, a recusar a morte da irm, lutando contra a evidncia refletida na fisionomia e nos gestos da me. Na voz da tia, abafada de choro, um pedido, uma splica:
- Vamos esperar ter certeza para falar nisso com o Reverendo. .. por que tanta pressa?
Ricardo no entende os motivos da discordncia, e antes mesmo de condoer-se pela morta, sente pena de tia Elisa, assim desolada igual  imagem de Santa Maria Madalena,
num nicho da capela do seminrio.
Perptua no se abala:
- Nunca  cedo demais para se pedir um bom conselho. O que est esperando a, Cardo? no ouviu o que mandei fazer?
- J vou, me...
Deseja acrescentar uma palavra condizente com a notcia, o pensamento agora voltado para a tia desconhecida, de morte anunciada e discutida, nome obrigatrio em
suas oraes: no enviava ela dinheiro todos os meses?
Quando ingressara no seminrio, menino ainda, recebera, mandado de So Paulo, um brevirio rico, lombada doirada, papel fino, letras de cor, numa caixa de veludo
vermelho, coisa mais linda, presente da tia Antonieta para o futuro padre que mal viu e tocou preciosidade t amanh, logo ofertada por Perptua ao bispo Dom Jos
por intermdio do padre Mariano. A bola de futebol nmero tambm fora ela quem mandara; s escondidas da me, Cardo escrevera uma cartinha  tia pedindo bola e segredo,
se mame souber arranca meu couro. Recebeu bola, calo e camisa do Palmeiras. Tinham um segredo em comum, ele e tia Tieta. Levanta a cabea, enfrenta Perptua:
- Tomara no seja verdade.
Sai em busca das velas. J no est alegre e, se no espreme lgrimas, sente um ardor nos olhos, uma espinha nasce-lhe no corao, incomoda como as do rosto. Por
sua conta acender uma vela aos ps da Virgem e lhe prometer um rosrio de cinco teros, rezado de joelhos sobre gros de milho, para que a m notcia no se confirme.
Na sala, cai o silncio sobre as duas irms, sobre as duas e a outra mltiplas a face e a postura da ausente. Moa formosa e atrevida, enfrentando a ira do pai e
a denncia da irm: tu tem  inveja porque nenhum homem repara em ti, tribufu; atrevida desde menina, pastora de cabras nos oiteiros da terra sfara de Z Esteves;
a saltar, adolescente, a janela noturna para encontrar-se com homens, o caixeiro- viajante no fora o primeiro, Perptua tem certeza; audaciosa, desleixada dos preceitos
de Deus, igreja s para namorar a rir, to cnica e bela, na bolia do caminho, rumo da Bahia, indo embora para sempre; irm rica, esposa de comendador, em So
Paulo, a mandar mesada para pai e sobrinhos, merecedora de toda considerao, esquecido o feio passado, enterrada a louca adolescncia, tia presente na orao das
crianas, elogiada pelo padre Mariano; fada generosa dos sonhos de Elisa, a feliz e atenta benfeitora, a ncora da esperana; na cidade, exemplo de boa filha e boa
irm, uma zelao, uma lenda, inesgotvel assunto.
Perptua guarda o leno, cumprido o ritual, pergunta:
- E Astrio?
- Passei na loja... sabe que a carta no chegou mas hoje  sbado, no pode sair nem para o almoo. Por falar nisso, vou indo, tenho de mandar a marmita.
- De noite passo em casa de vocs, digo o que o padre aconselhou.
Vamos decidir o que fazer.
Elisa, de p, um soluo a sacode:
- Por que a gente no espera at o fim do ms?
- J se esperou at demais. Vamos logo discutir o que fazer. Eu no vou ficar de braos cruzados, no lhe disse? Quero minha parte.
- J sem lgrimas, suspiros, lamentaes, Perptua troca o leno pelo tero. Mais valem as oraes.
Elisa gasta o derradeiro argumento:
- Quem sabe, a carta se perdeu no caminho...
- Carta registrada, no se perde. Nesses anos todos j se perdeu alguma? Tolice. Diga a Astrio que me espere, nada de bilhar hoje. Com a cunhada morta...
- E o Pai ?
Perptua comea a passar as contas do tero:
- Amanh a gente avisa a ele.
-  capaz dele ter uma coisa...
- Quem? O Velho? Vai ficar uma fera, vai querer tomar dinheiro da gente, o mais que puder, isso sim. Se prepare, o tempo das larguezas se acabou.
Ao passar em frente ao corredor, Elisa enxerga ao fundo a chama das velas iluminando os santos no oratrio. Uma, pela salvao da alma da morta, aos ps do Cristo
crucificado; a outra, pela vida da tia, aos ps da Virgem.
Ouve a voz do rapazola rezando Salve- Rainha, me de misericrdia.
Misericrdia, meu Deus!
Da prece pela sade da velha tia desconhecida, captulo case o e devo e o. ..vida, doura, esperana nossa, salve! as palavras da orao nascem sinceras e sentidas
da incmoda espinha, do nebuloso pesar. Maquinais, no entanto, solta-se livre o pensamento de Ricardo em busca da tia nas vascas da morte ou j no caixo - dela
pouco sabe, praticamente nada.
Vida, doura e esperana, a tia de So Paulo, que no esteja defunta como garante a me - A me v tudo em luto -, que se afirme a crena de tia Elisa e o perigo
desaparea, a Vs bradamos os degradados filhos de Eva. A Vs suspiramos e oferecemos pela sade de tia Antonieta um rosrio rezado de joelhos sobre gros de milho.
Promessa mixa, msera oferta em paga de portentoso milagre. D-se conta e, exagerado, a amplia para uma semana inteira de rosrios completos e macerados joelhos,
gemendo e chorando neste vale de lgrimas, salvai da morte a tia Antonieta.
Que doena a matara ou a estava matando? Nenhuma referncia ouvira, a me e tia Elisa devem saber mas guardam segredo, na certa por se tratar de doena ruim, cujo
nome no se pronuncia, tsica ou cncer. Quem comunicara a notcia, como chegara, em carta, em telegrama? Quando o pai de Austragsilo faleceu, houve um primeiro
telegrama anunciando estado de sade grave com hemoptise. Duas horas depois o Reitor do seminrio viera em pessoa com um segundo telegrama, o fatal, e palavras de
consolo. Apertara Austragsilo contra o peito, falara sobre o reino dos cus. Do mesmo modo agora, o primeiro telegrama j chegara comunicando doena e diagnstico
pessimista. A me, experiente da vida, percebera o engodo, a inteno de prepar-los para o pior; tia Elisa s perderia a esperana quando o segundo afirmasse a
verdade nua e crua. Neste vale de lgrimas eia pois advogada nossa, para Vs me do Nosso Senhor o impossvel no existe: podeis interromper o curso dos telegramas,
revogar sentenas de morte, o Filho atende todos os Vossos pedidos. Contrito, Cardo renova a promessa sete vezes maior. Promessa e tanto.
Zero sobre a doena, e sobre tia Antonieta? Zero vezes zero, imprecisas, fugazes notcias, tia desconhecida, quase uma abstrao. no obstante ningum to concreto,
presente, indispensvel na vida de cada um deles, de toda a fantasia. A tia de So Paulo, a ricaa.
Para Ricardo apenas um nome, um apelido de infncia, Tieta, vagas e entusisticas referncias ao marido milionrio e comendador, mensalmente a carta e o cheque,
os presentes, a bola de futebol nmero cinco, dando solidez e contorno a uma imagem, que imagem?
Olhos misericordiosos a ns volvei, neste vate de lgrimas, de pobreza e limitaes, a imagem da santa padroeira, a protetora, a possibilitar pequenas regalias e
o dinheiro que a me deposita na Caixa Econmica para a festa da primeira missa, ainda to distante, e para os estudos de Peto se um dia Peto se dispuser a estudar.
ao pensar na tia jamais vista, no a compara com a Virgem a quem roga por ela e, sim, com a Senhora Sant'Ana, padroeira da cidade, protetora da famlia, da sagrada
famlia e de todas as demais. Na chama das velas enxerga a imagem da velha senhora, mos generosas, plena de ternura, doce patrona.
Ser assim dbil anci ou ainda se mantm rija e disposta, igual  me?
Qual das duas a primognita? Sobre a idade da tia, Ricardo nunca ouviu a menor referncia, a me diminui a sua quando perguntada. A ausente deve ser bem mais velha,
no  ela a rica, a poderosa, a doadora, o verdadeiro chefe da famlia, a quem o prprio av reverencia? Boca de praga e maldies, a resmungar queixas e ameaas,
o av desmancha-se em louvores ao pronunciar o nome de Tieta, Deus lhe d sade e lhe aumente a fortuna, ela merece, a boa filha. Anci de passo cansado, cabelos
brancos - Ou ela ainda pinta os cabelos como outrora? Na chama das velas so brancos os cabelos da tia Antonieta.
Conhece-lhe a letra, grande, de escolar, incerta, enchendo com poucas palavras a bonita folia de papel ora azul, ora laranja, ora verde-cana, chique a valer. A letra
e o perfume, fragrncia rara para narinas habituadas ao fedor das velas consumidas,  morrinha das emboloradas alfaias, das fanadas flores, ao pobre odor das sacristias,
das suarentas salas de aula,  fumaa do incenso.
Ao remeter a bola de futebol, a tia rabiscara uma pgina dirigida a Cardo: Para meu sobrinho querido, plida lembrana da tia Tieta. Feliz, colocara o papel lils
dobrado em quatro entre as folhas do livro de missa e s escondidas aspirava-lhe o perfume. Num assomo de orgulho, exibiu dedicatria e aroma a Cosme, amigo predileto,
companheiro de devoes e retiros espirituais, vizinho de carteira. Cosme, um asceta, recusou-se a cheirar; em tudo via pecado, tentao do demnio. Perfume? Pecado
mortal; para os servos de Deus basta o incenso. O padre confessor tranqilizou Ricardo: casto perfume de velha tia, no continha pecado, mortal nem venial.
Esses Vossos olhos misericordiosos a ns volvei - como seriam os olhos, a face de tia Antonieta? Austera como a da me, rgida e devota?
Inquieta, melanclica, igual  da tia Elisa? Ou semelhante  do av, dura carranca de caboclo? Certa feita, h vrios anos, meninote ainda, mostraram-lhe de relance
uma foto da tia numa revista do Rio - revista da qual Elisa se apoderou e ningum mais viu. Ricardo guardou memria exclusivamente dos cabelos loiros, encaracolados
novelos de ouro- como explic-los se todos na famlia eram bem morenos? Soube ento que as mulheres oxigenavam e at pintavam os cabelos, sobre o assunto discutiram
a me e tia Elisa. Moda condenvel na opinio de Perptua: Deus designa a cor dos cabelos de cada um, ningum tem direito a mud-la. Elisa retrucara, tachando a
irm de atrasadona, rata de igreja. Dos olhos, da boca, Ricardo no se lembra; recorda somente os novelos de ouro puro. Agora,  luz das velas, ele os enxerga brancos
de algodo, tantos anos se passaram- era menino, agora  um rapaz.
E depois deste desterro, mostrai- nos Jesus, bendito fruto de Vosso ventre, h quantos anos dura o desterro da tia? Quando Ricardo nasceu Tieta partira h muito
e jamais ele ouvira da me, de tia Elisa, do av e de sua segunda mulher, v Tonha, a menor referncia quela outra parenta; jamais escutou nome ou apelido a record-la.
Da tia de So Paulo, s veio saber depois da primeira carta e ainda hoje sabe to pouco, alm da riqueza, da bondade, da velhice.
Se a Virgem a salvar, pode ser que um dia ela aparea de visita, em pele e osso, anci amorvel, de to velha quase av. Ricardo no conheceu av verdadeira, a materna
falecida antes do casamento tardio de Perptua com o Major, cujos pais j repousavam no Cemitrio das Quintas, na Bahia, quando o aposentado militar surgiu em Agreste,
por acaso, e de chofre se curou da asma, recuperou as foras, clima de sanatrio.
Tia Antonieta preenche o vazio das avs, Senhora Sant'Ana, a matriarca, a protetora da famlia. Se ela sarar, se a Virgem lhe restituir a sade, Ricardo, aps cumprir
a promessa, poder lhe escrever outra carta, solicitando uma vara de pesca com molinete, fio de nilon e iscas artificiais, semelhante  do anncio na revista Caa
e Pesca, folheada no Correio com permisso de dona Carmosina. Implorando segredo  tia - Se a me soubesse o mundo viria abaixo. Em troca dos joelhos macerados,
da semana inteira de oraes, no era pedir muito; vara de pesca, molinete, fios e iscas e um segredo a mais entre os dois. Coisa boa, um segredo. Ricardo tem segredos
em comum com alguns santos, com a Virgem e sobretudo com Santa Rita de Cssia, de quem  devoto.
 clemente  piedosa  doce sempre Virgem Maria rogai por ela e por ns para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Fazei com que a tia se erga do leito ou
do caixo  clemente  piedosa  doce sempre Virgem Maria.
Na vela acesa a mando da me pela alma da irm, o fogo da morte vacila e se apaga sozinho. Esbugalham-se os olhos de Ricardo no assombro do milagre. S a chama da
vida persiste na outra vela, poderosa  a santa me de Deus, amm.
onde dona Carmosina l um artigo, resolve problema de palavras cruzadas e problemas referentes a situao de Tieta, dignos dos mais sagazes detetives dos romances
policiais e onde se trava conhecimento com o comandante Drio de Queluz, surgindo ao final do capitulo o Barbozinha (Gregrio Eustquio de Matos Barbosa, de corao
partido - muito bem feito! cadeia com eles e - exclama em voz alta dona Carmosina, no auge do entusiasmo. Finalmente erguera-se um juiz independente e digno, capaz
de ditar sentena justa, mandando os canalhas para o xadrez: - Cambada de assassinos!
Entusiasmo e indignao sem espectadores, sozinha na reapario no comeo da tarde. Mas o comandante Drio, ao saber, vai nadar em alegria, ele, to apaixonado quando
se discute poluio. Esses tipos deviam estar todos trancafiados na cadeia, minha boa Carmosina, so assassinos da humanidade. O Comandante  um tanto quanto retrico,
ama frases de efeito. Barroco, na qualificao potica de Barbozinha.
Retira a pgina, vai guard-la para o Comandante. no importa venha o jornal endereado ao Cel. Artur de Figueiredo - O velho coronel Artur da Tapitanga, assinante
de O Estado de So Paulo desde priscas eras; dona Carmosina tirara a limpo: desde 1924. Durante decnios o Estado manteve o fazendeiro a par das novidades do mundo.
Atualmente, s de ms em ms o destinatrio manda buscar o monte de jornais a entulhar a sala. J no os l - quem l com gosto e proveito  dona Carmosina- mas
renova a assinatura no prazo exato, a condio de assinante do dirio paulista  atributo de sua linhagem e dona Carmosina, a maior interessada, recorda-lhe a obrigao
a tempo, com elogios  gazeta e s cabras do coronel Pgina a mais pgina a menos, caderno a mais caderno a menos, para o octogenrio - Oitenta e seis comemorados
a 18 de janeiro, como pode informar dona Carmosina - j no faz diferena. Pouco se lhe d o que vai por esse mundo louco, de guerras e convulses, de violncia
e dio, de mentiras sensacionalistas: essa histria do homem ir  lua montado num foguete  conto da carochinha para engambelar os trouxas. Est no jornal, na primeira
pgina do Estado? Nem assim acredito, Carmosina, estou velho mas no estou broco. Apesar da cancela da Fazenda Tapitanga no distar sequer um quilmetro do comeo
da rua, raramente o Coronel comparece a uma, sesso da Cmara Municipal de Sant'Ana do Agreste,  qual preside conselheiro municipal, edil, vereador eleito e reeleito
um sem- nmero de vezes, ex-intendente e ex-prefeito. Quando vem, no falha na visita  agente dos Correios:
- Carmosina, me conte o que voc leu no meu jornal. Mas no me venha com mentiras... - ameaa-a com a bengala, ainda sabe rir.
Manda o capanga pr os jornais na carroa, utiliza-os em serventias diversas: para fazer embrulhos, acender o fogo, limpar-se na latrina. As cabras andaram comendo
edies inteiras e, se no engordaram, mal no lhes fizeram.
Cuidadosamente, dona Carmosina dobra a folha de maneira a ficar o artigo  vista, matria importante, no alto da pgina, o ttulo em tipos fortes:
A Itlia condena  priso os que poluem seu mar. O Comandante vai se regalar.
Tambm Barbozinha seinteressa pelo problema, lastimando os inevitveis malefcios inerentes ao progresso, enquanto o comandante Drio  radical no julgamento e condenao
dessa Ioucura rotulada de progresso envenenando a humanidade inteira, ameaando a continuao da vida sobre a terra, minha boa Carmosina! Dramtico, os braos abertos:
- Se no se puser um paradeiro nisso, em breve as crianas j nascero com cncer! Veja o Japo...
Para fugir de causas e efeitos, para gozar dos verdadeiros prazeres da existncia enquanto ainda h tempo e lugar, abandonara promissora carreira na Marinha de Guerra,
pendurando a farda no armrio do bangal, reduzindo os trajes a shortes e camisetas de marujo, ao luxo vespertino do pijama quando na praia, e  cala e camisa esporte
na cidade. Isso, sim, era viver. No clima bendito do Agreste, na beleza sem par de Mangue Seco. No paraso.
- Boa lio! - repete ainda dona Carmosina antes de entregar-se s palavras cruzadas e aos logogrifos.
Grande, a sede de saber de dona Carmosina, mltiplos e eclticos os temas a interess-la, da poltica  cincia, dos problemas mais graves do nosso tempo ao disse
que disse em torno da vida sexual dos dolos das multides, da ONU  OEA, da CIA a KGB, da NASA aos OVNI, da MPB ao FEBEAP, ai o que ele sabe de siglas!
Na coorte de amigos e admiradores a freqentar a Agncia dos Correios e Telgrafos, enchendo com pro e discusso as horas mortas, tantas!, dona Carmosina encontra
parceiros para cada campo do conhecimento: com Aminthas e Fidlio - fracote, Fidlio - discute msica, compositores e intrpretes; com Ascnio, o turismo no mundo
e na Bahia; com Elisa transa fofocas em torno de astros e estrelas de nosso cintilante cu artstico; com Barbozinha, vasto  o campo de dilogo e polmica: da delicada
ou agreste flor da poesia aos arcanos da filosofia espiritualista, sendo o vate esprita terico e vidente e ela, incrdula, negando encarnao e reencarnao, mpia,
a rir de cu e inferno, vangloriando-se da condio de atia. Atia no, atoa, Carmosina, mulher atoa: glosa Aminthas, metido a humorista.
no menor a pauta de debates com o comandante Drio: os problemas atuais do homem e do mundo, todos eles, das exploses atmicas  exploso demogrfica; da poluio,
estendendo-se sobre Los Angeles e So Paulo, Tquio e Rio de Janeiro,  guerra colonial portuguesa; as probabilidades da terceira grande guerra e as intenes secretas
dos dirigentes das potncias e superpotncias - no esquea a China, minha boa amiga -; o Oriente Mdio, o destino de Israel, o petrleo rabe, os palestinos, e
a anlise dos romances lidos, policiais e de fico cientfica, preferindo o Comandante os ltimos, a lev-lo universo afora a longnquos planetas, preferindo ela
os de detetive, sobretudo os clssicos,  maneira de Agatha Christie, a desafiar a argcia do leitor na descoberta do criminoso. Gaba-se dona Carmosina de acertar
sempre, de apontar o assassino antes que o faa Hercules Poirot.
Dos centros culturais de Agreste, a Agncia dos Correios  de longe o mais importante. Quando de sua sempre lembrada visita  cidade, convidado pelo vate Barbozinha,
ex-companheiro de boemia nas ruas, bares e castelos da capital, o conhecido cronista de A Tarde, Giovanni Guimares, infalvel  tarde na sala da agncia para uma
boa prosa, a batizara de Arepago e o nome pegou. Sucede com freqncia juntarem-se ali os trs  mesma hora, dona Carmosina, o Poeta e o comandante Drio: o Arepago
pega fogo, fagulhas de talento arrastam gente do bar e das lojas, apenas para ouvir. O rabe Chalita  habitu, no perde uma nica palavra; no entende nada mas
como admira!
Divertimento elevado e gratuito. Supimpa.
S com Osnar no mantm dona Carmosina tema de conversa, desde rapazola Osnar no seinteressa por outras coisas nesse mundo de Deus alm de cerveja, bilhar e mulheres.
Vasto o crculo de mulheres a despertar a cupidez de Osnar, no sendo ele exigente ou dogmtico. Infelizmente, nessa numerosa assemblia de desejadas (algumas faturadas)
no se encontra dona Carmosina. Admirador de seu intelecto, Osnar despreza-lhe o fsico, essa no me Ievanta o pau. Para dizer toda a verdade, dona Carmosina no
conseguira ainda despertar a concupiscncia de nenhum homem.
Sinnimo da concupiscncia de sete letras- dona Carmosina morde o lpis, rebusca na memria, j sabe: lascvia. no, lascvia tem oito letras; de sete, vamos ver,
o que pode ser? Luxria, est na cara. Os olhos midos de dona Carmosina, cercados de clios ruos, perdem-se na rua onde prossegue o movimento do sbado de feira,
carroceiros buscando no acanhado comrcio de contadas lojas as compras indispensveis, gastando as moedas parcas.
Luxria, palavra forte.
Quando Perptua casou, dona Carmosina teve um alento de esperana.
Mas isso j  outra histria, aproveitemos e faamos uma pausa, dividindo O captulo, deixando o leitor respirar.
Enquanto o leitor respira, o autor se aproveita e abusa boa idia, sim, meritria. captulos longos cansam, tornam a narrativa pesada e enfadonha, conduzem ao desinteresse
e ao sono. Uma pausa abre, inclusive, tempo e espao para necessrias explicaes, sobre detalhes que os personagens torcem, modificam ou simplesmente suprimem,
ao sabor de interesse variados, confessveis ou escusos, mas cujo conhecimento cabal  direito sagrado do leitor - para saber ele paga os preos atuais, inaveis!
Carmosina  useira e vezeira em guardar segredos, em baralhar pistas, em impedir a circulao completa ou parcial de determinadas notcias, causando grave dano s
xeretas do adro da igreja e  populao de Agreste em geral pois quem no se mete com a vida alheia, no pergunta, no conta, no comenta? Se exceo existe, no
conheo. Falar da vida alheia  a diverso principal do lugar, grosseria e mau carter de uns, arte e sutileza de outros.
Intolervel grosseria de Bafo de Bode, rebotalho da sociedade, apodrecido por dentro e por fora. Quando do grande porre semanal, aquele que comea na noite do sbado,
aps a feira onde esmolou ao sol o dia todo, e prossegue pelo domingo, esse detrito malcheiroso desce as ruas aos trancos e barrancos, a enlamear a honra de distintas
famlias, a proclamar maledicncias, injrias e infmias, desgraadamente quase sempre comprovadas:
- Cuidado com os chifres, Chico Sobrinho, esto crescendo demais.
Tua mulher, Ritinha, vive dando na beira do rio... no vou dizer a quem, no sou dedo- duro.
Nem ele, nem eu, e da? Arte sutil na voz antiga de dona Mil, me de Carmosina, uma santa, quem duvida?
- Esto dizendo que Ritinha anda de namoro com seu Lindolfo, mas deve ser mentira, o povo gosta de falar. Ritinha paga por ser muito dada, s vezes demais... o gnio
dela  esse, no tem culpa.
A populao est cansada de saber que Ritinha e Lindolfo, tesoureiro da Prefeitura, se encontram nos esconsos do rio. O melhor  fazer como Chico Sobrinho, para
palavras loucas ouvidos moucos, quem d ateno a Bafo de Bode?
Voltemos, porm, a Carmosina e ao comandante Drio pois deles se trata, entre os dois existe uma trama. no, nada do que esto pensando! Como diz Osnar, apontando
o exemplo do Comandante, no h criatura perfeita.
Pelas frestas das janelas semi-abertas, olhares lnguidos ou ardentes, conforme idade e fogo, acompanham-lhe o passo gingado de convs quando ele desfila em Agreste,
vistoso, todo feito de msculos, corpo jovem, rosto maduro e vivido, cabeleira rebelde e grisalha; pode dar-se ao luxo de escolher, d-se ao desperdcio de ignorar
a todas elas, sem abrir exceo sequer para Carol, a amsia de Modesto Pires, obra- prima de Deus e da fuso de raas.
Mongamo declarado, o Comandante; amoroso da esposa, dona Laura, e Carmosina  sua amiga fiel. Amiga fiel, a o xpto da questo. Para proveito dos leitores, utilizo
a pausa e tento decifrar o enigma.
Vou direto ao assunto: qual a patente do nosso personagem, quantas divisas ostenta na farda esquecida no fundo do armrio? Ningum sabe, a todos basta o ttulo de
Comandante e foi isso exatamente o que lhe disse dona Carmosina quando ele, honrado e modesto, quis proclamar a verdade. Ela, a responsvel. Tanto fala quanto esconde,
tudo depende.
Que Drio de Queluz, valoroso filho de Agreste, pertenceu  Marinha de Guerra, dando realce e lustre ao torro natal, nada mais certo, sobram as provas; fulge uma
delas no bangal em cima da escrivaninha, ao lado dos trabalhos em coco feitos pelo Comandante - Medalha de ouro, recordando ato de bravura, reluz sob o vidro da
redoma. Que entrou modestamente de marinheiro, rapazola emigrado em busca de trabalho, todos sabem. Que subiu, degrau a degrau, pelo esforo e pelo estudo, durante
os vinte anos de vida militar, tambm  fato de conhecimento pblico. Mas subiu at onde?
Eis o buslis: quando, despida a tnica, retornou aos ares ptrios e puros, algum logo o proclamou Almirante. Ele recusou o ttulo e a bajulao:
- No cheguei l, quem sou eu? ao demais, Almirante  ttulo que s existe em tempo de guerra.
Disseram- no, ento, Comandante e se curiosidade houve em saber at onde chegara, no se manifestou, ele impunha respeito e era um atleta.
Comandante, ttulo perfeito em qualquer caso, em qualquer posto.
Arte sutil, vida alheia. Um dia, os dois a ss conversando na repartio, Carmosina perguntou, como por acaso:
- Comandante, me esclarea. Na Marinha de Guerra, os praas podem chegar ao posto de Capito-de-Fragata no quadro de Oficial Auxiliar da Armada, no  certo?
Percebeu Drio a sutileza; a curiosidade a corroer o corao da amiga.
Sorriu, tinha um sorriso sem malcia de homem bom e direito, e respondeu:
- No subi tanto, minha boa Carmosina. Cheguei apenas a...
Ela tapou-lhe a boca com a mo:
- Baixinho, que ningum mais oua...
- E por qu?
- Os outros pensam que sim, que chegou e ultrapassou, esto orgulhosos disso. Por que desiludi-los? Comandante, basta e sobra.
Apurou o ouvido para ouvir, ouviu e acabou-se. Comandante agora a comandar mar e vento nos cmoros de Mangue Seco, desnecessrios se tomam quaisquer detalhes, dragonas
e ordens de servio. Carmosina sabe,  quanto basta, a confidncia no passou dali, nem mesmo  velha Mil ela contou. Contar  me? Esto loucos? No dia seguinte,
Agreste inteiro saberia.
Eis a em pratos limpos o que desejei esclarecer, aproveitando a interrupo do captulo e terminando por escrever mais um, perdoem. Qual o posto de fato alcanado
pelo Comandante? Ah!, isso no sei dizer, somente Carmosina sabe e, egosta, faz boca de siri, esconde a informao. Se algum dos senhores por acaso a obtiver, seria
favor comunicar-me.
Continuao do captulo interrompido quando Perptua casou, dona Carmosina teve um alento de esperana. se perptua, mais velha, mais feia- sim, mais feia pois simpatia
tambm marca ponto em concurso de miss - com aquela cara de priso de ventre crnica, sem graa, ressentida, encontrara quem a quisesse, quem lhe pedisse a mo em
casamento e a levasse ao altar de vu e grinalda, figura ridcula!, cabia a Carmosina, mais moa, inteligente, culta, cultssima!, risonha e cordial, ao demais cozinheira
de mo cheia, o direito a sonhar, a no cair em desespero.
Ah!, Major Cupertino Batista existiu um s, milagres no se repetem.
Reformado por motivos de sade, cinqento asmtico e cardaco, curto de entendimento, duro de cabea, obtuso, um bobo-alegre, nem por tudo isso partido desprezvel.
Solteiro, tinha economias, reservas monetrias e fsicas:
aopartir para o reino dos cus, deixara Perptua com dois filhos e herdeira de trs casas, alm da penso e do dinheiro a render juros. A herana, Carmosina dava
de barato mas - suspira - durante seis anos e um ms, setenta e trs meses, duas mil duzentas e vinte e uma noites, contando a do ano bissexto, a bruaca, a desinfeliz
- a sortuda, a felizarda! - dormira em cama de casal com homem ao lado, sob as mesmas cobertas, marido vlido at a ltima gota, pois Perptua tivera aborto pouco
antes de o Major bater continncia e a festa terminar.
Esaeve luxria letra a letra nos quadrados do jogo de palavras cruzadas, o pensamento voa de Perptua para Elisa (a pobre, agoniada, esquecera as revistas); de Elisa
para Antonieta.
Antonieta, essa sim, merecera a vida conjugal e a fortuna: alegre, divertida, bondosa, um encanto de criatura. Muito chegada  casa de Carmosina, colegas na escola
primria; dona Mil dedicava-lhe particular estima e a defendia quando as ms lnguas vinham tosar na pele da moa, melhor dito nas carnes da rapariga. Moa falada,
na boca das comadres:
- Aquela j perdeu os tampos h muito...
- J foi chamada s ordens...
- Moa, aquela sujeitinha? Rapariga  o que ela ... d para Deus e o mundo...
Dona Mil punha fim  conversa, dispersava o elenco:
- Se ela est dando, d o que  dela e eu nunca soube que se deitasse com homem por dinheiro,  o corpo que pede. Que pede a ela e a todas, no  mesmo, Roberta?
As outras no do, trancam com sete chaves mas s a caixa da periquita. O resto no faz mal, no  isso, Gesilda? Do sovaco ao fiof, tudo vasculhado.
Parecia mudar de assunto:
- Que apelido mais bonito os rapazes botaram nas tuas gmeas, Francisca. no sabe? Pois lhe informo: mos de Ouro e Prata, achei lindo...
- Dona Mil era uma parada!
Quando Antonieta, surrada e expulsa, partiu no caminho, Carmosina viera se despedir, a nica. V dizer adeus a sua amiga, a me ordenara.
Visveis, as marcas da vspera, o bordo atingira-lhe o rosto, roxas equimoses nas pernas, Tieta no se queixou. Pode ser para meu bem, disse. Acertara.
Nos ltimos onze anos e sete meses, raro o dia em que dona Carmosina no recorda Antonieta. Desde a chegada da primeira missiva, acompanhara, carta a carta, a correspondncia
trocada entre Sant'Ana do Agreste e a Caixa Postal 6211 da Capital de So Paulo. Est por dentro de tudo, sabe mais do que as prprias irms de Tieta, muito mais.
Por conhecimento direto e por deduo.
Vira o cheque engordar ao passar do tempo, com a desvalorizao do cruzeiro e as lamrias das irms. Corrigira-na pratica redigira-as cartas de Elisa, fraca na gramtica;
lera as de Perptua, as de Perptua e as demais.
As irms, aps a morte do Major, haviam dividido o dever e o prazer das respostas, como dividiam o contedo das encomendas postais, vestidos, blusas e saias, camisolas.
Perptua, quando lhe cabia escrever, vinha com o envelope fechado, tolice! Dona Carmosina no mereceria o ordenado e o privilgio do cargo se no fosse perita em
descolar envelopes, ler as pginas num piscar de olhos e pr tudo em ordem novamente. Sd lhe custava conter o desejo de emendar os erros de portugus.
Alm da indefectvel beno do velho Z Esteves, Deus te abenoe e te aumente, minha filha, cada carta continha queixas da vida, louvores  querida mana e a curiosidade
das irms e do cunhado. Antonieta respondia com bilhetes curtos - a letra grada, o papel caro e chique com um A gtico em alto- relevo - que Elisa e dona Carmosina
devoravam juntas, ali mesmo na repartio.
Dona Carmosina lera tambm a carta de Ricardo, a de Ricardo e outras.
Alis, fora a ingnua epistola do rapaz, pedindo  tia bno, bola de futebol e discrio, que... nada, isso no interessa a ningum - dona Carmosina afasta a lembrana,
retorna s palavras cruzadas: fruta brasileira de origem asitica, cinco letras. Fcil demais.
Essa longa correspondncia, agora de repente encerrada sem explicao vlida, a no ser doena grave ou morte de Tieta, revestia-se de aspectos dignos de ateno
e estudo, a comear pela falta de endereo completo da destinatria de So Paulo, rua, nmero da porta e do apartamento, se vivesse em edifcio; apenas uma caixa
postal, fria e annima. Apesar de Agreste no passar de um ovo onde todos se conheciam, tanto Perptua quanto Elisa apressaram-se em enviar endereos completos.
Perptua Esteves Batista, Praa Desembargador Oliva, nmero 19; Elisa Esteves Simas, Rua do Rosado, 28; inclusive o endereo do pai: Jos Esteves Filho, Beco da
Matana, s.n.
E o marido? Sem idade, sem rosto, impalpvel. Prenome, comenda, vagas indstrias, os cabelos brancos na foto da revista. Dona Carmosina dedicou grande parte de seu
tempo  anlise e ao esclarecimento da apaixonante adivinha. Reunindo dados, pistas, conjecturando.
O Major, ainda vivo, encarregara-se da resposta inicial mas no chegou ao fim sem pedir auxlio a dona Carmosina. Ela ps ordem nas notcias, dando nfase aos fatos,
quando necessrio. Carta longa, relatrio abarcando cerca de quinze anos de acontecimentos.
Notcias de toda a famlia, detalhadas. Do pai, Z Esteves, beirando os oitenta mas sempre rijo, e de Tonha, a segunda esposa (mais moa do que Perptua, da idade
de Tieta, mas acabada na pobreza e no desleixo, simples apndice do Velho). Vivia o casal da caridade de filhas e genros, nada possuindo de seu, nem bens nem rendas.
Z Esteves, trapalho a julgar-se sabido, na nsia de enganar os outros pusera fora terras, rebanho de cabras, plantaes de mandioca, a casa prpria, tudo. Abenoava
a filha e a perdoava, pedia-lhe uma esmola. Dona Carmosina modificou a redao, a forma e o contedo, em lugar de Z Esteves perdoar, pediu perdo  filha, falou
da velhice e da pobreza, insinuando ajuda; um pai pode pedir perdo mas no pode pedir esmola aos filhos. Trecho to comovente, na bela letra do Major, ia tocar
o corao de Tieta, a prpria dona Carmosina ficara de olhos midos.
Sempre tivera jeito para escrever, jeito e vontade. Mas, cad coragem?
Relato do casamento de Perptua, nome e ttulo do marido, Major Cupertino Batista, oficial reformado da Policia Militar do Estado, seu cunhado s ordens. Deus abenoara
o matrimnio, dera-lhe s dois filhos, Ricardo, de cinco anos, Cupertino, dito Peto, de dois, e agora novamente fecundara o ventre de Perptua, grvida daquele que
seria o terceiro se houvesse nascido. O Major, bom de espoleta, no negava fogo, constatara dona Carmosina, mas no tocou nesse trecho, no queria histrias com
Perptua. Encarregou-se, sim, de descrever o casamento de Elisa, a noiva mais linda j vista em Agreste, com Astrio Simas, filho e herdeiro de seu Ananias, aquele
da loja de fazendas da Rua da Frente (Rua Coronel Artur de Figueiredo), s que a loja nem parecia a mesma. Na longnqua e decadente cidade de Sant'Ana do Agreste
o comrcio reduzira-se  metade naqueles quinze anos. Tambm a populao diminura, composta por uma maioria de velhos, pois o clima continuava admirvel, prolongando
a vida dos que ali se deixavam ficar apesar da pobreza, da falta de recursos e de futuro. O povo s no morria de fome porque o rio e o mangue forneciam com fartura
peixes, guaiamus, caranguejos, pitus incomparveis, e sobravam frutas o ano inteiro:
bananas, mangas, jacas, mangabas, pinhas, abacaxis, goiabas e aras, sapotis e melancias e o coqueiral sem fim e sem dono.
Alm das notcias, perguntas: ela, Antonieta, que fazia? Qual o endereo completo? Mandasse contar tudo, tintim por tintim.
A resposta no tardou sequer um ms. Antonieta enviou um cheque em nome do Major, pedindo-lhe o favor de descont-lo e entregar o dinheiro a Z Esteves, destinava-se
a ajudar o pai e a madrasta nas despesas. O pai podia contar com aquele auxilio mensalmente. O valor do cheque despertou ateno e cobia: dinheiro grosso, bem mais
do que o casal necessitava para pagar o casebre onde habitava, mesmo pondo em dia os aluguis atrasados, para a comida e para a cachaa medida mas indispensvel
 dieta de Z Esteves. Perptua insinuara diviso da ajuda mas um olhar do Velho, o basto erguido em arma de guerra, foi suficiente para encerrar o assunto. Para
evitar a ida do Major a Alagoinhas, onde fica a mais prxima agncia do banco, seu Modesto Pires, dono do curtume, fez o favor de descontar o cheque. Esse primeiro,
e todos os demais.
Quanto s perguntas, nem sombra de resposta, resumindo-se Antonieta a informar que, graas a D eus, gozava sade, casara-se e era feliz apesar de no ter filhos.
Sobre o marido, nome, profisso, idade, nenhuma palavra. Endereo? Nenhum melhor, mais seguro, do que a Caixa- Postal 6211, toda correspondncia para ali dirigida
chegaria s suas mos.
No transcurso de mais de um decnio, as relaes epistolares entre Tieta e a famlia mantiveram-se absolutamente regulares: uma carta por ms de cada lado, a de
So Paulo, poucas linhas, papel e envelope de cor, perfumados.
Variando a cor de ano para ano, o perfume mudara uma nica vez. Mais suave e discreto o ltimo, estrangeiro, com certeza.
A quantia do cheque crescendo, no somente por causa da inflao.
Quando Elisa teve menino e dona Carmosina acentuou as dificuldades de Astrio, Tieta somou  ajuda ao pai certa quantia mensal para o leite do menino e sua futura
educao. Fazendo o mesmo quando Perptua lhe escreveu dramtica e, por uma vez na vida, sincera, chorando a morte do marido perfeito, a deix-la viva com dois
filhos nos braos, necessitada. Boca de siri sobre as casas de aluguel, as economias no banco, mas Tieta j se dera conta da diferena de sorte das irms pois mandava
para uma e outra importncia igual: se Perptua tinha dois filhos, bem maiores eram as dificuldades de Elisa. Comearam a chegar os pacotes de roupa usada, os presentes
de Natal e de aniversrio, mas dela e do marido pouco mais souberam.
Muito pouco, quase nada, mas o suficiente para dona Carmosina juntar as peas e desatar o n.
H uns nove anos - nove anos e nove meses, exatamente - num nmero de carnaval da revista Manchete, dona Carmosina reconheceu Antonieta, apesar dos cabelos oxigenados,
numa fotografia de folies em plena animao no baile do Teatro Excelsior, na Capital paulista. Ali estava ela, bem no centro da foto, feliz, aconchegada e amorosa
nos braos de senhor de certa idade, a se acreditar nos cabelos brancos. Infelizmente, do cavalheiro via-se apenas as costas, pois danavam; ela, sim, estava de
frente, a boca aberta em riso, o rosto franco e brejeiro, uma gentil senhora, no mais a jovem estabanada cuja partida na bolia de um caminho Carmosina testemunhara.
Crescera em formosura, opulenta de formas. Jamais fora magricela, sua beleza tinha onde pegar-se.
Dona Carmosina convocou a famlia inteira, foi uma sensao. Perptua balanou a cabea, concordando. Antonieta, no havia dvida; engordara e oxigenara os cabelos.
Tambm o velho Z Esteves reconheceu a filha:
- T pimpona, de cabelo pintado, na moda. Deus te acrescente, minha filha! - olhava as outras duas, em desafio. Queria ver quem se atreveria a criticar. Na sua vista,
ningum.
Elisa ficou feito doida, no tinha idia de como fosse a irm, de agora em diante podia imagin-la melhor, to linda na fantasia de odalisca. A notcia da descoberta
da revista, transmitida em carta de Elisa, trouxe a primeira pista pois Tieta, na resposta, revelou o prenome do marido: quem a tinha nos braos, no ritmo do samba
camavalesco, era Felipe, seu bem-amado esposo.
Felipe de que, no disse.
No muito depois, em carta datada de Curitiba, fez referncia aos negcios de Felipe, industrial com interesses no Paran. De outra feita, desculpando-se, atribuiu
a demora do envio do cheque - uma semana de atraso -,  enfermidade do Comendador a cuja cabeceira a dedicada esposa dera tempo integral. Felipe, industrial e comendador.
Para Perptua bastava; alis bastava-lhe o cheque, sendo o resto suprfluo. Elisa, ao contrrio, desejava saber mais, muito mais. Durante horas inteiras comentava
com Carmosina as reservas da irm: tem vergonha de ns, medo que a gente abuse da bondade dela. Esquiva-se, no fundo com razo.
Com razo, dona Carmosina  quem mais sabe. Tieta sara corrida - aqui no  casa de puta! -, moda de pancada, por denncia da irm mais velha.
Boa demais, isso  o que ela , pois esquecera vexame, delao, a surra, o cajado de marmelo para vir em socorro da famlia. Boa demais, um anjo, concordava dona
Carmosina. Quanto ao motivo das reservas e das reticncias a agente dos Correios e Telgrafos silenciava: sobre esse assunto traara, em segredo, teoria prpria.
Reuniu dados, indcios, pistas; mistrio digno de Hercules Poirot. Dona Carmosina o resolveu em definitivo quando comearam a chegar as encomendas postais com os
elegantes vestidos, as saias e blusas finas, de medidas diversas. Antonieta, em breve frase, explicara a razo dos diferentes talhes: - estou mandando uns vestidos
quase novos, meus e de minhas enteadas.
Enteadas, notem bem, filhas do comendador Felipe mas no dela, que no tinha filhos. Claro como a luz do dia, dona Carmosina Sherlock Holmes.
Quem, em Agreste, a iguala, suplanta em inteligncia?
Dissoluo do vnculo conjugal com separao de corpos e bens, oito letras: divrcio.
Divrcio ou desquite, no Brasil no h divrcio, eta pas mais atrasado!
E eis a explicao certa e correta, no h outra.
E aqui faamos nova pausa, um pouco de suspense, prprio dos folhetins. Voltaremos aps os comerciais, como dizem os locutores quando, no melhor da intriga, no momento
mais empolgante, interrompem as novelas radiofnicas para anunciar sabo em p e marcas de cigarro, deixando Elisa trmula e vibrante.
Outra vez o chato, na hora do descanso um rpido parntesis - no me demoro - para revelar fatos condenveis, iluminar com o facho da verdade detalhes obscuros,
desmascarando mais uma vez a senhorita Carmosina luizer da consolao.
No creiam que a persiga, que no lhe tenha estima. ao contrrio, reconheo-lhe qualidades e louvo os motivos capazes de lev-la a violar a lei dos homens e a lei
de Deus, quando generosos ou nobres. Quanto a persegui-la, quem ousaria, em Agreste? Nem o coronel Artur da Tapitanga, nem Ascnio Trindade, to cumpridor da lei.
Com Ascnio ela redige cartas aos jornais da capital, peties ao Governo do Estado, reclamando ajuda para Agreste. Inteis, cartas e peties.
H mais de quinze anos - dos vinte e trs de sua nomeao para os Correios e Telgrafos - funciona o ilegal esquema estabelecido por ela e por Canuto Tavares, o
outro funcionrio da Agncia, proprietrio de oficina de consertos em Esplanada, onde ganha bons cobres, habilidoso como ele s.
Permanecesse em Agreste, no progrediria, vegetando a vida inteira, limitado ao magro ordenado de telegrafista em agncia de ltima classe; decidiu abandonar o emprego,
mudar-se de vez, levando as ferramentas e a ambio.
Ao saber da deciso do colega, Carmosina props-lhe barganha capaz de beneficiar os dois: Canuto iria tranqilo cuidar da oficina em Esplanada, deixando exclusivamente
por conta dela o funcionamento da Agncia dos Correios e Telgrafos de Sant'Ana do Agreste, afinal no era trabalho de matar ningum; em troca, ele lhe daria metade
do ordenado. Para Canuto, disposto a demitir-se, a proposta caiu como sopa no mel. Para Carmosina, nem se fala: aumentando-lhe a renda necessria ao sustento da
casa - para o qual dona Mil j no podia concorrer devido  idade: parteira quase aposentada, ainda pegava menino, mas de raro em raro - deixava-a senhora nica
e absoluta de cartas, telegramas, encomendas, revistas e jornais, da vida da cidade e do mundo. Funciona o arranjo h mais de quinze anos - ela saberia dizer exatamente
quantos, anos e meses - e em nenhum momento passou pela cabea de algum denunciar o escandaloso envio mensal do livro de ponto da repartio a Esplanada para recolher
a assinatura de Canuto, levado em mo prpria por Jairo. Quem ousaria?
Nela, o que me desgosta  a parcialidade. Queria ver como agiria Carmosina se um dos filhos de Perptua morresse e a me quisesse esconder o fato de Antonieta para
conservar a ajuda pontual e ntegra. Se teria idntico comportamento ao que teve quando Elisa entrou na Agncia em desespero devido  morte de Toninho. Dona Carmosina
a consolara, o inocente deixara de padecer, ruim de sade desde o nascimento. Dona Mil, ao retir-lo do ventre de Elisa, se assustara, parecia um feto em formao,
verdadeiro milagre ter vivido tanto tempo. no adiantaram mdico e remdio, pagos com as remessas de Tieta, a ida a Esplanada para consultar doutor Joelson, especialista
em crianas. O pediatra balanara a cabea: nem adianta receitar. O pobrezinho descansou e vocs tambm, quantas noites sem dormir? Mas nem assim Elisa se acalma.
Alm de perder Toninho - por mais enfermo e raqutico, era filho e consolo-, perdia a ajuda da irm, o dinheiro mensal destinado ao leite, aos remdios, aos mdicos,
 futura educao do sobrinho, e no a cosmticos, revistas, sesses semanais de cinema, pilhas para rdio. Com Toninho partiam para toda a eternidade essas regalias
compradas com as sobras da caridade de Tieta. Que fazer, me diga, Carmosina?
Os olhos midos, apertados, fitaram Elisa - Carmosina a vira nascer.
Dona Mil, emrita a parteira de menino, chamada s pressas no meio da noite para atender Tonha nas dores do parto, a soprar garrafa vazia a mando de Z Esteves,
levara a filha de ajudante. Carmosina e Tieta ferveram gua, auxiliaram e assistiram a deliverana. Perptua, pudica, trancara-se a rezar.
Cada qual ajuda  sua maneira.
Meninota, no caminho da escola, Elisa vinha pedir a beno  sua me-de-umbigo, dona Mil; regalava-se com queimados feitos de goiaba e coco, uma gostosura. Carmosina
foi quem primeiro recordou a Elisa a existncia de Tieta, cujo nome a famlia jamais pronunciava. Tema escandaloso, mas Carmosina arranjava maneira de lembrar a
amiga. ao contar um caso, referia-lhe o apelido e a boniteza: Tieta, tua irm, estava comigo, bonita de dar gosto.
Tambm Elisa crescera bonita de dar gosto, casara, parira; Carmosina a vira nascer. Elegante no vestido enviado por Antonieta, desesperada, nem sequer filho doente
para cuidar, que fazer? Desditosa, era o adjetivo certo. Carmosina aproxima-se, murmura:
- No mande contar nada...
- Hein?
- Faa como se Toninho no tivesse morrido...
- E se Perptua fuxicar? Voc conhece ela, toda moralista: no tolera mentiras, vive dizendo.
- Se ela ameaar, voc ameaa tambm: quem tem mais podres a esconder? Ou voc pensa que ela fala a Tieta das casas, dos aluguis, da herana do Major? Diz que deposita
na Caixa o dinheiro que Tieta manda para as despesas dos meninos porque no lhe faz falta? Diz, uma ova.
Comprove-se a falta de moral de Carmosina a aconselhar mentira e chantagem  amiga em beco sem sada. Falta de honradez tambm: a par do contedo das cartas de Perptua
por abuso de poder no lhe cabe o direito de utilizar tal conhecimento. Mas Carmosina no liga importncia aos conceitos da moral, s regras da honradez. no somente
aconselha, dirige a intriga:
- Deixe Perptua comigo. Eu mesma falo com ela.
Perptua ergueu os olhos para os cus a pedir ao Senhor perdo do pecado, descerrou os lbios:
- Por mim no vai saber. Se Antonieta cortar o dinheiro que lhe d, no fim quem vai ter de agentar com ela e o marido sou eu.
Motivo justo, correto, Perptua  osso duro de roer, no se deixa chantagear. Carmosina ri de leve, um riso de criana, to inocente:
- Por isso ou pelo resto, o importante  calar o bico.
Mais um detalhe e vou-me embora. Lembram-se da carta de Ricardo, pedindo bola de futebol, recomendando segredo  tia? ao record-la, Carmosina por pouco deixa escapar
a revelao: tambm ela escrevera a Antonieta, rememorando os dias distantes da adolescncia, a antiga amizade, enviando lembranas de dona Mil que no a esquece.
Alm de um pedido: podia Antonieta comprar em So Paulo e lhe remeter, dizendo quanto custara, um bom, o melhor Dicionrio de Rimas  venda nas livrarias? no mandava
comprar em Aracaju ou na Bahia, para evitar mexericos. no tardou a receber o livro, com dedicatria: Para a querida amiga Carm, plida lembrana da amiga Tieta.
Madrugada adentro,  luz do candeeiro, na calada da noite, Carmosina escreve versos, conta slabas, rima ressonar com Osnar, pejo com desejo.
Agora que os senhores sabem, eu os deixo novamente na Agncia dos Correios e Telgrafos, ou melhor, no Arepago. At breve.
Fim do capitulo duas vezes interrompido. ufa to simples a adivinha, levara longo tempo a resolve-la pela falta de dados, a demora em reunir aquele mnimo de informaes.
Desquite, uma das maiores provas de atraso do pas, do subdesenvolvimento; indignada, dona Carmosina tem-se empenhado em discusses homricas com o padre Mariano,
com a professora Carlota Alves, com o doutor Caio Vilas Boas - vejam s: mdico formado, com diploma de faculdade e to retrgrado! Uma pessoa amarrada  outra vida
toda, mesmo depois de legalmente separada - corpos e bens -, sem poder casar de novo!
Dona Carmosina lera uma estatstica sobre o nmero de casais em estado de concubinato - palavro horrvel! - no Brasil. Milhes. Vivendo como casados, aceitos, recebidos
na sociedade, o senhor e a senhora fulano de tal, mas sem os direitos da lei. Esposa, no, concubina. Dona Carmosina encontra a soluo, to simples. Com um mnimo
de pistas e o poder de deduo, chega  resposta da adivinha. Antonieta vive com o ricao como casada mas sem o ser realmente. Admitida pela famlia, inclusive pelas
filhas dele - referira-se mais de uma vez s enteadas e s sobrinhas do Comendador -, mas impossibilitada de legitimar a unio por ser ele desquitado. Conhecedora
dos preconceitos de Agreste, o pai a esper-la na escurido, ao lado da janela aberta, de cajado em punho, a surra acordando a rua inteira, Tieta se fecha em copas,
envolve marido e casamento em mistrio e silncio. Faz bem.
Certa ocasio, apareceu um fiscal de rendas em Agreste, acompanhado da mulher, senhora distinta, agradvel, educada por demais, me de um casal de gmeos. De comeo
muito bem recebidos, at que a senhora contou ingenuamente serem desquitados ela e o marido, vivendo juntos e felizes h mais de dez anos. As portas se fecharam,
as caras tambm. Tiveram de ir embora, em Agreste casamento tem de ser com juiz e padre, seno no vale.
Faz muito bem Antonieta em reservar-se, em manter sua vida conjugal distante dos linguarudos da cidade, a comear de Perptua. Dona Carmosina gostaria de ver a tromba
de Perptua, se um dia viesse a saber I engolir a lngua.
Para dona Carmosina, se o casal vive bem  o que importa, sendo de somenos padre e juiz, vu e grinalda. Ela prpria desistiu h muito de qualquer exigncia: marido
ou seja l o que seja, solteiro, vivo, desquitado, casado com mulher e filhos, desde que varo de olhos postos nela e disposto a ir em frente, dona Carmosina estar
de acordo. Em colcho de plumas ou na beira do rio, nos matos. Se lhe fosse dado escolher, Osnar seria o felizardo.
Na falta, servir outro qualquer. Infelizmente, nem Osnar nem outro qualquer.
Esquece, porm, as decepes de amor e os problemas relacionados com a demora da carta de Antonieta, ao enxergar, vindo da feira, o Comandante.
Levanta-se, chega  porta, acena com o jornal. Quando ele se aproxima, ela vibra:
- Guardei para voc ler. Vai lhe interessar.
O comandante Drio toma da pgina, dona Carmosina indica o artigo.
Comea a ler para si mas o assunto sem dvida o empolga, eleva a voz.. .. as transformaes polticas que marcaram a Europa ultimamente fizeram passar quase que
desapercebido um importante acontecimento para os defensores do meio ambiente em todo o mundo: a condenao  priso do presidente e quatro diretores da maior indstria
qumica italiana, a Sociedade Montedison, acusada de poluir as guas do mar Mediterrneo...
Abre-se largo sorriso no rosto do Comandante:
- Esse juiz  dos meus! Italiano topetudo! - prossegue na leitura.. .. o objeto do debate: a fbrica de dixido de titnio de Scarlino, inaugurada com entusiasmo
pelos pobres moradores desta provncia toscana e constantemente marcada por greves e interrupes do trabalho de seus 800 empregados...
Durante a leitura, chega o vate Barbozinha, fica a ouvir. O Comandante faz questo de comear de novo para o amigo no perder nenhum pormenor:
na Itlia aparecera por fim um juiz macho!
- Oua com ateno este pedao: Um dos defensores dos acusados, o advogado Garaventa, utilizou este argumento: a diretoria da indstria sempre agiu com todas as
autorizaes administrativas necessrias. Qual ser, no caso de uma condenao, a opinio dos cidados sobre a administrao pblica que concedeu as permisses -
Bem argumentado! - atalha Barbozinha - os homens estavam dentro da lei, agindo de acordo com as autoridades...
- Dentro da lei, coisssima alguma! As autoridades  que so salafrrias, em conluio com os monstros vidos de dinheiro. Oua o resto: O argumento, entretanto, no
intimidou o juiz Piglietta, pertencente a uma nova gerajo de jovens magistrados que no se detm ante os poderosos. Bravos, juiz!
- Mas se os homens estavam agindo de acordo com a lei...
- Que lei? Lei foi a que o juiz aplicou, escute e no interrompa, a gente discute depois, se voc quiser: Ele se baseou numa lei italiana de 14 de julho de 1965...
- o prprio Comandante interrompeu para comentar: - Bem recente, hein! Por fim, comeam a aprovar as leis que se fazem necessrias...
- Retorna a leitura: -. .. raramente invocada, que prev penalidades para todos os que lanam ao mar substncias estranhas quelas que fazem parte da composio
normal das guas naturais, que constituam perigo para os peixes e que provoquem a alterao qumica ou fsica do meio aqutico.
Prosseguiu a leitura at o fim, dona Carmosina ouvindo com renovado entusiasmo, Barbozinha distraidamente: Com seu veredicto, o juiz Piglietta pretendeu advertir
todos aqueles que tomam o mar por uma lata de Iixo, ameaando de morte o Mediterrneo.
- Juiz porreta! Desses estamos precisando no mundo todo, a comear por So Paulo! Seu Barbozinha, ns no nos damos conta do privilgio que  viver nesse pedao
de paraso, criado por Deus e felizmente esquecido pelos homens! - volta-se para dona Carmosina: - Posso guardar, Carmosina?
- Tirei a pgina para Ire dar. ..
Enquanto o Comandante dobra a folha de jornal, Barbozinha interroga dona Carmosina:
- Que houve com Tieta? Ouvi dizer que desencarnou...
A pergunta recorda-lhe as revistas esquecidas por Elisa, dona Carmosina vai busc-las, coloca-as ao lado da bolsa:
- Tomara que no, mas tudo indica que sim.
- Quem? - quer saber o Comandante.
- Antonieta, Tieta, sabe quem , no?...
-  claro que sim... sucedeu-lhe alguma coisa?
- Pelo jeito, morreu. no h informao, ainda.
- Vai ver, de cncer, na poluio de So Paulo. S os milhares de automveis a vomitar gases...
Despede-se, dona Laura o espera:
- Obrigado pelo artigo, Carmosina. Esse juiz lavou-me a alma.
Carmosina prepara-se para fechar a Agncia, ainda deve passar em casa de Elisa antes do jantar, a pobre est agoniada. Barbozinha, cabea baixa, distante, concentrado,
enxerga no horizonte algo invisvel para dona Carmosina. Barbozinha  vidente.
Ningum sabe outro segredo jamais revelado, esse, nem  agente dos Correios ele o confiou - ter sido Tieta a musa inspiradora dos mais belos versos dos dois livros
publicados e dos inditos, cinco volumes inditos, do poeta De Matos Barbosa. Antonieta Esteves, paixo devoradora, fatal.
Desencarnada, num crculo astral estrela candente. Escrever um derradeiro poema, a morte no existe,  bem amada, o corpo  reles envoltrio, e de novo te encontrarei
e sers finalmente minha pois te desejo desde h cinco mil anos quando, escravo, te reconheci princesa Maia e o amor custou-me a vida; quis te libertar de um monastrio
na Idade Mdia e fui atirado ao calabouo, amarrado de correntes, presos rochas: segui tuas pegadas nos rios do Indosto e meu corpo apodrecido boiou nas guas;
te reencontrei um dia, pastora de cabras, saltando sobre as pedras.
Das revistas de fotonovelas e das provas de amizade:

Captulo reconfortante, prepara tudo da grande discusso familiar - voc esqueceu de trazer as revistas. - dona Carmosina as deposita em cima da mesa, puxa uma cadeira.
A brisa do entardecer e as cores do crepsculo envolvem Sant'Ana do Agreste. Barbozinha costuma parodiar os versos do poeta portugus: Que  dos pintores desse meu
pas divino que no vm pintar? Ele, De Matos Barbosa, cumpre seu dever; mais de cinqenta poemas e sonetos dedicou  paisagem de Agreste, ao rio Real correndo para
o mar, s dunas da praia de Mangue Seco, onde, em distantes frias burocrticas, declamou para Tieta ardentes versos levados pelo vento. Barbozinha deixou dona Carmosina
na porta da casa, no quis entrar. Coberto de dor, mastigando um poema, dirigiu-se ao Bar dos Aores.
Elisa no sente o frescor do fim da tarde, no enxerga as nuanas de amarelo e roxo, de vermelho e azul a queimar o firmamento, quando o sol, levado pelas guas
do rio, vai se perder no mar, na distante linha dos tubares, e a lua nasce por detrs das dunas. Tempo de lua cheia. Elisa, desfeita, os olhos inchados de chorar,
dona Carmosina seimpressiona. Golpe terrvel, no h dvida, para ela e Astrio, como equilibrar o oramento sem a ajuda da irm?
Vo terminar nas minhas costas, adivinhara Perptua, por ocasio de desespero anterior.
Perdida, nem sequer folheia as revistas, ela sempre vida de saber de amores feitos e desfeitos, casamentos e desquites, brigas, festas, a vida brilhante dos astros
de cinema, rdio, teatro, televiso. Revistas, Perptua no as pagar, nem uma s. Porcarias! Indivduos sem temor a Deus, mulheres mostrando as vergonhas, uma indecncia
essas revistas. Em minha casa, no entram. Se eu fosse Astrio... Felizmente no era, assim Elisa est a par de todas as fofocas e delira com as fotonovelas.
O conhecimento de Elisa reduz-se aos artistas brasileiros; uma especialista, pode-se dizer. no possui a viso universal de dona Carmosina, cuja erudio nesses
apaixonantes assuntos no se limita s fronteiras ptrias. no h mincia que ela desconhea sobre os Beatles, antes, durante e depois da formao e dissoluo do
conjunto. Erudio, conhecimento, curiosidade, pelo simples prazer intelectual de saber e dar quinaus em Aminthas, tarado pelos Beatles e por todos os conjuntos
de rock, desvairado pelo som moderno.
Aminthas possui eletrola e gravador, gasta em discos e cassetes o que ganha e o que no ganha.
Dona Carmosina, corao romntico, em matria de msica prefere mesmo Casa de Caboclo e Luar do Serto; isso, sim,  msica com melodia e sentimento, e no essa
barulheira sem p nem cabea dos cabeludos. Provoca a indignao de Aminthas, desmontando seus dolos: essa tal de Yoko  horrvel, e ainda tira retrato nua. Espie:
a cara e a bunda so iguais.
- Vou buscar o dinheiro parapagar... - neutra, a voz de Elisa, os olhos ainda midos.
Passou a tarde chorando, constata dona Carmosina:
- Deixe para depois.
- Para essas, ainda tenho...
Os olhos buscam a amiga do peito, companheira de longas conversas sobre galas e estrelas do rdio e da TV. Elisa s assistiu televiso durante os trs dias passados
na Bahia, quando Astrio foi consultar o mdico, tirar radiografias; felizmente nada grave, apenas o susto a faz-los despender aquele dinheiro. No modesto hotel
prximo  Rodoviria, o luxo era o aparelho de televiso na saleta de frente, franqueado aos hspedes. Elisa no desgrudou do vdeo, maravilha das maravilhas. Agora,
nem mais as revistas.
Dos olhos saltam as lgrimas, as palavras so soluos:
- Se for verdade, para o ms no posso mais comprar. Tire meu nome da lista.
- De todas cinco? - Dona Carmosina sabe a resposta mas pergunta para ter o que dizer. Como poder Elisa viver sem as revistas de fotonovela?
- De todas...
Dona Carmosina ergue-se, magnfica, amizade se prova nessas horas:
- De todas cinco, no! Duas eu lhe garanto, pago da minha comisso.
Sem nenhuma, voc no fica.
Elisa se comove com o gesto mas a realidade seimpe:
- Obrigada, Carmosina, voc  boa demais. Mas, nem eu aceito, nem voc  rica para botar dinheiro fora...
- Tudo no passa de conjecturas.  capaz de Tieta estar mais viva do que ns duas... - Dona Carmosina, aliviada, substitui por alento, por esperana, a precipitada
promessa de revistas semanais.
-  o que eu digo a todo mundo, que ela est de passeio a bordo de um navio, como j sucedeu...
- Cruzeiros martimos...- volta a esclarecer dona Carmosina.
.mas digo sem convico, j me convenci que ela morreu.
- O pior  que a notcia est correndo na rua,  s no que se fala.
Barbozinha ficou desolado, o pobre. Teve um namoro com Tieta pouco antes dela ir embora. Ele pensa que eu no sei. ..
- Se u Barbozinha? Acabado daquele jeito. ..
- Faz quase trinta anos... era um rapago, bem mais velho que ela,  verdade, e franzino. Franzino sempre foi. .. Tieta no gostava de mocinhos jovens... - Suspira,
como passa o tempo! - Voc no deve perder a esperana. Onde est a prova de que ela morreu? Me mostre, se puder. Agora, voc indo. - Fica em dvida, a pergunta
a coar-lhe a boca: - Voc vai ao cinema? Se quiser, passo para lhe buscar.
- Hoje, no. Perptua vai vir para discutir com Astrio e comigo, ela inventou umas histrias de herana. .. mas no  por isso que no vou... no vou, porque hoje
no tenho vontade, sabe? Nem ia ver o filme direito.
- Entendo... herana, que conversa  essa?
Elisa toma-lhe a mo, splice:
- Se voc deixasse o cinema para amanh e voltasse, para mim ia ser to bom! Acho que pra ns todos, at para Perptua. Voc entende dessas coisas...
- Pois eu volto, fique descansada. Engulo a comida, determino umas regras em casa, daqui a pouco estou aqui de novo.
Ora, se vinha! no h filme que a faa perder aquele prato, que inveno era essa, de herana? Perptua no  tola. Ademais, o dever de amiga mandava-a estar ao
lado de Elisa nessa hora de provao. As duas coisas: o dever e o prazer, h to pouca diverso em Agreste, mesmo para a agente dos Correios.
Pena fosse sbado, dia de cinema. O filme vinha de Esplanada, pela marinete, sendo exibido no sbado  noite e duas vezes no domingo, a primeira s trs da tarde,
em matin. A sesso de sbado rene a melhor gente, os grados da cidade, vrios com lugares marcados pelo hbito, naquelas cadeiras ningum senta: as cadeiras de
Modesto Pires e da esposa, dona Ada, e duas filas atrs, a de Carol. A matin, repleta de meninos a gritar, insuportvel: a cada tiro ou soco do caubi uma algazarra,
a cada beijo do mocinho o mundo vem abaixo. Na soar de domingo, repete-se a barulheira.
Derradeira exibio do filme, na bilheteria o rabe Chalita mercadeja lugares ao sabor da aceitao da pelcula. Nas de pouco xito, vende a qualquer preo.
Nos grandes sucessos, nem de p  mais barato. A amizade exige sacrifcios:
amanh, em companhia de dona Mil, dona Carmosina enfrentar a sesso noturna dos domingos, o berreiro, a fumaceira.
Cabea baixa, ar doentio, Astrio chega diretamente da loja, nos sbados s aps o banho e o jantar vai s carambolas. Hoje ter Perptua em lugar de Aminthas, Seixas
e Fidlio, em lugar de Osnar, perde na troca. Dona Carmosina o considera, com lstima: um trapo.
- Boa noite, Astrio. Vou em casa mas volto para a conversa.
- A conversa?...
- Sobre Tieta...
- Ah! Sim. Que coisa mais sem explicao. no entendo. ..
A luz dos postes, acesa ao toque da ave-maria, apenas atinge a calada mas a lua cheia derrama ouro e mel sobre Agreste, iluminando as ruas e o rio, a estrada e
os atalhos, os ltimos feirantes no caminho das roas.
Do sensacional encontro entre Perptua e Carmosina, com certa vantagem para a primeira no raunde inicial - quem disse foi doutor Almiro? ele sabe. eu nunca havia
pensado nisso...
- Astrio se anima, aplacam-se as dores, diminui o mal- estar, presta ateno  conversa.
Estirado na espreguiadeira, no fosse a presena da cunhada e de dona Carmosina estaria na cama, enrolado nos lenis; vem passando mal desde a hora em que Elisa
lhe fez sinal na loja e ele soube: nem carta, nem cheque.
Doente, a ponto de no tocar no cuscuz, na banana frita, contentando-se com uma xcara de caf com leite, po e requeijo. Contraes no estmago.
Insuportveis.
Perptua chegara pouco antes das sete. Deixara Ricardo preparando os deveres, na segunda- feira o moo retornar ao seminrio para as provas escritas e orais. As
aulas terminadas, estando padre Mariano de passagem em Aracaju, trouxera o afilhado para o fim de semana em casa, com a obrigao de fazer banca, estudar para os
exames. Uma reprovao custar-lhe - ia a gratuidade do curso, adverte mais uma vez Perptua antes de sair. Quanto a Peto, fugira para o cinema, menino endemoninhado.
Assistia cada filme trs vezes, todas de graa, ajudava o rabe Chalita na bilheteria. Em Agreste, a censura no vigora, todas as pelculas so livres para qualquer
idade, mes amamentam crianas de colo em plena sala, onde Peto, aos treze anos incompletos, aprende mais do que Ricardo, quase com dezessete, nas aulas do seminrio.
No cinema, na beira do rio onde passa boa parte do dia a pescar e a observar, no Bar dos Aores, torcendo,  tarde, pelo tio Astrio. Osnar, quando ganha, oferece-lhe
guaran, sorvete, coca-cola. Petoj sabe manejar o taco. Debochado, Osnar:
- E o taco a debaixo, Sargento Peto, j faz carambola? T chegando a idade de perder o cabao...
Nem bem Perptua tomara assento na cadeira de palha, a melhor da casa, ressoaram na porta as palinas e o sonoro com licena de dona Carmosina. Perptua fechou a
cara: que perdera ali de to precioso a agente dos Correios para abandonar a sesso de cinema do sbado, compromisso sagrado? Vinha meter o bico onde no a chamavam,
ditar razes, palpitar, exibir inteligncia e astcia, a sabichona. Elisa precipitara-se a acolher a amiga:
- Voc chegou quase junto com Perptua.
Sem esperar convite, dona Carmosina puxou o assunto, tomando a frente na conversa:
- Na rua, no se fala noutra coisa. Fui chegando em casa e me foi perguntando: que  que aconteceu com Antonieta? Ouvi dizer que ela morreu. Ningum sabe de nada,
lhe respondi, s que a carta com o dinheiro que ela remete todo ms, esse ms no chegou. me arregalou os olhos: no chegou? Ento ela morreu, s morta havia de
deixar de cumprir a obrigao.
Conheci muito essa menina, quando tomava uma determinao, no havia conselho, ameaa, castigo que lhe mudasse o pensamento. Pode escrever:
parou de mandar o dinheiro  que morreu. V l, minha filha, e apresente meus psames.- Uma pausa, dona Carmosina acrescenta: - O zunzum na rua s faz aumentar.
A intrometida viera de propsito, preferindo a conversa ao cinema;  capaz de Elisa ter pedido para ela vir, Perptua tocou com os dedos o crucifixo do tero, no
bolso da saia negra, contendo-se. Deixa pra l, talvez at seja de ajuda; a antiptica passa o dia sem fazer nada, a ler revistas e jornais, artigos enormes, domina
uma quantidade de assuntos, bota banca. Perptua no tinha dvidas:
- Bateu a caoleta! Disse a Elisa desde ontem, ela  que quer se enganar e enganar os outros...
- Esconder a evidncia... - ilustrou dona Carmosina.
Tais demonstraes de sapincia, Perptua no as tolera. Dominou-se devido ao grito de Astrio, lanado do fundo da espreguiadeira: - Ai! Vocs esto dizendo que
ela morreu? Que Antonieta morreu?  isso?
Elisa teve pena do marido, o pobre de Deus recebera um choque; at ali a possibilidade da morte da cunhada no lhe ocorrera. Pensara em carta extraviada, em dificuldades
momentneas de dinheiro - tambm os ricos tm seus apertos,
- em viagem, plausvel explicao de Elisa. Em doena e morte, jamais. A afirmo caiu sobre ele como uma tonelada de chumbo.
- Ai! - gemeu, apertando o estmago, no rosto uma careta de dor.
- Voc  o nico em Agreste que no sabe que ela morreu e sua mulher a nica a duvidar... -a voz sibilante de Perptua revolvendo a chaga.
Dona Carmosina voltou ao debate:
- A bem dizer, provas no existem. Suposies, sim.
Dura adversria, Perptua atirou-lhe na cara a munio de dona Mil:
- Que outra prova voc quer, alm da falta de cartas? no ouviu o que sua me disse? Era assim mesmo: quando Antonieta decidia fazer uma coisa fazia at o fim, quem
bem sabe sou eu.
- No h dvida... - concordou, em termos, dona Carmosina: Suposies apoiadas em fatos concretos, porm suposies...
- Estamos desgraados! - gemeu Astrio, dando-se conta da enormidade do acontecimento: - Como a gente vai viver, se ela morreu?
Contendo o choro, Elisa trouxe um comprimido e um copo com gua:
- Tome, Astrio, o remdio para o estmago...
- Que vai ser da gente? - O comprimido caiu da mo de Astrio, Elisa e dona Carmosina a procurarem pelo cho de tijolos, encontraram. Elisa o pe na boca do marido,
d-lhe a gua.
- Nem para remdio vai sobrar - conclui Astrio num engulho.
Dona Carmosina balanou a cabea, concordando: no ser fcil. no tanto para Perptua, possui casas de aluguel e dinheiro guardado, mas Elisa e Astrio vivem da
loja mal sortida, das vendas aos sbados, lucro minguado.
Dona Carmosina tentou deixar de lado esses detalhes, insignificantes diante do fato maior da morte de Tieta, amiga de infncia e adolescncia, cujas confidncias
ouvira h tantos anos. Insignificantes? no com o preo atual do ruge e do batom, do rmel e do esmalte, das revistas, cinco por semana - e Elisa esquecera de pagar
as de hoje. Falara em pegar o dinheiro, no pegara.
Se a morte se confirmar, dona Carmosina no poder cobrar, carregar com o prejuzo. Amizade prova-se nessas horas.
Mas eis que Perptua ergue o busto, o coque parece crescer no alto da cabea, a voz fanhosa ganha fora:
- Ela morreu e ns somos seus herdeiros...
A tal histria da herana, dona Carmosina liga todas as antenas. Astrio, nas vascas da agonia, no entende:
- O que  que voc disse? Herdeiros? Como?
Tempo suficiente para dona Carmosina consultar seus conhecimentos jurdicos e entrar de advogada:
- Hum!  capaz que voc tenha razo. Casada mas sem filhos... Os parentes herdam... J li sobre isso, deixe-me ver. ..
Superiora, Perptua ps em pratos limpos:
- Outro dia conversei com doutor Almiro, quando ele esteve aqui por causa da herana de seu Lito. Metade para o marido, metade para os parentes prximos. Pai, me,
irmos. Nem que o morto no queira.
Foi nessa altura da conversa que se aplacaram as dores de Astrio, diminuiu o mal- estar do estmago, rogou confirmao:
- Quem disse foi doutor Almiro? Ele sabe. ..
Do segundo raunde, completamente favorvel a dona Carmosina, a campe dos correios e telgrafos nem dona Carmosina, tomada de surpresa, tenta negar que perptua
lavrara um tento. confirma a tese jurdica, mas exibe aquele sorriso inocente, suspeitssimo, de quem possui naipe marcado, carta decisiva:
-  isso mesmo. Vocs esto a, esto ricos. Metade para seu Z Esteves, a outra metade para vocs duas. S falta encontrar o marido, no ?
- Exatamente.
- Perptua domina a conversa e mesmo a agente dos Correios ouve com ateno:
- A gente nunca soube o nome inteiro do marido dela. Felipe, como se no tivesse pai. Rico, isso se sabe, comendador tambm. Mas Felipe de qu? Que tipo de indstria?
Comendador do Papa ou do Governo? Sempre achei isso esquisito mas encontrei logo a explicao, faz tempo.
Ao contrrio do que pensara D. Carmosina, a Perptua no bastara o cheque, o dinheiro mensal. Tambm ela pusera a cabea a pensar, a deduzir.
Igual a dona Carmosina, em cujos lbios, no entanto, permanece o sorriso inocente, de criana.
- E que explicao encontrou?
Todos ansiosos por saber, Perptua esconde a vaidade na voz sibilante, desagradvel, apesar da sbita fortuna:
- O marido proibiu que ela nos falasse dele para no ter, um dia, de prestar contas... exatamente para isso.
- Ser? - Dona Carmosina demonstra o ceticismo.
- Ela tinha era vergonha da gente, medo de que a gente, se soubesse mais sobre o marido dela, comeasse a explorar. - Para Elisa, as sujeiras, as ms intenes so
dela, de Astrio, de Perptua, do pai. Tieta e os seus so ricos e bons, inatacveis.
- Talvez. - Dona Carmosina parece pesar e medir, comparar os argumentos.
- Seja como for, minha parte ele vai me entregar, nem que eu tenha de virar mundos e fundos. - Cada vez maior na cadeira, Perptua no se d ao trabalho de contestar
Elisa: - Vou descobrir o endereo, quando ele menos esperar estouro na casa dele. O que  meu e de meus filhos ningum tira.
- Tu falou hoje com padre Mariano, o que foi que ele disse?
- Disse para no nos apressarmos, que ainda no h provas da morte de Antonieta, que a gente esperasse. Espere quem quiser, no eu! Segunda-feira me toco para Esplanada,
vou conversar com o doutor Rubim...
- Com o Juiz de Direito?- Dona Carmosina balana a cabea, parece de acordo. Os olhos pequenos, semicerrados, consideram Astrio e Elisa, pousam na imponncia de
Perptua refestelada na cadeira de palha, parece um sapo-cururu. Perdoa-me, Elisa, roubar a tua herana, tu e Astrio merecem melhor sorte, mas no posso suportar
a arrogncia dessa caga-se bo.
- , essa histria de sobrenome do marido de Tieta, eu tambm sempre achei muito atrapalhada. S que cheguei a outra concluso, diferente das de vocs duas.
Perptua no teme competio:
- Pois venha l.
- Voc, Perptua, no levou em conta certos dados, eu diria pistas. Ela mandou falar nas enteadas, no?
- Sim, metade  para a famlia dele.
- no  de herana que falo, essa herana no existe...
- Como?
- No diga isso. .. - pede Astrio, recaindo em dores.
- Tenho pena, Astrio, de lhe desiludir, mas se vocs pensarem um minuto, se puserem as clulas cinzentas em ao, compreendero que Tieta vivia, ou vive, com este
senhor Comendador como esposa mas sem casamento legal, certamente ele  desquitado. Um casal como milhares de outros no Brasil.  a nica explicao que existe e,
nesse caso, somente a famlia dele tem direito  herana.
- Ai!
- padece Astrio, vendo a fama dissolver-se, a riqueza ir gua abaixo, breve iluso, novamente pobre como J.
Onde a campe da sacristia reage e ganha o raunde, sendo a adversaria salva por inesperada e interrupo na luta e perptua  a nica que no se altera, a no ser
que se chame de sorriso a leve contrao dos lbios:
- Como teoria,  engenhosa. Fora disso, no vale nada.
- Voc tem melhor?..
- A minha  melhor e tenho provas.
- Provas, como?
- Casada, casadinha da silva, no religioso e no civil. Posso garantir e vou provar.
-  o que eu quero ver. - Leve vacilao na voz de dona Carmosina.
Elisa, em lgrimas. Astrio, rico e pobre, pobre e rico, sem saber se a dor persiste ou no. Do fundo do bolso, Perptua extrai um envelope e do envelope um recorte
de jornal:
- Voc, que l tanto jornal s custas dos outros, Carmosina, no leu esse.- Vangloria-se da ajuda divina: - Quem  devoto de Sant'Ana, quem ocupa seu tempo com as
coisas da Igreja, conta com a proteo de Deus.
- Fale de uma vez! - At Astrio seirrita, ele, em geral to tmido diante da cunhada.
- Desembuche!
Recorte na mo, Perptua no tem pressa.
- Ainda no fazem dois meses, fui a Aracaju beijar a mo de Dom Jos, saber dos estudos de Ricardo. Aproveitei e fiz uma visita a dona Ncia, a esposa do doutor
Simes, do Banco. ..
- Foi vender vestidos mandados por Tieta. ..
- Os que ficaram para mim. Melhor vender do que me exibir com eles.
Nas capitais, v l que se use, mas aqui. .. Dona Ncia me mostrou um jornal de So Paulo, Folha da Manha, a pgina social com as notcias da gente importante, onde
falavam numa amiga dela que foi visitar parentes. Me apontou uma notcia, dizendo: Penso que  sobre sua irm. Depois cortou o pedao e me deu.
Coloca os culos lentamente, aproxima o recorte da luz. Astrio se levanta da cadeira, Elisa muda de lugar para ficar perto, ningum quer perder uma palavra.
Nesse momento exato, ouvem-se vozes na porta da rua:
- Tenha calma, homem!
- Nem calma nem meia calma, cambada de ladres!
O velho Z Esteves penetra na sala, acompanhado de Tonha. Plantado sobre as pernas, o rosto fechado em ira, ergue o bordo e brada:
- Quero meu dinheiro, seus ladres! Onde meteram, que fizeram dele?
O dinheiro que Tieta me manda e vocs roubam! Que inveno  essa de dizer que ela morreu e por isso o dinheiro no chegou? Cambada de ladres! Quero meu dinheiro,
agora!
Onde Perptua assume a chefia da famlia, aps derrotar dona Carmosina por nocaute - A beno, pai - fala perptua, tranqila na cadeira: - peo a vosmic que se
sente e a me Tonha tambm. para ouvir notcias de Antonieta e do marido dela.
- Ela est viva ou no? Que inveno  essa de dizer que ela morreu?
 s o que ouo falar. Foram l em casa para mais de dez pessoas.
- O mais certo  que tenha morrido. Se morreu, como parece. ..
.ns estaremos ricos, seu Z. Podres de ricos...- interrompe Astrio, j sem dor, curado.
Dona Carmosina recupera-se :
- Seu Z, Perptua vai ler uma notcia, no jornal de So Paulo, que fala de Tieta.
Tonha ocupa uma cadeira, o Velho permanece de p:
- Pois que leia.
Novamente o recorte prximo  luz, Perptua pigarreia limpando a voz, informa antes de comear a leitura:
- Tomei nota da data do jornal, 11 de setembro, no tem ainda trs meses...
- Dois meses e dezesseis dias... - ningum liga para a conta de dona Carmosina.
- O Comendador Felipe de Almeida Couto - l pausadamente Perptua - e sua esposa, Antonieta, convidam os inmeros amigos e admiradores do casal para a missa em ao
de graas, comemorativa dos seus quinze anos de casamento, que ser celebrada na Igreja da S pelo mesmo reverendo, padre Eugnio Melo, que celebrou o matrimnio.
 noite, Antonieta e Felipe abriro as portas de sua manso para receber com a fidalguia de sempre. De Braslia vir especialmente para participar dos festejos o
Ministro Lima Filho que, sendo na poca juiz da capital, presidiu o ato civil. A champanhota se prolongar noite adentro, com danas e ceia  meia- noite.
O recorte passa de mo em mo, cada um o l, o alivio  geral.
Perptua fita dona Carmosina, num desafio:
- Que me diz, agora?
Quem responde  Elisa, a voz vibrante:
- Quer dizer que tu sabia o nome do marido dela e no disse nada  gente? - Elisa pensa na missa, na manso, na festa, na champanhota.
- Sabia, h mais de dois meses. Contar a voc pra qu? Para que, me d?
Astrio se exalta e prope:
- Vou com voc a Esplanada, falar com o juiz...
- Falar com o juiz? Por que? - pergunta Z Esteves.
- Por causa da herana. Metade  da gente.
Perptua explica:
- , sim, Pai. Metade  da famlia dele, metade  nossa, da famlia de Antonieta.
- Eu vou tambm, quero saber disso direito.
- No precisa ir ningum. Eu vou sozinha,  melhor. Converso com o juiz em nome de todos, sem confuso. Depois a gente decide o que fazer. Expulsa a vencida dona
Carmosina: - Ns, da famlia, sem estranhos.
Ereta na cadeira, o busto erguido, o coque no alto da cabea, Perptua  o chefe da famlia, assumiu o lugar.
Da morte e do enterro de Tieta com sermo e inesperadas revelaes do padre Mariano - aoturbulo o sobrinho Ricardo, coroinha naquele fim de semana em Sant'Ana do
agreste, Tieta morreu e foi enterrada em meio  consternao geral. no se faltar  verdade dizendo-se que toda gente da cidadezinha participou do prematuro velrio.
A notcia atravessou os portes da Fazenda Tapitanga, tirou o coronel Artur de seu sossego dominical, trazendo-o aflito s ruas de Agreste. O rebanho de Z Esteves
s prosperara enquanto Tieta, meninota, dele se ocupou. Cabras gordas e parideiras.
Lgrimas e oraes, tristeza e ameaas, compaixo e elogios, projetos e comentrios, gente a apresentar psames. Alguns, rancorosos, mal escondendo a satisfao
de ver chegada ao fim a imerecida boa vida de Z Esteves, de cujo passado de enrolo maldoso e salafrrio guardavam memria e cicatrizes.
- Na dependncia de Perptua, ele vai roer boca de sino. ..
-  o que tu pensa... agora  que o filho da puta vai se encher de grana, no h justia na terra...
- Troque em midos.
- A famlia vai herdar um dinheiro, metade  dele.
Velhas comadres, xeretas de idade indefinvel, esquecidas pela morte que s de raro em raro d-se  pena de passar por aqueles cafunds, desenterraram do profundo
esquecimento onde jaziam sepultados os desplantes e pecados da moa Tieta, de tampos comidos.
- Ainda me lembro da surra. Naquele tempo o Velho morava na praa, perto da gente. Foi quase de manha. Quebrou o pau com vontade.
- Tambm, aqui pra ns, ela fez por merecer. Desavergonhada, escandalosa. At homem casado.
- Veja a cara de seu Barbozinha,  um desgosto s.
- Dizem que no se casou pensando nela.
- Ser?  bem capaz. E essa histria de herana, que  que vocs sabem?
- Psiu! L vem Perptua.
Caras de enterro, olhos lamurientos seguindo Perptua no caminho do adro. O busto empinado, um pente negro de espanhola enfiado no alto do coque - no o usava desde
a morte do Major, presente dele -, o mesmo vestido dos funerais do marido, contudo parece mais moa do que aquela jovem de vinte e poucos anos, j velha de mantilha
negra, j solteirona e carola apesar da pouca idade, a beata mais beata, a xereta mais xereta, indo xeretar da irm ao pai: todas as noites pula a janela, vai encontrar
o caixeiro- viajante na beira do rio. Todo mundo fala, ela nos cobre de vergonha.
Andam para Perptua, cercam-na, num coro de louvores  falecida, filha e irm admirvel, a ajudar a famlia e agora a enriquec-la. Quantas missas vai mandar dizer
pela alma dela? Pelos pecados antigos, em parte certamente perdoados por Deus, resgatados em vida de decncia e caridade.
Mesmo as mais obstinadas a recordar malfeitos reconhecem os atributos de corao, bondade e gentileza, o riso alegre, o prazer em ajudar, sem falar na graa e na
formosura, rosto angelical, corpo, ai, de requebro e dengue.
Dona Mil resume tudo numa frase:
- Nunca fez nada por mal e o bem que fez no tem medida.
A boa filha, aquela que, sem guardar rancor, fora o amparo dos pais e das irms, sendo a me apenas madrasta e a irm mais moa apenas meia- irm, o que torna ainda
mais meritrio o procedimento, mais valiosa cada moeda.
Tudo isso vindo de So Paulo, da grande metrpole, onde Antonieta triunfara, com marido rico e ilustre, industrial, comendador, paulista de quatrocentos anos, dinheiro
 farta,  la godaa. Elevando o nome de Sant'Ana do Agreste.
Um filho da terra chegara a possuir padaria em Cascadura e, recordando a cidade natal e a santa padroeira, batizou-a de Panificao Sant'Ana do Agreste; enviou aos
parentes fotografias da inaugurao. Fotografias, vrias;
dinheiro que  bom, nem um tosto -segundo parece, a esposa, unha de fome, no permitia. Na capital do Estado alguns se destacaram,  frente de todos o poeta De
Matos Barbosa, cujo nome completo, Gregrio Eustquio de Matos Barbosa, se reduzira a Barbozinha na estima de seus concidados, em geral orgulhosos dos versos e
da filosofia do ex-funcionrio da Prefeitura Municipal de Salvador, do bomio recordado nas mesas dos cafs que, alis, j no existem. De crnica ainda mais extensa,
o comandante Drio de Queluz, cujo amor ao clima de Agreste e  paisagem de Mangue Seco o fizera abandonar a Marinha de Guerra para vir instalar-se de vez e para
sempre na terra onde nascera, trazendo com ele a esposa, dona Laura, robusta gacha logo adaptada aos costumes locais. Vive o casal mais na Toca da Sogra, casinhola
plantada entre coqueiros ao lado das dunas de Mangue Seco, do que no pequeno bangal da cidade onde se acumulam mscaras, barcos, santos, animais, peas esculpidas
a canivete nas cascas de coco seco ou em pedaos de coqueiros. Como se no Lhe bastasse a patente, a condio invejvel de militar, a saga das viagens - At no Japo
esteve -, acumula sucessos de arteso, a admirao geral, um artista de mo cheia. Ele e Barbozinha, os dois primeiros. Falando de cultura, talvez devssemos acrescentar
o nome de dona Carmosina Sluizer da Consolao, o que ela sabe  demais; nunca saiu, porm, de Agreste, a no ser em rpidas idas a Esplanada. Falta-lhe o verniz
das cidades grandes, da vida metropolitana. no deve ser esquecido, entre os ilustres a triunfar l fora, o Dr. Jos Augusto de Faria, farmacutico em Aracaju. E
terminou-se a lista, pois Ascnio Trindade no chegou a se formar, deixou a faculdade de Direito no segundo ano.
Ningum, nenhum deles, poeta, militar, farmacutico, dono de padaria no Rio de Janeiro, voou to alto, obteve xito igual, elevando aos pramos da glria o nome
da obscura e decadente cidadezinha de Sant'Ana do Agreste, como Antonieta Esteves a brilhar na alta sociedade paulista, nica entre todos a ostentar fortuna, gastando
dinheiro a rodo, o nome nos jornais do Sul.
Aminthas, Osnar, Seixas e Fidlio, os tacos em repouso:
- Como  mesmo o nome do marido? Matarazzo?
- Nada disso, um nome tradicional, quatrocento, Perptua sabe.
- Prado, talvez.
- no, parece que so dois nomes, desses importantes.
- Astrio vai lavar a gua... dinheirama ararretada.
Paulista sem preconceitos, casou com moa furada. Os costumes mudam de lugar para lugar; em Agreste e circunvizinhanas ainda hoje moa para casar deve ser virgem
- e ainda assim raras casam pois os homens emigram em busca de trabalho, restando para as mulheres a igreja, a cozinha, as colchas de retalho, o croch, os dias
longos, as perturbadas noites.
No Rio e em So Paulo, porm, casamento j no exige virgindade, obsoleto prejuzo. Alis, a moda se faz nacional, estende-se pas afora, a plula esconde o rombo.
no chegou, porm, s margens do rio Real; houvesse Tieta permanecido em Agreste, nunca arranjaria marido. Mas, em So Paulo, quem liga para os trs vintns das
moas? L o que conta  a categoria, a classe, a beleza, a inteligncia. Nenhuma boa qualidade foi negada a Tieta, durante o fim de semana, quando a cidade se comoveu
com o anncio de seu falecimento. Enterraram-na virtuosa, exemplar.
Ao cair da tarde do domingo, na hora da bno, ningum mais sustentava a frgil tese de Elisa - Tieta est viajando, gozando a vida, em New York ou em Paris, em
Saint-Tropez ou em Bariloche. Nem ela prpria, desfeita, amparada pelo marido e por dona Carmosina. ao abenoar o povo, padre Mariano, sem querer assumir responsabilidade
por notcia no inteiramente confirmada, referiu-se no entanto, com visvel sentimento,  triste verso a circular nas ruas. Louvou o corao puro daquela que, tendo
merecido os bens do mundo, no esqueceu a famlia distante, a terra onde nascera.
Emocionado, revelou aos fiis ter sido doao de Antonieta, e no de nimo paroquiano como fora dito na ocasio, a grande, a magnfica imagem em gesso da Senhora
Sant'Ana, entronizada com festa e jbilo havia trs anos, em substituio  anterior, velhssima, semi-destruda pelo tempo, de carcomida madeira, sem valor nem
arte.
Como se v, tambm o padre Mariano possua um segredo em comum com Tieta, conhecido apenas de dona Carmosina,  bvio. Tambm ele, alm da agente dos Correios e
do sobrinho Ricardo, a ela se dirigira, s escondidas, em peditrio. Sorri dona Carmosina, ao lado de Elisa. Por seu gosto estaria no fundo do adro com os rapazes,
comentando. Amizade obriga, porm. O sobrinho chora, em frente ao altar, todo paramentado, a saia branca, a bata vermelha, a sacudir o turbulo, odor de incenso,
bastante para os servos de Deus, nunca mais o perfume no envelope.
- Beleza de coroinha! - murmura Cinira, gulosa,  beira do barrico, uma coceira nas partes.
- Divino! - Dona Edna estala a lngua no outro lado da igreja, de joelhos ao lado de Terto, muito seu marido embora no parea.
Ricardo, envolto em fumaa, ouve o louvor do padre  velha tia. Pensa nos cabelos brancos, nas rugas, nas mos trmulas, mais av do que tia.
Modesta, a generosa doadora exigira no fosse revelado seu nome. Somente agora, quando fnebres notcias se ouviam, padre Mariano, passando por cima da promessa
feita, pe os pontos nos , para que todos os devotos da Senhora Sant'Ana rezem com ele pela sade de to piedosa filha de Agreste, rogando a Deus no passe a trgica
nova de rebate falso, encontrando-se a boa dona Antonieta em gozo de perfeita sade.
Alguns rezaram. Pela alma da defunta; em perfeita sade ningum a acreditou.
Post-scriptum sobre a velha imagem em nenhum momento falou padre Mariano sobre o destino da velha imagem. Ainda bem, pois o novo cardeal anda com a mania de investigar
o sucedido com as antigas e valiosas esculturas de santos, roubadas das igrejas ou vendidas a antiqurios e colecionadores.
Quem pode, de boa f, culpar o Padre? A imagem, pedao de pau corrodo pelo tempo, em pssimo estado, intil, ele no a jogara no lixo por ter sido consagrada sculos
atrs. Mas quando o famoso artista apareceu, atrado pela beleza da praia de Mangue Seco, e enxergando a destronada imagem da padroeira relegada a um canto da sacristia,
ofereceu por ela o dinheiro necessrio  compra do turbulo, padre Mariano no vacilou. O novo incensrio, precioso nas mos de Ricardo a cercar de odorosa fumaa
a imagem da Senhora Sant'Ana -a nova, refulgente, em gesso, pintada de cores lindas, uma obra de arte - foi adquirido com o dinheiro pago pela apodrecida madeira
carunchosa. O artista afirmara tratar-se de problema de devoo: no reino dos cus era a Senhora Sant'Ana a sua preferida e quanto lhe dissesse respeito, mesmo sem
valor material- caso da velha imagem tocava-lhe a alma, por isso a levava deixando razovel quantia em doao  igreja. S quem o conhece sabe at onde vai a lbia
do pintor Caryb. Muitas dele eu poderia contar, se me restasse tempo, cada qual pior.
Hoje, restaurada, a velha imagem  parte da famosa coleo de outro celebrado artista, Mirabeau Sampaio. Como l foi ter, no me atrevo sequer a pensar. As barganhas
entre esses cavalheiros so mais sujas e imorais do que a de dona Carmosina com Canuto Tavares, por mim desmascarada antes.
Da ressurreio e do luto Tieta ressuscitou na tera-feira, as cinco e vinte da tarde, e somente ento a famlia falou em luto. na preocupao com os problemas resultantes
da falha do cheque e das possibilidades de herana, no houvera tempo. nem necessidade. morreu, acabou-se de que lhe serviria roupa preta dos parentes? missa, sim,
pelo descanso da alma. de stimo dia, com certeza. de ms, caso a dinheirama se confirmasse.
Na tera- feira, a marinete atrasou: dois pneus furados, o motor pifando a cada cinco quilmetros, nada alm do costumeiro. Assim, s de tardezinha dona Carmosina
abriu a mala do Correio.
Na mesma viagem, Perptua regressou de Esplanada para onde fora na vspera, em companhia de Ricardo que ali tomou o nibus para Aracaju. O juiz a recebeu aps o
jantar e ao final da conversa felicitou-a pelo empenho em defesa dos interesses dos filhos, do pai e da irm. Para mim no quero nada, Meritssimo, mas pelo direito
de meus filhos, de minha irm e de meu velho pai brigo at morrer. Pobre, sozinha e desprendida. O juiz seimpressionou e dona Guta, empolgada, serviu  corajosa
viva bolo de aipim e licor de pitanga.
De volta, Perptua trouxe volumosa bagagem de conhecimentos e conselhos. Em So Paulo, informara o juiz, ela encontraria facilmente advogado disposto a se ocupar
da causa, financiando-lhe as despesas,  base de participao nos lucros obtidos, se a questo, como parecia, oferecesse reais possibilidades de vitria. Cobram
porcentagem elevada, naturalmente. Quantos por cento? no saberia dizer com exatido: talvez quarenta, cinqenta por cento. Tanto? Um despropsito, doutor! Minha
cara senhora, para correr o risco, botar dinheiro no fogo, pedem caro,  justo. Os jornais do Sul publicam anncios de escritrios de advocacia que trabalham nessas
bases. Existem, inclusive, especialistas em causas perdidas, mas a porcentagem em tais casos sobe a Setenta, oitenta por cento.
Doutor Rubim releu a notcia no recorte da Folha da Manha. Os Alineida Couto, gente grada, minha senhora, da nata, muito dinheiro e muitos brases. Se os dados
da questo estiverem corretos, tal como a senhora afirma, trata-se de causa ganha. O mais provvel  que nem causa venha a haver, logo se chegue a acordo, gente
desse porte no ama ver-seimiscuda em trincas na Justia. A senhora e sua famlia precisam apenas de um bom advogado. Deus Lhe pagar, Meritssimo, o tempo perdido
com uma pobre viva, sua criada s ordens. De volta, acertar com o Velho e com Astrio a diviso das despesas da viagem: deixar Peto com Elisa, levando Ricardo,
cujas frias comearo da a uma semana. Em Esplanada averiguara os preos das passagens de nibus para So Paulo, embarcaria em Feira de Sant'Ana. Nem o preo,
as despesas, a distncia, nem os perigos da cidade grande, nada a amedronta.
No chegara a ir a Salvador com o Major como haviam programado; Perptua sente um aperto no corao ao recordar o projeto. Mas no viajou sozinha.
Aracaju, para falar com o bispo, agradecer a matrcula de Ricardo? Fora e depois voltara vrias vezes, onde o perigo? So Paulo  menor, capital mais desenvolvida,
mas no pode ser muito maior nem muito mais assustadora, Aracaju  um colosso.
Encontrava-se Perptua ainda no banho, tentando limpar-se da poeira, quando dona Carmosina abriu a sacola das cartas registradas. Havia apenas uma, a de Antonieta.
Num brado de aleluia, dona Carmosina, abandonando resto da remessa, saiu, porta afora, desabalada para a casa de Elisa, a carta na mo, bandeira desfraldada ao vento:
- Chegou, Elisa, chegou!
- Deus seja louvado!
Abriram o envelope, l estavam o cheque e novidades sensacionais:
houvera morte, sim, no existe fumaa sem fogo. Mas quem morrera fora o Comendador e no era nenhum Almeida Couto de quatrocentos anos e brases. Nem por isso menos
rico industrial paulista, Comendador Felipe Cantarelli, meu inesquecvel esposo, quase um pai, cujo passamento me deixa viva inconsolvel. Para consolar-se, rever
a famlia e, quem sabe, adquirir casa na cidade, terreno na praia, de preferncia nas imediaes de Mangue Seco - no futuro, viria curtir a velhice e esperar a morte
na doura do clima de Agreste - Antonieta anuncia prxima chegada. Avisarei com tempo e levo comigo Leonora, minha enteada, filha do primeiro matrimnio de Felipe.
- Ela vai vir, Carmosina! Ela vai vir, que coisa boa! - tambm Elisa ressuscita.
Convocados s pressas, acorreram todos: o pai e Tonha, Astrio vindo do bar acompanhado pela turma solidria, Perptua trazendo Peto pela orelha.
Como se fosse o chefe da famlia, dona Carmosina, de p, solene, declamou a carta, Astrio apoderou-se do cheque para descont-lo.
Enquanto ouvia, Perptua engoliu informaes e conselhos do juiz, a viagem a So Paulo, a herana; com Antonieta viva, viva milionria, mudara a situao, cabia
adaptar-se. Perptua ergueu-se das cinzas e fitando a famlia reunida, comandou:
- Fosse quem fosse, o falecido era nosso parente, genro, cunhado e tio.
Devemos mandar dizer missa por sua alma e botar luto. Quando nossa querida irm chegar, deve nos encontrar vestidos de negro, sofrendo com ela.
Eu sei o que ela est passando, conheo a dor da viuvez.
Dona Carmosina no conhece mas pode imaginar. Virar a perna na cama de casal,  noite, e no encontrar o apoio do corpo do marido, do homem antes a compartilhar
do leito, solido medonha, ai! Maior s a solido da solteirona, dor sem tamanho, nem sequer a recordao da gostosura.
Segundo episdio das paulistas felizes em Sant'Ana do agreste ou a viva alegre com luto fechado, missa de defunto, os meninos do catecismo, minissaias e cafetas
transparentes, banhos de rio, areias e dunas de mangue seco, intrigas diversas, sonhos pequeno- burgueses e ambies maternas, coxas, seios e umbigos, passeios e
jantares, receitas culinrias, o discutido problema da luz eltrica, oraes e tentaes, o temor de deus, as artes do demnio, um casto idlio, outro nem tanto;
onde se trava conhecimento com o beato possidnio, profeta antigo. dilogos romnticos e cenas fortes para compensar primeiro fragmento de narrativa, na qual - durante
a longa viagem de nibus leito da capital de So Paulo a da Bahia - Tieta recorda e conta a bela Leonora Cantarelli episdios de sua vida. aqui vai a amostra:
Outros lances, mais substanciais, viro depois - penso que as cabras no sentiam o sol, no esse calorzinho daqui, o caloro de l, o sol em brasa nas pedras. Nem
elas, nem eu.
Nas pedras, as cabras imveis sob o sol; pedras, esttuas, elas tambm.
De sbito saltam, disparam a correr, uma, logo outra, todas. Vo descobrir tufos de capim nos mais altos oiteiros.
- Eu ia atrs, pastoreando. As cabras me conheciam, eu botava nome, apelido em cada uma. Chamava, elas atendiam. Cuidava delas, quando uma se feria nos espinhos,
eu tratava, punha mastruz nas feridas.
- Que idade voc tinha, Mezinha?
- Acho que dez anos, quando comecei. Dez ou onze, tinha terminado o grupo escolar.
Preferira o sol cozinhando pedras, a terra rida, os cactos, as serpentes, os lagartos, o coaxar dos sapos na gua do riacho, os calvos cabeos dos morros, as touceiras
de capim, as cabras - enquanto a primognita cuidava da casa.
- Perptua nasceu velha, nem sei como conseguiu casar. Mocinha, se meteu na sacristia da igreja com as carolas, a mais beata de todas. Para ela eu era o diabo em
pessoa... - ri: - Tinha razo, eu no era gente. Desde pequena, vi o bode Incio montando cabras.
Inteiro, sereno e majestoso, o bode Incio, pai do rebanho, aparece, passo medido, cavanhaque longo, inhaca forte. De bagos assim de grandes, quase a tocar a terra,
senhor da chibarrada, patriarca dos caprinos.
Lento e inexorvel, vem vindo para o lado da cabrita irrequieta no primeiro cio, os quartos agitados  aproximao de Incio, as patas traseiras escoiceando o ar,
na idade de ser coberta e emprenhar. Caminha Incio no rastro do afim da fmea, o saco balanando. Emite o berro, vibrante e lmpido, anncio, ameaa, declarao
de amor.
- Primeiro eu via, no ligava, era nova demais. Mas depois, quando comecei a ter as regras, o berro de Incio entrava por mim adentro. Passei a espiar, me estendia
no cho para ver melhor.
A cabrita dispara, Incio no se d ao trabalho de correr, pra e espera;
a menina aprende. Duas ou trs escapadas mais e ele monta a indcil quando assim decide, dono, pai do rebanho.
Deitada no cho, a moleca aprecia, no perde detalhe. De bruos contra a terra sfara, sente um calor subindo pelas pernas at os gorgomilos, vontade, moleza. Incio
era um bodastro, um bodastro e tanto, a chiba se debateu quando ele a fez cabra e a emprenhou. Um berro final de dor e acolhimento.
Ecoando no ventre da menina. Conjugados cabra e bode na altura sobre as pedras, petrificados, rocha nica, penhasco, capricrnio.
- Assim eu aprendi. Vi mais que isso, nos meus comeos. Mais.
No s assiste ao bode Incio montar as cabras. Acontece-lhe ver, escondida nos oiteiros, moleques se pondo nelas. Osnar e seu bando de perdidos. Homens feitos tambm.
O prprio pai, imaginando-a ausente.
- Em casa, um deus-nos-acuda, austero, moralista por demais, mandando todo mundo para a cama nem bem a gente se levantava da mesa do jantar. Em na moto, era proibido
se falar.
Namorado de filha minha se chama palmatria e taa de tanger burro;
bordo de marmelo  o nome completo, roncava Z Esteves. Punha-se nas cabras quando julgava o pasto vazio. Existiam cabras viciadas.
- Eu era uma cabrita, igual a elas. A primeira vez no teve diferena.
- Com que idade, mezinha, a primeira vez?
- Sei l. Treze, quatorze anos, botei sangue cedo.
- Depois?
- Fui cabra viciada, no havia homem que me desse abasto.
Onde o autor redige concisa noticia sobre o prospero e longnquo passado do municpio de Sant'Ana do agreste e sua decadncia atual enquanto o povo comenta a excitante
nova do prximo retorno da filha prdiga, as beatas na igreja, os ociosos no bar, os comentrios fervendo, a Agncia dos Correios engalanada em festa, aproveito
para constatar desde logo a benfica influncia de Tieta. Ainda na rodagem para a Bahia e j influindo no burgo natal, retirando-o do marasmo no qual mergulhara
havia tantos anos.
A notcia no atinge e comove somente a populao urbana; espalha-se por todo o municpio, despertando curiosidade e interesse das mansas margens do rio s encapeladas
vagas do mar atlntico, segundo revela Barbozinha em estado de poesia. Elabora um poema em versos livres e tico sabor, onde Vnus surge das ondas, nua, coberta
de espumas e conchas, rediviva. Atualssimo e um tanto ertico.
Ningum ficou indiferente, em toda a populao de alguns milhares de pessoas - nem mesmo dona Carmosina pode fornecer o nmero exato de habitantes de Agreste; no
censo de 1960 somavam nove mil, setecentos e quarenta e dois cidados prestveis e imprestveis, pois vrios passavam dos noventa e muitos dos oitenta anos; no ltimo
lustro aps o recenseamento, a populao diminura, no em conseqncia de mortes ainda mais raras que os nascimentos e sim da sistemtica partida dos jovens em
busca de oportunidades noutras terras.
O visitante, chegado a essas ruas mortas nos dias de hoje, exausto com a travessia na marinete de Jairo, entupido de poeira, hspede da penso de dona Amorzinho,
no acreditar que, antes da construo da estrada de ferro ligando Bahia a Sergipe, Agreste foi terra de muito progresso e muito movimento comercial, entreposto
da maior importncia para todo o serto dos dois Estados. Naquela poca, a prosperidade presidia os destinos do atual cafund de Judas. A situao privilegiada do
municpio, s margens do rio, estendendo-se at o mar, fizera de Sant'Ana do Agreste o centro de abastecimento de toda uma enorme regio. Navios e escunas vinham
at  altura da barra de Mangue Seco, paravam ao largo, as alvarengas recolhiam a carga. De Agreste, no lombo dos burros, as mercadorias partiam no rumo do serto.
Hoje, existe apenas a penso de dona Amorzinho, no comeo do sculo existiam para mais de dez, repletas sempre de comerciantes e caixeiros viajantes, as lojas e
armazns no davam abasto  freguesia. Casa de mulher dama, nem se conta, uma animao, um correr de dinheiro. As melhores residncias da cidade datam dessa poca,
tambm o calamento de pedras da Praa da Matriz e das ruas do centro. Os ricos mandavam vir pianos e gramofones, encomendavam retratos coloridos a firmas do Sul,
para pendurar nas paredes das salas. Construram o sobrado da Intendncia, ergueram a nova Matriz de Sant'Ana, deixando a velha capela para a devoo de So Joo
Batista, cuja festa em junho, precedida pela de Santo Antnio e seguida pela de So Pedro, trazia a Agreste forasteiros at de Sergipe, alm dos numerosos estudantes
em frias, libertos por quinze dias dos internatos na capital.
Agreste em junho era uma alegria s, danas e foguetrio todas as noites, aps as trezenas e novenas.
Das primeiras cidades a instalar eletricidade, das ltimas a conservar a vacilante luz amarela e fraca do cansado motor, ainda no substitudo pela ofuscante luz
da usina de Paulo Afonso. Quem adquiriu o motor e iluminou o ento florescente burgo foi o intendente coronel Francisco Trindade, av de Ascnio. Deve-se ao neto,
em dias recentes, obstinada luta para trazer at ali os fios de alta voltagem da Hidreltrica do So Francisco que, como a estrada de ferro e a rodovia, haviam passado
longe dos limites do municpio.
Nos ltimos decnios, o progresso s fizera desfechar golpes contra Agreste. O primeiro, o mais terrvel: a construo da estrada de ferro, trilhos a ligara capital
baiana a Sergipe, chegando s ribanceiras do rio So Francisco, em Prpria deixando nossa cidadezinha  margem, rfa de trem- de-ferro e de estao onde as moas
namorarem. Tentou manter-se Agreste no convvio dos navios e escunas mas o transporte de mercadorias fez-se mais fcil e muito mais barato nos vages da ferrovia.
Dispersaram-se as tropas de burros, as alvarengas apodreceram junto aos mangues, de raros navios e escunas desembarca apenas contrabando e mesmo assim sem outro
lucro para Agreste alm da paga recebida pelos pescadores de Mangue Seco, pois no  do municpio que os gneros tomam destino. As lanchas nem escalam em Agreste,
indo diretas para o porto do Crasto, em Sergipe. S Elieser, morador na cidade, ali ancora, de volta da entrega, vem dormir em casa. no se pode considerar comrcio
digno de tal nome a garrafa de usque escocs, de gim ingls, de conhaque espanhol que Elieser surrupia e vende a Aminthas ou a Seixas, a Fidlio; nem o vidro de
perfume com destino certo: Carol, a retrada moa de Modesto Pires. Essa moa, alis, precisa aparecer mais nas pginas deste folhetim para proveito e gudo de
todos ns.
As esperanas do retorno  prosperidade concentraram-se durante longo tempo na rodagem, anunciada com ruidoso espalhafato, a vir do Sul cruzando o pas inteiro pela
costa. Enquanto isso, Agreste diminura a olhos vistos, os caixeiros- viajantes desertaram das ruas: restando poucas lojas e armazns, os pedidos no pagavam as
custas da viagem. Fecharam-se as penses, j ningum vinha de longe para as festas de junho, apesar da gua continuar a fazer milagres, do clima manter-se digno
de sanatrio, da inslita beleza ribeirinha e da audcia da praia de Mangue Seco, incomparvel.
A rodovia, como se sabe, passou a quarenta e oito quilmetros de poeira e lama. Novo e definitivo golpe do progresso, Agreste entregou-se de vez, reduzida  mandioca
e s cabras. Nem trem- de- ferro, nem caminhes, nem sombra de estao, ferroviria ou rodoviria, onde as moas namorarem. No ancoradouro, meia dzia de canoas,
o barco de Pirica, a lancha de Elieser e os caranguejos, gordos, gordssimos. Em matria de comida, nada se compara a um escaldado de caranguejo com piro de farinha
de mandioca, verde escuro, piro de lama como se chama aqui. Nunca comeram? Uma lstima, no sabem o que  bom. Manjar a exigir tempo e pacincia para catar a carne
dos caranguejos, pata por pata, faz-se raro at mesmo em Agreste onde sobram o tempo e o gosto. Mas vale a pena, eu asseguro.  de se lamber os dedos; come-se com
a mo, ensopando-se o piro na gordura verde do molho, na lama incomparvel do caranguejo.
O povo j perdeu as derradeiras esperanas, os moos partem na marinete de Jairo, moos e moas, porque nos ltimos anos tambm as mulheres comearam a buscar vida
melhor em terras mais ricas. Vo ser copeira ou cozinheira, costureira ou bordadeira, grande nmero acaba na zona, em Salvador, em Aracaju, em Feira de Santana.
Muito apreciadas, por sinal.
De Ascnio Trindade, intemerato patriota e lutador, com as duras penas que em sina lhe couberam s Ascnio Trindade no perde o flego de lutador nem a esperana
de um milagre a salvar Agreste -ama a terra onde nasceu e  qual a doena do pai o fizera regressar, abandonando o curso de Direito. J no tem obrigao a cumprir
em Agreste, pois seu Leovigildo finalmente morrera aps infindveis cinco anos, preso  cama, sem movimentos, apenas um olho aberto a fitar o vazio. Ascnio fora
enfermeiro e ama-se ca, pai e me, dando banho naquele corpo inerte, limpando-o, pondo-lhe o de - comer na boca, duras tarefas. Rafa, a escura me-de-leite, mal
podia ajudar, por mais quisesse, velha e reumtica, sem foras. Ascnio tomava nos braos o corpo do pai, levando-o para deit-lo ao sol sob a goiabeira, no quintal,
fazendo-lhe muda companhia horas e horas. Sempre tranqilo, sem uma queixa, nem dos estudos interrompidos, nem da longa provao. O olhar do pai, um nico olho,
a acompanh-lo agradecido, basta ao filho. Esse j ganhou o reino dos cus, diziam as beatas.
Aps o enterro de seu Leovigildo, havia dois anos, Ascnio, se quisesse, poderia ter-se demitido do cargo de Secretrio da Prefeitura, onde o pusera o padrinho,
coronel Artur da Tapitanga, quando o viu sozinho com o pai paraltico e sem tosto. Demitir-se, para que? Para voltar  cidade da Bahia, recomeara faculdade? Maior
do que a falta de recursos, era a falta de vontade.
Na capital, Astrud, casada, ria a inesquecvel, cristalina gargalhada aqui, em meu desterro, carregando a cruz de meu Calvrio, ouo teu riso de cristal e reencontro
foras; nos dias mais penosos a recordao de teus olhos verdes me sustenta o nimo. Dona Carmosina derramara lgrimas lendo as violadas cartas, quanto amor!
Noutra coisa no pensou Ascnio no primeiro ano, seno no dia do retorno. Mas quando, abrupta, Astrud lhe comunicou o prximo casamento, sem sequer ter desfeito
o noivado, ele jurou no pr mais os ps na cidade onde habitava a traio. Sobretudo depois que Mximo Lima, seu colega de faculdade, advogado a prosperar na Justia
do Trabalho, lhe informara haver a inocente, a imaculada Astrud, casado de bucho inchado, no fosse solto O vestido de noiva e se enxergaria o volume da barriga
de quase quatro meses.
J de menino e ainda escrevendo cartas de amor para Ascnio, prosseguindo no casto idio, cndida menina, puta sem rival! Isso lhe doa mais que tudo:
acreditara na pureza, no firme sentimento, deixara-seiludir como uma criana tola, ingnuo paspalho.
Ademais, habituara-se  vida de Agreste, no que ela tinha de melhor: a gua, o ar, a paisagem, a convivncia dos amigos. S no aceitara a passividade do atraso,
da pobreza, o marasmo. A cabea repleta de planos, no se deixa abater.
Terra to msera e largada, Agreste no interessa nem mesmo aos polticos, raa alis em extino. Entregue a Prefeitura ao doutor Mauritnio Dantas, cirurgio-
dentista de foras reduzidas pelos desgostos e pela esclerose, trancado em casa a bem da moralidade pblica, quem realmente manda e desmanda  Ascnio. H um consenso
geral: quando o doutor bater as botas, colocaro Ascnio no cargo vago, se possvel prefeito para a vida inteira.
A verdade  que, praticamente sem receita alm da quota federal do imposto de rendada escassa ajuda estadual, Ascnio mantm a cidade limpa, calou, com pedras do
rio, ruas e becos, inaugurou duas escolas municipais, uma na Rocinha, outra em Coqueiro, e busca obter,  custa de ofcios, peties s autoridades, cartas aos jornais
e s estaes de rdio, que se estendam a Agreste os fios da Hidreltrica. At agora, infelizmente, no teve sucesso. Postes e fios alteiam-se nos municpios vizinhos.
Agreste  um dos poucos deixados de lado no plano recente de expanso dos servios da Hidreltrica. Ascnio no desanima, porm. Prossegue em sua luta. Acredita
que um dia, fatalmente, a fama do clima, a qualidade da gua, a beleza da paisagem traro s artrias e s praias de Agreste turistas vidos de paz e natureza.
Ao ouvi-lo falar h quem sorria do ardente entusiasmo, Agreste no tem jeito: mas h quem se empolgue e por um momento sonhe com ele, veja realidade nessa fantasia;
como sempre, as opinies se dividem. Somam-se unnimes, sem divergncia, ao julgar o prprio Ascnio. no h, em todo O municpio, cidado mais estimado, mais bem
visto. As moas casadoiras no tiram os olhos dele. Ascnio completou vinte e oito anos, o que espera para escolher noiva? Quando prefeito no poder continuar fregus
da casa de Zuleika.
Por mais de uma vez, dona Carmosina lhe colocou o problema, na Agncia dos Correios. Tanta moa bonita e prendada em Agreste e todas desejosas. Ele sorri apenas,
sorriso triste. Dona Carmosina no insiste: leu a correspondncia toda, linha por linha, repete de memria trechos da derradeira missiva, resposta  comunicao
do prximo casamento - quem te esteve, Dalila,  um morto, frgido corao que, da sepultura onde o enterraste apunhalado, vem te desejar felicidade; que o remorso
no turve tua vida e que Deus me conceda a graa de esquecer- te, arrancar do peito tua imagem... Um poeta, Ascnio Trindade, se escrevesse versos, nada ficaria
a dever a Barbozinha. Pelo visto no esqueceu, no pensa em noiva.
Sorri apenas um sorriso triste. Outra? Jamais. Nem que um dia desembarque da marinete de Jairo a mais formosa das donzelas, a mais pura e sedutora. Corao aberto
para o amor, minha querida dona Carmosina.
Da volta da filha prdiga a agreste, onde, no ponto da marinete, a aguardam a famlia em luto pela morte do comendador, os meninos do catecismo, padre Mariano, Ascnio
Trindade, comandante Drio, poeta de matos Barbosa, o rabe Chalita, diversas outras figuras gradas, sem esquecer a malta do bilhar, muito menos dona Carmosina,
na mo um buque de flores colhidas no jardim de casa por dona Mil, o clero, a burguesia e o povo, este representado pelo moleque Sabino e por bafo de bode agrupados
em quatro ou cinco locais, nas vizinhanas do cinema, ponto de parada da marinete de Jairo, esperam ouvir a buzina rouquenha na curva da entrada da cidade. Na igreja,
sob a batuta do padre Mariano, os meninos do catecismo, nas roupas domingueiras, alm de Perptua e do filho seminarista, de batina e livro de missa, risonho moceto
em frias. No adro, movimentam-se as beatas, bando de urubus a grasnar; prontas para o magno acontecimento, o desembarque da viva rica: querem v-la em luto e em
pranto nos braos da famlia, e de quebra, a enteada, a forasteira. Dia gordo.
No Bar dos Aores,  exceo do proprietrio em mangas de camisa, todos engravatados: Osnar, Seixas, Fidlio, Aminthas, guarda de honra do cunhado Astrio, sufocado
no terno negro, emprstimo de Seixas, magricela.
Perptua concordara com que, durante a semana, Astrio reduzisse o nojo braadeira preta, ao fumo no chapu e na lapela. Mas, para a cerimnia das boas- vindas,
exige luto fechado, traje, gravata e compuno.
- Faz questo porque no tem de comprar, vive de luto. Mas onde vou arranjar dinheiro para fazer terno?
- Tive de comprar para Peto.
- Um par de calas curtas, ora.
- Por que no toma emprestado? Seixas aliviou o luto.
Boa lembrana, no fosse a diferena de peso entre os dois. A duras penas, com o auxlio de Elisa, conseguiu enfiar as calas. O palet no abotoa e abriu sob os
dois sovacos mas o descosido s aparece quando Astrio levanta os braos.
Peto foge da igreja e da me, vem para o bar. Cara lavada, cabelos penteados, coisas raras; camisa branca de mangas compridas, gravata borboleta, antigidade do
falecido Major. O pior so os sapatos. Os ps, livres nas ribanceiras e na correnteza do rio, no se adaptam. Osnar goza a figura e as caretas do menino:
- Sargento Peto, voc est uma tetia. Se eu fosse chegado a comer menino, hoje era seu dia. Sua sorte  que no sou apreciador.
- No chateie.
Apesar dos sapatos, Peto no esconde a satisfao: durante a permanncia da tia dormir em casa de Astrio, no quartinho dos fundos, longe das vistas e dos horrios
estritos da me, poder acompanhar Osnar e Aminthas, Seixas e Fidlio pelas ruas,  noite, nas escusas caadas a provocar comentrios e risos:
- Passa fora, moleque, isso  conversa de homem...
S Osnar abre-lhe perspectivas!
- Um dia desses, Sargento, eu lhe levo pra caa. T chegando a idade.
V preparando a espoleta.
Perptua decidira que no quarto de Peto ficar a enteada de Antonieta.
Como o resto da casa, foi lavado com creolina, esfregado, varrido at a ltima partcula de p, folhas de pitanga no cho, para perfumar. H uma semana a pequena
Araci, emprestada por Elisa pelo tempo que durar a estadia das paulistas, se entrega a uma faxina em regra.
Residncia confortvel, na esquina da Praa da Matriz com o Beco das Trs Marias, Peto no necessitaria mudar-se, caso Perptua tivesse aceito a opinio de Astrio:
as duas hspedes no quarto de Ricardo, os dois meninos no de Peto. Mas Perptua, num desparrame de cortesia - fora atacada da mania de grandeza ou tinha algum plano
armado na cabea? Dona Carmosina ainda no chegara a uma concluso -, decidira colocar Antonieta na alcova Desca e ampla, deixando-lhe, por mais inacreditvel possa
parecer, o uso da cama de casal com colcho de l de barriguda, onde rebolara com o Major durante o tempo feliz e curto do matrimnio. Contado no se acreditaria:
o quarto dela e do Major? Impossvel! Como as coisas mudam, Deus do Cu!
Dona Carmosina arregala ao mximo os olhos midos, num espanto.
Cama de casal, colcho de barriguda, penteadeira, armrio enorme, mveis pesados, de jacarand. O Major comprara a casa mobiliada nas vsperas do casamento, uma
pechincha. O nico herdeiro de dona Eufrosina, falecida aos noventa e quatro janeiros, um sobrinho, vivia em Porto Alegre, nunca pusera os ps em Agreste, mandou
vender casa e mveis por qualquer oferta, desde que  vista. Tampouco havia outro candidato, nem  vista nem a prazo.
Da sala de visitas, enorme, oito janelas dando para a rua, sai o corredor at a sala de jantar. De cada lado, dois quartos, um dos quais, em frente  alcova, desde
priscas eras transformado em gabinete de leitura pelo finado doutor Fulgncio Neto, esposo de dona Eufrosina, mdico de fama nos idos do progresso. A secretria,
com dezoito gavetas, sendo uma delas cofre com segredo; a estante com livros de medicina em francs e obras de Alexandre Dumas e Victor Hugo. O Major no buliu no
gabinete, gostava de nele permanecer aps o almoo, sentado em frente  escrivaninha, lendo jornais da Bahia, atrasados de uma semana, ou tirando uma pestana na
rede. Ali Ricardo faz banca, mesmo em frias, uma hora por dia. A seguir, face a face, os quartos de Ricardo e Peto, ambos requisitados por Perptua. No de Ricardo,
onde fica o oratrio, dormir ela prpria; no de Peto, a tal de Leonora. Ricardo ocupar o gabinete onde j esto seus livros de estudo.
Acomoda a moleca Araci no depsito de frutas, no quintal, sobre improvisada enxerga. Perptua comandou a arrumao e a limpeza da casa. Comandou tudo quanto se referiu
 chegada e estadia de Tieta.
Cheia, a Agncia dos Correios e Telgrafos: o comandante Drio e dona Laura, Barbozinha de barba feita, homenagem  antiga namorada, Ascnio Trindade, representando
a Prefeitura - doutor Mauritnio cada vez pior, vendo mulheres nuas - e Elisa num negro, vaporoso e esvoaante vestido de gaze, dos enviados por Antonieta nos pacotes
de roupa usada. Exibira antes audacioso decote: agora composto, fechado no pescoo, exigncia de Perptua, fiscal de trajes e modos para o desembarque.
- Pelo menos tape os peitos. Isso  vestido mais para baile do que para luto, mas sendo o nico preto que voc tem, v l, desde que o arrume. Ela vai chegar de
luto fechado, a gente tem de estar de acordo. Imagine que o Velho queria que se fizesse uma festa, convidasse meio mundo. Ela chega chorando a morte do marido e
em vez de luto encontra festa, j pensou?
Para que as flores no murchem, dona Carmosina colocou o buqu dentro de um copo com gua. Sob a influncia da dialtica de Perptua, discutira com a me, talvez
flores no cassem bem por ocasio da chegada da viva aflita, em nojo recente. Dona Mil no quis conversa: entregue as flores a ela e diga que fui eu quem mandou.
Se agente manda flores at para defunto, por que viva no h de ter direito? Ora essa...
- meu Deus, no chega nunca! - Elisa, por mais que se esforce para manter-se compungida, no consegue conter a agitao, misto de alegria e medo.
Alegria sem medida de conhecer a irm, a fada, a rica, a elegante, a gr-fina, a paulista, a protetora. Receio por causa da louca mentira, da omisso da morte de
Toninho com o fim de embolsar a ajuda mensal. Dona Carmosina fizera o possvel para acalm-la.
- Quando ela perguntar por Toninho, o que  que eu vou dizer?
- Diga a verdade. Diga que eu lhe aconselhei a no contar e deixe o resto por minha conta.
- Ser que ela me perdoa?
- Conheo Tieta, no vai fazer caso. Pode deixar comigo.
Persiste outra nuvem a turvar sua alegria: a vinda da enteada, quase filha, dona de um lugar no corao de Tieta que Elisa deseja todo inteiro para si.
Na entrada do cinema, o rabe Chalita palita os dentes, perdido em tecordaes: Tieta era mais bonita ainda do que a irm, a mulher de Astrio.
Bonita e atirada, um fogo a Lhe comer as carnes. Na porta lateral, a sorveteria:
um pequeno balco, uma gaveta e a catimplora que o moleque Sabino maneja, enchendo-a diariamente de sorvete de fruta para ganhar uns nqueis, pagos pelo rabe. Tambm
Sabino se botou de cala e camisa limpas, sapatos e meias. Por seu gosto, teria posto fumo no brao, considerava-se da famlia;
pau mandado de Astrio, caixeiro, moo de recados, tirador de cocos. S no usou braadeira negra com medo de dona Perptua, uma peste. Sentado no passeio, Bafo
de Bode curte a cachaa em silncio. Curioso de ver a estampa dessa falada filha de Z Esteves, que ele no conhece: quando chegou a Agreste, havia vinte e cinco
anos, em busca de remdio e de aguardente, ela j partira, coube-lhe recolher esmaecidos ecos da surra nos ltimos comentrios, gastos e vasqueiros.
No ponto exato onde a marinete pra, junto ao poste diante do cinema, na calada, Z Esteves e a esposa Tonha. Para o casamento de Elisa o Velho mandara tingir de
preto, em Esplanada, antigo e desbotado traje azul. no O veste desde ento. O palet parece um saco, as calas frouxas. Z Esteves j no  o gigante de outrora,
um p de jacarand, uma fortaleza, mas ainda se mantm firme, ali, de p, h quase duas horas, mascando fumo, apoiado no basto. Tonha, se pudesse, pediria uma cadeira
ao rabe; onde a coragem de expor ao Velho seu cansao? Usa luto aliviado, apenas saia preta e faixa de crepe na blusa branca. Tambm remoto  o parentesco, como
fez notar Perptua, marcando diferenas e distncias.
Com duas horas e dez minutos de atraso, soa na curva a buzina da marinete de Jairo, correria geral. Perptua e padre Mariano ordenam as tropas. A marinete desponta
no comeo da rua. Ouve-se um primeiro soluo, antes da hora.
Minuciosa descrio do confuso desembarque de Tieta, a filha prdiga ou Antonieta Esteves Carelli, a viva alegre na primeira fila, a famlia, tristeza expressa
nos olhares, nas lgrimas, nos trajes. Um passo  frente dos demais, o velho Z Esteves, mascando fumo. Em seguida aos enlutados parentes, o reverendo, os meninos
do catecismo, as pessoas gradas, dona Carmosina, buqu em punho, o colorido alegre das flores destoando do crepe e do choro - essa criatura para aparecer passa por
cima dos sentimentos mais sagrados, indigna-se Perptua, por baixo do vu preso ao coque, a lhe cobrir o rosto. Depois, as beatas e o resto da populao.
A marinete se aproxima, Jairo ao volante, poucos passageiros. Para Jairo dia magro, para Agreste dia gordo, dia de matar o carneiro pascoal, de foguetrio e festa
em honra da filha prdiga, no fosse ela viva em nojo e dor.
Cabem somente luto e lgrimas, cantoria de igreja.
As conversas cessam, Peto se alteia na ponta dos ps, assim a tia desembarque ele cair fora, arrancar os sapatos. A marinete estanca num rumor cansado de juntas
e molas. Peto conta os passageiros que descem: seu Cunha, um, o casal de roceiros, dois, trs, dona Carmelita, quatro, a criada, cinco, esse eu nunca vi, seis, nem
esse, sete, seu Agostinho da padaria, oito, a mulher dele, nove, a filha, dez, a tia Antonieta e a moa vo ser os ltimos.
Mesmo Jairo salta antes, carregado de maletas e bolsas das esperadas viajantes. Com Jairo fazem onze, agora doze,  ela, por fim.
Ser ela? Peto fica em dvida. no pode ser, a tia deve estar de luto, vu fnebre tapando o rosto, igual  me, no pode ser de maneira alguma essa artista de cinema,
Gina Lollobrigida. Na porta, sobre o degrau, majestosa, Antonieta Esteves - Antonieta Esteves Cantarelli, faa o favor, exige Perptua. Deslumbrante. Alta, fornida
de carnes, a longa cabeleira loira sobrando do turbante vermelho. Vermelho, sim, vermelho igual  blusa esporte, de malha, simples e elegante, marcando a firmeza
dos seios volumosos dos quais se v aprecivel amostra atravs da gola de botes abertos. A cala Lee azul colada s coxas e  bunda, valorizando volumes e reentrncias,
que volumes!, que reentrncias! Os ps calados com finos mocassins Havana.
O nico detalhe escuro em todo o traje da viva so os culos esfumaados, lentes e armao quadradas, o podre do chique, assinados por Christian Dior.
O espanto dura uma frao mnima de tempo, um tempo imenso, uma eternidade.
Peto, vitorioso, exclama:
- A tia no est de luto, me. Posso tirar os sapatos e a gravata?
Antonieta, paralisada sobre o degrau, na porta do nibus: diante dela a famlia de luto pela morte de Felipe, o inolvidvel esposo, e ela em tecnicolor, em azul
e vermelho, blusa aberta, esportivas calas Lee, ai, meu Deus, como no pensara em luto? Estudara cada pormenor e os discutira com Leonora, meticulosamente. Esquecera
o mais importante. Mas j Z Esteves cospe o pedao de fumo e estende os braos para a filha prdiga:
- Minha filha! Pensei que no ia mais te ver mas Deus quis me dar essa consolao antes da morte.
De cima do degrau da marinete, Antonieta reconhece o pai. O pai e o bordo.  o mesmo, o mesmssimo cajado que cantou em suas costas naquela noite de fim do mundo.
Um frouxo de riso sobe dentro dela, no consegue cont-lo, estremece, incontrolvel som a romper-lhe a boca, apenas tem tempo de encobrir o rosto com as mos, antes
de saltar. Acorrem todos a consolar a viva em pranto, filha prdiga afogando os soluos nos braos do pai, comovente instante. Nem Perptua se deu conta. Elisa
chora e ri, de repente desafogada, a irm sendo como imaginara, sem tirar nem pr. nica a estranhar o curioso som inicial, dona Carmosina aproxima-se com as flores
to de acordo com o traje de viagem de Tieta.
Enquanto Tieta vai de abrao em abrao, disputada pelas irms, pelo cunhado, pelos sobrinhos - tire os sapatos, meu lindo, fique  vontade -, presa aos beijos sem
conta, s lgrimas de Elisa, na porta da marinete de Jairo aparece a mais formosa, a mais doce e sedutora donzela, esbelta juventude, uma laide como logo reconheceu
e proclamou o vate De Matos Barbosa.
Parada, a contemplar a emocionante cena, emocionada ela tambm. Encantadora no slaque delav, bon da mesma fazenda rodeado de cabelos loiros, acinzentados pela
poeira, Peto reconhece a prpria mocinha dos filmes de caubi. Um murmrio de admirao percorre a rua, Tieta, desprendendo-se dos beijos de Elisa, apresenta:
- Leonora Cantarelli, minha enteada, minha filha, no tem diferena.
Dona Carmosina volta-se para Ascnio Trindade e o surpreende embevecido. E agora, amigo? Leonora amplia o meigo sorriso, abarcando a todos, detendo-se em Ascnio
a fix-la, atoleimado.
- Feche a boca, Ascnio, e v ajudar a moa a descer - Ordena dona Carmosina.
Adianta-se Ascnio, oferece a mo  paulista: seja bem- vinda s terras de Agreste, pobres, sadias e belas, perdoe o atraso e o desconforto. Ricardo pe o joelho
em terra para pedir a beno  tia mas ela o ergue e o toma nos braos, beija-lhe as faces: meu padreco mais garboso!
Aps compreensvel indeciso, o padre Mariano resolve, no vai perder, por uma questo de protocolo, o difcil trabalho de adaptao de uma ladainha e de quinze
dias de ensaios.
Faz um sinal, os meninos do catecismo cantam:
Vestida de negro ela apareceu Trazendo nos olhos As cores do luto.
Ave. Ave! Ave Anton Ietal A mo ainda na mo de Ascnio, encantada, Leonora deixa escapar o riso cristalino, muito mais cristalino, oh!, muito mais!, do que a danada
Astrud. Finada e sepultada, ali, naquela hora, em frente ao cinema, sob os pneus carecas da marinete de Jairo.
Antonieta, de abrao em abrao:
- Carm, meu anjo, que alegria! Como vai dona Mil? Foi ela quem colheu as flores? Carina... Veja, virei italiana em So Paulo, vou dizer querida e digo carina...
- A Tieta de sempre, jovial, marota, no mudou, mesmo dizendo Carina para dizer querida.
- Barbozinha!  voc? Quase no lhe reconheo!
- As agruras da vida, Tieta, o sofrimento...
- Sempre escrevendo versos? Lembra dos que fez para mim? Lindos.
- Somente e sempre para voc. Est mais moa e ainda mais bonita.
- E voc continua mentiroso, Barbozinha. Adulador.
Ei-la em Sant'Ana do Agreste, em meio  famlia em luto, a ouvir os meninos do catecismo: obrigada, padre, de todo o corao. Do mar, chega a brisa da tarde, vem
saud-la. Com a ajuda de Sabino, Jairo desembarca as malas, a bagagem viaja no teto da marinete, coberta com lona grossa como se alguma cobertura adiantasse contra
a poeira do caminho.
- Vamos, minha filha - convida Z Esteves oferecendo o brao, apoiando-se no basto.
- Para minha casa - tenta comandar Perptua em meio aos destroos da violada compuno.
Cabe-lhe a culpa, a mais ningum. Como pudera imaginar Tieta vestindo luto por marido? Fizera da irm a sua igual, como se dinheiro, alta sociedade, casamento com
paulista rico e comendador do Papa pudessem consertar quem nasceu totta, rebelde a cdigos, leis e respeito humano, sem rgua nem compasso.
Antonieta Esteves Cantarelli toma do brao do pai, circula o olhar, sorri para as beatas, para o rabe Chalita, para o Comandante e dona Laura, para Jairo, para
o moleque Sabino, para Bafo de Bode a fit-la da calada, a medir e conferir. De to msero e podre, cabe-lhe o direito  insolncia. A voz molhada de cachaa vibra
na rua, em aprovao entusistica:
- Viva o belo p de buceteiro!
- Viva! Viva! Vivaa! - Apoiam os meninos do catecismo.
De portas e janelas e do corao de Jesus na sala de visitas ou os primeiros momentos no seio da famlia na esquina da praa com o beco das trs Marias, a comitiva
se detm.
- Chegamos - Anuncia Perptua. - Vamos entrar.
- Tua casa? Esta? A que era do Doutor e de dona Eufrosina? surpreende-se Antonieta. Nas cartas, Perptua referia-se  nossa casinha, adquirida pelo Major antes do
casamento, na praa Desembargador Oliva. Mas, aqui  a Praa da Matriz.
- O nome correto  Praa Desembargador Oliva - esclarece dona Carmosina.
A casa do Doutor, a casa de Lucas. Antonieta veio preparada para enfrentar as recordaes mas os equvocos comearam logo ao desembarque, ao perceber o Velho empunhando
o basto. Nunca imaginara hospedar-se ali, na casa onde Lucas permanecera aps a morte do Doutor, estudando as possibilidades de clinica. Valeria a pena estabelecer-se?
Perptua atribui a surpresa da irm exclusivamente  dimenso da casa, sentimentos opostos a possuem. Satisfao a deleit-la, no  uma morta de fome, miservel
mendiga. Medo da reao de Tieta que pode considerar abuso o pedido de ajuda mensal para a criao dos filhos. Impe-se uma explicao:
- Foi uma ddiva de Deus, cada do cu. O Major pagou uma bagatela pela casa e tudo que tinha dentro.
Os amigos se despedem com promessas de visita prxima:
- Vamos aparecer uma hora dessas - Avisa o Comandante.
- Venham hoje de noite para se conversar.
- Hoje, no,  dia da famlia.
- Dia de matar saudades... - Acrescenta dona Laura, sorridente.
- Amanh, ento.
- Amanh, sem falta.
Pelo gosto de Ascnio, voltaria nessa mesma noite, no basta  famlia o resto da tarde? Alm do mais, Leonora  parente afim, encontra-se cm Agreste pela primeira
vez, no tem saudades a matar, vai ficar  margem da conversa familiar. Pena ele no ter a cara dura de dona Carmosina:
- Pois eu venho  hoje mesmo, com me. Quando sa ela me disse:
Hoje de noite vou em casa de Perptua, visitar Tieta.
- Trouxe uma lembrancinha para ela, uma tolice. Por que no vm jantar com a gente? Posso convidar, Perptua?
- A casa  sua. Graas a Deus, tem comida com fartura.
Antes mesmo de tomar banho - preciso de um banho imediatamente, tenho poeira at na alma, alis precisamos, as duas -, Antonieta esclarece:
- Enquanto ns estivermos aqui, a despesa da casa corre por minha conta.
Perptua esboa um gesto de protesto, no chega a complet-lo, a ricaa corta qualquer tentativa de discusso:
- Se no for assim, pegamos nossas malas e vamos para a penso de Amorzinho.
- Nesse caso, no discuto... - Apressa-se Perptua a concordar, liberta do peso maior. Resta o menor: as despesas feitas para acolh-las convenientemente, divididas
entre ela, Astrio e o Velho.
Nem esse prejuzo tero, Antonieta completa:
- Comeando pelo que j gastaram para nos esperar.
- Ah! Essa no! - intromete-se Elisa: - Uma besteira, coisa  toa.
Fizemos uma vaquinha, coube um pouco a cada um.
- Tu fala como se fosse rica
- Perptua desmascara a irm, no h coisa pior do que pobre metido a besta: - se esquece que Astrio teve de tomar dinheiro emprestado a Osnar para completar a
parte de vocs?
- Cala a boca, mulher! - Elisa empalidece. Perptua a humilha de propsito em frente  irm e  forasteira. Por que expor diante da enteada a pobreza do casal?
- Perptua tem razo, Elisa, minha filha. Se eu no pudesse, est certo.
Mas por que ho de fazer sacrifcios sem necessidade? Mais tarde Perptua ou Astrio me diz quanto gastaram e pronto.
Enquanto fala, Antonieta aproxima-se, abraa Elisa, beija-a afetuosamente - h entre elas um ar de famlia, uma parecena no rosto e no jeito, s que a mais moa
no herdou a obstinao, a teimosia do velho Z Esteves a marcar Perptua e Antonieta, aquela dureza de pedra, a audcia das cabras.
Mas no herdou tampouco a resignao da me.
- no tenha vergonha da pobreza, minha filha. Hoje possuo alguma coisa mas enquanto fui pobre- eu comi o po que o diabo amassou -, nunca me fiz de rica. Se fizesse,
quem ia me ajudar? Nem bem conheci Felipe, fui logo pedindo dinheiro emprestado a ele.
Acarinhada, tratada de filha, Elisa recupera as cores e o prejuzo:
- Pediu dinheiro emprestado ao noivo?
- Que noivo nem meio noivo, s depois  que veio o noivado. Quando fui apresentada a ele, estava tesa. Um dia, com mais tempo, eu conto. Agora, quero  tomar banho.
Queremos, no , Nora?
- Nora?
-  o apelido dela. Essa, eu criei. Veio para minha companhia menininha, o que sabe, eu ensinei. Onde fica nosso quarto?
- O seu aqui, Tieta,  a alcova. O de Leonora ali, aquele - aponta Perptua. - Cardo, Peto, levem as malas. Ajude tambm, Astrio.
Por que Tieta no protestou, no pediu para ficar junto com a filha de criao como exigiam as boas maneiras? A janela da alcova abre sobre o Beco das Trs Marias,
a porta face a face com a do gabinete.
- Dorme algum no gabinete?
- Ricardo.
- Eu, tia. Qualquer coisa que precise de noite,  s chamar.
Moreno, alto e forte, a suar sade e inocncia na batina. Se fosse em So Paulo usaria cabelos nos ombros, no tomaria banho, puxaria fumo, perdido maconheiro como
os filhos de tantos amigos seus: Antonieta est cansada de ouvir histrias tristes. Sorri para o sobrinho.
- Se o bicho-papo quiser me pegar, grito por voc. - Est tocada pelas atenes e gentilezas: - Tomaram tanto incomodo por nossa causa.
- Demais. - a voz musical de Leonora, em tom menor, no se eleva nunca: - a gente pode ficar as duas no mesmo quarto.
- agora j est tudo determinado,  tarde - diz Tieta, por que diz? A sombra de Lucas, na alcova.
Astrio, Ricardo e Peto sem sapatos, conduzem malas e pacotes.
- Cuidado com essa caixa, Peto.  frgil. Alis, o melhor  eu entregar logo.
Antonieta toma o embrulho majestoso, coloca-o sobre a mesa da sala de jantar, em torno  ansiosa curiosidade dos parentes:
- Uma lembrana para tua casa, Perptua.
Experiente, Astrio desfaz os ns do cordo encerado, enrola-o, dobra o papel grosso, timos, mesmo sujos sero teis na loja. Cresce a ansiedade ante o vistoso
papel para presente, fita cor- de-rosa, larga, o lao formando uma flor.
- A fita voc desata, Perptua - Astrio cede-lhe o lugar.
Contendo o alvoroo, Perptua toma da ponta da fita, l a etiqueta: Do Senhor Jesus - objetos religiosos  vista e a prazo. Pague sua devoo em doze meses. Ser,
por acaso, aquilo com que h tanto tempo sonha, acalentado projeto de compra, encomenda a ser feita na Bania? Teria havido inspirao divina a comandar a escolha,
iluminando o pensamento de Tieta? Deus, por vezes, usa empedernidos pecadores como instrumento para recompensar os custos.
Puxa a fita, surge a caixa branca. Retira a tampa, entrega-a a Astrio de que matria  feita assim to leve? Isopor, explica Antonieta ao cunhado.
Uma exclamao geral, de admirao e aplauso. Do peito em chamas de Perptua escapa um oh! de gozo profundo ao enxergar, na caixa de isopor, o objeto de seus sonhos,
apenas bem maior em tamanho e em boniteza, em virtude certamente. Quanto maior, mais bonita e cara a imagem, mais santa e milagrosa. Deus inspirara Antonieta: na
caixa, alto- relevo em gesso, o Sagrado Corao de Jesus. Nos cabelos, na face, nas mos, nas vestes, no manto, todas as cores do arco- ris. Exposto o rubro, amantssimo
corao, a chaga aberta. A gota de sangue semelha descomunal rubi. Pea digna do altar-mor da Matriz de Aracaju. Ajudada por Astrio e Ricardo, com extremo cuidado
Perptua retira a pesada efgie - nem quadro nem escultura, tendo algo dos dois e sendo coisa nova, jamais vista em Agreste, alto- relevo para ser pendurado em parede.
Nas costas, forte armao de arame;  parte, uma espcie de base de madeira onde pous-lo. At os pregos vieram, grandes, especiais, de ao cromado, coisa de ver-se.
Tieta respira:
- Felizmente chegou inteiro. Para voc botar em sua sala de visitas, Perptua.
- Ai, que coisa mais divina! At tenho palpitaes. no sei como agradecer, mana!
Perptua beija a irm na face, de leve e de longe. Assim beija os filhos e a mo de Dom Jos, a do padre Mariano. ao Major, como teria beijado? Se lhe fosse perguntado,
Perptua responderia que os casais unidos em santo matrimnio, abenoados por Deus, tm direito ao convvio carnal. Direito e obrigao. Mas certamente no diria
que da lembrana daqueles beijos ela vive.
Peto alisa o isopor:
- D a caixa pra mim, me?
- Est maluco? Largue essa caixa a. Deixe tambm o papel e o cordo, Astrio. Posso precisar.
- Vou buscar o martelo, me? - Ricardo se oferece, segurando a peanha.
- No tem nenhum que se compare nem aqui nem em Esplanada. O de dona Ada e de seu Modesto, ao lado desse, desaparece - vangloria-se Perptua.
- Irm como essa  que no h igual no mundo. - mesmo ao adular, Z Esteves  bravio e virulento.
Para Perptua no  hora de discutir qualidades e defeitos de Tieta, nem sequer a maneira imprpria como conduz a viuvez. O ouro paulista, a comenda papalina, a
imagem do Corao de Jesus fazem- na perfeita.
- Tem razo, Pai. Irm generosa como Tieta no h.
Custa-lhe pronunciar as palavras mas o futuro dos filhos exige sacrifcios, o Major os deixou aos seus cuidados.
Ao voltar, Ricardo no encontra a tia; preparam-se, ela e a moa, para o banho. Os demais encontram-se na sala de visitas. Astrio segura a peanha, Perptua j escolheu
o lugar para a divina imagem: entre os retratos coloridos, ela de noiva, o Major de farda - trabalho de uma firma do Paran, encomenda feita logo aps o casamento.
Ricardo encosta a escada na parede, empunha o martelo. no chegou ainda a uma concluso sobre a santa com a qual a tia se parece. Antes de v-la, ele a imaginara
Senhora Sant'Ana, a padroeira, a av. Da Senhora Sant'Ana no tem nada. Talvez Santa Rosa de Lima, Santa Rita de Cssia? Elisa estende os pregos ao sobrinho. Aqui,
me, est bom?
De cima da escada, Ricardo enxerga a tia saindo da alcova, levando a toalha de banho e a saboneteira, o banheiro fica no quintal. Morena, onde a longa cabeleira
loira do desembarque? Cabelos negros, crespos anis como os dos anjos na igreja do seminrio. Pele trigueira, perna e coxa aparecendo sob o neglig agitado pela
brisa, Ricardo desvia os olhos. Perptua fita a parede, talvez um pouco acima, a est bem. no v a irm aproximando-se,  lavont no robe rendado sobre os seios,
vaporoso, preso apenas por um cinto, esvoaando na brisa da tarde a morrer nas barrancas do rio. no v ou no quer ver? Tieta olha e aprova, vai ficar bacana. Elisa,
babada com o santo e com o penhoar.
- Que amor, esse robe!
Perptua prefere no reparar:
- Vou falar com padre M ariano para vir entronizar no domingo, depois da missa.
Nem Santa Rita de Cssia, nem Santa Rosa de Lima, com que outra ento no flor-santrio? A caminho do banho, as ancas balouando, que santa ser ela, a tia de So
Paulo?

Captulo dos presentes onde se abrandam coraes a cerimnia da entrega dos presentes realiza-se aps o jantar, festa de exclamaes e risos: recolhidos os pratos
pela pequena Araci, retirada a toalha, Antonieta roga a Ricardo e Astrio busquem na alcova a mala azul, a grandona, nica ainda fechada. Colocam- na sobre a mesa,
Astrio encarrega-se de abri-la. Risinhos nervosos, a famlia na expectativa, Peto indcil alongando o pescoo para espiar dentro da valise. Tambm Leonora trouxe
do quarto uma bolsa de viagem e, tendo descerrado o zper, a mantm no colo, caixa de surpresas.
Cabem a Z Esteves as regalias de prioritrio: num estojo de luxo, relgio e pulseira de ouro - banho de ouro:
- Repare a marca, Pai. Vosmic sempre desejou ter um relgio Omega, me lembro da inveja que tinha do pataco do coronel Artur da Tapitanga. Por falar nele, ainda
 vivo?
- Vivo e lcido. no tarda a aparecer. Pergunta sempre por voc. Quem informa  dona Carmosina, pimpona ao lado de dona Mil.
- J no tenho vaidade, minha filha. Nem vaidade nem relgio desde que o meu se quebrou e Roque no deu jeito. Agora vou poder ver as horas de novo. Estou voltando
a ser gente, depois que tu chegou.
Leonora mete a mo na bolsa:
- E aqui tem um radinho de pilha, um transistor, para o senhor e dona Tonha ouvirem msica, seu Jos.
- Tomando trabalho com a gente, moa! Um rdio? Quem vai ficar contente Tonha, no  mesmo, mulher? Vive me azucrinando os ouvidos para comprar um...
Tonha concorda, contente demais, tanto desejara! Certa vez realmente atrevera-se a insinuar a compra de um dos mais baratos, insinuao primeira e nica, levara
esporro medonho: tu quer que eu desperdice o dinheiro que minha filha me manda? E se a gente adoecer? E quando a gente esticar a canela? Tu pensa que algum vai
pagar mdico e receita, padre e cemitrio?
No me pea para botar dinheiro fora. Ficou maluca?
A prpria Nora coloca pilhas no pequeno aparelho, irrompe o som de um samba, prefixo de estao de Feira de Santana.
- Maior do que o nosso... - sussurra Elisa a Astrio. Quem sabe o Pai aceita trocar, ficar com o deles, recebendo volta em dinheiro. Tieta pagou a quota das despesas
e, separando o de Osnar, a sobra a gente pode...
No ser necessrio trocar pois Antonieta tira da mala imponente aparelho, sofisticado, quantidade de botes, vrias faixas de onda, antena embutida, entrega  irm:
para voc e Astrio,  japons, no h melhor.
- Valha-me, minha Nossa Senhora! Tieta, voc  demais! - Elisa em nova chuva de beijos, agradecendo o rdio e o perdo: dona Carmosina lhe confirmou j ter esclarecido
o assunto da morte de Toninho, no se preocupe onde e quando, no pense mais nisso.- Veio com pilhas? Quero ouvir o som a gota mesmo.
- Devem estar colocadas. Funciona tambm na eletricidade. Essa carteira, Astrio,  para voc guardar o ganho das apostas no bilhar. E aqui tem mais umas bobagens
para voc, Elisa.
Sortimento completo de cosmticos. Cremes e pinturas, todos os produtos para maquiagem, quanta coisa, meu Deus, vou desmaiar! Ruge mais diferente, desse nunca vi.
Experimente o batom cintilante, recomenda Leonora. No aparelho de rdio, sucedem-se estaes da Bahia, do Rio, de Recife falando para o mundo, de So Paulo e, trocando
de onda, veia! ao seu alcance os cinco continentes - que lngua mais arrenegada  essa? Parece russo, mas  a Rdio de Belgrado, Belgrado  capital de que pas?
Da Iugoslvia, leciona dona Carmosina.
Foi assim, de msica, risos e beijos, foi de festa aquele comeo de noite.
Como ela pode adivinhar o gosto, o desejo de cada um? Como sabe das faanhas de Astrio no bilhar? Dos sonhos de Cardo com a vara de pesca, o molinete, o fio de
nilon, as iscas artificiais? Como adivinhou? Sorri dona Carmosina ao ouvir a pergunta repetida, sem resposta: inspirao divina. Para Peto traga qualquer coisa
desde que no sejam livros de estudo, ele quer somente vadiar, nadar e mergulhar no rio, bater bola na rua com os moleques, assistir s partidas de bilhar, vai completar
treze anos e cursa ainda o Grupo Escolar. Peto ganhou um equipamento de mergulhador: mscara, arpo, ps de pato. aos dois jovens, Leonora ofereceu chaveiros com
a efgie do Rei Pel.
A Astrio, uma gravata. Mantilha cor de chumbo, de Nora para Perptua.
Para Elisa um anelo moderno, de fibra de vidro, a pedra enorme, cor de mbar, a sensao da noite. O ltimo lanamento da rua Augusta na capital paulista, Antonieta
e Leonora tm iguais, s diferem na cor. Nora vai busc-los. O meu est na caixa de jias, em cima da penteadeira, avisa Tieta. Caixa dejias, soa bem aos ouvidos
dos parentes. Leonora exibe os dois anis, verde-esmeralda o seu, branco-esfumaado o de Tieta. Criaes de um artista famosssimo, Aldemir Martins, seus quadros
valem milhes. Muito amigo do Comendador, Tieta o conhece, conhece muita gente importante de So Paulo, na indstria, na poltica, no comrcio, nas artes e nas letras.
Menotti del Picchia freqenta sua casa. Dona Carmosina, leitora de As mscaras e de Juca Mulato, quer saber do poeta, se  to romntico em pessoa quanto sua poesia.
J est velhote mas vive cercado de moas bonitas, ainda no perdeu o apetite, conta Tieta.
Ningum pense ter sido Tonha esquecida, por madrasta. Alm do rdio, ganha saia e blusa, trazidas por Tieta; um colar azul e lils, lembrana de Leonora. Nem sabe
agradecer, limpa os olhos, faz tanto tempo do ltimo presente, uma fivela para prender os cabelos, comprada pelo Velho na feira.
Ainda usa, em sua mo as coisas duram.
Para dona Carmosina, colar, pulseira e anel de fantasia, galanteza de conjunto. Gosta mesmo? Tieta quer saber. Adoro. Adorou tambm a caneta esferogrfica com cargas
de diversas cores: obrigada, Nora, considere-me sua amiga pata sempre. Para dona Mil fazer pacincia, uma caixa com dois baralhos, de plstico, lavveis e um xale
italiano para a cabea. At a pequena Araci, da porta da cozinha a espiar, ganhou um broche, bijuteria em forma de corao para o vestido dos domingos. Uma vez na
vida outra na morte, vai  matin.
Um ostensrio para a igreja, venha ver, Perptua. Acha que o padre vai gostar? Se vai gostar, que pergunta! Custdia mais bela, deve ter custado os tubos. no foi
barato mas no foi tambm todo esse dinheiro. Para remir os meus pecados... - Tieta ri, joga a cabea para trs, Ricardo no pode imagin-la pecadora. Que santa
rene a alegria e a devoo?
Pronto, acabaram-se os presentes. Ainda no, falta o porta- retrato de prata onde Perptua colocar a fotografia do Major envergando a farda de gala da Policia Militar.
A viva perde a fala, faz um gesto, Ricardo entende, vai buscar o retrato guardado a sete chaves na escrivaninha. Agora, emoldurado em prata sobre a mesa, o perene
sorriso (o bestial sorriso do Major no dizer de Aminthas, metido a humorista), a fisionomia franca, s falta o vozeiro.
Perptua fita longamente o falecido: o esposo fizera-lhe todas as vontades e dois filhos. Tieta conseguira comov-la, uma lgrima brota dos olhos gzeos, a primeira
lgrima genuna chorada por ela aps o pranto pela morte do Major. Perptua amolece, eleva a voz sibilante:
- Ele era bom demais. Eu no pensava mais em casar, muito menos num marido como ele. Minha natureza . .. - procura a palavra.. ..rspida. Padre Mariano diz que
eu no sei o que seja misericrdia. Antes de casar com Cupertino, s pratiquei o mal pensando fazer o bem. Quero que voc, Antonieta, me...
Dona Carmosina arregala os olhos midos. Perptua vai pedir perdo  irm, fato inaudito. Mas Tieta corta a frase:
- lsso tudo j passou, Perptua. Eu tambm no mereci o homem bom que tive e fez de mim o que sou hoje. no demonstro mas sinto demais a falta dele. Pena que o Major
tenha morrido sem dar tempo da gente se conhecer.
Mas ficaram os filhos. - Estende os braos: - Venham c, meus amores, beijar essa coroa que  a tia de vocs.
De batina, to engraado e sem jeito, o mais velho. O mais novo, matreiro, esperto, um azougue. O beijo de Ricardo apenas roa-lhe as faces, o do pequeno  clido,
j tem malcia.
Do camisolo, da camisolinha, do jarro com gua e da orao pagara a promessa ainda no seminrio, na semana dos exames, aps receber carta de Perptua com as novidades:
a tia gozando sade e os projetos de viagem. Morte houvera mas do Comendador, antes assim. Durante sete noites, Ricardo macerara os joelhos sobre gros de milho,
obtidos na despensa, e adquirira o hbito de rezar uma salve- rainha pela sade da tia anci, de to velhinha av.
A vida  um alforje de surpresas, afuma Dom Jos nos sermes dominicais, sobra-lhe razo. Ricardo ficou abobado quando vislumbrou tia Antonieta na porta da marinete,
de anci e av no tinha nada. Nem parecia viva, no pusera luto. Cabeleira loira, saindo do turbante, rolando nos ombros, o corpo apertado na blusa vermelha, na
cala jean, a despertar exclamaes. no apenas o brado, o viva de Bafo de Bode, indecncia!
Ricardo ouvira igualmente o comentrio de Osnar, em voz baixa, destinado a Aminthas:
- Que pedao de mulher ela virou! Quebre! Cabrona! - Elevava a voz: - Uma fruta madura, Capito Astrio, parabns pela cunhada. Osnar distribua patentes militares
entre os amigos. Seu Manuel era Almirante. Dona Carmosina, Coronela da Artilharia Pesada.
Engraado: no ficara nem desiludido nem frustrado com a brusca mudana da imagem concebida- surpreende-se Ricardo a pensar enquanto retira a batina, veste o camisolo,
ajoelha-se para recitar as oraes e bendizer ' o Senhor que fizera a tia adivinhar o presente desejado. Escondera a vara de pesca para impedir fosse Peto o primeiro
a us-la, o irmo no tem o menor respeito pela propriedade alheia, um anarquista. Reza a Salve- Rainha pela sade da tia, merecedora.
Estende-se na rede. Da alcova, a luz acesa ilumina o corredor em frente ao gabinete, tia Antonieta fora ao banheiro. Em lugar de uma velhinha, de uma av, uma verdadeira
tia, alegre, flamante- e ele a imaginara mais idosa ' do que a me. Um absurdo. Ricardo a ouvira dizer a idade a Barbozinha:
quarenta e quatro, meu poeta. Aqui no posso esconder, todos sabem. Fazem vinte e seis anos que fui embora, acabara de completar dezoito. Em So Paulo ' confesso
trinta e cinco, pareo mais?
A me, ele sabe, diminui a idade. Devota e exigente, no admite mentiras e, no entanto, na hora de revelar a idade... A verdadeira est na certido de casamento,
trancada ali na escrivaninha junto com as escrituras das casas, a patente do pai, a cademeta militar, os louvores nas ordens de servio. A tia no precisa negar
porque  bonita. Bonita no  bem o termo, Ricardo procura a palavra certa: bonitona. Nela tudo  grande e vistoso. Com que santa se parece? Com nenhuma das conhecidas,
nem Santa Rita de Cssia, nem Santa Rosa de Lima. Tia Elisa, quando melanclica, recorda Santa Maria Madalena. A me sempre de luto  Santa Helena com traje negro
de viva e vu de cinzas. Mas a fora a desprender-se da tia, qual delas a possui? Apenas chegou e imediatamente passou a comandar. Por ser rica e generosa, sim,
certamente, mas no s por isso. H algo mais, indefinvel, a impressionar Ricardo, a impor-se, no sabe explicar o que seja. Ele a enxerga cercada por um halo luminoso,
como certos santos. Santa? Pela bondade, pela grandeza da alma, mas ela exibe outros atributos, carnais. Humanos, no carnais, palavra maldita, os pecados carnais,
pagos com as chamas do inferno durante a eternidade.
Passos no corredor,  a tia de volta do banheiro. A preced-la, chega o perfume, o mesmo dos envelopes, desprendendo-se a cada passo, anunciando-lhe a presena prxima.
Ainda bem que o padre confessor lhe disse no haver pecado em perfume de velha tia. Velha? Madura.
Fruta madura fora a expresso usada por Osnar para classific-la. Na hora confusa do desembarque, Cardo achara todo o palavreado do boa vida uma falta de respeito.
Mas agora, ao ouvir os passos da tia, ao sentir-lhe o perfume, a comparao com uma fruta madura, rica de sumo, na plenitude da fora, parece-lhe correta, no v
desrespeito, despropsito, pecado. Desrespeito compar-la com as cabras, isso sim. Osnar no tem salvao.
Antonieta conduz o jarro esmaltado cheio de gua. Nas sombras do corredor pisa a ponta do robe longo, tropea, vacila, vai cair. Ricardo acorre a tempo de sust-la
e tomar do jarro, levando-o para a alcova.
- Obrigada, meu bem. - Com um sorriso gaiato, mede o sobrinho, enorme no camisolo de dormir: - Voc ainda dorme de camisolo?
- No comeo do ano, vou passar para a diviso dos maiores e dormir de pijama... - explica orgulhoso. - Mas me s vai comprar quando eu for pro seminrio.
Por baixo do penhoar semi-aberto, a curta camisola cor- de-rosa mais revela do que esconde as graas da tia, Ricardo desvia os olhos, pousa o jarro na argola do
lavatrio.
- Traga o lavatrio para aqui e bote um pouco de gua na bacia- pede Antonieta, sentada ante o espelho da penteadeira, cremes diversos em sua frente, vidros com
lquidos coloridos, algodo, um exagero de frascos e potes.
Tia Elisa no tem nem a metade, a me no se pinta desde a morte do pai.
Derrama a gua, toma o rumo da porta. A tia observa-lhe os movimentos:
- Vai embora sem me pedir a bno?
- A bno, tia. Deus lhe d boa noite. - Dobra o joelho: - obrigado pela vara de pesca.
- Assim, no. Aqui perto e com um beijo.
Cardo beija-lhe a mo, ela toma-lhe do rosto e o beija em cada face. O perfume sobe dos seios. Mesmo sem querer, Ricardo os vislumbra, ou os adivinha sobrando da
camisola. Abre, dissera Osnar.
Deita-se na rede, a luz permanece acesa no quarto da tia a desfazer a maquiagem, entra uma rstia no gabinete pela fresta da porta. Ricardo, de sono fcil - apenas
cai na cama e os olhos se fecham -, hoje no consegue adormecer. Estranha a rede, quem sabe? Confuso igual  do desembarque quando viu a tia na porta da marinete,
o oposto da imagem concebida na hora do anncio da morte. O melhor  rezar. Desce da rede, ajoelha-se, cruza as mos, Padre Nosso que estais no cu. O pensamento
em Deus, louvado seja.
Onde Perptua, cunhada atenta, cuida da alma do comendador enquanto Tieta e Leonora, em elegantes modelos transparentes, empolgam o burgo e Ascnio trindade explica
o problema da luz eltrica pela manha, durante o caf gordo - inhame, aipim, fruta-po, banana cozida, cuscuz de puba mandado por dona Mil; como manter a linha
e no engordar? - Perptua comunica os horrios da missa pela alma do Comendador e da entronizao, a missa no sbado, s oito horas, a entronizao no domingo,
s onze. Antonieta se alarma: se no contiver a irm mais velha, passar a temporada de frias na igreja, adeus projetos de praia, de passeios.
- Missa? J mandamos rezar, em So Paulo, na igreja da S. De stimo dia, de ms. Vrias.
- Isso no tem importncia, quanto mais melhor para a alma dele.
Como  que a gente ia ficar se no mandasse celebrar nem uma missa? Eu, Elisa, o Velho? O que o povo havia de dizer? Um comendador do Papa, um nobre da Igreja, ainda
hoje padre Mariano repetiu: temos de cuidar da alma dele. Fez uma carrada de elogios a voc. Por causa do hostirio.
- Voc j esteve com o padre, hoje? A que horas?
- No perco a missa das seis. Nem eu nem Ricardo, quando est aqui.
 ele quem ajuda.
Ricardo aproveita e pergunta se pode tirar a batina, botar o calo, ir at o rio, experimentar o molinete. Antonieta adianta-se :
- Pode, sim, meu filho. V brincar. E s volte na hora do almoo.
- Obrigado, tia. - Sai rpido antes que a me proteste.
- Uma graa, esse teu filho estudante de padre, ainda no me acostumei. De dia de batina, de noite de camisolo. Tamanho homem, Perptua!
Vou comprar um par de pijamas para ele.
- Vai comear a usar quando voltar para o seminrio. Fiz uma promessa  Senhora Sant'Ana: se, um dia, Deus me desse um filho, ele seria padre.
Ricardo foi o primeiro, pusemos o nome do av, do pai do Major. Gosta de estudar, tem temor a Deus, estou contente com ele.
Tieta vota ao assunto da missa:
- Que droga! Eu tinha pensado passar o fim de semana em Mangue Seco, mostrar a praia a Leonora, ver se escolho um terreno para comprar. Ia combinar hoje com o Comandante,
ele nos convidou quando chegamos.
- Eu tambm vou, tia. - De calo, segurando os ps de pato e a mscara de mergulhador, Peto espera o irmo.
- Este sbado no vai dar jeito. Voc no pode faltar na missa. Nem na entronizao, foi voc quem me deu o Sagrado Corao. J pensou? So coisas santas, mais importantes
do que praia e banho de mar - fora Perptua.
Antonieta controla-se, engole o mau humor. Tambm, que idia a sua, vir carregada de trofus religiosos, ela que nunca fora de missa e sacristia!
Culpa de Carmosina: Perptua tem uma Santa Ceia na sala de jantar, se voc trouxer um Corao de Jesus para a sala de visitas, a beata vai ficar maluca de contente.
no esquea uma lembrana para a Matriz, padre Mariano s faltou lhe canonizar no sermo em que fez seu epitfio. Foi atrs dos conselhos de Carm, o resultado 
esse: um porre de igreja. Chegou sonhando com a praia de Mangue Seco, merda! Engole tambm o palavro.
De shorte,  mostra as longas pernas, as modeladas coxas, a blusa amarrada sob os seios, o umbigo de fora (ai, esses costumes de So Paulo, os meninos vo perder
a virgindade dos olhos! Perptua toca com os dedos as contas do tero no bolso da saia), Leonora sorri, acalma Tieta:
- Vamos  praia noutro dia, mezinha. Dona Perptua tem razo, a missa  mais importante. - Sorri para Perptua: - mezinha veio falando em Mangue Seco a viagem
toda. Mas a missa  sagrada.
Muito bem, assim fala uma boa filha, mesmo sendo paulista, pouco atenta ao rigor do luto, aos prolongados ritos da morte, obrigatrios e rgidos em Agreste. Se Leonora
se vestisse com decncia, Perptua s encontraria elogios a lhe fazer. Que necessidade tem de exibir o umbigo, que beleza existe num umbigo, pelo amor de Deus? Quem
sabe, Peto poderia responder pois O olho apreciador vai e volta, das coxas para o umbigo, para a barriga de bilha, torneada.
- Tem razo, Nora. Continuo cabeuda como uma cabra velha.
Quando quero uma coisa no vejo nada em minha frente. Iremos a Mangue Seco no fim da outra semana.
Conduzidas por Ricardo - vista a batina, acompanhe sua tia - foram '  tarde conhecer a casa de Elisa. Barraco de pobre, mana, caro s o aluguel.
Caro? Se fosse em So Paulo... L, para comear, s os multi-milionrios moram em casas, os demais vivem atulhados em apartamentos ou apodrecem em cortios, sardinhas
em lata. Em compensao, cada apartamento mais maravilhoso, no ? O de vocs, conte... Fica para depois, com tempo, agora precisamos ir. no antes de comer uma
fruta, um doce, tomar um clice de licor seno me ofendo. Doce de ara, raramente se faz, delicioso! Licor de jenipapo. O que eu vou engordar, meu Deus! Gulosa,
de volta aos sabores da infncia, Tieta repete a dose.
Na rua, encontram Ascnio Trindade. Por acaso ou de propsito, deixou ele a Prefeitura s moscas? Querem ir aonde? Tem um passeio bonito: ali adiante o rio se alarga
e forma pequena bacia, reduto das lavadeiras, lugar lindo, chama-se Bacia de Catarina, nome certamente posto por um literato, antepassado de Barbozinha. Ou por ele
mesmo noutra encarnao. Hoje no, tem de visitar a Agncia dos Correios, prometeram a Carmosina. Vo ao Arepago? ao qu? Arepago,  o apelido que Giovanni Guimares,
um jornalista da capital, botou na Agncia dos Correios quando esteve em Agreste: ali se renem os sbios. Gozado! Leonora aberta em riso, cristal a romper-se nas
ruas de Agreste.
Breve parada na porta do cinema para dizer boa tarde ao rabe Chalita - ainda se lembra de mim? Quem pode te esquecer, Tieta? Sorvete de mangaba, Leonora no conhece,
vai ver o que  bom. Hoje  de graa, oferta da casa: o rabe se cobra lavando a vista em Tieta e na moa. Regala-se com a viso de mil e uma noites sob o transparente
tecido dos modelos, iluminados por um raio de sol. Combinao, angua? Isso no se usa mais, peas de museu. Suti? Para que, se os seios so firmes, no precisam
de armao de entretela a sustent-los? Calola? Minsculo tapa-se xo e basta. Viva a civilizao e voltem sempre, suplica o rabe progressista.
Nas janelas, solteironas e mocinhas debruam-se para enxergar melhor, observando cada passo, cada gesto, comentando os trajes. Voc tinha coragem de usar? Eu? Acho
que no. Pois eu teria, se mame deixasse. Tieta trouxe para Elisa uma minissaia mas ela ainda no se atreveu a estrear.
Alvoroo no bar, a matilha nas portas, brechando. At seu Manuel larga o balco, tambm  filho de Deus. Leonora acha graa em tudo, soltos, o riso e os cabelos;
Ascnio recolhe pela rua pedaos de cristal, recorda um verso ouvido no sabe onde: loira como um trigal maduro. Fica sabendo do adiamento da visita a Mangue Seco
e  convidado para a missa pela alma do Comendador. Tieta deixa-o  vontade:
- Se no quiser, no v. Essa histria de missa de finado, s por obrigao. Alis, Felipe tinha verdadeiro horror a tudo que cheirasse a morte, defunto, cemitrio,
missa de stimo dia. Pelo meu gosto ia a Mangue Seco.
Mas Perptua faz questo, pacincia.
Ascnio no aprova nem desaprova, nessas divergncias de opinies entre as irms no d palpite, mas quanto a ir  missa, isso com certeza:
- No prximo sbado? Comparecerei, sem falta. J estarei de volta.
- Vai viajar? - surpreende-se Leonora.
- Para onde? - interessa-se Tieta.
- Vou a Paulo Afonso tratar do problema da luz eltrica. Esto colocando luz da Hidreltrica nos municpios de toda essa zona do Estado, s deixaram de fora trs
cidades, uma delas  Agreste, uma discriminao sem justificativa, no meu entender. Estou vendo se consigo que voltem atrs e nosso municpio entre na relao dos
beneficiados. Mandei ofcios para meio mundo, sem resultado. Alguns nem tiveram resposta. Decidi falar pessoalmente com o diretor da usina. Numa conversa cara a
cara, quem sabe eu o conveno e boto abaixo essa injustia.
- Vai demorar? - a pergunta de Leonora  um pedido: no demore, volte logo, estou  espera. Assim dizem os olhos.
- No, s dois dias. Pego a marinete amanh, amanh mesmo me toco de Esplanada para Paulo Afonso. Fico l o dia de depois de amanh, quinta-feira estou de volta.
Talvez com uma boa notcia para Agreste.
- Gosto de gente decidida como voc - apoia Tieta: - V, brigue e convena o homem, traga essa luz que Agreste bem precisa.
- Vai conseguir! - exalta-se Leonora: - Vou ficar torcendo.
- Se eu j estava disposto a brigar, agora nem se fala.
Sente-se Ascnio armado cavaleiro andante, partindo para o campo de luta sob a inspirao de sua Dulcinia. ao voltar vitorioso, tendo convencido os frios e distantes
diretores e tcnicos da importncia histrica e das possibilidades tursticas de Agreste, difcil tarefa, rdua batalha, colocar aos ps de Leonora o trofu conquistado:
a refulgente luz da Hidreltrica em substituio  bruxuleante iluminao atual devida ao motor instalado por seu av Francisco Trindade, quando intendente, no tempo
do ona.
Leoncio, ex-soldado da Policia Militar, ex-jaguno, atualmente paisano e capenga- um tiro casual na zona, h vrios anos- funcionrio municipal, pau pra toda obra,
de faxineiro a moo-de-recados, de guardio a jardineiro, surge na esquina, arrastando a perna: reclamam a presena de Ascnio na Prefeitura.
- Me desculpem, preciso ir, sei de que se trata. At logo.
- At quinta, no ? Fico esperando - diz Leonora, os doces olhos.
- Quinta, sim. Mas, se me permitem, passo hoje  noite em casa de dona Perptua para me despedir.
- no precisa pedir licena, venha sempre que quiser- convida Tieta.
- Venha mesmo. Sem falta- refora a moa.
Na esquina da Praa, Ascnio volta-se, Leonora levanta a mo, acena, ele responde. Tieta se diverte:
- J conquistou a Prefeitura, hein, cabrita? Rapaz simptico.
- Um amor... - resume Nora, a voz de enleio.
Da poluio e dos objetos no identificados, captulo muito incrementado ou a visita ao aeropago na porta da agencia dos correios e telgrafos, dona Carmosina estende
as mos em boas- vindas:
- Entrem, meninas, estava esperando.
Comandante Drio levanta-se para cumprimentar as paulistas, logo volta  leitura da notcia na primeira pgina de A Tarde, comenta indignado:
- No  possvel que o governo v permitir esse absurdo. Os diretores de uma fbrica igual a essa, igualzinha, para produzir dixido de titnio, foram condenados
 priso, na Itlia. O juiz, um macho, meteu todos no xadrez.
- Fbrica de qu? Me explique, Comandante.
- Estou lendo na gazeta que acaba de ser constituda no Rio de Janeiro uma empresa para montar uma fbrica de dixido de titnio no Brasil uma monstruosidade.
- Por qu? Troque em midos.
-  a indstria mais poluidora que se conhece. Basta lhe dizer que s existem seis fbricas desse tipo em todo o mundo. Nenhuma na Amrica, nem do Norte, nem do
Sul. Nenhum pas quer essa desgraa em seus limites.
-  assim?
Dona Carmosina intervm:
- Traga o recorte do Estado para Tieta ler. O Estado d So Paulo, jornal de sua terra - ri da pilhria - publicou um artigo contando que um juiz da Itlia condenou
os diretores de uma fbrica dessas  cadeia por crime de poluio.
- Por crime de poluio?  o que se precisa fazer em So Paulo: meter um bocado de gente no xadrez antes que a cidade acabe.
- O pior - acrescenta o Comandante -  que o jornal j adianta que as autoridades no vo permitir a instalao da fbrica no Sul do pas. Querem situ-la no Nordeste.
 sempre assim: o que  bom, fica no Sul. Para o Nordeste sobra o refugo.
-  que em So Paulo, Comandante, a poluio j est de uma forma que ningum suporta mais.
- onde iremos parar? Felizmente, nosso pequeno paraso privado, Agreste, est longe de tudo isso...
Leonora aproveita para o elogio:
- Mezinha sempre me falava que aqui era bonito a bea mas no pensei que fosse tanto.  uma coisa!
- Voc ainda no viu nada... - dona Carmosina seinflama. Agreste, em matria de paisagem, no perde nem para a Sua. Me fale depois de ir a Mangue Seco.
- Quando vo a Mangue Seco? Ficaro conosco, na Toca da Sogra, eu e Laura fazemos questo - oferece o Comandante.
- Muito obrigada. Aceito, at comprar terreno, levantar minha palhoa. Vai ser logo, logo - responde Tieta. - Tnhamos pensado ir nesse sbado, passar o domingo.
Mas Perptua encomendou uma missa para Felipe e vai entronizar o Sagrado Corao de Jesus na sala.
- Tieta trouxe um Sagrado Corao para Perptua que  um colosso.
Pode ser que na Bahia tenha outro igual mas eu duvido - conta dona Carmosina.
- Verei hoje  noite, penso ir com Laura fazer nossa visita de boas vindas. Quanto a Mangue Seco, a casinha est s ordens quando quiserem.
L, todo dia  dia de domingo.
O grupo aumenta com a chegada de Aminthas e Seixas. Os olhos gulosos varam a transparncia dos longos cafetas das duas elegantes. Seixas s falta babar. Aminthas
pergunta ao Comandante:
- Mestre Drio, que histria  essa que est correndo por a? Me disseram que apareceu um disco- voador em Mangue Seco, todo mundo viu.
- Eu soube, os pescadores me contaram. Alguns garantem ter visto um objeto estranho e ruidoso sobrevoando a praia e o coqueiral. Pensei que fosse um avio mas eles
juram que no, j viram passar muitos avies, no iam se enganar.
- Devem ser os amigos de Barbozinha vindos do outro mundo para visitar nosso poeta. Ele diz que se comunica com todo o espao, pela telepatia.
- Voc brinca com Barbozinha mas ele  sincero em tudo que diz.
Acredita piamente nessas coisas - atalha dona Carmosina.
- Um homem to inteligente - lastima Seixas.
- Para mim - diverte-se Aminthas - o que os pescadores viram foi o reflexo de alguma lancha de contrabando... essa histria de disco  pura tapeao.
- No - contesta Drio. - os pescadores no so tolos e por que haviam de querer me enganar? Estou farto de saber do contrabando e, quando acontece,   noite. Alguma
coisa eles viram e ouviram. O qu, no sei, mas bem que podia ser um disco- voador. Ou voc no acredita na existncia deles?
Eu acredito. no nos espritos de Barbozinha mas em seres de outros ?
planetas. Por que s na Terra h de se encontrar vida e civilizao A pequena Araci chega correndo:
- Dona Antonieta, sinh Perptua mandou chamar vosmic e a dona, moa. Seu Modesto est l com dona Ada, pra visitar.
- Que pena, a prosa estava gostosa. Vamos, Leonora. Apaream  noite. At logo, Comandante. Carm, no falte.
Tieta do agreste pastora de cabras descem o degrau do passeio, l se vo l afora. o sol poente ilumina as duas mulheres, lambe-lhe os corpos e os revela doirados
e desnudos, como se a luz do crepsculo houvesse dissohado o vaporoso tecido dos cafets, fascinante moda importada das terras de sonho e fantasia onde nasceu Chalita.
De visitas e conversas, onde Leonora exprime inesperado desejo, a sala de visitas cheia, a noite. a pedido de Tieta, peto encomendara no bar volumoso carregamento
de cerveja, guaran, coca- cola. A tia Antonieta  o novo dolo de Peto, desbancou os mocinhos do cinema, os heris das histrias de quadrinhos. Sabino quebra uma
pedra de gelo no quintal, enviada por Modesto Pires, do curtume. Na beira do rio, o moleque Sabino foi o nico que conseguiu pescar com a vara nova, utilizando o
molinete. Trouxe os peixes para Tieta e lhe pediu a beno. Cardo e Peto vieram carregados de pitus.
A prosa se estende sem compromisso ao sabor dos assuntos mais diversos, a partir da sensao causada pelas modas de So Paulo, as perucas, a transparncia dos tecidos,
as calas justas, as sandlias.
Perptua  contra cafets transparentes, calas coladas modelando bundas, comprimindo ancas, shortes exibindo coxas, blusas amarradas sob os peitos, umbigos de fora,
condena a devassido que vai pelo mundo:
- Podem me chamar de atrasada. Moa solteira, moderninha, v l que use... - extrema concesso a Leonora. - Mas mulher casada, no acho decente. Viva, muito menos,
Antonieta que me desculpe. Se eu fosse Astrio, no ia deixar Elisa usar a tal minissaia que voc deu a ela.
- Voc encruou no passado, mana. - Antonieta desata em riso.
- Agreste inteiro vive no passado - Ascnio Trindade culpa a pasmaceira, responsvel pela lngua das beatas. - at mesmo um homem viajado como o Comandante  contra
o progresso. Quando eu falo em turismo para reerguer a economia do municpio, ele fecha a cara.
- Contra o progresso, vrgula, amigo Ascnio. no confunda as coisas.
Sou a favor de tudo que seja til a Agreste mas sou contra tudo que venha roubar nossa tranqilidade, essa paz que no tem preo que pague. no tenho nada contra
a minissaia desde que a pessoa a us-la tenha condies para isso.
Numa mulher de certa idade j no cai bem.
- Por exemplo? - desafia dona Carmosina.
- Cito o exemplo de duas lindas senhoras aqui presentes: Laura e Antonieta. No meu entender, j passaram da idade.
Dona Laura nunca pensou em minissaias mas ameaa o marido, bem humorada:
- No sabia que voc era to entendido em minissaia, Drio! At parece que j viu muitas... Pois eu vou tomar a de Elisa emprestada e saio desfilando por a, voc
vai ver.
- Para mim no  uma questo de idade e, sim, de fsico. Minissaia no vai com meu corpo, com minhas abundncias - lastima-se Tieta.
Barbozinha, a fumar literrio cachimbo, quase sempre apagado, consola:
- Tens o tipo clssico, Tieta. A beleza suprema, Vnus, era assim. no suporto esses esqueletos que andam exibindo os ossos. no me refiro a voc, Leonora. Voc
 uma laide.
- Obrigada, seu Barbozinha.
- Infelizmente meu poeta ningum pensa mais como voc. s meu,, nico eleitor. - Tieta volta-se para Ascnio - Turismo, em Agreste Acha possvel?
- E por que no? A gua  medicinal, os exames j foram feitos, Modesto Pires mandou as amostras para o genro que  engenheiro da Petrobrs. Os resultados foram
formidveis, tenho cpia na Prefeitura se quiser ver. Modesto Pires est estudando a possibilidade de engarrafamento.
O clima  o que se v, cura qualquer doena. Em matria de praia, onde mais bonitas?
- Isso  verdade, praia igual  de Mangue Seco no vi em lugar nenhum.
Copacabana, as praias de Santos, nem chegam perto. Mas da... Enfim, no :' digo nada, no quero pr gua fria em suas esperanas.  preciso, porm, muito dinheiro,
muito mesmo...
- J disse a Ascnio: deixe Mangue Seco em paz enquanto a gente viver... - resume o Comandante.
- Vou comprar um terreno l, fazer uma casinha de veraneio. Um dos motivos de minha viagem foi esse: adquirir terreno em Mangue Seco e uma casa aqui na cidade, quero
terminar meus dias em Agreste. Enquanto no vier de vez, Pai e Tonha ficam morando na casa, tomam conta. Vim por isso e para tirar esta pobre da fumaceira de So
Paulo - aponta Leonora. - anmica como , naquela podrido.
-  verdade, Tieta, o que os jornais dizem? Que a poluio em So Paulo est ficando intolervel?
- Uma coisa medonha. Tem lugares, nas zonas mais afetadas, onde as crianas esto morrendo e os adultos ficando cegos. A gente passa dias e dias sem enxergar a cor
do cu.
- Com tudo isso, era l que eu queria viver - desafia Elisa.
Tmida, Leonora contradiz, a voz mansa:
- Pois eu adoraria viver aqui. Se pudesse, no saa daqui nunca mais.
Aqui eu respiro, vivo, sonho. L no, l se trabalha noite e dia, dia e noite.
Trabalha e morre.
Ascnio tem vontade de pedir bis: repita essas palavras, so favos de mel
Ah!, se ao menos ela fosse pobre...
To embevecido a contempl-la, nem toma conhecimento do debate acalorado e filosfico, empolgante, travado entre dona Carmosina, Barbozinha e o Comandante Drio
sobre o objeto no identificado, visto pelos pescadores quando sobrevoava as dunas de Mangue Seco e o coqueiral sem fim.
Barbozinha se exalta, em explicaes esotricas, enquanto o Comandante exibe vasta cultura de fico cientfica e dona Carmosina fala em iluso coletiva, fenmeno
corriqueiro. O corte da luz, s nove horas, o badalar do sino da Matriz mandando o povo ordeiro para a cama, interrompe a discusso, todos se pem de p, em despedida.
Mas Tieta rompe a tradio:
- Nada disso, no so horas de ningum dormir. Vamos conversar.
Perptua, mande acender as placas. Onde j se viu dormir a essa hora? Ainda bem que o nosso jovem prefeito vai trazer a luz de Paulo Afonso. Para acabar com esses
horrios de galinheiro. Vamos tomar mais uma cervejinha, um refrigerante. A prosa est to boa...
Rejubila-se Ascnio, prefeito ainda no, apenas provvel candidato.
Volta a sentar-se. Mas o Comandante e dona Laura preferem deixar a continuao da conversa para o dia seguinte e levam dona Carmosina, vo acompanh-la at em casa.
Do bar, chegam Astrio, Aminthas, Osnar.
- Cuidado, prima, para o lobisomem no lhe pegar - recomenda Aminthas a dona Carmosina.
- Se assunte, malcriado.
Elisa e Peto acompanham o grupo dos sonolentos, de m vontade. Elisa arvora ar de vtima, melanclica; Peto pensa em fugir mais tarde em busca de Osnar. Prometeu
lev-lo  caa, no cumpre o prometido.
Tieta convida os dois compadres:
- Entrem, no fiquem a na porta. Venham tomar um gole de cerveja.
Osnar e Aminthas so notvagos, aceitam. Ricardo acabou de acender e colocar lampies de querosene na sala. Perptua ordena-lhe :
- Cardo, v dormir. J passou da hora.
- Boa noite para todos, com a graa de Deus. A bno, me.
Perptua d-lhe a mo a beijar, o rapaz dobra o joelho em ligeira genuflexo.
- A bno, tia.
- Venha aqui para eu te abenoar. Nada de beija- mo. Meu beijo, quero no rosto, Dois, um de cada lado.
Agarra com as mos a cabea do sobrinho enfarpelado na batina, beijo nas duas faces, beijos estalados, deixam a marca do batom.
- Meu padreca!
Tambm Perptua se despede:
- Boa noite. Fiquem  vontade. A casa  sua, Tieta.
To gentil, nem parece a mesma, irreconhecvel.
- Tieta est domando a fera. .. - confia Osnar a Aminthas enquanto as irms trocam abrao e beijo. - Voc j tinha visto dona Perptua beijar algum?
- Perptua no beija, oscula - retifica Aminthas.
Interregno onde o autor, esse pilantra, explica sua posio oportunista enquanto Ascnio Trindade se apaixona, enquanto Elisa e Leonora sonham uma com So Paulo
outra com a paz de Agreste, aproveito para referir-me  notcia publicada nas colunas de A Tarde, lida pelo indignado comandante Drio. Pobre Nordeste!, exclamou
o bravo marujo ante a possibilidade da poluidora indstria estabelecer-se em nossas plagas onde j temos seca e latifndio, o hbito da misria, o gosto da fome
e as famosas trevas do analfabetismo antes to citadas hoje esquecidas: no se falando nelas talvez desapaream na luz dos tempos novos. Jogar sobre tudo isso dixido
de titnio parece-lhe um exagero antipatritico. Opinio dele, da qual, como se ver, h quem discorde, muitos e importantes personagens, alguns to poderosos que
me apresso a esclarecer minha posio: sou neutro. Contaram-me o caso quando aqui cheguei, eu o passo adiante, sem opinar.
Assim, por exemplo, a empresa referida na notcia e no comentrio do jornal pode ser a mesma que deu lugar a tanta discusso, dividindo o povo em dois campos, mas
pode no ser ela, e sim outra, pois nunca ficou completamente esclarecida a origem da sociedade nem a dos diretores, dos patres verdadeiros. Como sabemos, o doutor
Mirko Stefano no passa de um testa-de-ferro a comandar relaes- pblicas e privadas, assinando cheques, abrindo garrafas de usque em rodas alegres, na gentil
companhia de permissivas e agradveis dondocas, acendendo esperanas e ambies, amaciando, passando vaselina para permitir mais fcil penetrao de idias e interesses.
Saiu uma notcia no jornal, em sua divulgao no tenho a menor responsabilidade, no transcrevo sequer o ttulo registrado pela sociedade em causa, nem o dela nem
o de nenhuma outra. Se a fabricao de dixido de titnio faz economizar divisas aos cofres da nao e cria mercado de trabalho para uns quinhentos chefes de famlia-
quinhentos vezes cinco so duas mil e quinhentas pessoas vivendo da empresa -, como acusar de falta de patriotismo quem em tal indstria coloca seu dinheiro e aqueles
a apoiar suas pretenses? Para provar-lhe s o patriotismo e o desinteresse, argumentos no faltam, de todos os tipos e para todos os gneros, inclusive aquele a
convencer o nosso ardente Leonel Vieira, plumitivo cuja integridade ideolgica exigiu que o cheque viesse acompanhado de razes slidas. A fbrica ajudar a formao
do proletariado, classe que, amanh, bandeiras reivindicativas em punho, exigir a posse do poder. Um terico do talento de Leonel Vieira no pode desprezar tal
argumento. Como se v, de todos os tipos e para todos os gneros. Sem dixido de titnio no h progresso.
No faltam igualmente razes aos que se opem, pois na fumaa, nos gases expelidos, no dixido de enxofre pairam a destruio e a morte. A presena de sol na atmosfera
fabril  altamente danosa  sade dos operrios e dos habitantes que esto dentro do raio de diluio do gs, assim leu o Comandante no comentrio do jornal. Morte
para a flora e para a fauna, morte para as guas e para as terras. Pequeno ou grande,  o preo a pagar.
No que eu fique indeciso: fico neutro, coisa muito diferente. no me meto na briga, quem sou eu? Desconhecido literato nas restauradas ruas antigas da Bahia, hoje
atraes tursticas, enfermo a buscar sade no clima do serto, no me cabem concluses. Nesseinterregno, nessa pausa na narrativa da chegada a Agreste de Tieta
e de Leonora Cantarelli, enquanto Ascnio discute em Paulo Afonso, antes da missa pela alma do Comendador, nesseinterregno, repito, quero apenas colocar aqui uma
afirmao que, em geral, seinscreve no incio dos livros de fico: toda semelhana  mera coincidncia. Sem esquecer outro lugar- comum: a vida imita a arte. Falta-me
arte, certamente, mas no estou disposto a responder a processo por crime de calnia ou a ser agredido por um pau- mandado de Mirko Stefano, melifluo e untuoso,
quase sempre. Colrico e violento, se preciso.
Novo fragmento da narrativa, na qual - durante a longa viagem de nibus leito da capital de So Paulo a da Bahia - Tieta recorda e conta episdios de sua vida a
bela Leonora Cantarelli - ti gulosa, gulosa de homens, quanto mais melhor. pai tinha muitas cabras, bode inteiro s um, Incio. Eu era cabra com vrios bodes, montada
por esse ou por aquele, no cho de pedras, em cima do mato, na beira do rio, na areia da praia. Para mim, prazer de homem, s isso e nada mais:
deitar no cho e ser coberta. Na mesa do Velho, sempre a mesma coisa, feijo, farinha, carne-seca. Quem primeiro me ensinou os pratos finos, os que aumentam a gula
em vez de saci-la, foi Lucas, na cama do finado doutor Fulgncio.
Jovem mdico em busca de trabalho, doutor Lucas de Lima bateu-se para Agreste ao saber do falecimento do doutor Fulgncio Neto. A viva o hospedou na alcova pois
nunca mais ali dormira, desde a morte do marido.
Mostrou-lhe o gabinete, as notas do meticuloso clnico sobre cada cliente.
Antigamente, antes de Judas descalar as botas em Agreste, contaram-se at cinco mdicos exercendo na cidade, ganhando bom dinheiro, construindo casas e peclio.
Foram morrendo com o lugar, sem substitutos. Ficara doutor Fulgncio, sozinho, no lombo do cavalo, no banco da canoa, tantas vezes de noite. A simples presena do
ancio com a maleta preta bastava para aliviar dores e curar enfermos. Remdios simples e poderosos: leo de rcino, Maravilha Curativa, Sade da Mulher, Emulso
de Scott, Bromil, ch de sabugueiro. Aplicados com economia: o melhor remdio eram as guas e o ar de Agreste, a brisa do rio, o vento do mar. Dona Eufrosina mandara
buscar as malas do doutor na penso de dona Amorzinho. no iria deixar um colega do marido pagando hospedagem. Cozinhou para ele galinha de parida, prato preferido
do doutor Fulgncio, escalfado de pitu com ovos, carne- de- sol com piro de leite. Na falta de doentes, os petiscos, os doces, as frutas.
Nem Tieta o segurou ali, naquele mundo saudvel e agonizante. Talvez ficasse se a natureza, o rio, o mar, a praia selvagem significassem alguma coisa para ele. Outra,
sua paisagem: notvago, bomio nos castelos e cabars da capital. Mdico em Agreste no pode ser solteiro, deve ter esposa, constituir famlia, no tem direito a
freqentar casa de mulher- dama, a entregar-se  farra.
- Lucas tinha medo da lngua das xeretas, todas de olho nele, dia e noite. Querer me agarrar, ele queria. Mas no na beira do rio, nem arriscar uma fugida a Mangue
Seco. Quando eu soube que dormia na alcova, na cama do doutor Fulgncio, ri e disse: deixe a janela aberta. Saltar janela sem ser vista, sem fazer barulho, era comigo.
Quando Lucas se deu conta, Tieta estava na cama, estendida no colcho de la de barriguda, afundando. Mole, no tinha a solidez do cho. Ela se abriu para ser montada.
- Pra ser coberta, outra coisa no sabia. Quando ele veio com os dedos me tocar, com a boca me beijar o corpo inteiro, a lmina da lngua e o hlito quente, quis
impedir, sem entender. Com ele aprendi, na cama do doutor e dona Eufrosina, os molhos e os temperos, e soube que homem no  apenas bode. Com ele virei mulher. Mas
penso que at hoje h em mim uma cabra solta que ningum domina.
Nem mesmo Tieta o reteve. Quando no meio da noite ela chegou, deu com a janela fechada. Lucas beijara a face maternal de dona Eufrosina, volume embora enquanto 
tempo. Apesar de Tieta, engordara quilos e comeava a gostar daquela pasmaceira, fugiu antes que fosse tarde.
- J no fui a mesma, diferente a minha gula. no demorou, veio o caso do caixeiro- viajante; quando ele apareceu rondando a casa, Perptua pensou que fosse por
ela, a infeliz. Logo se deu conta, seguiu meus passos. O Velho me quebrou no pau e eu fui embora, s queria reencontrar Lucas em qualquer parte da Bahia. no vi
ele nunca mais, em troca fiz a vida no interior, vida de rapariga, em Jequi, em Milagres, em Feira, por a afora. Eu te digo que escola de verdade  casa de mulher
- toa no serto. A, sim, se aprende o ofcio.
Quebrei a cabea nesse mundu at que me toquei pro Sul, cansada de sofrer.
Queria a boa vida, comer do bom e do melhor, beber champanha, provar as iguarias do homem. no feijo e carne-seca.
- Quem me dera o feijo e a carne-seca, um filho, um casal era tudo o que eu queria - disse a bela Leonora Cantarelli.
- Cada qual carrega seu castigo, nem as cabras so iguais em seu desejo, quanto mais as criaturas. Conheo cabra e gente, posso te dizer.
Da insnia no leito de dona Eufrosina, povoada de emoes; sentimentos e membrias na primeira noite, vencida pelo cansao da viagem de marinete, rude prova, das
emoes da chegada, aps retirar a maquiagem, Tieta arriara na cama e dormira de um sono s, reparador. H quantos anos no se recolhia s nove da noite? Ainda mocinha,
j atravessava a madrugada nos escondidos de Agreste.
Na segunda noite, porm, quando por volta das onze as ltimas visitas despedem-se, Tieta prossegue acesa, sem sono. Na porta, ela e Leonora renovam os votos de xito
a Ascnio na misso cvica a conduzi-lo a Paulo Afonso.
- V e vena... - deseja Tieta.
- E volte... - acrescenta Leonora.
Aminthas declara-se pessimista sobre os resultados: luz da Hidreltrica?
Bobagem, nem pensar. Terra esquecida dos polticos, municpio de eleitorado ralo, sem prestgio, sem um chefe capaz de falar grosso, de influir na diretoria, de
manobrar junto ao Presidente da Empresa e das autoridades federais, Agreste est destinado a continuar com a escassa luz do motor enquanto o motor ainda funciona.
Depois, voltaremos aos fiofs e placas, prev, em alarmante pressgio. Ascnio merece todos os louvores, sujeito arretado, no se d por vencido. Mas no tem prestgio
poltico, fora junto aos grandes, essa a verdade. no  mesmo, Ascnio? De fato, concorda o Secretrio da Prefeitura. Nem por isso deixar de tentar.
- me perdoem, senhoras e senhores, mas eu sou contra essa luz de Paulo Afonso, forte, brilhante, iluminando as ruas a noite inteira- proclama Osnar. - Um desastre
para os pobres caadores noturnos, vai afugentar a caa...
- Que caa? - quis saber Leonora.
- Descarao de Osnar, minha filha. Com caa ele quer dizer mulher, esses debochados ficam procurando mulher nas ruas...
- A caa j  vasqueira, imagine com essa iluminao toda. ..
Em risos se separam, Barbozinha declamando farrapos de poemas de amor, de sua autoria, compostos todos, segundo diz, para uma nica musa, adivinhem quem? Tieta eleva
os olhos para os cus, pe a mo sobre o corao, suspira, gaiata. Perdem-se as visitas na escurido.
Despede-se tambm Leonora:
- Estou morta de sono. Boa noite, mezinha, estou adorando.
- Ainda bem. Tinha medo que voc se chateasse.
No quarto, Tieta abre a janela sobre o beco, espia a noite, o cu de estrelas. Nos tempos de moa, sabia o nome de todas elas e gostava de fit-las na hora do amor,
quando o leito era o capim da beira do rio. Durante quantas noites pulara aquela janela para encontrar Lucas?
Apaga o lampio, deita-se, cad o sono? Ali est ela, outra vez em Agreste em busca da moleca Tieta, pastora de cabras. Andara longo caminho, pisara pedras e cardos,
rompera os ps e o corao, antes de comear a subir, a ganhar, juntar e aplicar dinheiro sob a orientao de Felipe, a ter propriedades e a ser senhora de seu nariz.
Durante todos esses vinte e seis anos, imaginara a volta a Agreste, sonhara com esse dia.
Recorda o embarao do desembarque, aflora-lhe aos lbios um sorriso:
A famlia de luto fechado, ela ostentando blusa e turbante vermelhos, Leonora em delav azul, esposa e filha sem corao, desnaturadas. ao chegar em casa, dissera
em brusca explicao: para mim luto se carrega  no peito, coisa ntima; a dor da ausncia no se exibe, nem a saudade; assim eu penso mas cada um deve pensar como
quiser e agir de acordo. Fim de papo, Perptua.
Z Esteves apoiara em virulenta lngua de sotaque: muito bem dito, minha filha, luto no passa de hipocrisia; eu s botei essa roupa preta para no ser tachado de
cabra ruim, mas se nem conheci o teu finado por que havia de pr luto? S porque era rico? Fosse ou no da boca para fora, a prpria Perptua concordara: cada qual
pensa  sua maneira e age de acordo. A dela era o respeito aos costumes antigos; vestida de negro porque com a morte do Major - Deus o tenha em sua guarda! - perdera
o gosto pela vida. Mas no criticava Antonieta, respeitando seu ponto de vista; no sendo nenhuma ignorante sabe que em So Paulo ningum liga para esses hbitos
do passado.
Pobre Perptua! O que j engoliu de sapos de ontem para hoje! Faz visvel esforo para mostrar-se atenciosa, tolerar a invaso de sua casa, a violao de tantos
preconceitos. Antonieta no pode imagin-la casada; pena no t-la visto com o marido. Como se comportava? Precisa perguntar a Carmosina. Beijavam-se em pblico?
Certamente, no. Percebera Aminthas segredando a Osnar que Perptua no beija, oscula. ao Major, oscularia ou, perdida a tramontana, aplicava-lhe uns chupes? Na
cama, como seria? no passavam, sem dvida, nos embates noturnos, do clssico papai-e-mame.
Ou passariam? Nesse particular, o impossvel acontece, Tieta pode dar testemunho. Devia ser algo monumental, Perptua embolada com o marido naquela cama, sobre o
colcho de l de barriguda.
Tieta ri baixinho, imaginando Perptua de pernas abertas por baixo do Major, viso inslita. Esquecendo-se de que, se no fosse a rpida passagem de Lucas por Agreste,
tampouco ela provaria ali outro gosto de homem alm do trivial. Acontecera tambm naquela cama de casal, de dona Eufrosina e do doutor Fulgncio, louca coincidncia.
Durara pouco, algumas noites to somente, todas elas por inteiro de delrio. Pela janela aberta penetrava o cu de mil estrelas. No seu xibiu nascia a estrela da
manha.
Quando pela primeira vez pulou a janela, invadiu o quarto, subiu na cama e suspendeu a saia, era uma cabra em cio, faminta de homens, ignorante de tudo o mais. Lucas
entendeu e riu. Vou te ensinar a amar, prometeu e ensinou do a ao Z, passando pelo ipicilone.
- No sabe como , o ipicilone?  o melhor de tudo, vou-lhe mostrar.
No correr da vida to vivida, Tieta no voltara a encontrar quem conhecesse a prtica sensacional do ipicilone; a muitos ensinara, trunfo irresistvel. Nas ruas
da Bahia, procurara Lucas, inutilmente. Indagou de muitos: conhece doutor Lucas? Lucas de qu? no tivera curiosidade de perguntar, sabia-o apenas mdico e bom de
cama. Ningum pde lhe informar.
Educara-se em curso intensivo naquele leito de dona Eufrosina, onde depois Perptua e o Major dormiram e fizeram filhos. Burro como um toco de pau, escrevera Carmosina
na carta sobre os presentes, a propsito do falecido cunhado. Se o Major fosse vivo, voc podia trazer para ele uma cangalha, ia-lhe bem. Curto de inteligncia mas
bem dotado de fsico, um tipo: moreno carregado na cor, passo militar, e que apetite! Capaz de traar Perptua, carne de pescoo! Tanta moa dando sopa em Agreste,
qualquer delas feliz se arranjasse casamento, fosse com ele ou com quem fosse, desde que vestisse calas, e o obtuso escolhe, prefere, leva ao altar a beata Perptua,
aquele estrepe, donzela encruada, cara de priso de ventre. Mais estranho ainda, foram felizes e o luto que ela enverga, fechado e exposto, nada tem de hipcrita,
reflete sentimento verdadeiro, dor profunda.
Deus tivera pena dos meninos, contara Carmosina na carta relatrio, de tanta utilidade: saram ao pai na parecena e no carter, alegres, cordiais, simpticos, da
me herdaram somente a inteligncia. Perptua pode ter todos os defeitos, mas no  tapada, sabe raciocinar e agir, poo de ambio.
Tieta pensa nos meninos, gosta dos dois. Quando decidira a viagem, pensava que iria se apegar ao pequeno de Elisa, adorava crianas. Mas esse morrera, Carmosina
explicara na carta o motivo do silncio da irm - a culpa  sobretudo minha, melhor dito da pobreza; sem a ajuda mensal, Elisa se encontraria privada de quase tudo,
mentiu sob conselho meu. Tieta perdoara mas no esquecera. Sobraram os dois de Perptua: no leito perseguindo O sono, a tia com os sobrinhos.
O pequeno, um malandro, malicioso, sabidssimo. no tira os olhos dela e de Leonora, medindo as coxas desnudas, bispando nos decotes as curvas dos seios. Ainda no
atingiu a idade mas para isso haver limites rgidos, realmente?
Em troca, Ricardo  exemplo de recato e pudiccia, vive desviando a vista, com medo de pecar, violentado coroinha. Coroinha, no, seminarista, destinado ao servio
de Deus. Tamanho corpanzil e de camisolo! Tieta recorda e morde os lbios.
Um frangote, no chegou ao ponto exato. Se fosse mulher, estaria de pito aceso, homem tarda mais, sobretudo se lhe enfiam uma batina, capam-lhe os bagos com o temor
de Deus, ameaam- no com as chamas do inferno. O pequeno vai desarmar cedo,  um corisco; o destino de Ricardo  permanecer donzelo, que maldade!
Fosse mais taludo, a tia lhe ensinaria o que  bom. Est, porm, ainda muito verde. Tieta jamais gostou de homem jovem, preferindo-os sempre mais velhos do que ela.
Bode bom de cabra  aquele que tem idade e experincia.
Da triste volta do cavaleiro andante, escorraado, e dos telegramas enviados por Tieta motivando comentrios, hipteses e apostas precedidos, volta e telegrama,
do dialogo entre Osnar e doutor caio Vilasboas que por frascario e intil no devia figurar em obra literria pretensamente sria Tieta e Leonora aguardam a chegada
da marinete na agencia dos Correios. Esperar a marinete, assistir ao desembarque dos passageiros,  das mais excitantes diverses de Agreste. Quando o atraso  grande,
a espera toma-se por vezes enfadonha mas, em compensao, no se paga nada. H sempre um grupo de vadios rondando a porta do cinema onde Jairo estaciona o glorioso
veculo. Outros ficam de tocaia no bar, os ilustres batem papo com dona Carmosina.
Elisa veio encontr-la s na Agncia, muito excitada, querendo saber se dona Carmosina estava a par do acontecido entre Osnar e doutor Caio Vilasboas; na vspera
Astrio a acordara para lhe contar o escabroso dilogo.
Esse Osnar no passa de um patife, no respeita ningum: afinal doutor Caio  mdico, possui terras e rebanhos,  compadre da Senhora de Sant'Ana, madrinha de sua
filha Ana, cidado de idade, devoto e respeitvel. Dona Carmosina est a par,  claro. Aminthas, testemunha do encontro, amanhecera em casa de dona Mil; relatara
palavra por palavra, a conversao na madrugada. Pois bem, de tudo o que Osnar dissera, nada se compara, na opinio de dona Carmosina, ao deboche final, pois esse
doutor Caio  santo-de-pau-oco, minha filha, por fora Senhor So Bento, por dentro po bolorento. Osnar  um porreta, de quando em quando lava a alma da gente.
Tieta interrompe a discusso, curiosa de saber de que conversa se trata, capaz de causar tanto riso, de provocar indignao e entusiasmo.
Dona Carmosina no se faz de rogada, capricha nos detalhes. Sucedera h dois dias, naquela noite em que Osnar e Aminthas ficaram at tarde em casa de Perptua, saindo
depois a mariscar nas ruas. Altas horas, quando voltavam da beira do rio, Osnar acompanhado de uma quenga de baixa extrao, encontraram-se com o doutor Caio Vilasboas,
um cato, vindo de atender  velha dona Raimunda, asmtica incurvel. Fosse algum pobre de Deus agonizando, o doutor no abandonaria o calor da cama, mas a velha
dona Raimunda tinha dinheiro grosso, destinado em testamento a pagar a conta do mdico quando o Senhor a chamasse ao seu seio.
Ao ver Osnar despedindo-se da esfarrapada criatura, medonhosa, doutor Caio, psiclogo amador, abelhudo de nascena, no se conteve:
- Satisfaa-me, caro Osnar, a curiosidade, respondendo a uma pergunta que me permito fazer-lhe.
- Mande brasa, meu doutor, sou seu criado s ordens.
- Voc  um rapaz endinheirado, j meio entrado em anos mas sendo solteiro ainda passa por rapaz, de boa famlia, com hbitos de asseio, tendo com que pagar cortesa
de melhor nvel, por que no freqenta a casa dirigida pela rapariga que atende por Zuleika Cinderela, onde, segundo me consta l estive no exerccio sagrado da
medicina e no como cliente- praticam esseinfame comrcio mulheres limpas, de belo porte e figura amena, por que prefere essas imundas, essas bruxas?
- Primeiro permita, meu doutor, que eu lhe informe ser um dos fregueses prediletos das meninas da casa de Zuleika e da prpria patroa, boa de rabo. Parte sensvel
de minha renda se esvai naquele antro.  certo, porm, que no desprezo um bucho quando saio de caada, vez por outra. Alguns, devo confessar, bastante deteriorados.
- E por qu? Deixe que eu lhe diga tratar-se de apaixonante problema de psicologia, digno de memria dirigida  Sociedade de Medicina Psiquitrica.
- Vou lhe dizer por que, meu doutor, e escreva a razo se quiser, no me oponho. Se chamo um bucho aos peitos quando calha, o motivo  no viciar o pau, o Padre-mestre.
- Padre-mestre?
- Foi o apelido que ele ganhou, dado por uma beata ainda passvel com quem andei praticando umas sacanagens, meu doutor. Imagine se eu servisse ao Padre-mestre somente
pitus finos, material de primeira, formosuras, perfumarias, e ele se acostumasse a comer apenas do bom e do melhor. De repente, um dia, por uma circunstncia qualquer,
dessas que acontecem quando a gente menos espera, me vejo obrigado a pegar um estrepe em ms condies e o Padre-mestre, viciado, se recusa, fica pururuca, brocha.
no lhe dou vcio, vou comendo as bonitas e as feias e tem cada feia que vale mais do que um exrcito de bonitas porque uma coisa, meu doutor,  mulher para se ver
e admirar a imagem e outra  o gosto da boceta.
Doutor Caio emudece, o queixo cado, Osnar conclui:
- De suas visitas profissionais  penso de Zuleika, meu doutor, ouvi falar, Silvia Sabi me contou muito em segredo que chuparino igual a vosmic no h por essas
bandas. Meus sinceros parabns.
Enquanto riem as quatro - esse Osnar  de morte! -, buzina na curva a marinete, naquela quinta- feira por milagre quase no horrio, desprezvel atraso de vinte minutos,
Jairo recebendo felicitaes dos passageiros. Tieta, Leonora e Elisa preparam-se para ir ao encontro de Ascnio, mas ele salta  frente de todos e se afasta no caminho
de casa, em marcha batida.
- Vai tomar banho. Depois de viajar na marinete de Jairo, ningum pode fazer nada antes de gastar gua e sabo. Muito menos ver a criatura dos seus sonhos... - esclarece
dona Carmosina: - Daqui a pouco bate por aqui.
Demoram-se na Agncia dos Correios,  espera. Aminthas vem juntar-se ao grupo, comentam o dilogo j agora histrico. Aminthas acrescenta o detalhe final: doutor
Caio livido na madrugada, querendo falar sem poder, os olhos fuzilando. Osnar e ele, Aminthas, saram de mansinho, no fosse o mdico ter um ataque de apoplexia.
O tempo passa, Barbozinha surge, traz uma rosa na mo, uma rosa ch.
Ao ver Tieta estende-lhe a flor:
- Colhi para voc no jardim de dona Mil, ia lev-la  casa de Perptua, mas os meus guias dirigiram-me os passos para aqui. Pena no ter mais trs para homenagear
todas as presentes.
- E Ascnio? Vai aparecer ou no? - interroga Elisa, cansada de esperar.
Leonora, a criatura dos sonhos de Ascnio, na opinio de dona Carmosina, aguarda em silncio, os olhos postos na rua. Nem sinal de Secretrio da Prefeitura, de cavaleiro
andante, limpo ou empoeirado. O jeito  mandar chamar. O moleque Sabino, requisitado, abandona a sorveteria, vai correndo com o recado para Ascnio: esperam- no
impacientes na Agncia dos Correios, venha rpido. Para matar o tempo, vo tomar sorvete de caj, servido pelo prprio rabe. amanh ser de pitanga, difcil saber
qual o mais gostoso.
Voltem para comparar e decidir.
Finalmente desponta na esquina o cavaleiro andante, o passo lento, a face descomposta, Cavaleiro da Triste Figura. Mesmo antes dele subir o degrau da porta da Agncia
dos Correios todos se do conta da derrota do campeo de Agreste na batalha travada em Paulo Afonso. Os destroos do guerreiro, o fracasso da misso, o rosto em
luto, sepulcral.
- Negativo, no foi? - pergunta Aminthas. - Eu avisei. no havia nenhuma possibilidade. Ainda bem que o motor vai agentando: quando pifar, voltaremos ao fiof.
- No seimporte - disse Leonora. - Voc fez o que pde. Cumpriu o seu dever.
- Foi horrvel, humilhante. O diretor da Companhia, o que fica permanente em Paulo Afonso, nem queria me receber. Tive que pedir e suplicar, por fim me atendeu.
Nem comecei a expor, me cortou a palavra. no podia perder tempo, esse assunto de Agreste estava encerrado, no havendo nenhuma possibilidade de instalao de luz
da usina no municpio. A Prefeitura no recebeu o memorando, negando o pedido? Ento? no adiantava falar com os tcnicos, Agreste tem de esperar sua vez e no vai
ser to cedo, daqui a alguns anos, quando levarmos fora e luz aos ltimos recantos dos Estados servidos pela Hidreltrica. Agora, impossvel, meu caro.
No adianta argumentos, deixe-me trabalhar, meu tempo  precioso.
Ascnio suspende o relato, abana as mos. Onde o entusiasmo, o nimo de luta? Evaporaram-se, rolaram na cachoeira, esmagados pelo diretor da Companhia., - No fim,
ainda me gozou: tem uma nica maneira, disse. Obtenha uma ordem do presidente da Companhia do Vale do So Francisco, do presidente, no de um diretor igual a mim,
mandando instalar luz em Agreste e no dia seguinte l estaremos. Passe bem. Riu e me voltou as costas.
Um silncio pesado cai sobre a Agncia dos Correios. A primeira a abrir a boca, dona Carmosina:
- Filho da me!  por isso que eu sou contra essa gente.
Leonora aproxima-se de Ascnio:
- No se aflija tanto, tudo no mundo tem jeito. - os doces olhos plenos de ternura.
Tieta levanta-se da cadeira onde ouvira em silncio:
- Quem  o presidente, Ascnio, e o que  mesmo essa tal Companhia!
Me ilumine o pensamento.
Ascnio, ainda sem graa, deprimido, explica o que  a Companhia do Vale do So Francisco, a importncia da Hidreltrica de Paulo Afonso, termina citando o nome
do deputado que exerce a Presidncia da grande empresa estatal, aquele que manda e decide, o nico a poder modificar planos estabelecidos. Mas, como atingi-lo? Impossvel.
Quem tem razo  Aminthas:
mais do que importncia econmica, falta a Agreste o prestgio de um grande chefe, algum cujo pedido seja uma ordem.
Tieta repete o nome do deputado:
- J ouvi falar mas no conheo pessoalmente. Mas, em So Paulo, no tem poltico importante com quem eu no me d - esclarece. - Todos amigos de Felipe, todos freqentam
minha casa. Carm, Ascnio, me ajudem a redigir um telegrama. Ou melhor, dois.
Pronuncia nomes ilustres, mandachuvas em So Paulo e no pas. Dona Carmosina escreve. Tieta pede-lhe s que intervenham em favor de Agreste junto ao presidente da
Companhia do Vale do So Francisco, seguem-se as razes detalhadas por Ascnio mas a principal  o interesse de Antonieta, o favor que lhe faro e ela ficar devendo.
- Telegrama enorme - observa dona Carmosina. - Vai custar uma nota.
- A Prefeitura paga - adianta-se Ascnio.
- Quem paga sou eu, meu filho, que estou enviando. Carm, assine Tieta do Agreste. Os amigos mais ntimos me tratam assim, era como Felipe gostava de me chamar.
Ainda no haviam retornado d casa de Perptua e j a notcia dos telegramas abalava a cidade- dona Antonieta Esteves Cantarelli telegrafara a um senador paulista
e ao prprio doutor Ademar, amigos do peito do falecido Comendador, pedindo a instalao em Agreste da luz de Paulo Afonso. Os comentrios cvicos cobrem os ecos
do fescenino dilogo sobre os hbitos sexuais de Osnar, se as mensagens telegrficas no resultarem em iluminao ferica, j tero servido  moral pblica. Sucedem-se
as hipteses:
possu a viva realmente tanto prestgio, conhece, trata,  ntima de senadores e governadores ou apenas est fazendo farol? Qual o resultado: luz ou trevas?
At apostas so feitas. Fdlio bota dinheiro no sucesso, Aminthas continua pessimista, por que esses lordes de So Paulo ho de se mover por Agreste, o cu-do-mundo?
Dobro a aposta, Fidlio.
Por qu? Tieta poderia responder que se movero exatamente por serem lordes e por ela ser Tieta do Agreste.
Do passeio na feira com o anncio do prximo fim do mundo, capitulo de profecias semanal. no primeiro sbado aps a chegada das paulistas, transformou-se num festival,
em regozijo pblico, por pouco termina em fuzu.
Aps a missa pela alma do Comendador, Tieta e Leonora passam em casa para trocar de roupa: ningum agenta fazer feira com vestidos negros, pesados, elas nem sabem
por que milagre os puseram na mala. A comitiva inclui Elisa, Barbozinha, Ascnio Trindade, Osnar. O velho Z Esteves, palet no brao, basto e esposa, faz-lhe s
companhia at a Praa do Mercado (Praa Coronel Francisco Trindade), de onde a feira se estende pelas ruas vizinhas. Ali se despede,  tarde ir buscar Tieta para
correrem duas casas  venda, entre as muitas oferecidas, as nicas convenientes.
Perptua agradece o convite, no aceita. Vai  feira cedo, acompanhada por Peto a carregar as cestas. Dia de feira, dia dos mendigos: Perptua passa o resto das
manhas de sbado em casa, distribuindo esmolas, mercadejando com Deus um lugar no Paraso em troca da caridade hebdomadria. Em cada uma das casas das ruas principais,
durante a semana, as famlias guardam as sobras de po, as bolachas envelhecidas, restos de comida da vspera, frutas amassadas, algumas moedas, para a multido
de esmoleres a invadir a cidade, vindos quem sabe de onde. Seu Agostinho da padaria fornece por preo de ocasio sacos cheios de paes dormidos, duros como pedras,
de bolaches moles, de bolos mofados, filantropia a preo mdico. Quem d aos pobres empresta a Deus. Com juros altos, bom emprego de capital.
Alguns pedintes so fixos em Agreste, passam diariamente pela manha ou ao cair da tarde, possuem freguesia certa. O cego Cristvo senta-se na escadaria da igreja
na hora da missa chova ou faa sol e ali se demora de mo estendida, a recitar sua litania. O beato Possidnio, somente aos sbados e na feira. Vem de Rocinha, sob
o queixo a barba rala de profeta caboclo, sem dentes e boca de praga; traz um caixote de querosene, vazio, e uma cuia de queijo. Prega nas proximidades do local
onde ficam os vendedores de pssaros, trepado no caixote, a cuia ao lado para as esmolas - s aceita dinheiro. Estende-se em nebulosa lengalenga sobre os pecados
dos homens; anuncia desgraas aos montes, profeta de um Deus terrvel, vingativo, cruel.
Cita os evangelhos, condena protestantes e maons, proclama a santidade do padre Ccero Romo. Basta enxergar uma mulher mais pintada, ergue-se a insult-la, destinando-a
s chamas eternas.
A voz esganiada, Perptua queixa-se dos mendigos a Antonieta, fala deles como de inimigos: cada vez mais ousados e exigentes, o exerccio da caridade transforma-se
em sacrifcio:
- No aceitam nem mangas nem cajus, dizem que ningum compra, que tem demais, manga no  esmola que se d j viu? Mesmo banana, torcem a cara. no tem um trocado?
Querem dinheiro. Outro dia um me chamou de canguinha.
Na feira, montes de frutas se sucedem, muitas delas Leonora no conhece; bate palmas, encantada. Que goiabinhas pequenas! no so goiabas, so aras, ara-mirim,
ara-cago. Com elas se faz o doce que comemos em casa de Elisa. As goiabas esto aqui: vermelhas e brancas.
Comparadas s goiabas dos japoneses de So Paulo, so pequenas, mas sinta o gosto, mea a diferena. Melhor ainda se estiver bichada. Cajus, no h fruta igual para
a sade. A no ser jenipapo, que cura at doena do peito. Voc precisa comer jenipapada para ficar forte. E o gosto? Para mim, no h nada mais gostoso. Vamos comprar
agora mesmo; o jenipapo quanto mais encarquilhado melhor. Tieta escolhe, conhecedora. Mangabas, Cajs, Cajaranas, umbus, pitangas. Os mendigos tm razo ao recusar
esmolas de manga, sobram pela feira, as cores de aquarela, as variedades numerosas: rosa, espada, Carlota, corao-de-boi, corao-magoado, itiba, tantas. As jacas,
duras e moles, descomunais, das talhadas expostas sobe um odor de mel. Que fruta  essa que parece pinha? Condessa. E essa maior? Jaca- de- pobre, o sorvete  sublime.
Leonora quer ver de perto, quer toc-la. Curva-se, exibe a calola ' diminuta sob a minissaia. Jbilo geral Quando a viu de minissaia, Ascnio pensou desaconselhar
o traje na visita  feira mas temeu passar por tabaru, por retrgrado, calou-se. Agora  ir em frente, buscando no ver e no escutar. Difcil, pois a animao
aumenta.
Nunca a feira de Agreste conheceu pagodeira igual. Barbozinha, entretido a explicar a Tieta problemas de desencarnao e reencamao, da vida no astral, assuntos
em que  professor emrito, no se d conta do sucesso, mas Ascnio Trindade aflige-se com tamanho atraso, indeciso sobre a maneira de agir. Aflito apenas? Ou sofre
tambm ao ver expostas ao pblico aquelas formosuras que deseja exclusivas, reservadas a quem conduza ao altar a inocente Leonora Cantarelli? Inocente de todo mal,
no imaginara o escndalo que provocaria indo  feira vestida de minissaia, moda banal no Sul do pas e no estrangeiro. Nas pginas coloridas das revistas, Ascnio
admirou minissaias bem mais ousadas, a de Leonora at que lhe encobre a bunda se ela se mantm a prumo.
-  melhor que ela se curve menos - sussurra Osnar a Ascnio.
Nem Osnar, um cnico, se anima a aconselhar a cndida vtima da ignorncia local, quanto mais Ascnio. Prossegue o passeio pela feira arrancando exclamaes de Leonora
e do bando de moleques a seguir a comitiva.
De quando em vez um assovio, uma interjeio, uma frase em lngua de sotaque:
- Espia, Manu, o andor da procisso est passando...
Sacos de alva, olorosa farinha de mandioca, torrada em casas- de- farinha da regio; a puba, a tapioca, os beijos. Prove, Leonora. Com caf so timos, vamos comprar.
Esses molhados levam leite de coco, no h quem resista, vou engordar como uma porca. Mas que  isso, meu Deus, essa meninada a segui-los? Antonieta contempla o
ajuntamento.
No s meninos, homens feitos tambm, bando de ordinrios.  a minissaia de Leonora, figurino indito em Agreste. Antonieta olha para Ascnio, para Osnar, eles fingem
no se dar conta da corja em zombaria.
Barbozinha est reencarnado pela sexta vez, em longnqua galxia. As mos nas cadeiras,  maneira das feirantes, Tieta fita o animado rebanho. O olhar da ricaa
de So Paulo - ou o olhar da pastora de cabras? - entre severo e pcaro, dissolve o cortejo, restam apenas alguns moleques, admiradores mais renitentes. Ascnio
respira, Osnar aprova. Para dizer a verdade, o que mais incomoda a Ascnio  a presena de Osnar, o olhar de verruma, a expresso de beatitude.
Duas cadeiras de barbeiro ao ar livre, ocupadas ambas, e o trovador Claudionor das Virgens a declamar os versos do folheto de cordel:
Trs vezes j casei Com branca, preta, mulata No padre, no juiz, na mata Pela quarta casarei por ordem do delegado
Pra deixar de ser ousado.
Cala-se a voz do trovador das Virgens  passagem da comitiva. A minissaia o inspira, improvisa:
Quem me dera casar com Aurora Que pau a de cu-de-fora.
-  isso que voc come em casa no caf da manha - Tieta aponta as razes de aipim, de inhame, as batatas- doces. A verde fruta- po.
Elisa, inquieta, a constatar novo crescimento do grupo de basbaques, convida:
- Vamos indo para casa? Estou morrendo de calor.
Verdade, alis. no trocara de roupa, est com o vestido negro posto para a missa, fechado no pescoo, o contrrio de Leonora. O que mais aflige Elisa?
Os moleques, os assovios, o deboche do trovador, a falta de respeito, o achincalhe ou o sucesso da paulista?
- Ascnio prometeu me levar para ver os passarinhos... - doce pipilar de Leonora.
A procisso engrossa, enquanto rumam para a feira de passarinhos - os pssaros sofr, os pssaros pintores, os pssaros negros, os cardeais, os azules, os canrios-
da- terra, papagaios e periquitos e uma araponga a malhar o ferro com seu grito de bigorna. Leonora irradia felicidade, o acompanhamento toma aspecto de comcio,
com risos, dichotes, preges.
- acho melhor a gente ir andando - insiste Elisa.
- S um minuto mais. Olhe esse, que amor!
-  um pssaro sofr, imita todos os passarinhos. Oua. - Ascnio assovia, a ave responde.
Da turba em gozao, outros assovios, acanalhados. Fiof, vai tambm o passarinho. Rindo, a pitar o cigarro de palha, solerte, Osnar avana em direo aos pndegos,
agarra um molecote pela orelha, os demais recuam em correria, explodem em apupos, a troa se estende pela feira.
Ali perto, em cima do caixo de querosene, a cuia ao lado, o profeta Possidnio proclama o iminente fim do mundo, anunciado pela apario de objetos luminosos em
Mangue Seco, gneas naves de gs conduzindo arcanjos enviados por Deus para escolher e marcar os locais onde se erguero as fogueiras de enxofre sobrenatural, fabricado
nas caldeiras do inferno para consumir o mundo entregue  devassido,  orgia,  luxria.
De costas para a cara do asctico beato, curva-se Leonora, oferecendo O dedo a um papagaio manso e falador - diz bom-dia, pede a bno, fecha um olho, cmico. O
beato Possidnio, por mais erudito em matria de iniqidade humana, de depravao, de impudiccias, jamais vira, com seus olhos queimados pelo sol do serto, tal
desregramento, amanh imoralidade. O excitante traseiro de Leonora, praticamente nu, obra- prima de Satans, aplaudido pela scia de condenados, coloca-se diante
das msticas ventas do profeta, provocao monstruosa!
- Arreda! Sai de minha frente, volta para as profundas do inferno, mulher imunda, pecadora, rameira!
Indignado, Ascnio marcha para o beato Possidnio:
- Cala a boca, maluco!
Mas Tieta o detm, segura-lhe o brao, diverte-se s pamparras.
- Deixa o velho, Ascnio.  a minissaia de Leonora.
- Hein? A minissaia... - Leonora no sabe se rir ou chorar. - no me diga, nunca pensei... - dirige-se a Ascnio. - Nunca me passou pela cabea. Desculpe.
- Quem tem de pedir desculpas sou eu, pelo atraso do povo. Um dia vai mudar. - No fundo, nem ele prprio tem certeza. Mudana to incerta quanto o fim do mundo do
sermo de Possidnio.
Deixam para outro passeio boa parte da feira: as carnes- de- sol, os guaiamus, os potes e moringas, as figuras de barro, o caldo de cana extrado em primitivas prensas
de madeira, to sujo e to delicioso. O beato continua a vociferar enquanto eles partem. Tieta a rir do acontecido, e logo a pedir a Osnar que lhe conte a clebre
histria da polaca, sobre a qual Carmosina lhe falara. Alguns moleques ainda os acompanham pela rua.
A notcia os precedeu, chegou ao bar e ao adro da igreja, um alvoroo para v-los passar. Leonora anda o mais depressa possvel, nunca pensara desencadear o fim
do mundo.
- Est prximo, sim, tive aviso e confirmao, posso assegurar esclarece Barbozinha a par dos segredos dos deuses e da loucura dos homens.
- Vai ser uma exploso atmica colossal. Todas as bombas atmicas existentes, as americanas, as nossas, as francesas, as inglesas, as chinesas os chineses esto
fabricando na surdina, tenho informaes recentes - vo explodir ao mesmo tempo, s trs horas da tarde de um dia primeiro de janeiro. no digo o ano para no alarmar
ningum.
Breve esclarecimento do autor sobre profecias e enxofre houve quem quisesse descobrir na arenga do beato Possidnio sobre o prximo e inevitvel fim do mundo referncias
profticas  indstria de dixido de titnio. Quando, por exemplo, o iluminado aludiu ao enxofre procedente dos infernos para destruir a terra e a humanidade no
citou :claramente os objetos no Identificados, vistos em Mangue Seco? Naves de gs?
Conotaes existem, no h dvida. Em tempos de tanto misticismo, o melhor  no negar nem discutir. Os profetas multiplicam-se, exibem-se no rdio e na televiso.
ao contrrio do beato Possidnio, no se contentam com escassa esmola. O beato Possidnio  profeta antigo, produto semi-feudal, perdido no serto, ainda no percebeu
as maravilhas da sociedade de consumo. no se d conta de que nas minissaias lavamos a vista condenada  cegueira pela poluio. Quanto ao enxofre,  produzido nos
Estados Unidos, nao privilegiada, no se faz necessrio import-lo dos infernos.
De pedintes e abusos, de ambies - captulo de mesquinhos interesses alegre alvoroo, na feira e em todo o burgo, nascido da presena em Agreste de Tieta e da enteada,
formosa e virginal. To meiga, lembra a Ricardo a noiva predileta do Senhor, Santa Terezinha do Menino Jesus, apesar da minissaia, do transparente cafet e dos shortes
ousados. Mesmo acompanhando as indecentes modas atuais, percebe-se na suave Leonora o odor da castidade, o encanto da inocncia.
Aps o passeio na feira, Elisa ameaara vestir a minissaia trazida por Tieta, em solidariedade e em desagravo a Leonora - ou em competio?
Astrio se ops, contou com o apoio de Perptua:
- Podem me chamar de atrasada; sou contra, pelo menos aqui. Em So Paulo, pode ser. Aqui o povo no aceita, acha imoral. Eu tambm, para ser franca. - a voz esganiada,
estridente, soprando as labaredas do inferno.
- Por mim, dona Perptua, fique descansada. Nunca mais uso. no quero ser responsvel pelo fim do mundo - promete a mansa Leonora num fugaz sorriso.
- no estou lhe censurando, sobrinha, voc no teve culpa.
No deseja ofender a querida parenta, sobrinha por adoo. Sobrinha, sim, pois enteada da irm, filha do cunhado industrial e comendador do Papa, herdeira rica.
Pena os meninos serem to novos; quem est rondando a bolada  Ascnio, no parecia to esperto.
- Sei que voc no fez por mal, sua boba. Em So Paulo, nos Estados Unidos, nessas terras onde s tem protestante, no digo nada. Mas aqui ainda se cumpre a lei
de Deus.
Conversa aparentemente sem conseqncia mas, por detrs da alegria a rodear Tieta existem esperanas, planos, alguns audazes. Reunido em torno  filha prdiga, o
cl dos Esteves se desdobra em bajulao s paulistas, escondendo sob o manto da paz familiar uma efervescncia de inconfessveis ambies, de furtivas diligncias.
Entreolham-se, com suspeita, uns aos outros.
No correr da semana, sucederam-se as visitas, uma romaria. Os importantes do lugar, comerciantes, colegas de Astrio, a professora Carlota, seu Edmundo Ribeiro,
coletor, Chico Sobrinho com a esposa Rita, por coincidncia acompanhados por Lindolfo Arajo, tesoureiro da Prefeitura e gala um dia ainda se enche de coragem e
ir tentar a vitria num programa de calouros na televiso, em Salvador. Vieram o doutor Caio Vilasboas, circunspecto, falando difcil, metade mdico, metade fazendeiro,
se fosse viver de clinica em Agreste terminaria pedindo esmola aos sbados, e o coronel Artur da Tapitanga que demorou a tarde inteira conversando.
Conhecia Tieta de quando ela, meninota, pastoreava as cabras do pai, em terras vizinhas s suas, alis hoje suas, compradas a Z Esteves. Fez elogios  beleza de
Leonora: parece com uma estatueta de biscuit que antigamente tinha na casa- grande, quebrou-se. Fosse ele ainda jovem, na sustana dos setenta, e lhe proporia casamento,
mas aos oitenta e seis no quer correr o risco. Por Mais honesta que a moa seja, h perigo de chifre. Ria numa catarreira grossa, puxando a fumaa do charuto. nico
a faltar, o prefeito da cidade, Mauritnio Dantas, ausncia explicada por Ascnio Trindade por ocasio do desembarque: o digno mandatrio vive confinado em casa,
de miolo mole desde a desero da esposa, Dona Amlia de apelido Mel, ativssima militante da revoluo sexual.
Os pobres, inumerveis, vm a qualquer hora, no passam da sala de jantar; a de visitas, Perptua reserva aos grados. Cada pobre, uma histria triste, uma splica,
um pedido. A fama da riqueza e da generosidade de Tieta alastra-se como erva ruim, veleja nas guas do rio, viaja nos lombos dos burros, alcana as fronteiras de
Sergipe. Perptua franze a testa, no tolera abusos nem esbanjamento.
- No posso ver ningum necessitado, passando fome- declara Tieta.
- Sei o que  preciso, di em minha carne.
Perptua, apesar da haleirice, no se contm:
- No digo que no ajude um ou outro infeliz. Margarida, que o marido largou na cama, de barriga aberta, v l, no pode trabalhar. Calo minha boca. Mas David, um
batoteiro, cabra ruim que nunca pegou no pesado, no merece esmola. S sabe beber cachaa e roncar na beira do rio.  at pecado ajudar a preguia, a vagabundagem.
O melhor benefcio que se pode prestar a essa gente  rezar por eles, pedir a Deus que lhes indique o bom caminho. Quem mais pratica a caridade sou eu: rezo por
eles todas as noites.
Ainda ontem voc deu dinheiro a Didinha. Uma perdida, com aquele renque de filhos, cada um de um pai e ainda por cima ladrona. Dona Ada teve pena, tomou de empregada,
pegou roubando na despensa...
- Feijo para dar aos filhos, Perptua, tenha piedade. Havia de deixar os pobrezinhos morrerem de fome?
- No os tivesse. Na hora de deitar com o primeiro que aparece, no pensa no futuro, s na descarao, Deus me perdoe -a voz sibilina em nojo e reprovao.
- Nessa hora, Perptua, ningum pensa em nada, no ? no d mesmo... - ri Antonieta. - Voc foi casada, sabe disso, no sabe? - espia a irm, um sorriso de galhofa.
- O dinheiro  seu, voc faz com ele o que quiser, no tenho nada com isso. Mas que me d pena esse desperdcio, me d, no nego.
- L isso , minha filha. Uns aproveitadores. Sabem de seu bom corao, abusam. Por mim, metia todos eles na cadeia,  o que merecem. Z Esteves, por uma vez, de
acordo com Perptua.
Todas as manhas o Velho passa para botar a bno  filha prdiga: Deus te abenoe e te aumente, minha filha. Resmunga um Deus te d a bno para Perptua, outro
para Elisa, se a mais moa est presente. Relanceia o olhar pela sala onde conversam - numa rede na varanda, Leonora escuta os trinados do pssaro sofr oferecido
por Ascnio. Z Esteves pousa o olhar em Perptua, em Elisa, prossegue:
- S querem lhe explorar. Todos. Sem exceo. Tome tento. Se voc continuar de mo aberta, roubam tudo. - Refere-se aos pedintes? Os olhos em Perptua, em Elisa,
masca o naco de fumo de corda. - no est vendo dona Zulmira, toda devota, vive na igreja papando hstia. Na hora de dizer quanto quer pela casa, como  para voc
pede um absurdo. Quem falou certo foi Modesto Pires: um roubo. Essa gente que vive metida na igreja. ..
Perptua faz que no ouve, contida pela presena de Tieta. O Velho est pondo as manguinhas de fora, pela vontade dele a filha rica no ajudaria sequer as irms,
os sobrinhos. Velho ruim como a necessidade. Vive agora na perspectiva da mudana para casa confortvel em rua decente, a ser adquirida por Tieta para os dias da
velhice. Enquanto ela no vier, Z Esteves e Tonha desfrutaro sozinhos, isso j est assentado. no ser to breve que Antonieta, guapa, transbordante de vida,
deixar o fausto de So Paulo para enterrar-se em Agreste.  muito mulher para casar de novo e a ento no vir nunca.
Nesse caso Z Esteves ficar de dono, refestelado, de papo para o ar, com criada para cuidar da casa, mesada larga, tendo de um tudo, na vida que encomendou a Deus.
Fazendo economia, pode at pensar em adquirir um pedacinho de terra e um par de cabras e recomear a criao. No mundo, no h coisa melhor e mais bonita do que
um rebanho de cabras nos oiteiros.
De terrenos e casas a venda ou Tieta no mundo dos negcios imobilirios foi o dono do curtume quem chamou a ateno de Tieta para a casa de dona Zulmira.
De brao com a esposa, dona Ada, Modesto Pires visitara a badalada conterrnea logo no dia seguinte ao desembarque, apressado em conhecer melhor a emitente dos
cheques mensais que ele descontava. Guardava vaga lembrana da molecota a pastorear cabras, namoradeira, expulsa de casa pelo pai, regressando agora viva e rica.
Admirou-lhe as carnes e a imponncia, o requinte da peruca acaju, a saia aberta de um lado, refinamentos devidos  posio social e ao trato de So Paulo. Comparou-a
com Carol, dois pancades de mulher, diferentes uma da outra, mas ambas fartas, densas, desejveis, mulheres para a cama.
Acompanhada de Leonora e de Ricardo - de batina - Tieta, dias depois, paga a visita. Modesto e dona Ada a recebem e tratam nas palmas das mos: licor de jenipapo,
bolo de milho, doce de banana em rodinhas, confeitos e bolachas de goma. Dona Ada, esconda essas tentaes, estou engordando a olhos vistos, vou virar uma baleia.
Que nada, a senhora est tima. Leonora regala-se com o doce de banana em rodinhas, Tieta promete:
- Depois lhe digo como chamam esse doce aqui...
Risos na sala. Modesto Pires comporta-se como homem do mundo, liberal:
- Se quiser dizer, no se acanhe, dona Antonieta. Ada e o padrezinho tapam os ouvidos.
- Maluquice minha, sou uma estouvada. Me desculpe, dona Ada. O que quero pedir ao senhor, seu Modesto,  um conselho.
Homem rico, importante plantador de mandioca em Rocinha, criador de cabras e ovelhas, proprietrio do curtume, de terras a perder de vista, na beira do rio, nas
imediaes de Mangue Seco, de vrias casas de aluguel, entre as quais aquela onde Elisa reside, ningum melhor do que Modesto Pires para aconselhar sobre casas e
terrenos.
- Quanto a terreno em Mangue Seco, se desejar, eu mesmo posso lhe servir. Boa parte daquela rea de coqueiral me pertence. Temos l uma casa de veraneio, para receber
os netos, s que no vm.
Dona Ada no esconde a mgoa: apenas a filha mais velha, casada na Bahia com um engenheiro da Petrobrs, aparece nas frias e traz os dois meninos. O filho, mdico
no interior de So Paulo, scio de uma casa de sade, casado com paulista, promete muito, nunca se decide. Tampouco a filha mais nova; vive em Curitiba, o marido
 paranaense, empresrio, construtor de imveis. Para ver filhos e netos Dona Ada tem de viajar, tomar o avio em Salvador, morre de medo. Antonieta simpatiza com
a queixosa:
- A vida no Sul  muito absorvente, ningum tem tempo para nada.  por isso que quero comprar casa aqui e terreno na praia.
Ali mesmo acertaram os detalhes sobre o lote em Mangue Seco, vizinho ao do comandante Drio, adquirido tambm a Modesto Pires. Depende dela ver e gostar, naturalmente.
- Vai adorar, o lugar  lindo e est a salvo da chuva de areia. De l para as dunas, um pulo, uma caminhadinha a p, boa para manter a forma.
-  bonito, sim - confirma Dona Ada. - Tomara que a senhora venha sempre, assim aumenta nossa colnia de veraneio. Daqui a uns dias estaremos l. Logo que Marta
e Pedro cheguem. - Refere-se  filha e ao genro engenheiro.
- Ns iremos com o Comandante, neste fim de semana. Estou contando as horas. Faz para mais de vinte e seis anos que no vejo a praia de Mangue Seco.
Modesto Pires informa:
- Quanto  casa na cidade, sei que dona Zulmira quer vender a dela, at j mandou me oferecer. no me interessei, comprar casa de aluguel em Agreste  comprar consumio.
Os aluguis so baixos, as casas sempre precisando de conserto, o pagamento atrasa. Tenho algumas, vivo me amofinando com elas. Mas essa casa de dona Zulmira vale
a pena. Construo boa, terreno plantado. Ela quer se desfazer para dar o dinheiro  Igreja. Tem medo que o sobrinho, se ela morrer, faa como os parentes do finado
Lito que botaram causa na Justia, contestando o testamento pelo qual ele deixou tudo que tinha para o padre dizer missa. no sei a conselho de quem, dona Zulmira;
resolveu vender a casa e dar logo o dinheiro  Senhora Sant'Ana. A velhinha s ocupa um pedao da residncia: um quarto, a cozinha e o banheiro, o resto - trancado,
se estragando.
Onde ela vai morar?
- Tem uma casinha pequena, desalugada. Vai morar l.
- E quanto ela est pedindo, o senhor sabe?
- J lhe digo. - Modesto Pires vai em busca da pasta, retira um papel.
- Est aqui a quantia, escrita pela mo dela.
- Barato, no ?
Este, razovel. no digo que seja caro mas casa aqui no tem valor. Passe na rua e veja quantas ao abandono, em runas. Como diz minha filha Teresa, a que mora em
Curitiba, Agreste  um cemitrio.
- Um cemitrio? Se Agreste, com esse clima, essa fartura de frutas e peixes, essa gua santa,  um cemitrio, o que se h de dizer de So Paulo?
- So Paulo, dona Antonieta,  uma grandeza, com aquele parque industrial, aquele movimento, aqueles edifcios, uma potncia. Que idia a sua, comparar Agreste com
So Paulo.
- No estou comparando, seu Modesto. Para quem quer ganhar dinheiro, So Paulo  a cidade ideal. Mas para viver, para descansar, gozar de um pouco de sossego, quando
a gente cansou de trabalhar e de ganhar dinheiro...
- E tem quem se canse de ganhar dinheiro? Me diga, dona Antonieta?
No sei de ningum.
- Tem, sim, seu Modesto. - Tieta pensa em Madame Georgette passando o negcio adiante, embarcando para a Frana, no auge dos lucros.
- Pois eu no acredito, me perdoe. - Muda de assunto. - Soube que a senhora mandou telegramas para So Paulo pedindo que a Hidreltrica nos fornea luz.
- Telegrafei para dois amigos de meu finado marido que me consideram. Pode ser que d resultado.
- Deus permita. Esto falando por a que um dos dois foi o doutor Ademar, ser verdade?
- , sim, dou-me muito com ele, lhe arranjei uns votos na ltima eleio. Felipe no votava nele, coisas de paulista metido a nobre. Mas se davam bem e comigo ele
sempre foi muito atencioso.
- Para mim-seintenciou o dono do curtume -  um grande homem.
Rouba mas faz. Se todos fizessem como ele, seramos rivais dos Estados Unidos. no pensa assim, dona Antonieta?
- Nessas trincas de poltica, sou ignorante, seu Modesto. Lhe digo apenas que grande coisa  ter amigos. Felizmente, eu tenho.
- se a senhora conseguir a luz da Hidreltrica, o povo vai lhe entronizar no altar- mor da Matriz, junto com a Senhora Sant'Ana.
Idia to estapafrdia, Antonieta riu s gargalhadas.
onde Tieta recusa a proposta de dona Zulmira e em troca v uma proposta sua vetada pelo pai, pelo cunhado e por Elisa algum, cujo nome no importa, aconselhara
dona Zulmira a vender a casa e colocar o dinheiro vivo no altar necessitado da Senhora Sant'Ana, livre De contestao, garantindo-lhe o lugar no cu,  direita de
Deus, entre os mais justos. Quem sabe, a mesma voz divina a aconselhou a pedir  ricaa de So Paulo o dobro do preo proposto a Modesto Pires. A bolsa de imveis
funcionando pela primeira vez em Agreste.
Se Antonieta no soubesse do preo anterior, talvez nem discutisse pois, mesmo pelo dobro, a vivenda ampla e fresca, em centro de terreno, com rvores e jardim,
no lhe parece cara. Tinha, porm, horror de ser explorada, sabia o valor do dinheiro. Generosa, mas no esbanjadora. Perptua se engana ao julg-la. Conhecera dias
podres, conserva vivo o travo da misria. Custou-lhe esforo, habilidade, tato e malcia o que conseguiu juntar a duras penas, no pensa desperdiar seu p de meia.
Com a morte de Felipe, secou-se a fonte. Recusa a proposta de Dona Zulmira, oferece a quantia pedida a Modesto Pires. no teve ainda resposta.
Em lua-de-mel com a famlia d-se conta, no entanto, do encoberto interesse de cada um, da avidez maior ou menor a mov-los, apenas os sobrinhos escapam, ainda limpos,
fora do crculo mesquinho onde os demais se movimentam. Mais do que os pedintes, os parentes a apoquentam.
Preocupada com o fato de Astrio pagar aluguel, levantara a hiptese de, comprar a casa de dona Zulmira ou outra semelhante, igual em conforto, residirem juntos
os dois casais: o Pai e Tonha, Astrio e Elisa. Consultou a - uns e a outros, em separado.
- No minha filha, no me obrigue a isso! - o velho bate com o cajado no cho, lana uma cusparada negra, de fumo mascado. - Elisa s pensa em modas e figurinos,
o rdio naquelas alturas o dia todo. Astrio, aqui pra ns, no vale um peido. Tenho que estar controlando para ele no meter a mo no dinheiro que voc me manda.
Se voc faz questo e como no tenho outro jeito, vou morar com eles. Mas se voc tem piedade de seu Pai, me poupe esse desgosto. Pode ser meu fim.
Tieta termina rindo, que outra coisa pode fazer? O Velho, forte, sadio, mando, a fazer-se fraco e humilde para no viver com a filha e o genro.
- E se fosse com Perptua, Pai? Vosmic aceitava?
- Deus me livre e guarde, minha filha! Antes a morte. Me crave logo um punhal no peito mas no me pea isso.
- Vosmic no toma jeito.
- Com voc, eu posso morar, minha filha. Voc  direita, saiu a mim.
Nossos gnios combinam.
No menos categrica a reao de Astrio e Elisa:
- Enquanto puder pagar o aluguel, prefiro que a gente more s, Elisa e eu. no por me Tonha, mas seu Z Esteves  osso duro de roer. Tem cisma comigo. - Desculpa-se
Astrio, cheio de dedos.
- Pai s tem modos com voc, com a gente  aos pontaps. J pensou, ele e a gente morando na mesma casa? Quer saber de uma coisa, mana? Eu no tenho vontade de ter
casa prpria em Agreste. At prefiro no ter.
Tieta no perguntou por qu. Sorriu para a irm, essa pobre Elisa.
- se  assim, no se fala mais nisso.
Mais um fragmento da narrativa, na qual durante a longa viagem de nibus-leito da capital de So Paulo a da Bahia Tieta recorda e conta episdios de sua vida a Leonor
- quando me dei conta da inteno de Jarbas: queria que eu fizesse a vida, ficando para ele o ganho, para sustentar sua malandrice, senti uma raiva subir pelo meu
peito, uma sufocao. O mais difcil foi arrancar o amor cravado em mim, no meu corpo inteiro. Tinha me apaixonado, estava entregue. Pela primeira vez no era s
gozo de cama, era uma coisa diferente, to boa.
Jarbas La Cumparsita subsistia com razovel largueza s custas do fsico de gigol latino-americano em filme de Hollywood. Esbelto, corpo de toureiro, negros cabelos
lisos  fora de brilhantina, o bigodinho, as unhas tratadas, a piteira longa e os olhos, ah!, olhos fatais. Aqui e ali, laboriosas, as trabalhadoras reunidas em
cooperativa para sustentar os gastos do gala.
Ameaas quando preciso, uns bofetes, seindispensveis, La Cumparsita vinha e recolhia a fria. Mas para chegar a bom resultado faza-se necessrio que a obrigao
fosse precedida de namoro e conquista, levando a recruta ao delrio: faa de mim o que voc quiser, meu amor. Jarbas possua uma pequena voz agradvel, cantava tangos
e, por vezes, dizia-se argentino.
Quando falou de amor a Tieta, declarando-se enrabichado, disposto a viver com ela para todo o sempre, contando vantagens de dinheiro e importncia social, no foi
a perspectiva de largar a vida, ter mando e filho que a jogou nos braos dele.
- Xod to grande, eu no pensava em nada disso, ele no precisava prometer me tirar da zona. Se me levasse para viver com ele, em casa nossa, eu de rainha, muito
que bem. Mas se quisesse apenas vir tarde da noite, aps a ocupao, deitar comigo, falar de coisa - toa, tomar de minha mo, dizer palavras doces, cantar em meu
ouvido me abrindo por dentro e por fora, isso me bastava demais. Cega de amor.
Quando elas estavam presas sem remdio  melosa lbia e  inegvel competncia nos embates de alcova, ento Jarbas decretava a lei, ditava os itens do regulamento
das finanas do casal: para ele, no mnimo, setenta por cento da receita diria, da para cima. Cafifa de tal status implica em despesas.
Empenho no trabalho, nada de vagabundagem, cadela.
- Eu estava desarvorada, no auge da paixo, no maior amor, e at comeara a acalentar a idia de morar com ele, largar o ofcio, ser mulher direita, j pensou? Tudo
conversa mole para engambelar. Depois, igual aos tangos que ele cantava, la comparsa de misrias enfim, s ento compreendi por qu. Me deu uma raiva, dele e de
mim. Ele nem tinha acabado de falar, eu juntei cala e palet, camisa e gravata, atirei tudo no corredor: fora daqui, escroto!
Revolta e fria, Jarbas no esperava. Vez ou outra, um gesto de recusa, boca e peito em choradeira. Resistncia curta. Logo a lbia, a intimidao, a violncia,
em ltimo caso: consolo e argumento decisivos. Tentou a escata inteira com Tieta, perdeu o tempo.
- Primeiro veio manso, depois gritou comigo, levantou a mo. Para mim, imagine! Eu, acostumada a labutar com cabras e bodes, Tieta do Agreste, curtida no mar de
Mangue Seco. Me dei conta que o cabelo dele no cheirava, fedia a brilhantina. Saiu ventando. Mas, depois que ele saiu...
- Sim, mezinha...
- Chorei como uma cabrita desmamada. no por ele, mas pela decepo, pelo sonho desvanecido. no h nada to ruim como sonhar, minha filha.
- Sonho tanto...
- Quem sonha, paga caro. Bom  querer. Comecei tudo de novo, devo esse favor a Jarbas La Cumparsita. Disse pra mim mesma: puta posso ser mas de alto bordo. A partir
da cheguei ao que sou.
- Nunca mais se apaixonou, mezinha?
- Paixo daquela, de perder a cabea, nunca. Gostar, gostei de alguns.
De Felipe, demais.
Mesmo depois de Felipe ter falecido, Tieta no retirara o pijama e os chinelos do quarto de dormir, como se ele fosse voltar a qualquer momento.
Em hora incerta, como sempre, para o sorriso e o beijo.
- Com Felipe foi diferente, durou quase vinte anos. Quando me conheceu, eu ainda era jovem, estabanada.
- Era doido por voc, mezinha.
- Ele encontrava em mim alegria, o descanso, o outro lado da vida.
Tambm no sei definir meu sentimento. Amor, amizade, gratido, mistura das trs coisas? Por isso vim nessa viagem, porque ele morreu e fiquei de novo sozinha como
no comeo. Para pegar as duas pontas do novelo e dar um n, ligar princpio e fim.
- Fim, mezinha? To nova, to bonita, com tantos pretendentes?
- no falo disso, ainda no apaguei o fogo, ser que ele se apaga um dia?
Penso que s com a morte. Quero apenas mergulhar no que fui, saber como seria se eu tivesse ficado em Agreste em vez de vir para So Paulo. Quero tomar banho na
Baia de Catarina, no rio, enterrar os ps na areia das dunas de Mangue Seco. S isso. E encher teu peito de ar puro, curar tua anemia.
- Mezinha, voc  to boa!
- Boa? Sou boa e ruim, quando tenho raiva ningum pode comigo, viro co.
- J testemunhei, mezinha. Mas a raiva passa, a bondade fica.
- Aprendi com o sofrimento. Uns trancam o corao, outros abrem, o meu se escancarou. Porque encontrei Felipe. Se no tivesse conhecido ele, talvez s a ruindade
crescesse em mim, engordando na amargura. Para falar a verdade, no sei. Dizem que sou mandona.
- Penso que voc j nasceu como , mezinha. Nasceu para ser pastora, cuidar do seu rebanho.
Do banho de rio com os sobrinhos, diverte-se Tieta com os sobrinhos. peto, com espoleta, reinador, matreiro, a rondar em torno delas, da tia de So Paulo e da formosa
enteada, quando no est no bar seinstruindo no que no deve. No que no deve?
- Esse menino  minha cruz. Ponho de castigo, arreio-lhe a taa com vontade, nem assim. Em vez de estudar, vive no bar aprendendo porcarias...
tenho um desgosto! - lastima-se Perptua, constatando a ausncia do filho menor.
- Porcarias? - Antonieta adora arreliar a irm, escandaliz-la. - Pois fique sabendo que j esto ensinando essas coisas nas escolas, li nos jornais que vai ser
obrigatrio, desde o primrio.
- Nas escolas, o que?
- Aulas de educao sexual para meninos e meninas.
- Cruz credo! - benze-se, puxa do tero, o mundo est perdido.
Peto desemboca na varanda, contente da vida, o ar sonso, o olho velhaco regalando-se nos seios entrevistos, nas pernas e coxas  mostra; vai ter uma indigesto,
sorri Tieta. Vem recordar o banho no rio, programado para aquela manha. Perptua ordena a Ricardo que se prepare e acompanhe a tia. Iro  Bacia de Catarina.
No caminho, carregado com os instrumentos de pesca, Peto conversa com Leonora:
- Me disse que voc  minha prima.  mesmo?
- Sou sim, Peto. Est contente com essa prima feiosa?
No bar, Peto escuta Osnar provocando Seixas sempre ocupado a levar as primas ao cinema, ao banho de rio, a passear com elas, so vrias: minha prima Maria das Dores
para c, minha prima Lurdinha para l, minha priminha Lalita chegou da roa. Osnar cantarola a pardia de certa melodia italiana, Come prima...: quem tem prima,
come prima. No bar, aplicado, Peto se educa.
- Contente, pacas. Feiosa? P! - O olho atrevido atravessando a sada de banho. - S  bonita. Seu Ascnio est gamado.
- Quem?
- Morda aqui - estende o dedo mnimo. - Diga que no sabe. Pb!
Mistura as expresses da terra com a glria ouvida no rdio, fregus de programas de msica jovem. Tieta e Ricardo ficaram para trs.
- A tia  legal. Gosto dela pacas.
A Bacia de Catarina  uma pequena enseada na curva do rio, onde as margens se afastam, na maior distncia. A correnteza serpeia entre pedras, seixos e rochedos,
guas claras, lmpido abrigo. Dali se avista o ancoradouro, os barcos, as canoas, a lancha de Elieser. Escondidos entre as rochas,  margem, recantos discretos,
pousos de namoro e frete, o capim amassado pelos corpos.
Antigamente havia horrio para homens e mulheres banharem-se separados na Bacia de Catarina, duas vezes por dia, pela manh e  tarde. Com o aparecimento dos maios
e a evoluo dos costumes - mesmo em Agreste os costumes evoluem - desapareceram os horrios e a separao. De manha cedinho  certo encontrar seu Edmundo Ribeiro,
Aminthas e Fidlio. Seixas, na farra com Osnar at o alvorecer, aparece mais tarde comboiando primas.
Lavadeiras batem roupa sobre as pedras. Lavadeira foi Catarina, conta a lenda:
L vai Catarina com sua bacia, o patro atrs de fala macia; gua fria quente a bacia de Catarina.
Por volta das seis surge Carol, passa em silncio, sem dar trela a ningum, todos espiam. A gua  fria,  quente a bacia, na de Carol mergulha somente Modesto Pires,
um despropsito!
Ambas vestidas, despidas em sumrios biqunis, Antonieta e Leonora deitam-se sobre as pedras. Estendidas de bruos, desabotoam os sutis para melhor bronzearem as
costas, sobram volumes proibidos, dignos de ver-se.
Ricardo mergulha, nada para longe. Peto atira o anzol bem perto, aproveita, os olhos vo e vm. O melhor banho   noite, sob o luar. Quando alua crescer, viro
com Ascnio, j combinaram.
Tieta admira Ricardo, nadando em grandes braadas, mergulhando, atravessando o rio, um jovem atleta, o corpo moreno, musculoso. Algum se aproxima, vem deitar-se
perto, sobre as pedras: dona Edna, desejando Bom-dia. Acompanhada por Terto, seu marido embora no parea. Ricardo vem vindo em direo  enseada, Tieta acompanha
o olhar de dona Edna a envolver o rapaz, a cabra deve gostar de meninos, ei-la mordendo o lbio inferior. no v que ainda no est no ponto, verde demais? Deslambida,
descarada. Ricardo se aproxima, sai da gua, senta-se nas pedras ao lado do irmo, sorri para a tia e para Leonora. Atrevida, dona Edna:
- Bom-dia, Ricardo.
- Bom-dia, dona Edna, no tinha visto a senhora.
- Voc nada bem.
- Eu? Peto nada muito melhor.
Tambm dona Edna baixou as alas do mai e Ricardo desvia a vista enquanto Peto confere e julga. no h comparao possvel, as tetas da tia e as da prima vencem
fcil e do lambujem. Tieta acompanha a cena, apia-se no cotovelo, deitada de lado. Casada e puta, dona Edna, e o marido, que mansido de corno! Zangada, Antonieta?
Ficou puritana ou protege a integridade da famlia e da Igreja? O sobrinho no chegou ao ponto, nem de vez est.
Peto, menino perdido, ousado, sem noo de respeito, toca o brao de Ricardo, segreda:
- Os cabelos da tia esto saindo do biquni.
- Cabelos?
- Os de baixo, espie. Os pentelhos.
Ricardo no espia; severo, fita o irmo, olhar de censura e advertncia, atira-se no rio novamente. Peto nem liga: Cardo vive por fora, um careta.
Enquanto passa creme nas costas da esposa- marido deve ter alguma serventia - Terto dirige-se a Tieta:
-  verdade, dona Antonieta, que a senhora. ..
- Telegrafei, sim. E o senhor, apostou? Achando que vai vir a luz ou no?
- Eu no apostei, onde vou buscar dinheiro para apostas? Edna acha. ..
Antonieta no seinteressa pela opinio de dona Edna. Vagabunda!
Prende o suti, durante a operao os seios aparecem duros, opulentos, no esses molambos que dona Edna faz questo de exibir. Pe-se de p, de um salto mergulha
nas guas da Bacia de Catarina, em braadas largas nada para o meio do rio onde est Ricardo. Peto abandona vara e anzol, convida Leonora:
- Vamos?
Dona Edna mede o garoto, ainda no lhe acende o pito da massagem como rao
Ricardo mergulha, foge nas guas do rio. mergulha nas folhas do livro, na hora da banca, aps o passeio, o bate-bola, a pesca, o banho antes do almoo, diariamente.
De volta do banheiro, pingando gua, a tia senta-se diante do espelho, afrouxa o penhoar, toma dos tubos de creme, dos potes, dos frascos. O perfume flutua, estende-se,
invade as narinas do rapaz.
Do sobrinho mais velho, atencioso e recatado. Sempre s ordens da tia e da prima- no esquea que Leonora  sua prima, recorda-lhe Perptua mas no a segui-la, brechando
contornos e profundezas, o olho vicioso, como o menor. ao contrrio, a afastar a vista, a desvi-la para o outro lado quando um seio aflora ou uma sombra seilumina
sob robes e shortes.
Mergulha nos livros, foge nos teoremas de lgebra, abstratos. Necessita manter-se atento, no se deixar distrair pois, apenas se distrai, os olhos rumam para o quarto
onde a tia, porta aberta e nenhum cuidado, se embeleza.
Cometer pecado mortal, com certeza absoluta, se espiar a tia. Mas quando acontece ver sem querer, por acaso? Por mais que faa, impossvel no enxergar to expostos
atributos.
Pior que ver,  pensar. no olhara quando Peto chamou sua ateno para os plos da tia, atirou-se no rio. Mas, mesmo dentro da gua, nadando, sem espiar, ele os
imaginara. De olhos fechados ou abertos, queira ou no, pensa, imagina. A gente imagina sem querer, mesmo no querendo,  a maneira de Deus provar a f, o zelo dos
eleitos.  preciso controlar-se; vencer os maus pensamentos.
E os sonhos? Os sonhos, a gente no controla. Cosme, um asceta, o pusera em guarda contra os sonhos, neles o demnio tenta os homens, nem os anacoretas escaparam.
Dormindo, a gente pode pecar e se condenar.
Cosme aconselha espalhar gros de milho ou de feijo sobre o lenol, deitar em cima, castigando a carne. Na rede, impossvel. Da rede, no escuro, ouve e percebe
a tia na toalete noturna, retirando a maquiagem. Fechar a porta no resolve, ao contrrio. De porta aberta fica reduzido a pequenos rudos de potes e frascos, a
limitadas amostras, vislumbres de carnao surgindo do robe. Mas para a imaginao no h limites, quando fecha a porta o robe se abre inteiro e  to curta a camisola!
S as oraes desviam vista e pensamento.
De qualquer maneira, de noite ou de dia,  rduo o combate com o demnio, s a ajuda de Deus permite a vitria. Na banca, antes do almoo, tenta absorver-se no estudo
da matemtica ou da histria, enquanto, no quarto em frente, a tia se pinta e se perfuma. Os teoremas de lgebra, os navegadores portugueses. Impossvel concentrar-se,
o perfume acalentou seu sono no seminrio, aqui o entontece.
- Cardo!
- Diga, tia.
- Est ocupado?
- Estou estudando,  hora da banca. Mas, se quiser alguma coisa...
- Quero, sim. Venha c.
Ricardo deixa o livro, entra no quarto.
- Passe creme nos meus ombros, faa uma massagem. Abra a mo. Espreme a bisnaga, pe-lhe no cncavo da mo o creme oloroso. - V, espalhe primeiro, depois amasse
com as mos e os dedos.
Baixa o penhoar, exibe as espduas nuas; com a mo fecha-o sobre os seios, fica composta, ainda bem. Curva-se para facilitar a tarefa do sobrinho.
Ricardo espalha o creme e comea, desajeitado, a esfregar-lhe os ombros.
- Nas costas, filho.
Esse no tem malcia, se fosse o pequeno estaria tentando ver a curva do busto sob as rendas. O rapaz sente o cheiro doce do creme, a maciez da pele.
No pode entupir o nariz nem retirar as mos. Sente, sem querer sentir. O Demnio o possui pelos dedos, pelas ventas. Que fazer, Senhor? Orar, pois a orao  a
arma que Deus entregou aos homens para vencer as tentaes, derrotar o inimigo. Padre-Nosso que estais no cu...
- Fora, meu bem.
Curva-se ainda mais Antonieta, a mo j no prende o robe. Ricardo desvia a mirada pois o seio, solto, surge inteiro, moreno, volumoso. Onde parou, na orao? no
nos deixeis cair em tentao...
- Chega, meu filho, muito obrigada.
Ao agradecer, volta-se com um sorriso, surpreende o sobrinho a mover os lbios.
- Que  que voc est fazendo? Rezando?
Espoca em riso, Ricardo encabula, vermelho, escabreado.
- Tem medo de mim? no sou diabo, no.
- Oh!, tia.
- Nem fazer massagem no cangote da tia  pecado.
- No pensei nada disso. Tenho o costume de rezar enquanto fao algum trabalho manual. -mente, ainda por cima.
- Ento me d um beijo e v estudar.
Beijo do pequeno no seria esse distante roar de lbios na face. Peto  um perigo. aos doze anos nem Tieta possua igual atrevimento, tanta urgncia.
Dos alegres dias quaseinteiramente livres de preocupaes o programa de festejos continua e seintensifica. dias alegres, despreocupados, felizes; dias de passeio,
de prosa e rede, no trino dos passarinhos a infinita paz.
Na rede pendurada na varanda, ouvindo o gorjeio do pssaro sofr, Leonora Cantarelli pergunta-se como a vida pode ser to maravilhosa.
Ascnio passa por um momento, para desejar bom-dia, a caminho da Prefeitura. Na cidade, conta ele, fervem as discusses sobre o problema da eletricidade: Tieta obter,
atravs de suas relaes paulistas, mandes da poltica, a instalao dos postes da Hidreltrica? Uns dizem que sim, outros que no, os ltimos em maioria. Ningum
duvida da riqueza, da importncia social da viva do Comendador Cantarelli, mas da a mover grados da estirpe de governador e senadores vai distncia. De qualquer
maneira, bom assunto para as conversas, os debates, para matar o tempo longo, as lentas horas arrastadas. Ditosas ao ver de Leonora.
Aps cumprimentar as senhoras e comentar a polmica da luz eltrica, Ascnio dirige-se ao trabalho. O rosto esfogueado, a loira cabeleira, o riso de cristal, finssimo
bacar aos ouvidos do rapaz, Leonora acena adeus da porta de casa. Adeus? At logo, at daqui a pouco, pois ele passar de novo, meio sem jeito, com receio de parecer
importuno. Mas, se demora a chegar, Leonora reclama, a fala doce queixume:
- Demorou, por qu?
- Medo de ser chato.
- Se repetir isso, me zango.
Sempre com numerosa e alegre comitiva, subiram e desceram o rio na; canoa a motor do Comandante, lerda e segura, na lancha de Elieser, no bote veloz de Pirica. No
sbado finalmente iro a Mangue Seco, Tieta e Leonora sero hspedes de dona Laura e do comandante Drio. O Secretrio da Prefeitura, restabelecido, pelo menos em
aparncia, da decepo da viagem a Paulo Afonso, anuncia  bela Leonora Cantarelli:
- J tomei as necessrias providncias burocrticas para encomendar um luar deslumbrante para voc. Sabe que noite de lua cheia em Mangue Seco  a coisa mais bela
do mundo?
- Tem que ser um luar daqueles seno no aceito.
- Deixe comigo, sou chapa de So Jorge.
Um luar para namorados, gostaria ela de dizer mas se contm, tudo  to novo e inesperado, um sonho antigo fazendo-se de sbito realidade. Tarde demais. Tambm Ascnio
gostaria de dizer: encomendei um luar de namorados, onde a coragem? Pobre, reles funcionrio municipal, como elevar os olhos para herdeira milionria? Nem em sonhos.
Ainda assim, pensa Leonora, pensa Ascnio, so dias plenos, venturosos, benditos. O melhor  no pensar.
No meio da semana, jantaram em casa de dona Mil. Dona Carmosina anunciara espantoso cardpio, um despotismo de pratos todos eles da mais alta qualidade, para regalar
o mais fino paladar sulista. Da maioria desses quitutes, Leonora nunca ouvira falar.
Na sala repleta de bibels, recordaes de um tempo de abastana abastana dos Sluizer consumida pelo finado Juvenal Conceio, amigo do bom e do melhor, restaram
apenas os bibels e o tenaz amor  vida da me e da filha -, Leonora seinforma com Ascnio:
Tei!? Que bicho  esse? Uma ave?
- Um lagarto.
- E se come?
- Delicia. Mais gostoso do que capo. Daqui a pouco voc vai ver.
Dona Mil chega da cozinha, onde comanda:
- A carne-de-sol est quase pronta, o piro de leite tambm. A frigideira de maturi j est dourando no forno.
Leonora recorda-se de outra conversa e cobra:
- Por falar em comida, mezinha, como se chama aquele doce de banana da casa de dona Ada, voc ficou de me dizer...
Risos gaiatos, Ascnio encabulado, Perptua fecha a cara, quem explica  dona Mil, a idade lhe concede privilgios:
- Doce de puta, minha filha. Dizem que tem desse doce em tudo que  casa de rapariga. no , Osnar?
- A senhora pergunta logo a mim, Marechala? Eu que no sou chegado a doces e no freqento essas casas... pergunte ao Tenente Seixas que  fregus... - Alm de debochado,
cnico.
Jantar de muitos convidados: afora as homenageadas, Perptua, Elisa e Astrio, Barbozinha, Ascnio, a malta do bilhar. O Comandante e dona Laura esto em Mangue
Seco.
Sucedem-se os pratos, a frigideira de maturi levanta exclamaes entusisticas, Barbozinha proclama-a digna de um poema, pelo menos de um brinde, corre a cerveja,
a conversa entremeada de pilhrias, de risos e de algumas piadas de mau gosto. Devidas a Osnar e a Aminthas, a propsito da lrica melancolia em que se consomem
Leonora e Ascnio: ela sonhadora, ele ansioso. Retiraram-se para a varanda, querem estar a ss. Dona Carmosina, enternecida, adora alcovitar um namoro, torcendo
pelo sucesso, pelo casamento - festa rara em Agreste. To bom se tudo desse certo, ele se recuperando do golpe vibrado por Astrud, a traioeira vbora, recuperando-se
e a do fracasso do noivado com o ignbil caa- dotes. Cu azul, sem nuvens.
- No fiquem a a fofocar, seus cretinos. no acham um quadro lindo?
Ela  to mimosa!- dona Carmosina aponta o casal isolado, mastigando tei e maturi entre suspiros.- Ascnio tirou o prmio grande na loteria do amor.
- Loteria do amor, vulgarmente conhecida como golpe do ba - goza Osnar. - Em troca, perdemos nosso futuro prefeito.
- No vejo por qu.
- Coronela, pelo amor de Deus... Onde est o tutu? Em So Paulo.
- Leonora j disse que gosta daqui.
- Diz isso agora, na influncia do rabicho. Depois, passa Aminthas  ctico como compete a um humorista. - Namoro sem futuro, Carmosina.
No vai adiante.
- Se me falar que a Generala no vai deixar a enteada ficar aqui, mesmo que ela pea. Se Ascnio quiser, tem de ir para So Paulo - retorna Osnar.
- E quem vai ser prefeito, me diga? S se for voc, Coronela. Tem meu voto.
A Generala se empanturra, ouvindo, sem prestar ateno, o convers de Barbozinha que se declara cozinheiro de mo cheia; no existe alis profisso que ele no conhea
a fundo, tendo-as exercido todas  perfeio. Tieta aprova com a cabea ou com monosslabos, enquanto constata alarmada como est engordando, daqui a dias no caber
nos vestidos. Quisera ter a natureza de Leonora que no engorda. Passou tanta necessidade, ficou magra para o resto da vida. Procura a enteada com os olhos. L est
ela, na varanda, derretida ao lado de Ascnio. Cabrita sofrida e direita, ningum merece tanto ser feliz. Ter Ascnio t amanh competncia? Tieta no cr. Mesmo
se ele quisesse, em Agreste seria impossvel.
Dona Mil e dona Carmosina vm juntar-se a Tieta e ao poeta:
- Nunca vi ningum to apaixonado como est Ascnio. - Dona Carmosina no tem outro assunto. - Voc acredita que Leonora corresponda?
- No sei... ela sofreu muito, j lhe contei, Carm. Teve um noivo que s queria avanar no dinheiro dela, dona Mil. Foi uma decepo muito grande, at hoje est
marcada.
Barbozinha confia na fora do amor:
- Ningum morre de amor, de amor se vive.
- Se me envergonha! Depois vem dizer que j morreu de amor por mim no sei quantas vezes. Tambm desencarna e reencarna com a maior facilidade.
- Vivo morrendo por voc, Tieta. Se voc lesse meus versos, saberia.
- Seu Barbozinha ainda  melhor na mentira do que na rima. Mentiroso igual no tem por essa redondeza - afirma dona Mil e muda de assunto. - E a casa, Tieta? J
achou outra, a seu gosto?
Todos a par da surpreendente alta ocorrida no preo dos imveis com a chegada das paulistas ricas.
- Uma descarao! Como se eu fosse mesmo paulista, no tivesse nascido e me criado aqui, uma explorao. Mas, se dona Zulmira reduzir o preo, acabo comprando, 
uma casa como eu quero. As outras que corri nenhuma me agradou.
Saem tarde do jantar. Ascnio as acompanha at a porta de casa Perptua morta de sono, habitualmente dorme s nove da noite, s seis da manha firme na igreja para
a missa. Leonora, nas nuvens, sorriso abobado olhar de quebranto, cabrita tola. Tieta sacode os ombros: no fundo no tem muita importncia, no se morre de amor,
de amor se vive; Barbozinha tem razo, algum disse que os poetas tm sempre razo. Tendo passado o que passou, o namoro de Ascnio no poder faz-la mais infeliz.
Alguma lgrimas no nibus de volta, depois o esquecimento.
Antes de despedir-se, Ascnio assume um ar solene, convida dona Antonieta para ser madrinha da inaugurao festiva do calamento, do jardin e dos bancos da Praa
Modesto Pires, antes denominada Praa do Curtume, o curtume de peles fica prximo, na ribanceira do rio. Obra da Prefeitura, contara com a ajuda do importante cidado:
Modesto Pires oferecera os trs bancos de ferro. Agradecida e bajuladora, a Cmara Municipal decidira mudar o nome da Praa. A cerimnia ser antes do Natal, com
exibio de ternos de reis e do bumba-meu-boi de Valdemar Cot.
- Quem deve ser madrinha  dona Ada, mulher de seu Modesto. Ela ou bem... - ri descontrada, ligeiramente tonta, abusou dos licores. ..Carol, ou as duas juntas
para no haver injustias...
Perturba-se Ascnio, dona Antonieta infunde-lhe certo temor, nunca se sabe quando fala a srio e quando brinca:
-  que tem duas placas para serem descerradas. Uma, com o nome novo da praa, quem vai puxar a fita  dona Ada. Mas a placa das obras, no obelisco, a mais importante,
eu queria que fosse a senhora. Tive a idia e meu padrinho, o coronel Artur, que  o Presidente da Cmara, achou tima.
Mandou que convidasse a senhora em nome dele.
Licores docssimos, tantos brindes  sua sade, Tieta flutua. Noite encantada, clida, alegre. Quem  ela para paraninfar inaugurao de praa pblica? Aceita, comovida.
- Se no fosse por outra coisa, bastavam os telegramas que a senhora mandou para So Paulo sobre a luz eltrica. Mesmo que no d resultado, o gesto  valioso, a
inteno merece. ..
- Nenhum gesto vale nada quando no d certo, meu filho. Inteno?
De que serve inteno, por melhor que seja? Na vida, somente os resultados matam, no se engane. Muito obrigada e boa noite.
Deixa os dois na porta, ri sozinha,  toa.
Da emocionante viso e do pesadelo com cabuloso anjo antes de recolher-se, Tieta passa no banheiro. esta risonha e area, um pouco bebida, quase em estado de graa.
Para a noite ser completa. .. bem, deixa isso para l.
Vagarosa, no corredor, na mo a placa acesa. Comera como um bicho, h quantos anos no provava frigideira de maturi? Os quitutes, cada qual mais saboroso, de estalar
a lngua e revirar os olhos. Quantos repetira, todos engordantes? Quantos clices dos licores de frutas- de pitanga, maravilha; e groselha, divino; de rosas, perfumado;
o indispensvel licor de jenipapo, tantos -, todos embriagadores. Para completar a noite, s falta. .. Cala a boca, viva alegre, mais que alegre, libertina.
Em frente ao gabinete, no reflexo da luz da placa, Tieta enxerga a rede onde Ricardo dorme. Espia na porta, distingue na sombra o sobrinho a ressonar. Que  aquilo?
D um passo, entra. Suspende a luz, espia e v.
Descomposto, o camisolo subindo pelo peito e por baixo nada. Ela o julgava verde, nem de vez ainda. Enganara-se, quem tem razo  dona Edna, arguta. J no ponto,
e como! Desmesurado, benza Deus.
Para estar assim armado, com quem sonha o seminarista? Com os santos no h de ser. Aquele tesouro ali,  mo, e ela proibida, que injustia mais medonha. no sabe
bem por que proibida, mas deve existir uma razo a faz-la afastar a vista, voltar as costas, andar para a alcova, a placa acesa, acesa ela tambm. Que desperdcio!
Empanturrada, dorme sono agitado. Primeiro sonha com Leonora e Ascnio, fogem os dois pelas ruas de Agreste, perseguidos pela populao,  frente dos linchadores
esto o profeta Possidnio e Z Esteves, brandindo O cajado. O pesadelo prossegue com Lucas a lhe ensinar posies e requintes enquanto Ricardo, de batina e asas
de anjo, sobrevoa o leito. Suspende a batina, exibe a estrovenga. Lucas sumiu. Anjo decado, o sobrinho prope massagear-lhe o cangote com o magno instrumento. Mas
quando Tieta vai agarr-lo, os braos no se elevam, esto presos. O anjo no  mais Ricardo,  o bode Incio. Ela no passa de uma cabra em cio, saltando sobre
as pedras.

Captulo culinrio onde o autor oferece como brinde aos leitores, na inteno de segura-los, secreta receita de frigideira de maturi, de autoria desconhecida como
sabem ou no sabem, maturi  o nome dado a castanha do caju quando ainda verde. Ns, baianos, mulatos gordos e sensuais, cultivados no azeite amarelo de dend, no
branco leite de coco e na ardida pimenta, utilizamos maturi num prato raro e de especial sabor. Alis em mais de um, pois com a castanha verde do caju pode-se preparar
moqueca ou frigideira.
Aqui nos ocuparemos apenas da frigideira, petisco oferecido por dona Mil  paulista Leonora Cantarelli para lhe ensinar os sabores da Bahia.
Quem temperou e deu o ponto foi Nice, no fogo de lenha onde moureja h cinqenta anos. Mas a receita a seguir transcrita deve-se a dona Inday Alves, ilustre cordon-bleu
da capital baiana, professora de arte culinria, com muita teoria e longa prtica. Dela a obtive e em brinde aos leitores a ofereo.
Lambendo os beios, aps fartarem-se no manjar sublime, talvez mais facilmente cheguem s pginas finais, ainda distantes, deste j extenso folhetim. Estamos na
poca da propaganda, da arte suprema da publicidade, vivemos sob suas regras e uma delas, das mais provadas, manda distribuir brindes  freguesia, irresistvel chamariz.
Flvio D'Alambert, confrade e amigo, por pouco tem um enfarte:
- Receita de comida? Assim, no mais? ao menos para tapear a coloque num dilogo vivo e pitoresco entre a moa e a cozinheira, durante o qual esta ltima ensina
a receita, de quando em quando interrompida pela paulista com perguntas e exclamaes. Afinal, que pretende voc nos impingir? Romance ou livro de cozinha?
- Sei l!
A literatura tem canones precisos, se a queremos exercer devemos respeit-los, ensina-me o erudito D'Alambert. Duvido-se teve j no tem.
Outro dia, jovem e genial diretor de teatro, o gostoso, o ai - Jesus da crtica, explicou-me ser o texto o elemento de menor valia numa pea, quanto menos O oua
o espectador melhor para a compreenso e a qualidade do espetculo.
Diante disso, atrevo-me e, em seguida, passo a transcrever a receita de mestra do coco e do dend.
Ingredientes:
duas xcaras de maturi;
quatro espetor de camaro seco;
quatro colheres de sopa de leo (de soja, de amendoim ou de algodo);
trs colheres de sopa de azeite doce, digo de azeite de oliva, portugus, italiano ou espanhol, trs tomates; um pimento;
um coco grande;
uma cebola tambm grande;
uma colher de extrato de tomate;
seis ovos;
coentro e sal - o necessrio.
Afervente os maturis e os tempere com alho, sal e extrato de tomate.
Ponha o camaro seco de molho por algum tempo, depois o cate e o passe na mquina de moer juntamente com o coentro, o tomate e o pimento.
Leve ao fogo uma caarola com leo e as cebolas cortadas para refogar.
A seguir, junte os maturis e o camaro seco passado na mquina com os temperos. Deixe apurar. Coloque ento na caarola a massa de meio coco ralado de costas de
costas, o detalhe  importante se quiser que a massa do coco ralado saia como um fino creme - e o leite da outra metade, extrado do bagao com o auxlio de meia
xcara de gua. Deixe cozinhar um pouco e acrescente o azeite doce e trs ovos batidos, primeiro as claras, depois as gemas. Junte um pouco de farinha de trigo aos
ovos. Prove para ver se o paladar est a gosto.
Por fim, tudo suficientemente cozido, coloque em assadeira untada com leo para nela assar a frigideira de maturi, que ser coberta com trs ovos batidos, clara
e gema juntos, e uma borrifada de farinha.
Ponha a dourar em forno quente. S retire o quitute da assadeira quando ela estiver bem fria.
A est, em grifo, a cobiada receita. Difcil mesmo  obter os maturis, no se encontram  venda. Se o leitor pedir por gentileza a Camafeu de Oxossi ou a Luz
Domingos, filho da finada Maria de So Pedro, ambos estabelecidos no Mercado Modelo da Bahia, talvez um deles obtenha e fornea uma ou duas mos da castanha verde
e tenra com sabor de virgem.
Ainda mais difcil ser conseguir o ponto justo, o paladar divino. Por mais correta a receita, por mais estritamente observadas as leis da culinria, tudo depende
do talento e do ofcio da cozinheira, do mestre- cuca, do cordon-bleu - igual  literatura.
O melhor, o mais garantido,  encomendar o prato a Inday, receb-lo feito, regalar-se. Prometi aos leitores um brinde, ofereo dois, ambos de graa: a receita e
o conselho.
Onde a mansa Leonora Cantarelli proclama no sbado pela madrugada, Tieta, Leonora e peto embarcam na canoa do comandante Drio que os veio buscar deixando dona Laura
na Toca da Sogra ainda adormecida: quando acordar, vai cuidar dos preparativos para recepcionar as visitantes. No almoo, haver moqueca, o peixe fresquinho, pescado
na hora.
Os demais iro no domingo, sbado  dia de muita ocupao em Agreste. Ricardo preso  missa, Astrio preso  loja, Elisa  cozinha, Ascnio  Prefeitura onde atende
ao povaru do interior do municpio at o fim da tarde. Dona Carmosina a esperar a marinete para distribuir jornais e revistas, entregar e receber cartas, ler e
redigir algumas, a pedido de roceiros iletrados.
Para a gente dos povoados e do campo, sbado  o dia das compras, das queixas, das reclamaes e dos pedidos  municipalidade, da correspondncia com os parentes
emigrados para o Sul.
Com dona Carmosina ir dona Mil levando comida para juntar  de dona Laura e fazerem um piquenique na sombra dos coqueiros. Tambm o vaie Barbozinha se estiver
melhor do reumatismo a castig-lo pela mania de ficar acordado at altas horas da noite, sondando o horizonte  espera de discos voadores, de naves espaciais de
onde desam seres das mais remotas galxias, vindos de visita ao gro-mestre de todas as sociedades secretas, Gregrio Eustquio de Matos Barbosa, filsofo e vidente
conhecido na imensido do sistema celeste. Ultimamente recebeu irradiaes poderosas, anncios de acontecimentos extraordinrios em futuro prximo. De quando em
vez, num disco luminoso ou na pouco recomendvel companhia de Osnar, de Seixas, de Fidlio e Aminthas, desembarca o poeta na casa mal-afamada de Zuleika Cinderela,
no Beco da Amargura, onde range a msica de velhos discos e se pode danar com raparigas. Nos tempos bomios e literrios da capital, em companhia de Giovanni Guimares,
James Amado e Wilson Lins, no castelo de Vav ou no da Ladeira da Montanha, o vate Barbozinha era apreciado p- de- valsa. Hoje, envelhecido, meio entrevado, mesmo
assim faz figura na cadncia dos passos de um foxtrote, no rodopio de uma valsa.
Num tango ainda arranca palmas.
Tieta e Leonora assistem ao sol nascendo sobre o rio, a moa de So Paulo vai calada, um tnue sorriso: o Comandante a observa e percebe a emoo a domin-la. Quando
ele chegou de volta e fez esse mesmo caminho descendo o rio, no conteve as lgrimas. Tieta tampouco fala, a face fechada, quase dolorosa. Apenas Peto espana a gua
com as mos quando no ajuda o Comandante nas manobras.
Na Toca da Sogra, onde dona Laura recebe os visitantes com gua-de-coco e pequenos peixes fritos no azeite-de-dend - tem batida de pitanga e de maracuj para quem
quiser -, o Comandante desdobrou sobre a mesa uma planta rudimentar dos terrenos de propriedade de Modesto Pires, traada por ele prprio:
- Aqui est a Toca, nosso terreno. Eu lhe aconselho, Tieta, a comprar esse aqui, vizinho ao nosso, nessa rea do coqueiral.  a parte mais bonita e a mais defendida
da areia. Podemos ir at l, se quiser.
- Agora mesmo, para isso vim.
No veio para isso, veio para rever as dunas e nelas se reencontrar. Mas demora de propsito, retm a vontade de correr para os cmoros, de subir ao alto e olhar
a imensido. Com o Comandante e Leonora, vai constatar as vantagens do terreno, quando regressar a Agreste efetuar a compra.
- Pode acertar aqui mesmo. Modesto e dona Ada esto na praia. Alis ele mandou convid-la s para tomar aperitivo em casa dele, antes do almoo.
Fica mais adiante, perto da povoao de pescadores.
- Tudo aqui  belo. Nunca vi nada igual- diz Leonora de retorno  Toca da Sogra, dona Laura exigindo que ela prove a batida de pitanga. Obrigada, dona Laura, mais
tarde aceito. Agora, se me do licena, vou andar na praia. - Mansa e discreta, to querida.
- Olha que o almoo no demora e, antes, devemos ir  casa de seu Modesto. A moqueca j est sendo preparada, Gripa  especialista. - Na pequena cozinha, a gorda
mulata clara sorri a escamar os peixes.
- Volto j, vou s dar uma espiada.
- Vou com voc. - A voz rouca de Tieta.
Peto sai correndo na frente, comea a escalar as dunas, logo chega ao alto, monta numa palma seca de coqueiro, desce veloz a cavalg-la. Convida a tia e Leonora.
A ventania uiva, a areia voa em rodopio.
Tieta sente no rosto o sopro da maresia, o inconfundvel olor. A areia fina, trazida do outro lado da barra na fora do vento, penetra-lhe os cabelos.
O sol queima-lhe a pele. Ali fora mulher pela primeira vez.
Em Agreste, perguntara ao rabe Chalita pelo mascate. Pois no sabe?
Morreu de um tiro quando a policia quis prend-lo na Vila de Santa Luzia, h uns dez anos mais ou menos. Valente, no se entregou, nunca encontraram a mercadoria,
as provas. Chalita cofia a bigodeira.
- Gostava de levar umas quengas para Mangue Seco. Molecas tambm.
- Repousa em Tieta o olhar de sulto decadente. Entre eles, ali, na porta do cinema, por um instante redivivo, o contrabandista.
Os cmoros crescendo diante das duas mulheres, Peto a descer estendido na palma de coqueiro. Qual dessas dunas galgou Tieta na distante tarde do mascate? Leonora
a interroga com os olhos, ela balana a cabea:
- Quem pode saber? Sinto uma coisa por dentro, Leonora. Por estar aqui de novo, com esse vento na cara e esse mar na minha frente. Quase tudo no mundo j apodreceu,
mas ficou Mangue Seco, voc entende? Quando chegar l em cima, voc vai ver.
Esto prximas do cume, Peto as alcana, Leonora fora o passo, os ps se enterram na areia.
- Ai! Que coisa! Isso no existe - exclama a moa paulista ao divisar inteira a paisagem ilimitada.
Busca Tieta com os olhos ofuscados pelo sol e a enxerga erguida no ponto mais alto, no extremo das dunas sobre o oceano, envolta pelo vento, invadida de areia, pastora
de cabras diante de sua cama de noiva.
Leonora chega junto dela, a voz estrangulada:
- Mezinha, no quero ir embora daqui, nunca mais. no vou voltar para So Paulo.
Peto as convida a cavalgar as palhas de coqueiro e escorregar, venham ver como  bom. O vento leva as loucas palavras de Leonora, Tieta no responde.
- Nunca mais! - repete a moa.
Melhor seria se afogar ali, nas vagas desmedidas, no mar enfurecido.
Onde Tieta compra um terreno em mangue seco e Leonora, bem educada, devaneia haviam voltado aos cmoros na noite enluarada, ela e Tieta.
Leonora parecia flutuar na paisagem encantada - de repente liberta do passado, recm- nascida na magia da lua cheia derramada sobre as dunas e o oceano, no embalo
do marulho das ondas. Gostaria de demorar no cimo, deitada sobre a areia, invadida de paz. Mas, quando o Comandante veio recordar o encontro marcado com dona Ada
e Modesto Pires, Leonora no quis ser desatenta, regressou com Tieta  Toca da Sogra.
Por sua vontade, teria permanecido no alto dos cmoros, sob o luar encomendado por Ascnio, deslumbrante como ele prometera, a sentir o mar noturno arrebentando
contra as montanhas de areia. Mesmo sozinha: pensaria nele, cioso dos deveres de administrador, to correto. Sujeito decente, diziam de Ascnio. Decncia, virtude
rara, constata Leonora. Teve de atravessar o Brasil, chegar ao serto, para vislumbr-la. D-se conta de que comete uma injustia: Tieta  decente; a seu modo, sem
dvida. Decncia no significa candura, castidade. Mulher direita, diziam dela no Refgio.
Se estivesse nas dunas poderia escorregar, estendida sobre uma palma de coqueiro, igual a Peto, moleque travesso. no fora travessa, no fora moleca nem menina.
no tivera infncia, tampouco adolescncia; no provara o gosto do primeiro beijo recebido ou dado em mpeto de ternura. no tivera namorados, no ouvira palavras
sussurradas, clidas. aos treze anos j lhe apalpavam inexistentes seios.
Tenta reconhecer os sons da harmnica - h festa na povoao.
Passaram por l, viram os pescadores reunidos diante de uma choupana em torno do tocador. no era outro seno Claudionor das Virgens, com a harmnica, as emboladas,
as trovas, os improvisos, de lugarejo em lugarejo, de batizado em batizado, de casamento em casamento, onde houver festa. ao v-los, saudara:
Salve o senhor Comandante E sua ilustre companhia.
Na Toca da Sogra, Antonieta, apressada como sempre que deseja alguma coisa, acerta os ltimos detalhes da compra do terreno. Leonora persegue o som da harmnica,
distante da conversa.
- Pague como bem entender, em quantas prestaes quiser. Nem por ser dono vou mentir: terreno em Mangue Seco no se compra nem se vende.
De muitas dessas terras, ningum sabe o dono. Faz para mais de quatro anos que vendi um lote. Para um gringo que apareceu por aqui; se lembra, Comandante?
- Lembro muito bem, era um alemo, pintor. Anunciou que ia se desfazer da casa na Baviera para vir morar em Mangue Seco.
- Pagou trs prestaes adiantadas dizendo que precisava de trs meses para botar a vida em ordem na terra dele e voltar de vez. Nunca mais voltou nem acabou de
pagar.
- Eu quero pagar  vista, seu Modesto. Dinheiro batido, moeda corrente... - Anuncia Tieta a rir.
- V-se que a senhora no  mulher de negcios, dona Antonieta: com a inflao, comprar a prazo sempre  melhor.
- No gosto de dever,  por isso, mas no pense que sou tola. Como pago  vista, quero abatimento.
Foi a vez de Modesto Pires rir:
- Abatimento? V l. Cinco por cento, que lhe parece? no por ser  vista mas pelo prazer da vizinhana.
Espreguiadeiras, tamboretes, um banco rstico na porta de casa, debaixo dos coqueiros. Ali conversam enquanto a lua se desmancha. Peto adormecera deitado numa esteira.
Leonora escuta vagamente o dilogo, tambm ela, se pudesse, compraria terreno em Mangue Seco. no para a velhice mas para ficar desde agora.
Ansiara a vida inteira por sentimentos e verdades de cuja existncia tinha notcia por ouvir dizer, atravs de filmes de cinema, das novelas de televiso.
Nada de mais, sentimentos normais, verdades corriqueiras. A av, referindo-se  vida na aldeia Toscana antes da viagem, falava de coisas simples: famlia, sossego,
paz, amor. Amor, como seria? Nas ruelas podres, no cortio seboso, ningum soubera responder.
Quanto mais por baixo, batida, derrotada, lacerada, rota por dentro, mais se refugiava Leonora no modesto sonho irrealizvel: afeto, ternura, bem- querer de um homem.
Vida limpa, como existia fora dos limites onde nascera, crescera e se fizera mulher, mais alm do crculo de dor e desespero.
Subindo e descendo a Avenida nas frias madrugadas, carregando seu fardo, o castigo por ter nascido filha de pais to pobres em terra to rica, as chagas abertas,
ainda assim sonhava. Se no sonhasse, s lhe restaria a morte.
Inesperadamente, quando o horizonte se fizera aperto na garganta, estertor final, conheceu a bondade e nela descansou, aprendeu novos valores, sentiu-se uma pessoa.
Os sonhos loucos de amor eterno adormeceram pois, no sendo torpe a nova condio, apenas triste, menos carente estava. no de todo satisfeita: sempre no desejo,
na inteno de sair daquele invlucro para a existncia desejada: casa e companheiro - no previa casamento -, um par de filhos. Outros reclamam dinheiro e fama.
Leonora nascera como a av, para ser dona- de- casa, me de famlia, no almeja mais do que isso.
Ali em Agreste, mundo pacato e diferente, onde a vida parece ter adormecido e assim  vivida por inteiro, Leonora sente-se tomada de exaltao e medo. Em Agreste
o sonho persiste alm da imaginao, concretiza-se em recatado enleio, alimenta-se de olhares e sorrisos, gentilezas, meias palavras, cresce no canto do pssaro
sofr, presente do prncipe encantado que ela no deseja prncipe, nobre ou rico, apenas encantado, decente. Mesmo sabendo-o inatingvel, Leonora anseia ao menos
chegar  margem, tocar com a ponta dos dedos o simples, maravilhoso mundo.
Para agir corretamente, deve abrir-se com mezinha, ouvi-la, seguir-lhe os conselhos. Receia, porm, que Tieta, temerosa das conseqncias, resolva apressar a volta
a So Paulo. Leonora pretende apenas alguns dias de ternura, mesmo irremediavelmente contados, poucos - a certeza da morte no impede o homem de aproveitar a vida.
Reivindica o direito a ouvir e a pronunciar palavras trmulas, a esboar gestos de carinho, o direito ao primeiro beijo, como ser?
Para guardar essas recordaes, ter com que encher de saudade a solido.
Nunca sentiu saudade. De nada, de ningum. Tudo foi ruim e sujo em seu percurso. Muita falta faz no ter um instante ao menos, um rosto, uma carcia, uma palavra
a relembrar, no ter saudades. A solido torna-se vazia e perigosa. Implora uns dias apenas, por misericrdia, suficientes para encher o corao de momentos ternos,
dos quais se recordar. Ento, dir: vamos embora daqui, mezinha, antes que seja tarde.
Prossegue Claudionor animando o arrasta-p, pode atravessa noites e noites, firme na harmnica. Um rudo de motor se mistura  msica, vem dos lados do rio, quem
ser? Leonora ter saudade desse minuto breve, do pressentimento e da ansiedade. Acompanha o barulho que cresce e se modifica: a embarcao enfrenta o mar na entrada
da barra. Volta a reinar sozinha a harmnica festiva. Logo, os passos na areia, Leonora pe-se de p. Ascnio aparece, desembarca do luar. Num mpeto, a moa se
adianta.
Na meia sombra as mos se tocam, sorriem os lbios, brilham os olhos.
- Vim no barco de Pirica. Veio s me trazer, j est de volta. Novamente o barulho do motor, o casco de encontro s vagas.
- No agentou esperar at amanh, Hein, mestre Ascnio? Fez muito bem: quem  aguardado no pode se atrasar - sada o Comandante.
O rapaz busca uma desculpa:
- Prefiro viajar de noite do que acordar de madrugada.
No sabe como agir: deve sentar-se a conversar ou partir com Leonora?
Dona Ada vem em seu socorro:
- Por que no leva Leonora para apreciar o luar de cima dos cmoros?
 to... - ia dizer romntico, conteve-se -. .. to lindo...
Sugesto aceita, a moa amarra um leno na cabea:
- Com licena...
O movimento acorda Peto: vou com vocs. Mas o Comandante, cmplice, probe.
-  hora de menino estar dormindo.
Os vultos perdem-se entre os coqueiros. Dona Laura suspira:
- Nada se compara com a juventude. S tenho pena de no ter namorado com Drio aqui em Mangue Seco. Quando vim, j tnhamos dez anos de casados.
- Foi nossa segunda lua-de-mel. .. - lembra o Comandante.
- Moa educada, essa... se v logo que  de boa famlia - elogia dona Ada.
Pensativa, acompanhando com os olhos as duas sombras, Tieta retorna  conversa:
- Leonora? Um amor de criatura. Est saindo da fossa, de uma decepo to grande que lhe abalou a sade. Um patife, de quem foi noiva, s queria o dinheiro dela.
Felizmente, me dei conta a tempo. Mas a pobre sofreu demais, uma crise terrvel, no dormia, no comia, acabou anmica.
Por isso trouxe ela comigo para curar-se nos ares de Agreste.
- Agiu certo, aqui ela vai se refazer em dois tempos. no h como leite de cabra para levantar as foras de um vivente - Aprova Modesto Pires.
- O mais curioso  que ele tambm teve uma desiluso medonha. no ouviu falar, dona Antonieta? - pergunta dona Ada.
Antonieta conhece a histria tintim por tintim mas no quer furtar a dona Ada o prazer do relato, das mincias e dos comentrios:
- No, senhora.
- No? - admira-se dona Ada no cmulo da satisfao:- Pois eu lhe conto.
Do primeiro beijo em frente a costa da frica, capitulo de um romantismo atroz como no se usa mais sentam-se no alto da duna, diante deles o oceano.
- Obrigada - diz Leonora.
- De qu?
- Do luar. no foi voc quem encomendou?
- Ah! - descontrai-se um pouco. - Gostou? no lhe disse que So Jorge  meu chapa?
- Obrigada tambm por ter vindo.
Um calor no peito de Ascnio, a emudec-lo. Os rudos da festa na povoao vm morrer no embate das vagas contra os cmoros. Qualquer assunto serve para vencer a
mudez:
- Festa de aniversrio de Jonas, o chefe da colnia de pescadores.  maneta, o tubaro comeu-lhe o brao esquerdo.
- Tem tubares aqui?
- No mar aberto, demais. s vezes chegam at a praia. So ousados e vorazes. Qualquer descuido,  a morte.
No  hora de lembrar a morte, talvez por isso retornam  conteno, ao retraimento,  timidez. Os dois em silncio, reduzidos a furtivos olhares, ainda assim to
bom! A lua fincada no cu, feita de encomenda, exclusiva para eles. Luar de namorados, prprio para se falar de amor. Isso  o que Ascnio pretende dizer. Ensaia
a frase, morre-lhe nos lbios, finalmente explica:
- Do outro lado fica a frica.
- A frica?
Ele aponta com o dedo, indica na distncia:
- Do outro lado do mar.
- Ah!, sim. A frica, eu sei. - no quer deixar o dilogo morrer. Teve muito trabalho hoje?
No  de geografia nem de problemas de administrao que desejam se ocupar. Mas onde o nimo para as palavras ardentes, a declarao de amor ainda usada pelos namorados
em Agreste?
A mesma coisa de todos os sbados: pedidos para consertar caminhos, limpar as fontes, fazer pequenas benfeitorias, um mata- burros, um pontilho.
Leonora no pode imaginar a falta de recursos em Agreste. J foi municpio rico, noutros tempos. Quando o av de Ascnio era prefeito.
- Ouvi dizer que voc vai ser o novo prefeito.
- Penso que sim. Sabe por qu? Porque ningum quer o posto. Mas eu aceito. Vou lhe dizer uma coisa, se quiser me chame de visionrio. Tenho confiana, penso que
tudo vai mudar e Agreste voltar ao que foi. no suporto ver minha terra nessa pasmaceira.
-  bom ter confiana, sonhar. Voc  louco por sua terra.
- Sou, sim. Quero que ela saia do marasmo em que afundou. Hei de conseguir. - Toma alento, est embalado, disposto. - A vida  engraada.
No faz um ms, eu no tinha mais f em nada, nem esperana. Escrevia cartas aos jornais, reclamava ao governo, mas no acreditava em resultados.
Agora tudo me parece fcil. Depois que...
- Depois qu?
- Que vocs chegaram. Tudo mudou, ficou alegre. At eu.
- Por causa de Mezinha, onde ela chega, espanta a tristeza.  a pessoa melhor do mundo.
- Devido a ela tambm. Mas para mim...
Leonora aguarda, lateja-lhe o corao, descompassado. O vento traz farrapos de risos, sons de harmnica, o nome de Arminda gritado no forr.
A voz de Ascnio rompe-se num lamento:
- Eu era um morto-vivo, no achava graa em nada. Vou lhe contar, se permitir. Ela se chama Astrud.
Para que contar? Quem no sabe em Agreste? Dona Carmosina, romntica como Leonora, recitara as cartas para ela e Tieta, suspirara os detalhes tristes. Revoltara-se
Leonora com o procedimento da fmgida. Tieta apenas rira, no era de sentimentalismos, de amor se vive, no se morre, no  mesmo, Barbozinha? Ascnio no esperou
o consentimento. Leonora escuta e mais uma vez se emociona.
Os estudos na Bahia, o noivado, a doena do pai, a carta anunciando a ruptura e o prximo casamento. Por que continuara a jurar amor quando j nos braos de outro?
Dando-lhe o que jamais consentira a Ascnio nem ele sequer solicitara pois a supunha inocente, anglica, santa. Um bobo alegre.
Dissera a dona Carmosina, confidente, boa amiga a sofrer com ele:
- Nem que um dia desembarque da marinete de Jairo a mulher mais bela, a mais doce e pura...
Afirmara pois no supunha possvel tal milagre. Aconteceu, no entanto.
A mais bela, a mais doce, a mais pura das mulheres. Desembarcada da marinete de Jairo.
Ergue-se Leonora. De frente para o mar, os olhos na distncia onde o luar se dissolve na noite. Levanta-se tambm Ascnio, ia completar: a mais bela, doce e pura
das mulheres, ademais rica, por qu? Pobre Secretrio da Prefeitura de Sant'Ana do Agreste, soldo mesquinho, ai! Por que to rica?
No chegou a falar de pobreza e riqueza. Trmula, os olhos midos, Leonora se aproxima, toca-lhe a face com a mo, oferece-lhe os lbios. Desce a correr, na boca
o gosto do primeiro beijo. Foge por entre a lua e as estrelas, feliz e desgraada.
Ascnio no tenta segui-la, est fincado ali, quando sair vai conquistar o mundo. Ah!, um dia chegar diante dela e lhe dir: no tenho para o luxo mas ganho para
o sustento, vim te buscar. A lua desaparece na lonjura, no caminho do mar para as costas da frica.
De como Perptua negocia a ajuda de Deus para o triunfo de seus planos diablicos anima-se a praia de mangue seco, no domingo, com a chegada de uma quantidade de
amigos sob o comando de dona Carmosina, espantosa e inconsciente no mai lils. At Perptua se animara a acompanhar o grupo, o vestido negro, o luto fechado. Dona
Mil desparrama alegria: no vinha a Mangue Seco h mais de seis meses. no por falta de convite, observou o comandante Drio.  verdade: convites no faltam e sobra
o tempo, com a idade o que falta  disposio. Riem da mentira: no existe pessoa to disposta; os anos passam, me cada vez mais serelepe, confirma dona Carmosina.
Na lancha, Barbozinha tirara o palet e a gravata, expusera-se ao vento apesar do reumatismo. Certa noite subira os cmoros com Tieta, declamando versos escritos
para ela, reunidos depois no livro Poemas de Agreste (De Matos Barboza, Poemas del Agreste, Ilustraes de Calasans Neto, Edies Macunama, Bahia, 1953), formando
a primeira parte do volume, intitulada Estrofes do Mar Bravio, o mar bravio, a arrebentao de Mangue Seco e o corpo aceso da livre pastora na chama do desejo. Duas
gloriosas noites de amor e poesia, breves, transitrias. Os deveres de funcionrio municipal obrigaram- no a retornar  capital Ela prometera esper-lo, sempre prometia.
Alguns meses passados, carta de Agreste dava-lhe notcia da partida de Tieta. Somente agora, vinte e sete anos depois, alquebrado e reumtico, voltara a v-la, mais
formosa ainda, opulenta, livre pastora, mar bravio. Viva, ele solteiro. no casara, teria sido por causa de Tieta? Espera recitar-lhe nas dunas, ao luar, o grande
poema que em seu louvor vem de escrever. Nele a proclama estrela d'alva, sendo ele obscurecido astro de bruxuleante luz. Se unissem os seus destinos, no entanto,
renasceria o poeta, sol irrompendo do mar de Mangue Seco. Escolhera o estilo condoreiro, bom para declamao.
Vieram Aminthas e Osnar, Fidlio e Seixas, comboiando Astrio. O som moderno invade Mangue Seco, substituindo a harmnica de Claudionor das Virgens enquanto o trovador
curte, em sono agitado, o pileque da vspera.
Onde est Ricardo? No primeiro momento, cercada, abraada, beijada, Antonieta no se deu conta da ausncia do sobrinho. Mas, diminuda a confuso pergunta:
- E Cardo, cad ele?
- No pde vir.- Explica Perptua, contrafeita:- Padre Mariano foi realizar casamentos e batizados em Rocinha, vai duas vezes por ano, em junho e em dezembro, levou
Ricardo que mandou lhe pedir a bno, ele lhe adora.
Mas, sendo seminarista, teve de ir com o padre.
Tieta no responde nem comenta mas Perptua percebe-lhe a decepo no franzir dos lbios e se alegra: a irm rica sente falta do sobrinho, est se apegando aos meninos.
Ainda bem.
- Todos ao mar! - O Comandante ordena e  obedecido.
Cales, mais, biqunis desfilam diante da reduzida populao de Mangue Seco. ao contrrio dos habitantes de Agreste, os pescadores no se escandalizam com a incontinente
exibio de coxas e barrigas, bundas e umbigos. Ali, os meninos de quatorze e quinze anos cortam as ondas nus, os corpos de bronze.
nica a no cumprir a ordem do Comandante - At dona Mil suspende a saia e vai banhar os ps no mar -, Perptua busca na praia, embaixo dos coqueiros, sombra defendida
do sol e do vento. Tira do bolso da saia o tero, comea a passar as contas. No tempo do Major todos os anos vinha  praia, no vero. Vestindo decente traje de banho,
enfrentava os perigos do mar; o Major tomava-a nos braos a pretexto de lhe ensinar a nadar, mos indiscretas, arteiras. Deleites passados, no voltaro. Cabe-lhe
agora pensar nos filhos, no futuro dos meninos. Viva,  me e pai, cumpre-lhe lutar. Os dedos nas contas do tero, os lbios na orao, o pensamento nos planos
concebidos, em via de execuo.
Devota exemplar, incapaz de faltar a uma obrigao religiosa, missa, bno, confisso, a santa comunho, as procisses, zeladora-chefe da Matriz, tesoureira da
congregao, Perptua espera contar com a compreenso e a ajuda do Senhor para atingir os calculados fins. Seu plano exige eficaz proteo de Deus e inocente colaborao
dos meninos. A de Peto no lhe tem faltado. De onde est, Perptua enxerga o filho nadando em torno da tia.
Assim, com perseverana e gentileza, se conquista o corao, o amor de parenta rica.
Tentara discutir com Ricardo, traz-lo, mas o rapaz a derrotara, apoiado nas necessidades do reverendo; Vav Murioca, o sacristo, amanhecera doente, no podia
montar. Perptua ficou sem argumentos, olhando o filho de batina no lombo do burro. Ainda mais do que ela, Ricardo merecia a proteo divina, to piedoso e temente
a Deus.
Queria os filhos, os dois, ao lado da tia o maior tempo possvel arquitetara complicado plano com o fim de obter que a irm fizesse dos meninos seus herdeiros nicos,
adotando-os, se a medida legal se revelasse necessria. Precisa saber com certeza, projeta ida a Esplanada para se aconselhar com doutor Rubim.
O tempo  curto, torna-se urgente a ajuda de Deus para tocar o corao de Antonieta, para encaminh-la  deciso correta. Fazendo obrigatria a involuntria colaborao
de Ricardo e Peto. Depende de Deus e deles transformar a estima da parenta em ternura maternal. Agradem a tia, no deixem ela sozinha, recomenda. Ajuda-me, Senhor!,
implora. O tempo  curto.
Antonieta no determinara a durao da temporada em Agreste mas evidentemente sua demora no passar de ms e meio, dois meses; deve voltar para reassumir o controle
de seus negcios e j uns dez dias so decorridos.
Pouco a pouco, com astcia e pacincia, Perptua conseguira tirar da irm vrias informaes sobre o estado de suas finanas. Ficou a par dos quatro apartamentos
e do andar trreo no centro da cidade, alugados cada um dos cinco por uma fortuna mensal- casa de aluguel barato somente em Agreste.
Ainda no obteve informao precisa sobre a espcie de negcio diretamente dirigido por Antonieta. no se trata de indstria, as indstrias so geridas pelos filhos
do Comendador, sendo Antonieta scia mas no administradora. Deve tratar-se de comrcio, loja de modas pois tinha funcionrias.
Perptua surpreendera conversa entre Tieta e Leonora em que faziam referncia ao trabalho das meninas. Igual aos imveis, essa casa comercial  propriedade exclusiva
da irm, presente do Comendador.
Perptua vai perguntando, colhendo uma informao aqui, outra acol.
Antonieta e Leonora no so de muito contar. Talvez de propsito para no despertar a cobia dos parentes. Uma coisa  certa: a magnitude da fortuna.
Os negcios so grandes, mltiplos e rendosos, dinheiro  cama de gato.
Outro dia, de uma das malas, a que est sempre trancada  chave, Antonieta retirou pasta ou maleta - uma na exata designao de Peto, de enciclopdica cultura cinematogrfica
- e a abriu, mantendo-a no colo, voltada para si. Ainda assim Perptua conseguira, levantando-se como quem no quer nada, v-la repleta de dinheiro, notas altas,
um desparrame, pacotes e mais pacotes.
- Ai! Santo Deus! - exclamara.
Tieta explicou ter trazido dinheiro vivo no s para as despesas como para pagar terreno em Mangue Seco, dar sinal pela casa, garantir a compra.
- Aqui no existe banco e eu no gosto de ficar devendo.
- Mas tem uma fortuna a. Voc  maluca, deixar esse dinheiro dentro de uma mala, no armrio.
- S quem sabe  Leonora e agora voc.  s no falar nisso.
- Eu, falar? Deus me livre. - Bate com a mo na boca.- no vou mais  poder dormir sossegada.
Antonieta ri:
- Quando eu comprar o terreno e a casa, vai diminuir muito.
Fortuna de paulista, fartura de dinheiro, no essa riquezinha de Agreste, de Modesto Pires, do coronel Artur da Tapitanga, de cabras e mandiocas. O importante 
evitar que um dia - todos ns, um dia, temos de morrer, no  mesmo?- parte do dinheiro e dos bens de Antonieta v parar em mos dos enteados, dos filhos do falecido
Comendador, dessa silenciosa Leonora que no cheira nem fede, uma pamonha. Tieta  doida por ela, vive a cuid-la, a lhe dar de comer, obrigando-a a tomar leite
de cabra todas as manhas. A dita cuja deve ser igualmente muito rica, se bem Perptua, na vistoria detalhada feita no quarto dela, quando examinou coisa por coisa,
no tenha bispado mala de dinheiro. Nada est sob chaves, tudo aberto. Na bolsa, alguns milhares de cruzeiros, para Agreste bastante mas nem de longe comparvel
com o despropsito da de Antonieta. Perptua se arrepia ao recordar.
A irm gosta dos sobrinhos, trata-os com afeto, alegra-se quando os v.
Faz-se necessrio, no entanto, muito mais,  preciso que ela os trate como se fossem filhos, pois filhos devem ser. Os dois se possvel, pelo menos um.
Reconhecidos legalmente. Herdeiros.
Caso Antonieta deseje levar um deles para So Paulo, Perptua no se opor, timo se escolher Peto. Menino perdido, solto em Agreste a matar aulas, tomando pau todos
os anos, vagabundo no bar e no cinema, obteve em lugares piores. Mas se for Ricardo o escolhido para ir viver em So Paulo, tornar-se brao direito da tia, Perptua
estar de acordo. Peto tomar o lugar do primognito no seminrio, queira ou no queira, pois um dos dois pertence a Deus, assim ela prometera, encruada donzela,
perdidas as esperanas terrenas, as ltimas. Se Deus lhe desse esposo e filhos, um seria padre, a servio da Santa Madre Igreja. Deus cumpriu, realizou o milagre,
ela cumprir tambm.
Na praia, os olhos semicerrados devido ao sol e ao vento,  luz violenta, prope outra barganha ao Senhor. Se Antonieta adotar pelo menos um dos meninos, Perptua
se compromete a deixar para a Igreja, em testamento, uma das trs casas herdadas do Major, a menorzinha, aquela onde morou Lula Pedreiro, agora alugada a Laerte
Curte Couro, empregado de Modesto Pires.
Pequena mas bem situada, prxima ao curtume, na pracinha onde fica a capela de So Joo Batista. Pelo jeito, o Senhor recusa a proposta; ntima de Deus, Perptua
adivinha as reaes celestes. Arrependida, retira a oferta, o Senhor tem razo de ficar aborrecido: uma casinha de pequena renda em troca da fortuna de Antonieta,
proposta ridcula. Ainda tenta argumentar: a praa est sendo calada e ajardinada, ter bancos de ferro, o aluguel vai ser aumentado. no adianta: se continuar,
o Senhor pode at se ofender. Pede bens considerveis, oferece ninharia. Mais do que de dinheiro e propriedades, Deus precisa de devoo e f. Pois bem: se Antonieta
tomar Ricardo ou Peto, como filho e herdeiro, qualquer deles, Perptua ir com os dois  capital  Cidade da Bahia, sim, Senhor Deus! - e l, a p se dirigir 
Baslica, na Colina Sagrada, onde mandar rezar missa, deixando no Museu dos Milagres fotografia dos filhos com dedicatria para o todo- poderoso Nosso Senhor do
Bomfim. Se a irm adotar os dois, a missa ser cantada. O senhor deve levar em conta, na proposta, o fato dos meninos j possurem direitos assegurados;
apenas no so os nicos herdeiros.
O ideal seria que Antonieta, tendo adotado os dois, mandasse Ricardo completar o curso em seminrio de So Paulo, desses que formam logo cnegos e bispos. No calor
do sol, no correr do vento, no remoer de planos e promessas, Perptua cerra completamente os olhos, adormece e sonha. V-se acompanhando a procisso da Senhora Sant'Ana,
numa cidade imensa, maior do que Aracaju, deve ser So Paulo, na frente do andor um bispo em vermelho e roxo, um Cardeal,  seu filho Cupertino Batista Junior, Dom
Peto. Um aviso do cu, compromisso selado, promessa aceita, milagre  vista.
Dos cimes e das esperanas de Elisa com curioso detalhe sobre questo de tratamento Elisa no sabe nadar. foram-lhe proibidos rio e mar na meninice e na adolescncia.
Z Esteves, empobrecido, tornara-seintransigente e virulento - basta uma puta na famlia, advertia, o basto em punho. No exemplo do sucedido com Tieta, Elisa cresceu
de rdeas curtas, a qualquer pretexto o pau cantava-lhe nas pernas e nas costas. Bacia de Catarina, praia de Mangue Seco, nem pensar.
Se namorou foi de longe, namoro de caboclo, o olho comprido, vendo o velho expulsar os gabirus em ronda pela rua. Somente quando aparecer um bom partido, disposto
a noivado e casamento: seno boto no convento, ameaava. Ameaava, cad convento? Astrio, filho nico, herdara a loja onde desde menino trabalhava no balco, rapaz
direito. Pareceu um bom partido, Z Esteves concordou. aos dezesseis anos, beleza de noiva, Elisa se casou, pensando que se libertava. Mudou de servido.
Fica no raso, no se atreve a ir mais longe, enquanto Tieta e Leonora arriscam-se em meio s ondas e  animao da comitiva inteira no rastro das paulistas. Elisa
ali sozinha, abandonada. Nem sequer o marido lhe faz companhia, prefere os amigos do bilhar. Tambm, pelo que vale e serve...
Elisa tem cimes. no que a irm ou a moa paulista possam seinteressar por Astrio, imagine-se! Leonora est de namoro com Ascnio, os dois sempre juntos, no se
largam. Antonieta, viva recente, no veio a Agreste tomar marido de ningum. Tomaria, se quisesse, com facilidade.
Apesar dos quarenta e quatro anos confessados - proclamados! -, quando passa na rua, alegre e descontrada, os homens correm a saud-la, assanhados.
A pele lisa e macia, tratada, tratadssima, o corpo esplendoroso. J fez plstica, com certeza, comentara Elisa com dona Carmosina, ambas a par dos hbitos das artistas
e das gr-finas, dos milagres realizados por doutor Pitanguy em nacionais e estrangeiras. Certamente Tieta recondicionou sua beleza na clinica clebre, limpando-a
de rugas e pelancas: basta ver-lhe os seios jovens, magnficos, opulentos porm firmes, mais firmes que os dela, Elisa.
Outros so os cimes de Elisa. Da riqueza que elas ostentam, dos hbitos da cidade grande, da falta de preconceitos, de limitaes, cimes por no viver no mesmo
mundo, tabaroa do serto, condenada ao desconsolo.
Cimes tambm de Leonora, do amor que Tieta lhe dedica, a cham-la pelo apelido: Nora, a diz-la filha, com desvelos maternos. Deseja os mesmos cuidados, amor idntico,
sentir-se mimada como filha, adotada. Em certos momentos, Antonieta  extremosa com ela, alisa-lhe a cabeleira negra, beija-lhe a face, elogia-lhe a beleza: tu 
bonita demais. Trata-a de filha e de Lisa, ternamente, tudo parece se encaminhar como ela deseja. Mas noutros momentos, a irm a fita, pensativa, como se duvidasse
do calor de seu afeto.
Elisa no consegue entender o motivo da desconfiana, do desagrado de Tieta. Intrigas de Leonora, quem sabe? Com receio da concorrncia, medo de perder o lugar privilegiado
junto quela a quem chama de mezinha.
Um dia, estando a ss com Tieta, tambm Elisa a tratara de mezinha.
A irm dirigiu-lhe um olhar estranho, disse rspida:
- Prefiro que me chame de Tieta.
Voz e olhar deixaram Elisa trmula:
- Desculpe. S quis lhe agradar, agradecer o que tem feito por mim.
Adoaram-se olhar e voz de Antonieta, afagou os cabelos negros da irm mas no voltou atrs em relao ao tratamento:
- No estou zangada. Apenas prefiro que voc me chame de Tieta. Em Agreste todos me chamam assim, eu gosto. mezinha  nome de So Paulo, coisa de Nora e das outras
meninas.
- As filhas do finado?
- As filhas, as sobrinhas, a famlia  grande.
A essa famlia, sim, queria Elisa pertencer, prole de Comendador, de rico industrial, gente grada, linhagem fina. Quer elevar-se da mediocridade de Agreste, salvar-se
do cansao, da inutilidade, da avidez quotidiana. Quer as luzes, o brilho, a agitao, as possibilidades, a aventura de So Paulo. Em Agreste, sem horizonte, sem
futuro, vegeta, morre a cada dia.
Vestindo um mai emprestado por Leonora - o seu est velho e fora de moda - que lhe molda o corpo esplndido, os cabelos noturnos caindo no cangote, sai da gua,
vem sentar-se na praia. Enxerga Perptua adormecida.
Elisa sabe que a irm mais velha tem um plano traado, essa  a opinio de dona Carmosina, a quem nada escapa. Perptua ambiciona vender - vender muito bem vendidos
- os dois meninos a Tieta, mand-los para So Paulo, onde sero adotados como filhos e herdeiros. Plano diablico, dona Carmosina o desvenda inteiro, de deduo
em deduo.
Elisa no deseja tanto, no quer ser adotada de papel passado e sim de corao, no se candidata a herdeira nica. Contenta-se com muito menos:
basta que a irm se compadea da mesquinha sorte dela e do bestalho do Astrio e os leve para So Paulo, dando a ele emprego nas fbricas da famlia e tendo ela,
Elisa, a seu lado, irm preferida, quase filha, amada tanto ou mais que Leonora. J disse no desejar casa prpria em Agreste. Se a irm pretende lhe dar alguma
coisa, que seja em So Paulo onde a vida  digna de viver-se, repleta de novidades e de tentaes. L ter quem lhe admire a beleza, no apenas um rabe velho, um
moleque sujo, um ftido mendigo. Ser algum, tendo onde e a quem mostrar-se. Em So Paulo tudo pode acontecer.
Sherlock Holmes interrompo a narrativa para deixar claro que todos os dados necessrios  soluo do enigma a envolver Tieta (e com ela Leonora) esto colocados
na mesa das dedues, diante do leitor. no  preciso ser Sherlock Holmes ou Hercule Poirot para tudo descobrir. Por que ento dona Carmosina foi no embrulho? Os
olhos cegos pela amizade, acreditou no conto.
Alis, no houve em nenhum momento, de minha parte, a inteno de enganar o pblico, de esconder-lhe fatos, de baratin-lo. Tampouco havia por que sair contando
o fim logo no comeo, desvendando o passado antes de fazer-se necessrio. Nos folhetins sempre se considerou essencial um pouco de suspense para atiar a emoo
dos leitores.
Esto  disposio da capacidade de cada um, nas pginas j lidas, pistas e indcios, mais do que suficientes. A maioria com certeza deu-se conta da verdade desde
o incio e, se nada disse, fez bem para no alertar os lerdos de entendimento. no pensem sobretudo que eu escondi, torci ou inventei detalhes na inteno de no
manchar a imagem de Tieta. Se ela, em respeito  famlia e aos preconceitos de Sant'Ana do Agreste, teceu uma teia de enganos, no me cabem responsabilidade e culpa.
no a julgo, por isso, nem melhor nem pior, nem creio que a atuao posterior por ela desenvolvida tenha menos mrito por causa de sua condio. Mrito ou demrito,
dependendo,  claro, da posio de cada um diante das propostas do Magnfico Doutor. Quer mais? J veremos, no decorrer da narrativa.
Encontro-me em Agreste trazido pelo clima de sanatrio mas no sou daqui, sou de Niteri, como se diz. no fao minhas as desvairadas paixes a abalar o burgo, a
aoitar os habitantes. no me envolvo, apenas relato.
Onde  suspenso o vu que encobre o passado da bela Leonora Cantarelli e fica-se sabendo de tudo ou quase tudo lar, vida de famlia, calor humano, afeto verdadeiro,
Leonora veio a conhecer somente quando, aos dezenove anos, chegou ao randevu Refgio dos Lordes e obteve aprovao de Madame Antoinette. Antes aprendera em curso
intensivo a fome, a maldade, o desconsolo.
Na infncia, caixa de pancadas. A qualquer pretexto, os pais batiam-lhe na cara, um e outro, a magra Vicenza e o troncudo Vitrio Cantarelli, quando no se batiam
entre si - nem sempre Vitrio levava a melhor. Cinco filhos, quatro homens e ela, a caula. Os homens foram caindo fora do cortio, um a um, para as fbricas ou
a m vida. Giuseppe morreu mocinho, sob as rodas de um caminho, ao voltar para casa, bbado. Puseram o corpo em cima da mesa, os ps sobrando, dependurados. nico
a ter compaixo da irm, Giuseppe afagava-lhe o rosto imundo, dava-lhe vez por outra um caramelo.
Ela completara treze anos e queria ir-se dali para evitar a fbrica, destino prximo. Todos a achavam bonita e o diziam. no para felicit-la, no em elogio, em
bom pressgio e, sim, em lstima, em ameaa:
- Non sa quello che 'aspetta di ssere cosi bella.
- Bonita e pobre, vai acabar mal Tinham razo. Rapazolas e homens perseguiam- na. Antes de ser pbere, tentaram viol-la no campo de futebol invadido pelo capim.
De que adianta chorar se mais dia menos dia h de acontecer? Inexperiente, contou em casa, apanhou de Vicenza e de Vitrio para deixar de ser debochada, para no
viver na rua se oferecendo.
Freqentou a escola, aprendeu a ler e a fazer contas devido  merenda, devorada -a comida em casa, insuficiente. Seu Rafael, dono da Pizzaria Etna, a barriga de
nove meses, dava-lhe um pedao de pizza dormida, de carne sentida, e lhe apertava os peitos enquanto ela engolia, sfrega. A combinao durou meses e meses, nunca
trocaram uma nica palavra, estabeleceram e cumpriram em silncio os termos do acordo. Um dia, vendo-a espiar os pratos expostos na vitrine, seu Rafael se adiantara,
na mo um naco de pernil, mostrando-o como se atrasse um co. Leonora entrara, ele avanou as duas mos, uma a exibir a carne sedutora, a outra dirigida ao busto
nascente, protuberncias sem forma definida. A menina quis pegar o pedao de pernil e sair, seu Rafael no deixou, sacudiu a cabeorra proibindo: enquanto ela mastiga,
ele apalpa, amassa, belisca os seios nascentes, corre-lhe a mo na bunda quando a gulosa volta as costas para ir embora. Assim Leonora pagou desde cedo comida e
formosura sem conseguir, no entanto, saciar a fome.
Os seios cresceram, a beleza tambm, visvel mesmo na farda pobre de escolar - Leonora dava um jeito no corpo, tentao. aos quinze anos, a curra. Era fatal, disseram
os vizinhos: assim bonita, desamparada e metida a moa. Quatro no automvel, um bem mais velho, de barbas, os outros trs muito jovens, a exibir revlveres. O mais
brutal no aparentava sequer a idade dela, picou-lhe perna e brao com um canivete. O barbado permaneceu ao volante, os trs adolescentes desceram, empurraram-na
para o fusca, os passantes viram, deram-se conta, ningum tomou sua defesa. Quem  louco de se envolver com marginais armados, maconheiros? Levaram-na, serviram-se
dela, espancaram-na, rasgaram-lhe o vestido, o nico alm da farda. Esteve na policia, ouviu graolas, um tira props encontro, os jornais noticiaram a ocorrncia
em duas linhas, fato corrente, sem maior impacto. Tivessem- na matado, a matria ganharia certo interesse. Estupro, curra - bobagens. Se alguma vez pensara em casamento,
abandonou a idia. Queria apenas ir embora, fosse para onde fosse, com quem a quisesse levar.
Vidrou-se em Pipo, o primeiro a quem se deu por bem querer. Achavam o mximo com os cabelos longos caindo no pescoo, despenteados; aos dezenove anos j citado nas
pginas de esporte dos jornais, pinta de craque.
Elevado dos juvenis para o time de cima na ausncia do titular da ponta esquerda, abafou. Finalmente, o ponteiro ofensivo de que tanto necessita nosso futebol. Foi
o comeo do sucesso de Pipo, o fim do romance de Leonora.
- no enche, civeta, no se enxerga?
Vez por outra, se quisesse, numa folga dos treinos e das boates, quando de visita ao bairro,  famlia no cortio em tudo igual quele onde vivia Leonora. Vez por
outra, ela no quis; romntica, exigia carinho, doura, amor, desejos absurdos naquele confuso labirinto.
Ainda chorava quando reencontrou Natacha, antiga vizinha, tambm de visita aos pais. Leonora lhe narrou a paixo e o abandono, da curra ela j sabia. Um punhal no
peito, cravado pelo festejado Pipo, agora de automvel, cercado de admiradores. Segundo a crnica esportiva, o sucesso est subindo  cabea do rapaz, se continuar
assim no ir longe. Natacha, bem posta e perfumada, lhe falou da profisso de puta. no contou vantagens, disse que dava para viver, se a fulana evitasse cafetes
e gigols - para Natacha melhor do que oito horas na fbrica ou domstica em casa rica. Para Leonora soara a hora decisiva - A fbrica ou a zona.
Dois anos andou aqui e ali, de mo em mo, em hotis baratos, no quarto sem janela, dividido do vizinho por um tabique, foi presa, medida corretiva, viveu desvairada
paixo por Cid Raposeira.
Quando o conheceu, Cid atravessava uma fase calma, os mdicos deram- no como curado sem dvida para se verem livres dele. Magro, calado, duro, quase sempre. De
repente, terno e frgil. Para quem nada tivera, era bastante, Leonora se prendeu. Cid Raposeira odiava o mundo e a humanidade, mas excetuava a companheira, um dia
vou casar contigo e teremos filhos.
Conversa de casamento e filhos, sinal de crise  vista - Amiudavam-se os ataques, cada vez mais curtos os intervalos de lucidez. Do carinho passava ao dio, direto:
sai de minha frente, demnio. Dias de xingos e tabefes, ameaas de morte, tentativas de suicdio, terminando no manicmio ou na delegacia.
Passada a crise, l vinha ele humilde, esqueltico, esfomeado, pedinchento, intil Leonora, um aperto no corao, varada de pena, o acolhia. no Leonora ainda permanecesse
com ele, sem coragem de abandon-lo.
Novamente Natacha mudou-lhe o curso da vida. Cruzaram-se na rua por acaso, num comeo de tarde. Leonora perseguindo michs, Natacha prspera, elegante, superiora.
- Agora, fao a vida em randevu. No melhor de So Paulo, o mais caro, o Refgio dos Lordes, j ouviu falar?
Mediu Leonora cuja beleza no apenas resistira mas crescera, absurda beleza virginal, translcida, os enormes olhos de gua, os cabelos doirados, a face pura, toda
ela recato e inocncia.
- Quem sabe Madame Antoinette lhe aceita. Voc faz o tipo moa de famlia. Se quiser, lhe apresento. Madame Antoinette ps as mos nas cadeiras, estudou a recm-chegada:
- O que deseja?
Natacha antecipou-se :
- Leonora...
- Perguntei a ela, no a voc, cabrita.
- Desejo trabalhar aqui se a senhora me aceitar.
- Por qu?
- Para melhorar de sorte.
-  casada? J foi?
- No. Mas j vivi uns meses amigada.
- Por que deixou?
- Ele me deixou.
- Por que foi ser rapariga?
- Para no ir para a fbrica. Antes tivesseido.
- Tem algum homem? Algum rabicho? Cafeto, gigol?
- Tive esse que falei. Era doente.
- Doente? De qu?
- Esquizofrnico. Quando estava so, era um cara legal.
- Filhos?
- no, senhora. no peguei nunca. Nisso tive sorte.
- Sorte? no gosta de crianas?
- Gosto demais. Por isso digo que tive sorte. no tenho com que criar menino. Para passar fome, no quero.
- J teve doenas? no minta.
- A senhora quer dizer doena comprada, venrea?
- Isso mesmo.
- Me cuido muito, sempre tive medo. Sou asseada.
- Est bem. Vou fazer uma experincia com voc. Pode comear hoje mesmo.
Alguns meses depois, Lourdes Veludo, morenao digno da melhor considerao, uma das trs mulheres de residncia fixa no Refgio, deixou a casa para incorporar-se
a um show de mulatas, espetculo de sucesso com possibilidades de excurso  Europa. Madame Antoinette, que apreciava a discrio e a gentileza de Leonora, convidou-a
a ocupar a vaga. Acontecera dois anos atrs.
Ultimo fragmento da narrativa, na qual durante a longa viagem de nibus-leito, da capital de So Paulo a da Bahia Tieta recorda e conta a bela Leonora Cantarelli
episdios de sua vida
- quando conheci Felipe, ele no era ainda comendador e eu ainda era Tieta do Agreste, meu nome no serto, na cidade da Bahia, no Rio de Janeiro e em meus comeos
em So Paulo. Felipe tinha voltado da Europa.
Felipe Camargo do Amaral, aos cinqenta anos, considerava-se realizado como homem de negcios, empresrio vitorioso em todos os setores onde atuava. Realizado tambm
como paulista, cidado e homem. Na Revoluo de 32, no aceitou o cargo burocrtico no gabinete do governador, providenciado pela famlia tradicional, marchou para
a frente de combate, praa voluntrio e, ali chegando, foi imediatamente promovido a primeiro- tenente, ajudante-de-ordens, um Camargo do Amaral no pode ser soldado
raso.
Terminou major, no Estado-Maior Revolucionrio, redigindo manifestos e proclamaes. Nascera rico fazendeiro de caf, j com fartas colheitas e com quatrocentos
anos de cidadania ou mais, se for considerado o sangue indgena, algumas gotas, o suficiente para dar-lhe condio nativa, autntico bandeirante.
Por conta prpria tornou-seindustrial, um gnio para ganhar dinheiro, presidente de empresa, consrcios, bancos, entupido de aes e dividendos.
Rpida passagem pela poltica. Deputado, em 1933, ao regressar do cmodo exlio em Lisboa, no disputou a reeleio. Faltava-lhe pacincia para os incuos debates,
para as sesses chatas e, quanto  astcia, preferia empreg-la melhor do que em trincas eleitorais. Assim o fez, crescendo em riqueza e em sabedoria.
- Felipe sabia viver e me ensinou. Eu era uma cabrita andeja, com ele virei madame. Aprendi com Felipe o valor do dinheiro mas aprendi tambm que a gente deve ser
dono e no escravo do dinheiro.
Sabedoria para ele era viver bem. no se deixar aprisionar pelos negcios. Msica, quadros, livros, boa mesa, boa adega, viagens, mulheres.
Conheceu os cinco continentes, Europa e Estados Unidos de cabo a rabo, pagou montes de mulheres - mulher a gente paga de qualquer forma, o melhor  pagar com dinheiro,
fica sempre mais barato e no d aporrinhao.
Bom chefe de famlia, vivendo em paz com a esposa, escolhida no seio da exportao do caf, em cl de muita linhagem e maior pecnia, doido pelos filhos: um com
ele, lugar- tenente na direo das empresas, o outro irremediavelmente ancorado no laboratrio de pesquisas cientficas da universidade norte-americana onde estudara
e permanecera, casado com gringa. Felipe no tinha queixas da vida.
- Foi ele quem teve a idia do Refgio, muito antes de me conhecer.
O primeiro nome era francs.
A idia propriamente no fora dele. Com um pequeno, selecionado grupo de senhores do mesmo padro econmico e de idnticos altos ideais, financiara benemrito projeto
de diligente e encantadora amiga, Madame Georgette. Um dos filhos de Felipe estudara nos Estados Unidos, o outro em Oxford, na Inglaterra. Ele, porm, preferia la
douce France, familiar de Paris, guloso de vinhos, queijos e fmeas. Quanto mais conheo outras cidades, mais gosto de Paris, dizia. Madame Georgette transportara
para a capital paulista algumas especiarias francesas, condimentadas, picantes, s quais somara o melhor produto nacional. Perita na escolha das gentis parceiras.
O projeto referia-se ao estabelecimento de reservadsimo randevu a ser freqentado apenas pelos reis do latifndio e da indstria - terras e fbricas, financeiras
e bancos - pelos maiorais da politica, ministros, senadores;
grandes das letras e das artes, excepcionalmente, para dar lustre  casa.
Experiente e capaz, Madame Georgette superou-se. Assim nasceu o Nid d'Amour onde os fatigados, nervosos senhores, repousavam em braos jovens, em colos perfumados,
de dceis e eruditas jeunes- filles.
- Quando Felipe chegava de viagem, vinha farto de brancas, tinha um pendor pela cor morena, assim tostada igual  minha - minha bisav foi negra escrava. Cabrita
monts, queimada de nascena, fui-lhe servida com champanha.
Madame Georgette conhecia o gosto de Monseigneur Le Prince Felipe - somente de prncipe o tratava -, guardara para ele pitu digno de to fino paladar: Tieta do
Agreste, morena de cabelos anelados, curtida no sol do serto, educada nos bordis dos povoados pobres, a flor da casa.
- Por que se engraou de mim, no sei. O certo  que no me deixou mais.
- Que homem no se engraaria, mezinha? Alm de bonita, devia ser saliente, uma brasa, imagino.
- Eu era bonita, sim, e esporreteada. Falava pelos cotovelos, ria  toa e quando topava parceiro de respeito, no tinha rival na cama, te garanto. no sei se gostou
de mim por isso ou porque acalentei seu sono.
O que prendeu Felipe e o fez constante? O convers de moa a contar coisas do burgo e do serto, da vida pacata, das cabras saltando sobre as pedras, do banho no
rio? A competncia? Ou o calor a desprender-se dela, a vida intensa e o gosto de viver? No quarto, com Tieta, sentiu-se jovem. no mais o gasto senhor, refugiado
no randevu para repousar de afazeres e problemas com prostituta de alta classe, a ser usada uma vez, quase nunca repetida.
Madame Georgette mantinha vasto e renovado estoque, inumerveis telefones no caderno azul, todas selecionadas no capricho. Ficara assombrada quando Le Prince Felipe
pediu de novo a cabrita sertaneja e, depois de umas quantas vezes, a reservou - no far mais a vida, fica por minha conta,  minha disposio.
Quando em So Paulo, Felipe mantinha-se assduo ao corpo de agreste sabor, ao dengue, s carcias quase sempre castas, ao cafun, aos ingnuos acalantos. Quando
em viagem, tomava as medidas necessrias para que nada lhe faltasse, tivesse dinheiro bastante para no esquec-lo e para respeit-lo.
- No botava chifres nele, mezinha?
- Chifres? Quem podia botar chifres nele era a esposa, dona Olvia, mas no me consta que pusesse. Eu, era sua protegida. Nunca me proibiu nada, a no ser que eu
fizesse a vida. Dei a quem quis, por querer, assim como dava em Agreste, antes de ser mulher-dama, para satisfazer o fogo me queimando o rabo, nunca por dinheiro.
Fui discreta nos meus casos, sempre o respeitei e jamais falamos disso.
- E ele, no tinha outras?
- Nunca quis saber, nunca perguntei pelas mulheres que ele comia mundo afora. Me contaram de uma que ele trouxe da Sucia.
Alta escultura de trigo e neve, belssima, disseram a Tieta as intrigantes.
Ela cerrara os dentes, no abrira a boca. Apenas recomeou a freqent-la e se viu nos dengues, rindo, adormecendo no cafun, Felipe despediu a escandinava. Despediu,
no: a beldade foi cedida, em troca de charutos cubanos, a um amigo importador, manaco de material estrangeiro. Mesmo de segunda mo, em bom estado - observou Felipe
de bom humor, concluindo que, em matria de rapariga, tinha tendncias  monogamia.
- Penso que ele ficou comigo a vida inteira porque nunca liguei para a fortuna dele, para mim no fazia diferena que fosse rico ou no, o que me prendia eram as
atenes. Nunca pedi nada a Felipe, a no ser, por duas vezes, dinheiro emprestado. A primeira, no dia que nos conhecemos, se no tivesse a quantia exata perderia
a ocasio de comprar um casaco de napa, argentino, um espetculo, novo em folha. Tudo mais que ele me deu foi de livre e espontnea vontade.
Os apartamentos, um a um, em prdios cuja construo incorporara.
Um dia chegou com a planta de um edifcio, abriu na cama.
Estou construindo esse prdio, doze andares, na Alameda Santos.
- Puxa! Que colosso!
- Reservei um apartamento para voc. So todos iguais: sala e dois quartos. Tem quatro em cada piso.
- Tu ficou doido? Para eu pagar com qu?
- Quem falou em pagar?  um presente, est completando trs anos que nos conhecemos.
Com tanta coisa em que pensar, Felipe recordava datas, aniversrios.
Apegara-se a Tieta, mais ainda se apegara ela a esse homem que lhe dava tanto e to pouco lhe pedia. aos ps do leito, os chinelos sob os travesseiros, o pijama
de Felipe. Os edifcios cresceram em andares, os apartamentos em tamanho. No ltimo prdio, imenso, uma cidade, ganhou loja no andar trreo, ponto carssimo. Se
ela lhe deu carinho, ele pagou em dinheiro - Ou em bens, a mesma coisa: o melhor  pagar em dinheiro, fica mais barato e no d aporrinhao.
- Um dia, Madame Georgette me chamou para conversar. Queria passar o negcio adiante, ia voltar para a Frana, me ofereceu a preferncia.
Madame Georgette depositava na Frana economias e lucros, comprara casa na banlieue de Paris, sempre pensara no regresso e na aposentadoria.
Quando falou com Tieta, j adquirira a passagem de navio para da a dois meses. Pela segunda vez, ela pediu a Felipe dinheiro emprestado.
- Voc no me pagou ainda o que tomou no dia em que lhe conheci ps-se ele a rir. - Deixe comigo, acerto com Georgette, o Nid  seu.
- Faz mais de treze anos que assumi. Reformei tudo, modernizei, separei um apartamento para mim e Felipe, aquele luxo. Mudei o nome e aumentei os preos.
- Por que mudou o nome, mezinha?
- Nid d'Amour cheirava muito a casa de puta. Refgio dos Lordes  mais decente. So todos uns lordes, os meus fregueses. Em troca, tive de mudar meu nome. Conselho
de Felipe.
- Um randevu de alto bordo e preos de esfolar tem de ser dirigido por francesa, ma belle. Madame Antoinette, vai muito bem com seu tipo. Assim ele dissera.
- Nome francs com minha cor, meu bem? no pode ser.
- Francesa da Martinica, como Josefina, a de Napoleo.
Os fregueses fizeram-se amigos, o prestgio do randevu cresceu, freqentar o Refgio dos Lordes tornou-se privilgio mais disputado do que ser scio do Jquei Clube,
da Sociedade Hpica, dos clubes mais fechados de So Paulo. No apartamento reservado, com o mximo conforto, aos ps do leito, os chinelos de Felipe, sob o travesseiro,
o pijama. Envelhecera, enviuvara, d Papa agraciara-o com o ttulo de comendador, viajava pouco, apenas superintendia as mltiplas empresas, cada vez mais presente
 cama e ao riso clido de Tieta.
- Para Felipe no mudei de nome, fui Tieta do Agreste at o fim.
Para os demais, Madame Antoinette, francesa nascida nas Antilhas do casamento de um General de La Republique com uma mestia. Educada em Paris, desperdiando charme,
mestra no ofcio de escolher mulheres, especiarias para o gosto caro dos fregueses, os mais ricos de So Paulo, Dieu Merci.
Para as duas ou trs raparigas que, como Leonora, habitam permanentemente no Refgio dos Lordes,  mezinha, exigente e generosa, temida e amada.
do recado urgente
No melhor da festa, chega o recado urgente. devorado o almoo, repetida a sobremesa, dona Laura, Elisa e Leonora servem o cafezinho. Regabofe grandioso, com variado
fundo musical: o modernssimo som do toca-fitas competindo com a harmnica de Claudionor das Virgens. O trovador possui extraordinrio faro para detectar odores
culinrios, perfume de batida, aroma de cachaa. Sem esperar convite, aparece de sanfona em punho, o sorriso aberto, caradura simptico e bem- vindo: com vossa permisso!
Enquanto Elisa, Aminthas, Fidlio, Seixas e Peto curtem o rock-androll, os demais aplaudem Claudionor e Elieser. O repertrio do trovador d preferncia  msica
sertaneja enquanto o dono da lancha, habitualmente casmurro, de pouca conversa, animado pelos tragos, solta a voz agradvel e, atendendo s sugestes saudosistas
de Tieta e de dona Carmosina, canta esquecidas melodias. Tieta, sentada numa esteira, enorme chapu de palha a defender-lhe o rosto, pede:
- Toque aquela que Chico Alves cantava, Claudionor.
- Qual?
- Uma que comea: Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram...
Elieser abre o peito, Claudionor acompanha na sanfona. Tieta deixa-se levar pela msica, est distante, no participa das conversas. Leonora inquieta-se. Conhece
mezinha: quando est assim, calada,  porque algum problema a preocupa, uma chateao qualquer. O que ser? no se anima a perguntar, no vale a pena, melhor 
deix-la em paz at o riso voltar. Quando estou de calundu, me larguem de mo, no se metam, recomendava ela no Refgio. Em silncio, senta-se a seu lado.
Tieta percebe a presena de Leonora, volta-se, acaricia-lhe a face. A moa toma-lhe da mo e a beija, com ternura. Cabrita sem juzo, reflete Tieta, corre o risco
de se apaixonar, de perder a cabea. Somente ela, de cabea oca?
Mais ningum?
Que espcie de obrigao inapelvel exigira a presena de Ricardo ao lado do padre na devoo de Rocinha? Obrigao, coisa nenhuma! O sobrinho estava fugindo dela,
isso sim; fora com o padre para no vir a Mangue Seco, no manchar os olhos castos - castos?, carolas! - na nudez da tia, soberba no reduzido biquni, bestalho!
Nos ltimos dias sentira a ausncia do rapaz, no banho do rio, nos passeios. At a hora da banca ele mudara, sem dvida para no lhe fazer nova massagem. E Tieta,
burra velha, a sonhar com o sobrinho, a v-lo noite e dia com asas de anjo e aquele p de mesa. Jamais seinteressara por jovens, muito menos por meninotes de dezessete
anos, preferindo homens feitos, sempre mais idosos do que ela.
Fizera-se necessrio voltar a Agreste para desejar um rapazola, sentir frio na espinha ao pensar nele, ficar mal- humorada, desagradvel, vazia devido  sua ausncia.
Triste, irritada, em pleno calundu. Com essa no contava. Ainda por cima sobrinho e seminarista. Vendo-a to longe, perdida em pensamentos, Leonora levanta-se, vai
ao encontro de Ascnio. Tieta toca-lhe novamente a face, num afago.
- Sabe Foi tudo um sonho, Elieser?
- Sei mais ou menos, dona Antonieta. Mete os peitos, Claudionor!
Tietaveleja na msica, conduz Ricardo pela mo. Osnar, encharcado de Cerveja, acomodou-se na sombra, mamando um charuto. Barbozinha ressona debaixo de um coqueiro,
esquecido dos projetos de declamao no alto dos cmoros. O cansao comea a se fazer sentir, no crescer da tarde, aps a maratona de dend e pimenta, coco e gengibre,
batidas, cachaa, cerveja. A manha fora fatigante: banho de mar no embate das ondas bravias, escalada das dunas sob o sol de vero. Ainda assim, Ascnio e Leonora
projetam uma fuga para a praia. Quando o calor diminua, antes da volta marcada para o pr- do-sol.
Inesperado, o barulho de um motor na distncia. Comandante Drio, a quem todos os rudos do mar e do rio so familiares, decreta:
-  o barco de Pirica.
Pirica vem em busca de Ascnio, trazendo recado do coronel Artur da Tapitanga e notcia sensacional: os engenheiros da Hidreltrica de Paulo Afonso encontram-se
em Agreste e querem falar com algum responsvel pela Prefeitura. Foram casa do prefeito, deu a maior confuso. Doutor Mauritnio no diz coisa com coisa, vive
num mundo de fantasmas, agrediu o engenheiro- chefe, confundindo-o com o agrnomo Aristeu Regis, responsvel pela desero de Amlia Doce Mel. Insultados e expulsos,
foram parar na fazenda do coronel Artur de Figueiredo, presidente da Cmara Municipal.
O octogenrio enviara Pirica a Mangue Seco com ordens de trazer Ascnio.
H uma animao geral, querem saber mais, reclamam detalhes, mas Pirica, alm do j contado, acrescenta apenas uma informao: o Coronel estava muito contente quando
o encarregara do recado:
- Diga a Ascnio que os homens da luz esto aqui, que ele venha imediatamente, no perca um minuto.
Fidlio exclama:
- Vo instalar a luz, ganhei a aposta. Viva dona Antonieta!
O primeiro viva, seguido de outros ali mesmo, sob os coqueiros. Prlogo s comemoraes da cidade, Agreste vai vibrar com a notcia. Ascnio, empertigado, encaminha-se
para Tieta:
- Permita, dona Antonieta, que eu lhe antecipe a gratido do povo de Agreste.
Tieta estende a mo a Ascnio para que ele a ajude a levantar-se :
- Ainda no, Ascnio. no arrote antes de comer. Atenda ao chamado do Coronel, tire o assunto a limpo, por hora no se sabe de nada certo. Eu aprendi a no soltar
foguete antes do tempo para no queimar a mo. Se for verdade, quem mais merece parabns  voc que lutou tanto. Eu pouco fiz, s fiz pedir.
- As intenes, os gestos no valem nada quando no trazem resultados, foi a senhora mesma quem me disse - retruca Ascnio.
- Voc brigou, se bateu, no ficou na inteno. V saber o que h e, se for verdade, comemoraremos juntos.
- Ns e o povo todo, dona Antonieta. Vai ser a maior festa de Agreste.
O entusiasmo domina a alegre comitiva. Tieta, queira ou no,  abraada, beijada, felicitada. Barbozinha ameaa discursar, far um poema  luz de Paulo Afonso, luz
nascida dos olhos de Tieta; Osnar prope que a carreguem em triunfo - solte minha perna, seu aproveitador!; Aminthas promete a Fidlio pagar a aposta assim a notcia
se confirme. Afetuoso abrao do Comandante; solenes felicitaes de Modesto Pires, impressionadssimo com o prestgio da conterrnea; nunca acreditara que os pedidos
feitos por ela dessem resultado positivo; nem vo tomar conhecimento dos telegramas, jogam no lixo, garantira a dona Ada e a alguns amigos. Perptua empina o peito:
as relaes da irm na cpula da poltica e do governo so um orgulho para a famlia, sua posio social eleva todos os parentes. Se no estivesse to amuada, ao
ouvir a palavra cpula, Tieta abriria num frouxo de riso; ainda assim sorri nos braos de Perptua. Elisa, emocionada, no contm o choro, cobre a irm de beijos.
Dona Carmosina e dona Mil jamais duvidaram, contavam as horas na espera da resposta. Agora, diante da presena dos engenheiros em Agreste, que diro os incrdulos?
Tero de dar a mo  palmatria. Tieta gostaria de participar da alegria geral mas aquele por cujo beijo anseia no est presente, no veio, no quis vir, preferindo
seguir atrs do padre no lombo de um burro, o idiota! Que espcie de dor- de- cotovelo mais absurda! Seu rival  Deus. Pois Deus que se cuide, no particular Tieta
do Agreste no costuma perder.
Por proposta de dona Carmosina, unanimemente aprovada, decidem voltar em seguida, acompanhando Ascnio, ningum se sente capaz de demorar-se o resto da tarde em
Mangue Seco, esperando o pr-do-sol, com tamanha novidade em Agreste. Todos desejam ver os engenheiros.
Todos, menos Tieta. Anuncia sua deciso de aceitar o convite de dona Laura e do Comandante, de ficar na praia at quarta- feira quando, em companhia de Modesto Pires,
voltar a Agreste para a escritura do terreno.
Enquanto os demais se arrumam, leva Perptua  Toca da Sogra, entrega-lhe um molho de chaves:
- Quero que voc me faa um favor. Abra a mala azul, repare na chave, pegue aquela maleta onde guardo dinheiro, a que voc viu, abra com essa chave pequena, e retire...-
calcula a quantia em voz alta, o necessrio para dar um sinal a Modesto Pires, assegurando a compra do terreno, e para as despesas iniciais da construo.
- Voc vai fazer casa? Em seguida?
- Imediatamente. Vou demarcar o terreno e comear uma casinha, pequena, o Comandante se ofereceu para tomar conta da obra, em Saco tem tudo que se precisa, em material
e mo- de-obra,  s ter dinheiro para pagar.
O Comandante disse que a construo pode andar depressa. Quero ver minha casinha de p, pelo menos as paredes, antes de regressar a So Paulo. Quando eu no estiver,
voc e os meninos ficam usando. Elisa tambm. - Fita a irm, adoa a voz. - Tenho vontade de fazer alguma coisa por meus sobrinhos, Perptua, j que no tenho filhos.
- Ah!, Mana, que alegria voc me d dizendo isso.- Brilham os olhos gzeos, tremula a voz esganiada. O acordo com o Senhor, apenas estabelecido e j em pleno andamento.
- Em Agreste, a gente conversa sobre isso.
- Por quem mando o dinheiro e as chaves?
- Pelo Comandante, ele vai com a canoa, levando gente.
O Comandante no precisou ir, couberam todos na lancha de Elieser e no barco de Pirica onde se acomodaro, alm de Ascnio, Leonora e Peto.
Tieta se aflige:
- E eu que preciso desse dinheiro amanh bem cedo. Mande por qualquer um que venha para c.
- Deixe comigo, eu dou jeito - garante Perptua.
Tieta confia, j alegre, sorrindo. O calundu passou, constata Leonora ao despedir-se. No momento do embarque, na praia, a caravana improvisa ruidosa manifestao,
sob a batuta de dona Carmosina:
- Ento, como  que ?
O coro responde:
- Para Antonieta nada?
- Tudo!
Dona Carmosina junta-se aos demais:
- Hip, hip! Hip, hip! Hurra! Antonieta! Antonieta!
Modesto Pires repete:
- O povo de Agreste, se essa histria da luz for verdade, como parece, vai lhe entronizar no altar- mor da Matriz, junto da Senhora Sant'Ana, dona Antonieta. Eu
j lhe disse e repito.
Tieta desata em riso: mundo mais divertido.
Da recepo mal humorada na prefeitura, de bastante mau humor, o engenheiro- chefe informa ao ansioso Secretrio da mudana havida no plano de extenso dos fios
e postes da Hidreltrica: Agreste fora includo inesperadamente na relao de municpios a serem beneficiados com luz e fora da usina. no apenas isso, j de si
incrvel absurdo, tinha mais. As ordens, vindas do alto, da prpria presidncia da Companhia, urgentes, eram de conceder a Agreste prioridade absoluta, iniciando-seimediatamente
as obras necessrias para que fossem concludas em tempo mnimo. Inconcebvel deciso a traz-los ali, a esses quintos do inferno, num domingo, dia de descanso,
cobertos de poeira, putos da vida. Perdendo tempo, ainda por cima, pois h horas buscam um funcionrio responsvel com quem conversar.
Antes de informar sobre prazos e datas, existe uma coisa, uma nica, que o engenheiro- chefe e seus subordinados desejam saber: como se explica que um municpio
to pobre e atrasado, cujo prefeito  maluco, precisando de camisa- de- fora e internamento, o Presidente da Cmara de Vereadores um macrbio, houvesse conseguido
modificar planos aprovados, definitivos, ordens de servio em andamento, passando  frente de comunas ricas, prsperas, protegidas por polticos de renome, ocupando
altos postos? Quem pedira por Agreste? Pedira, no, impusera! Por favor, o nome desse lder de tamanha fora, dessa personalidade assim eminente, desse prepotente
mandachuva, do potentado capaz de tal proeza? Tem de ser realmente algum de muito poder, com certeza general.
Osnar, distribuidor de patentes, dizia-a Generala. Mas Ascnio silencia, para no aumentar o mau humor dos engenheiros. Sorriu modesto, vamos ao que interessa, s
datas e aos prazos.
Do medo e da vontade dissolvidos em luar Generala? sozinha, deitada no alto das dunas, moleca de agreste, pastora de cabras. o marulho ingente das ondas, o odor
de maresia, msica e perfume dos comeos do mundo. No cu, a lua e as estrelas, eternas.
Nos cmoros, ouvindo as vagas, nos oiteiros de terra pobre, no contato com o rebanho indcil, fizera-se forte e decidida, aprendera a desejar com intensidade e a
lutar para conseguir. Mar bravio, terra rida, faces de um mesmo mundo agreste, duro, pobre e terrivelmente belo. Sentia-se plantada nas pedras onde as cabras saltavam
e nas areias movidas pelo vento. Tinha da terra e do mar, da gua doce e da salgada, correnteza de rio, ressaca de oceano.
Aprendeu a no ter medo, a no fugir, a olhar de frente, a assumir a iniciativa.
Tantas estrelas, incontveis; quantos amores, o desejo preso na garganta, na ponta dos dedos, no fundo do estmago? Amores de fugidio instante, amor da vida inteira,
o de Felipe. Ningum conta as estrelas, para que contar as nsias, a boca seca, a necessidade urgente? O nmero no importa e sim o beijo, a morte e a vida juntas,
uma coisa s. Em Mangue Seco, sobre a areia, em Agreste, nos esconsos do rio, cabra monts. Em cama de casal, somente Lucas, quando ela deixou a aridez dos oiteiros
e descobriu os atalhos do prazer. Ei-la de novo ali, nos cmoros, como da primeira vez. Tensa, pronta,  espera.
Longe, no rio, a luz; pode ser apenas o reflexo de uma estrela. Qualquer rudo se perde no rebentar dos vagalhes contra as montanhas de areia. Mas a lua cheia ilumina
as dunas, suave claridade, macia. O vulto indeciso, no sop dos cmoros, por qual se decidir? Tieta levanta-se, olha, adivinha, reconhece.
Modula o chamado da cabra, doce convocao de amor, berro ligeiro, sussurrado. Indicando rumo e desembarque.
Frente a frente, a tia e o sobrinho. Cardo veste o calo e a camisa do Palmeiras que Tieta lhe enviou. Sorri sem jeito:
- A bno, tia. me mandou que eu viesse lhe trazer uma encomenda, deixei na mo do Comandante, l embaixo.
- Foi s?
- Disse para eu ficar com a senhora, lhe ajudando.
- Mas tu no queria vir.
Atrapalha-se o rapazinho, tenta esboar um gesto, baixa os olhos. A evasiva, entre gaguejada e orgulhosa:
- Est uma festa por l, por causa da luz. O povo todo na rua, dando vivas pra tia. Diz que a tia...
- Tu tem medo de ficar, no ?
A resposta se espelha na confuso do rosto aberto ao luar, franco, sem malcia. Tieta prossegue:
- Me conte.  comigo que tu sonha aquelas coisas? no minta.
O adolescente baixa os olhos:
- Todas as noites. Me perdoe, tia, no  por meu querer.
- E tu tem medo, foge de mim?
- no adianta de nada. Nem me esconder nem rezar. At na reza, penso em voc..
- Tu me acha bonita?
- Demais. Bonita e boa. Eu  que no presto, sou ruim de natureza ou bem  castigo de Deus.
- Castigo? Por qu?
- No sei, tia.
- Se tu no quer ficar, pode ir embora. Em seguida, neste instante.
Aponta para baixo, deita-se de novo sobre a areia, o corpo exposto: a saia aberta, a blusa desatada. A voz de Ricardo chega de longe, do fundo do tempo:
- Estou com medo de ofender a Deus e de lhe ofender, tia, mas tenho vontade de ficar.
- Aqui, junto de mim?
- Se a tia deixar. - Os olhos incendeiam.
Na lonjura, espoca o claro dos foguetes subindo ao cu, estrela;
acendidas pelo povo de Agreste em honra e louvor da filha ilustre, da viva rica e poderosa, da paulista com voz e mando no governo.
Tieta sorri, estende a mo:
- Tenha medo, no. Nem de mim nem de Deus. Venha, se deite.
Os corpos flutuam no luar, na msica das vagas. Lua, estrelas, mar, os mesmos do passado, iguais. Que importam idade, parentesco, batina de seminarista? Uma mulher,
um homem, eternos. Aqui, nas dunas, chiba em cio, um dia distante ela comeou. Tieta toca seu princpio. Hoje, cabra de ubere farto, cansada do bode Incio, defloradora
de cabritos.
Intermezzo
A maneira de Dante Alighieri, autor de outro famoso folhetim (em versos ou o dialogo nas trevas j ia distante a lua no caminho da frica, pejada de ais' de amor,
quando por fim houve pausa e respirao. Desamarradas as coxas, separaram-se a vida e a morte, cada uma para seu lado, deixando de ser uma nica coisa o ato de morrer
e o de ressuscitar. Antes compunham um corpo nico, um s foguete explodindo no alto dos cus, desfazendo-se em luz sobre as vagas do mar. Antes, a noite de Iuar
foi ao mesmo tempo dia de sol, sol e lua, dia e noite acontecendo juntos. sem distncias nem intervalos.
Quando por fim houve pausa e respirao, desapareceram o sol e a lua, as trevas cobriram o mundo, a noite despiu-se de calor e brilho, fez-se fria inimiga, ouviu-se
na ressaca do oceano contra as dunas, na insana ventania transportando areia, a ata de acusao e a sentena. Mais alm da vida, mais alm da morte, ele pde medir
a extenso do crime. Para o castigo no havia medida humana, no se mede a eternidade. Num esforo que lhe rompeu a garganta e o peito, Ricardo encontrou o exerccio
da palavra:
- Ai, tia! O que foi que a gente fez? Que  que eu fiz?
Um dia, em voto solene, jurara castidade, consagrara-se a Deus. Prometera renegar os prazeres da carne, casto filho de Maria e de Jesus. Trara o voto.
- Me desgracei e desgracei a senhora, tia. Me perdoe...
Escuta sons de riso, em surdina, nascente de gua em meio  tempestade. To de areia e vendaval toca-lhe a face culpada, dedos de unhas longas tocam-lhe os lbios,
contendo o soluo. Um homem no chora e a partir dali, do sucedido, que era ele seno um homem igual aos outros, cravada no corao a marca do pecado? Igual aos
outros? Pior, pois os demais no tinham assumido compromisso e o sangue de Cristo derramado na Cruz os resgatara a todos, at o fim dos sculos. Mas ele fizera voto,
prometera, jurara, assumira compromisso. Trara a confiana de Deus. No negrume enxerga as chagas se abrindo em pus no corpo perverso, a lepra. Dedos pressionando
a pele dos lbios impedem o grito e o espanto.
- Tia, s quando houver gente, tolo. no tendo, sou Tieta, tua Tieta Est rindo a infeliz, inconsciente, condenada por ele s penas do inferno.. Rindo, alegre; no
se d conta do horror que cometeram.
O demnio o possura, o mais perigoso, o mais sagaz e sutil, o pior de todos, o demnio da carne. no se contentando em lev-lo  perdio, utilizara-o como instrumento
para tentar e corromper a tia, para perverter viva honrada,, fiel  memria do marido, e transform-la em fmea enlouquecida, animal em cio, a gemer e a ganir,
a berrar como as cabras nos oiteiros de agreste. Oh, tia, que desgraa! A mo percorre os lbios, as unhas arranham a pele, ameaando pausa e distncia.
Possuda pelo co, ela tambm. Excomungada por culpa dele, exclusiva, que Tanto lhe devia: gratido, respeito e puro amor de sobrinho e protegido. No lhe mandara
presentes de So Paulo, no trouxera vara de pesca e molinete, n olhe dera dinheiro, camisa nova, pamas que a me guardara para o seminrio, no ofertara imagem
e ostensrio  Igreja, piedosa criatura Alegre, informal, arrebatada, sim, mas generosa ovelha do rebanho de Deus, como a classificara padre Mariano Alma pura, inocente
corao, digna da estima do Senhor, da recompensa divina, proclamara o padre no sermo, durante a missa. Merecedora de todo respeito e de muita gratido, para pagar
o terno afeto, a bondade, as generosas ddivas. A me recomendava cuidasse da tia, ficasse s suas ordens, fosse seu amigo.
Por acaso obedecera Buscara aproxim-la ainda mais de Deus e da Igreja, como era sua obrigao de sobrinho e seminarista falara-lhe dos santos e dos milagres, contara
os prodgios da virgem e do Senhor, descrevera as maravilhas do reino dos cus Nada disso cumprira. ao contrrio, pusera-se s ordens de Satans na conquistada alma
da tia, solene instrumento do maldito. Antes servo de Deus, anjo consagrado, depois escravo do co, obediente comparsa, cmplice ativo, anjo decado.
- Me perdoe, tia.. .
A mo se alonga, cobre a boca inteira, a palma comprimida sobre os lbios, trincando os dentes.
- no diga tia, diga Tieta.
Depois da morte prxima do leproso - primeira demonstrao da ira divina -, o castigo eterno, as chamas do inferno, para todo o sempre, sem apelo, sem repouso, sem
intervalo, sem direito  contrio, sendo demasiado tarde para o arrependimento. Arrependimento A mo rodeia a boca, as unhas raspam de leve.
No inferno, para toda a eternidade, a carne pecadora e podre queimando e jamais acabando de queimar- salva ou condenada, a alma  imortal. Ouve o riso suave, nascido
da ignorncia, riso de quem no sabe da violncia da clera de Deus.
Por detrs do manso balido satisfeito, ele escuta a gargalhada do diabo, sinistra, vitoriosa, insultante: duas almas ganhas de uma vez, numa s parada, duas a mais
para a prtica do pecado e para as chamas do inferno, boa colheita.
Tantos dias, tantas noites de batalha. Porque ele lutara e resistira; com Pequenas foras e armas mnimas, no possua a estatura dos santos verdadeiramente dignos
de servir a Deus, fortaleza da lei, dos mandamentos. Ainda assim resistira, lutara, erguera trincheiras: na banca, curvado sobre os livros; nas guas do rio, mergulhando
quando Peto, instrudo pelo co, dirigia-lhe a vista na Bacia de Catarina; nas oraes, antes de deitar-se na rede; em rogo e promessa, na missa se a virgem o salvasse,
comprometia-se a dormir estendido sobre gros de milho durante todo o ano letivo. Trincheiras conquistadas, destrudas uma a uma pelo Coisa Ruim. Nos problemas de
lgebra, nas pginas impressas, saltavam inteiros os seios entrevistos pela metade no decote do penhoar os fios de plo apontados pelo irmo na fresta do biquni
alongavam-se rio adentro, atando pulsos e tornozelos, trazendo-o de retornos pedras onde ela descansava, descontrada, as pernas abertas, inocente de tanta cobia
e ousadia. At mesmo durante o sagrado sacrifcio da missa, a fumaa do turbulo ao evolar-se traava a sua tia e o baloiar da bunda, redonda, solta, morena, percebida
sob a curta camisola.
Labutara nas noites inquietas, a adivinhar devassides quando se esforava por enxergar no sonho castas imagens, vidas santas, alegrias puras. antes de perder-se
por completo ali, em Mangue Seco, esteve  beira do pecado todas as noites, ora adormecido, ora acordado, e se jamais o completou foi por no saber como faz-lo.
Mal terminava as oraes e cerrava os olhos, ainda com o nome de Deus nos lbios e o pensamento na salvao da alma, e j o Amaldioado enchia a rede de seios e
coxas, de bundas e plos, a tia inteira e nua.
Nem os rogos, nem as preces, nem as promessas, nem a fuga. Transtornado, abrira o livro santo na pgina da fuga para o Egito, conselho de Deus. Montou no burro que
tocou no rastro do padre Mariano para Rocinha em vez de tomara lancha para Mangue Seco onde poderia v-la quase desnuda na praia, acompanh-la mar adentro, salvando-a
de morte certa quando a arrebentao da barra a estivesse afogando. Herico, lutaria contra as vagas, tomando-a finalmente nos braos, trazendo para a praia o corpo
inerte apertado de encontro ao peito.
Montado no burro, fugira da tentao. De que adiantara Durante todo o percurso para Rocinha ele a teve nos braos, apertada contra o peito no trote do animal. ao
apertar-se contra a sela, comprimia entre as coxas as ancas da tia.
Dbeis foras, vontade fraca, armas frgeis para enfrentar o poder e as tramas do Co. Para tent-lo na beira do rio, Belzebu utilizara Peto; para envi-lo a Mangue
Seco, por mais terrvel que possa parecer, servira-se da me, devota e rgida.
Ele deveria ter se oposto, discutido, alegando a hora tardia, fingindo-se doente.
No o fez. A me no precisou repetir a ordem: sara correndo em busca de Pirica para contratar o barco. Compreendeu que o Tinhoso escolhera Mangue Seco para local
do crime e no obstante para ali partira de livre vontade. Durante a travessia, dava pressa a Pirica apesar de saber que, se l desembarcasse, estaria perdido. assim
aconteceu: em Mangue Seco o Co o derrotara e possura.
Os dedos rumam para o queixo, deixando na boca um gosto de polpa fresca.
As palavras, arrancadas do estmago, cortam o pulmo, estrangulador - Estou condenado e levo a tia comigo para o fogo do inferno. Sou ruim demais, me perdi e arrastei
a tia.
A mo se espalma, toda ela de fogo, vindo do queixo para o pescoo. Na hora do pecado, at as labaredas so deleite, ningum sente a dor das queimaduras. Mas outro
 o fogo do inferno, tia, outro e eterno.
- Me leve, sim, cabrito. Novinho como os que eu carregava ao colo.
viva honesta, ele a fizera renegar o recato e a virtude da cativa condio, manchar a memria do marido, enlouquecer a ponto de dizer coisas assim, sem p nem cabea,
murmurar frases sem nexo, aberta em riso de contentamento, no se dando conta do mal praticado, indiferente ao castigo.
Ele fora o nico culpado mas a condenao atingia os dois, sobre a cabea da tia cair igualmente a clera de Deus. Sobre as duas almas que no souberam resistiro
corpos vis,  carne podre. Ele, o nico culpado. A tia lhe dissera que fosse embora, se quisesse, apontara para baixo dos cmoros, ele no quis, preferiu ficar.
Consciente de que, se ficasse, iria desrespeit-la, ofender a Deus, prevaricar, entregando-se de vez a Satans, servindo-lhe de agente na degradao da alma da viva,
responsvel por sua perdio.
- Quem me dera morrer.
- Nos meus braos.
A mo desce dos ombros para o peito. Ai, tia, no. no v que o Demnio est solto, sobrevoa dunas e mar, morcego imenso a tapar a lua, a impor a noite negra e fria
o tentador est ali, presente, como sempre esteve, desde o momento em que a tia surgira na porta da marinete de Jairo. Fora ele, o demnio, quem falara pela boca
de Osnar comparando-a a uma fruta madura, sumarenta. Naquela hora comeara o combate, l mesmo perdido. Perdido a cada momento mais, nos passos noturnos soando no
corredor, nas rendas esvoaantes do neglig, no biquni minsculo, na minscula camisola, nas mos untadas de creme, nas palavras truncadas do padre- nosso, nos
sonhos prenhes de desejo quando a tinha nua junto a si, na rede, e no sabia o que fazer. Agora sabe e por isso pagar durante a eternidade. Pagaro os dois, o culpado
e a vtima, ele e a tia. Quem sabe, Deus  justo, ter piedade da tia e lhe reduzir a pena a um tempo de purgatrio. Por mais longo seja, ainda que se estenda por
milhes de anos, tempo e no eternidade, tem limite e fim. Um dia a sentena termina, liberta-se o condenado, mas as penas do inferno, essas no acabam jamais.
Nunca jamais, repete a cada segundo o relgio do inferno. Assim contara Cosme ao falar do castigo eterno.
- Deus  bom e sbio, ter piedade, sabe que a tia no teve culpa.
Cresce o riso alegre e inconsciente, a mo desce pelo peito agoniado.
- No diga tia, diga Tieta.
A mo no peito sufocado de vergonha, de remorso, roto de medo; como fitar a face de Deus na hora do juzo final. A mo acalma o pesadelo, transforma os sentimentos,
desata o n, rompe a treva, mas no apaga as fogueiras da ira celeste pois toda ela, palma, punho e dedos,  brasa ardida, calordivino. Divino Passim Satans engana
e condena os homens. Esse calor divino se transformar em dor insuportvel nas profundas dos infernos, consumindo lenta e eternamente os pecadores.
- S eu tenho culpa, Deus h de !he perdoar, tia.
- Tia, no. Tieta, sua Tieta.
Como no percebera a voz de Deus na voz da tia apontando-lhe a descida, o caminho certo, o sendeiro a conduzi-lo  salvao, ao sacerdcio, ao paraso.
Paraso, Qual mo conduz ao paraso: ainda h pouco ele enxergara a doura do cu em cada detalhe do corpo exposto ao luar. A mo brinca com os cabelos nascendo
no peito jovem e msculo. O Major orgulhava-se do tronco cabeludo, peito e costas, prova de macheza. Um macho, o pai. O filho, castrado pelo voto feito, pela promessa
da me, impedido. Mas o Demnio o levara a levantar-se contra a lei, despertara-lhe a carne morta, pervertendo-o. Fizera do mancebo casto, que desconhecia desejos
e maus pensamentos, macho impuro sem controle sobre o corpo e a alma, um bode.
No apenas: utilizara-o para conquistar a tia, perd-la, conden-la.
- O purgatrio dura uns tempos e acaba, tia. A culpa  minha, somente minha; Deus  justo, no mandar a tia para o inferno.
- Cabrito tolo, sou cabra velha. Me chame de cabra, diga minha cabra.
Jamais, mesmo se quisesse; nem sequer na hora do pecado, quando a cabea no pensa e a boca geme e grita. Cabra dissera Osnar, voz do Demnio, quando a vira deslumbrante
na porta da marinete de Jairo, acrescentando indecente comentrio sobre a fartura do ubere, o Imundo. E ele Onde mergulhara a cabea, pousara os lbios, onde, desvairado,
mordera-me perdoe, tia. Jure que me perdoa.
- Diga Tieta.
Na barriga de msculos navegam os dedos em descoberta. O dedo minimo enfia-se no umbigo, faz ccegas, a brasa cresce em labareda, consumindo o pecado, cobrindo o
nime, acendendo o luar.
- Quero lhe dizer, tia.. .
- Tieta.
- Quero lhe dizer que mesmo tendo de pagar durante a eternidade no fogo do inferno, ainda assim...
- Diga, meu cabrito...
 .. ainda assim, no me arrependo. E se o castigo pudesse ser pior, mesmo assim...
- Diga..... mesmo assim eu queria...
Onde a mo passa ma queima da ponta dos ps  ponta dos cabelos, percorre o corpo, a testa lateja, abre-se a boca, cresce o co.
- Queria o qu, cabrito? Me diga...
- Estar aqui com a tia.
- Tieta.
A mo procura, encontra, apalpa, empunha. Desmedido Demnio.
- Tieta, no me arrependo, ai no, Tieta!
- Diga cabra, meu cabrito.
Onde esto as trevas e o inferno, o te morde Deus Sob o luar, o paraso se abre para o co, estreita porta de mel e rosa negra. E ali o inferno e muito mais, vem,
meu cabrito! Ai, cabra, minha cabra, sou bode inteiro, em fogo me consumo.
Terceiro episdio o progresso chega aos cafunds de judas ou a ,Joana Darc do serto com marcianos e venusianas, super-heris, aeronaves espaciais e fmeas sublimes
onde se trata da produo de dixido de titnio e da sorte de guas e peixes, colocando-se os termos do debate a dividir agreste e a terminar com o marasmo e a paz,
assistindo-se ao nascimento da cobia, da sede de poder, da ambio de mando e ao florescer do amor; acrescentando-se ainda reisado, bumba-meu-boi e outros detalhes
folclricos de que se encontrava carente este pattico folhetim da primeira apario dos super- heris interrompendo pecaminosa e agradvel pratica na hora clida
a primeira apario de seres de outros planetas, dos super- heris, no territrio de agreste, deu-se num comeo de tarde, na hora do mormaro quando ningum perturba
a paz dos habitantes.
No comrcio aberto por fora do hbito, para cumprir o horrio - das oito s doze, das quatorze s dezoito - s no armazm de Plnio Xavier h certo movimento, alis
suspeito. Duas ou trs vezes por semana, na mesma hora vazia de fregueses, o comerciante de secos e molhados, cidado respeitvel, casado e pai, escondido por detrs
dos fardos de carne-seca, ocupa-se em meter as mos sob a saia da solteirona Cinira, tocando-lhe as partes com a ponta dos dedos. Voltada para as prateleiras, ela
faz como se no visse nem sentisse mas abre as pernas para facilitar. Plnio Xavier tambm age em silncio, o suor pinga-lhe do rosto. De repente Cinira suspira
fundo, estremece, leva a mo onde sabe estar fora das calas a ansiada arma, aperta a forte e sai escarreirada e furtiva.
Naquele dia, quase ao chegar ao suspiro e ao estremeo, um abominvel, sinistro rudo ecoou na rua, interrompendo bruscamente a deleitosa prtica. ao ver-se em
fuga na calada, Cinira no pode conter o terror e sufocar o grito: a mquina desconhecida e monstruosa vinha sobre ela, rugindo, imensas rodas afundando o cho.
Lanava ao ar negra fumaa pestilenta atravs dos canos e orifcios e de sbito emitiu lancinantes sons, jamais ali ouvidos. Fechando o ltimo boto da braguilha,
Plnio Xavier chegou  porta a tempo de observar o estrambtico veculo passando em frente ao armazm, conduzindo no bojo os indescritveis seres, ao parecer macho
e fmea, se bem no se diferenciassem muito um do outro nos atributos e nos trajes espaciais, idnticos.
Dias antes, haviam circulado rumores, trazidos de Mangue Seco, onde os pescadores afirmavam ter visto objeto no identificado, faiscante contra o sol, vindo do mar
e nele desaparecendo aps haver sobrevoado a praia e o coqueiral. Nem por isso o burgo estava preparado e a comoo foi imensa.
Da nave na praa da matriz, quando se estabelecem os primeiros contatos entre os super-heris e os humanos com referencias a hotis e asfalto, enquanto Miss Vnus
freta cada um dos homens, inclusive seu Manuel portugus deserta e silenciosa a praa da matriz quando a nave, num espaventoso clamor de gases soltos, ali se deteve
e o ser provavelmente macho - em razo dos cabelos longos, sobrando do capacete, e das olheiras violetas, houve quem lhe discutisse o sexo- saltou por cima da porta
da extravagante mquina, circulou o olhar em torno, no enxergou ningum. Nas mos, exibia grossas luvas de extico material. Envergava flamante vestimenta, espcie
de macaco azul com zperes e bolsos nas pernas e braos, ilhoses e tachas de metal, a fulgurar. Observao mais detalhada, demonstrava tratar-se de cala e bluso,
os bolsos repletos de objetos estranhos, armas mortais, imprevisveis.
Vestido de maneira absolutamente igual, sem outra diferena alm do volume do busto, o ser fmea suspendeu o capacete e revelou-se tima. Retirando as luvas, com
os longos dedos afofou a cabeleira ruiva- no mais longa que a do companheiro - com uma faixa platinada ao centro a denunciar-lhe a origem venusiana ou carioca,
de qualquer forma apaixonante.
Do escondido do bar, Osnar observava, estupefacto; presentes apenas ele e seu Manuel Portugus.
- Oh! Luso Almirante! Venha ver e me diga se  verdade ou delrio alcolico o que estou vendo. Ontem bebi demais em casa de Zuleika.
Seu Manuel abandonou os copos nos quais passava gua- tambm no precisa abusar da imundcie, Vasco da Gama, dizia-lhe Aminthas apontando as marcas de sujeira em
pratos, copos e talheres -, veio at a porta. Abriu a boca, coou o queixo:
- Quem so esses valdevinos?
- De tanto Ascnio falar em turistas, eles apareceram... - Arriscou Osnar. - A no ser que sejam os tripulantes do disco voador de Mangue Seco.
Constatada a ausncia de terrqueos, o ser provavelmente macho retornou nave, a venusiana enfiou as luvas; os abominveis sinistros rudos recomearam, a negra
fumaa soltou-se pelos canos e orifcios, o veculo decolou num salto e se perdeu num beco. Durante certo tempo ouviu-se na cidade a barulheira, acordando em susto
os que tiravam uma pestana como Edmundo Ribeiro, o coletor, e o rabe Chalita; trazendo  porta das casas os surpresos, assombrados habitantes. Houve comerciante
a fechar portas de loja e de armazm, quem sabe Lampio voltara dos infernos, motorizado.
Lampio nunca chegou a Agreste mas certa feita estivera perto, a trs lguas de marcha, ainda hoje o fato  recordado.
Quando os super- heris, percorridas ruas e becos, retornaram  praa da Matriz e outra vez aterrissaram, j Ascnio Trindade que os vira da janela do sobrado da
prefeitura, descia a escada a correr, vindo-lhe s ao encontro. Osnar falara em turistas gozando o amigo, mas Ascnio, se o tivesse ouvido, aprovaria: turistas, por
que no? Os primeiros a atender ao convite redigido por ele (com a preciosa ajuda de dona Carmosina) e enviado ao jornal A Tarde, da Capital, sugerindo aos turistas
esticar de Salvador at a mais saudvel cidade do Estado, Sant'Ana do Agreste, para conhecera mais bela praia do mundo, a praia das dunas de Mangue Seco. A gazeta
publicara a carta na coluna dos leitores, lastimando, em pequena nota da redao, o pssimo estado da rodovia a impedir na prtica a aceitao do convite. Ningum
de bom senso se disporia a jogar a sorte de seu automvel nas crateras da estrada cada vez mais esburacada somente para conhecer Agreste, recanto realmente paradisaco.
quem escapasseileso da buraqueira da via principal teria de enfrentar ainda os indescritveis cinqenta quilmetros de barro, a partir de Esplanada.
Ascnio arvora vitorioso sorriso no rosto em geral srio: mesmo assim, com a estrada de crateras e de sobra os quarenta e oito quilmetros- quarenta e oito e no
cinqenta - fatais, surgiam corajosos dispostos a atender ao chamado.
Empoeirados, suarentos, os estranhos seres acenaram gestos cordiais e sequiosos. A fmea deu pressa, com a enorme pata de couro.
- Boa tarde... Sejam bem- vindos a Agreste! - saudou Ascnio alegremente.
- Bonjour, frre! - respondeu o espacial, tirando a luva para tomar de um leno lils e limpar a testa. - Que calorzinho, hein!
- Daqui a pouco refresca. As tardes, a partir das quatro, so fresqussimas, de noite chega a fazer frio. Clima seco, ideal. - Ascnio Trindade inicia sua pregao.
- Vou acreditar em tudo que voc me disser, paixo, se me arranjar alguma coisa para beber... - A voz do ser fmea desmaia em promessas.
- O que quiserem, com prazer. Vamos at o bar.
Da mesa, Osnar constata:
- Esto vindo para c, Almirante. Me segure pois sou capaz de perder o juzo e agarrar essa viso aqui mesmo. Sempre tive vontade de comer uma marciana na falta
de uma polaca, pois igual a uma polaca no existe em nenhum planeta. - A clebre histria da polaca de Osnar.
O grupo aproxima-se, boas- tardes de lado a lado, tomam mesa.
Manuel atende, solcito, enquanto Osnar no desgruda os olhos do ser fmea que,  falta de gua- de-coco - no pode faltar coco mole no bar, anota Ascnio -, aceita
guaran.
- Para mim usque on the rocks... - pede o ser provavelmente macho.
- Scotch, naturalmente... Quero dizer, escocs.
- S tenho nacional mas  do legtimo - Orgulha-se seu Manuel.
- no, por favor, no! Traga-me ento uma mineral sem gs. Bem gelada.
- A gua daqui  melhor do que qualquer mineral ,j foi examinada na Bahia e aprovada com os maiores elogios - esclarece Ascnio.
- Desde que seja gelada...
Seu Manuel serve o guaran com canudinho, um requinte, e o copo com gua e gelo. O marciano aprova: realmente muito boa gua, d-me um pouco mais, por favor, e diga
quanto lhe devo.
A um sinal de Ascnio, seu Manuel curva-se :
- No  nada... Foi um prazer...
- Muito obrigado... Aceito por essa vez mas de futuro... E o nico bar da terra?
- Bem, no Beco da Amargura tem uma espcie de boteco, do negro Caloca. Mas em qualquer armazm se pode beber um trago de cachaa.
- Precisa melhorar o sortimento, my friend... Boas marcas de usque, bons vinhos... E hotel, frre - frre ra Ascnio, cara-lhe na simpatia -, tem algum bom? Com
banho privativo?
- Hotel propriamente no. Mas tem uma penso muito boa, a de dona Amorzinho, comida de primeira, quartos limpos. no tem banho privativo.
Mas o torneiro do banheiro vale uma ducha.
- Vai ser preciso construir logo um bom hotel... - Falou o ser macho como se construir ali, em Agreste, um hotel de primeira, fosse a coisa mais simples do mundo.
Exatamente a partir dessa afirmao - dessa deciso do super- heri - Ascnio Trindade comeou a divagar.
- O pior  a estrada - constatou o ser fmea, miando. - Esse ltimo pedao, ento... Nunca levei tanto tranco nem engoli tanta poeira... - Afofa os cabelos poeirentos,
ruivos com aquela mecha platinada. - Chego em Salvador, vou direta ao salo de Severiano lavar os cabelos e pentear...
-  s alargar e asfattar, darling. Quantos quilmetros, frre?
- Daqui  Bahia,  capital?
- No, s o ltimo trecho, o carrovel.
- Quarenta e oito quilmetros...
- Amorzinho, no minta! - rogou Miss Vnus a Ascnio. - Tem mais de cem... Estou descadeirada. - Levou a mo  bunda espacial.
- Ai! - gemeu Osnar, mas se algum ouviu no demonstrou.
- Deve ser isso mesmo, darling, uns cinqenta quilmetros. Num instante se asfalta.
Hotel, estrada asfaltada, o sonho prossegue, o corao de Ascnio se dilata.
- Me diga uma coisa, frre: uma lancha para descer o rio at a praia de...
Como  mesmo o nome?...
- Mangue Seco...
- C'est a...  fcil alugar uma?
- Bem... Tem a lancha de Elieser. no  de aluguel mas eu falo com ele, peo para lev-los.  um bom sujeito.
- Pode dizer que eu pago bem...
Ascnio sai em trote rpido em busca de Elieser. Ter de convenc-lo:
em matria de bom sujeito, Elieser  exemplo discutvel, mas Ascnio tem prestgio. Nada dir sobre hotis e asfalto, o outro pode considerar tais planos grave ameaa
a seus legtimos interesses. Ascnio j compreendeu que no se trata de simples visitantes ocasionais e sim de empresrio estudando a possibilidade de inverter dinheiro
grosso para fazer de Agreste o almejado centro turstico, projeto tantas vezes discutido na Agncia dos Correios e Telgrafos. Falta infra- estrutura, dizia dona
Carmosina. Falta algum com dinheiro para estabelec-la, o Municpio no tem condies, completava Ascnio. Pelo jeito, dinheiro ia sobrar.
Calados, sem tema de conversa, Osnar e seu Manuel sorriem bestamente para os estranhos. no tarda, Aminthas se junta a eles, interrompera um concerto dos Rolling
Stones. A rainha do planeta Vnus freta com o olhar os trs humanos, um a um, e a cada um sorri em particular, a revelar que teria prazer enorme em dormir com ele
- s com voc, amorzinho, e mais ningum no mundo. Osnar est em vias de perder o flego, Ascnio volta a tempo. Elieser passou direto para o pequeno ancoradouro
onde a lancha espera.
- Thanks! Andiamo, bela, no temos muito tempo. Arrivederci. ..
Quantas lnguas falam no espao? Osnar se engasga em portugus. O marciano estende a mo, Aminthas ainda est em dvida se ele desmunheca ou no.
-  melhor deixar o veculo na praa, ir a p, o caminho  ruim. Eu os acompanho...
Todos acompanham, mesmo seu Manuel, o bar vazio.
- Quanta gentileza... - Agradece Miss Vnus num gemido.
No caminho, Ascnio busca comprovao:
- Diga uma coisa... O senhor pretende estabelecer-se aqui?
- Quem sabe? Vai depender dos estudos...  possvel.
- Com um hotel? Pode-se explorar a gua mineral, no h melhor.
- Hotel? Tambm. Vai ser indispensvel. gua? Talvez. Mas sero apenas inverses secundrias, diversificao de capital. gua, depois pode-se pensar nisso.
Chegam ao ancoradouro. Projetos ambiciosos, reflete Ascnio, grande empreendimento turstico, est na cara. Os seres magnficos embarcam na lancha, Elieser ao leme.
- Mais uma vez, merci, frre. Cio! -acena adeus.
- Ascnio Trindade, secretrio da prefeitura, s ordens.
- Secretrio da prefeitura? E o prefeito, quem ?
- Doutor Mauritonio Dantas. Est enfermo, eu respondo pelo expediente. Qualquer coisa, pode conversar comigo.
- OK. Iremos conversar, com certeza. Brevemente e muito.
A lancha parte, a da ruiva crina, da mecha platinada, lana um beijo, com O olhar se entrega; Elieser nem assim desamarra a cara. Ascnio Trindade sorri, parece
um sonho: finalmente eles haviam desembarcado.
Dos comentrios e da primeira discusso, ainda amvel cresce a concentrao na praa, pequena multido acotovelando-se em torno ao veculo.
- Veja os pneus. Que brutalidade!
- Que beleza!
- Voc ouviu a buzina? Tocou o comeo de Cidade Maravilhosa.
- Cada coisa!
No bar,  grande o movimento. Os comerciantes abandonaram lojas e armazns. Plnio Xavier orgulha-se de ter sido o primeiro a ver a mquina e a perceber os pilotos.
- Estava bem do meu, fazendo contas de uns fiados...
O riso de Osnar, ri de qu? Os olhares se desviam: na porta da igreja, Cinira conversa com as beatas. Ainda no assentou praa no batalho mas no vai tardar.
. quando ouvi aquele barulho horrvel, larguei tudo. ..
Astrio e Elisa somam-se ao grupo. Na hora do perigo, ele fora correndo para casa, preocupado com a esposa: Elisa, na lua-de-mel da chegada da irm, anda nervosa,
aflita, num p e noutro. Juntos vieram para a praa, espiar a mquina, ela to nos trinques a ponto de quase botar no chinelo a Rainha do Espao de mancha platinada
nas ruivas melenas. A mancha platinada alucina Osnar que confidencia a Seixas e a Fidlio:
- Eu juro a vocs que se eu pegasse aquela marciana, comeava a lamber da ponta do dedo grande do p. Levava bem trs horas at chegar no umbigo... Dava-lhe uma
surra de lngua...
- Porcalho!
Seu Edmundo Ribeiro no  exatamente um puritano mas certos hbitos sexuais lhe parecem indignos de homem macho e honrado. Pegar mulher na cama, mont-la, muito
que bem. Mas pr a lngua... Beijos, s na boca, e em boca limpa.
- Edmundinho, meu filho, no venha me dizer que voc nunca fez um minete na vida... Nunca chupou um favo...
- Me respeite, sou homem srio e asseado.
Na Agncia dos Correios e Telgrafos, ferve a discusso. Ascnio Trindade apresenta minucioso relatrio a dona Carmosina, na presena do comandante Drio de Queluz
que prev, a voz de lstima:
- Voc, meu querido Ascnio, com essa mania de turismo em Agreste, ainda vai pagar caro, voc e todos ns. Um dia, um maluco qualquer l essas bobagens que voc
e Carmosina mandam para os jornais, leva a srio, bota de p um negcio para explorar a praia de Mangue Seco, a gua e o clima de Agreste e ns vamos terminar mal.
Em dois tempos, isso vira um inferno.
- Um inferno, por que, Comandante? Nunca ouvi dizer que uma estao de guas fosse um inferno. ao contrrio,  um lugar de descanso, de repouso - intervm dona Carmosina.
- Voc bem sabe que ningum defende mais do que eu a natureza, a atmosfera, a beleza de Agreste. M as que mal existe numa estao de guas?
- Uma estao de guas na cidade, v l. O pior  a praia que Ascnio quer entupir de gente, de toda espcie de porcaria...
Salta Ascnio:
- Que porcaria? Casas de veraneio para turistas, hotel, restaurantes. A praia de Acapulco, a de Saint-Tropez, a de Arembepe, so por acaso porcarias, infernos? O
futuro de Agreste, Comandante, est no turismo.
- So infernos, sim, so porcarias. Ainda outro dia A Tarde publicou uma reportagem sobre Arembepe: virou a capital dos hippies, a capital sulamericana da maconha.
Voc j pensou Mangue Seco repleto de cabeludos e maconheiros? Deixe nosso paraso em paz, Ascnio, pelo menos enquanto a gente viver.
- Quer dizer que o senhor prefeito, Comandante, que Agreste continue a ser um bom lugar para se esperar a morte?
- Prefiro, sim, meu filho. A morte aqui tarda e retarda, no desejo mais do que isso. O ar puro, sem contaminao. A praia limpa.
Ascnio olha para dona Carmosina, aliada, ela toma a Palavra:
- Quem falou em contaminar? Hippies no digo, se bem a filosofia deles seja tambm a minha, paz e amor, a coisa mais bonita que seinventou nesse sculo! O diabo
 a droga. Mas turistas com dinheiro, no vejo o mal, Comandante. Boas casas de veraneio, comrcio animado, bons filmes, e ento? Ningum pode ser contra.
- Arranha- cus, hotis, a corrida imobiliria, o fim do coqueiral, das rvores, do sossego, da paz! Deus me livre e guarde! Felizmente isso no passa de delrio
de vocs...
Peto chega correndo, a lancha est de volta. Antes de ir, Ascnio convida, contente:
- Pois eu creio, Comandante, que muito em breve teremos o turismo implantado em Agreste. O maluco j apareceu. Venha comigo, vamos conversar com ele.
- Vamos l... - concorda o Comandante.
Mas quando chegam  praa, j o casal de super- heris, cercado de curiosos, est de partida, na mquina refulgente. Ascnio ainda tenta dialogar mas eles levam
pressa, vo chegar a Salvador tarde da noite.
- Em breve voltarei e a ento conversaremos. Quero tomar nota de seu nome.- Extrai uma caderneta de misterioso bolso na perna da cala, a caneta pendurada no pescoo
parece um microfone de romance de espionagem. A mquina de retrato, pequenssima e potentssima, funciona nas mos finas, de dedos longos, libertas de luvas, de
Miss Vnus.
- Meu nome? Ascnio Trindade. Este aqui  o comandante Drio de Queluz.
- Comandante?
- Sim, da Marinha de Guerra.
- Reformado - esclarece o Comandante.
- Ah!- depois de uma pausa, credencia-se : - doutor Mirko Stefano.
A bientt. So long.
- Adeus, paixo! - chora Miss Vnus, os olhos em orgasmo.
Parte a mquina, levantando poeira, o rudo estourando os ouvidos mais sensveis. Doutor? Parece um astronauta, um capito de nave espacial, um moderno empresrio
desses que transformam a terra e a vida. Sobre o veculo, a informao exata foi dada por Peto - Ainda no conseguiu terminar o primrio, no tem pressa, j sabe
tudo sobre carros e pistas. Trata-se de um Bug, com rodas de magnsio, tala larga, kits, dupla carburao, a buzina incrementada. Todo incrementado, alis, motor
envenenado, o entusiasmo de Peto no tem limites. Corre para casa, vai contar as novidades a tia Antonieta e a Leonora.
Sobre os seres superiores, souberam pela boca de Elieser, de mau humor.
- O tipo estava interessado era nas reas da beira do rio, no coqueiral, nas terras devolutas. Me perguntou de quem eram, eu disse que ningum nunca soube que tivessem
dono. Fizeram fotografias s pampas. Em Mangue Seco, tiraram a roupa e tomaram banho nus...
- Nus?
- Os dois... Como se eu no estivesse ali. A tipa  ousada, enfrentou a arrebentao.
- V voc, Ascnio? Nudismo, para comeo de conversa. Graas a Deus eu no estava l, no iria permitir. - Igual a Edmundo Ribeiro, o comandante Drio tambm no
 puritano mas nudismo em Mangue Seco, ah!, isso jamais! no, enquanto ele viver!
Ascnio vai responder mas Elieser no lhe d tempo:
- O tipo perguntou quanto me devia, eu disse que no era nada, como voc mandou. Quem vai pagar meu trabalho e a gasolina, Ascnio? Tu ou a prefeitura?
Osnar, a ouvir em silncio, comenta escandalizado:
- Tu v um mulhero daquele nua em plo e ainda quer dinheiro, Elieser? Pois eu pagava para espiar... Tu  um degenerado!
Da luz e das virtudes de Tieta, com citaes em latim plantadores de mandioca, criadores de cabras, os pescadores e os contrabandistas, na cidade de Agreste e nos
povoados vizinhos, das margens do rio s encapeladas vagas da barra, ningum deixou de tomar conhecimento do espantoso evento e o beato Possidnio, em Rocinha, anunciou
o apocalipse e o fim do mundo, assuntos de sua particular predileo. Apoiava-se nas escrituras, no Velho Testamento.
Eis que de repente, conforme constataram os habitus no Arepago, comeavam a suceder coisas em Agreste, arrancando o burgo da pasmaceira habitual, provocando agitados
comentrios, suscitando discusses.
Os fios eltricos, suspensos sobre postes colossais, caminhavam pelo serto no rumo do municpio e, em obedincia s ordens superiores, o faziam com rapidez anormal
em obras pblicas. De quando em quando um jipe com engenheiros e tcnicos desembocava nas ruas tranqilas, o bar de seu Manuel ganhava animao. O engenheiro- chefe
garantia que dentro de ms e meio, dois meses no mximo, os fios chegariam  cidade, trabalho concludo, podendo-se marcar a data para a festa de inaugurao. Em
se tratando de municpio de tanto prestgio federal, talvez comparecessem figuras da alta direo da Companhia do Vale de So Francisco, quem sabe at o diretor
presidente vindo especialmente de Braslia.
J no duvidava de nada o engenheiro- chefe depois que lhe informaram ter sido uma viva em frias na terra natal quem obtivera, por intermdio de amigos do finado,
em vida milionrio e influente, as ordens preferenciais mandando reformar o projeto para que nele coubesse, com prioridade absoluta, o municpio de Sant'Ana do Agreste.
Difcil de acreditar mas sendo a afirmao unnime, o engenheiro terminara demonstrando interesse em conhecer e saudar a ilustre dama capaz de modificar projetos
aprovados, removendo postes, determinando rotas para luz e fora.
Pessoa dada e simples, conforme lhe informou Aminthas. Nem por ser riqussima viva de comendador do Papa e freqentar a alta sociedade do Sul, possuindo as melhores
relaes- das quais a prova mais concreta era o falado engenheiro estar ali no bar do lusitano, bebericando cerveja -, nem por tudo isso carrega o rei na barriga.
Com dois telegramas resolvera o assunto, dera uma fubecada no diretor cheio de si que tratara o representante da cidade, Ascnio Trindade, secretrio da prefeitura,
como se ele fosse um Joo ningum e Agreste no passasse de terra esquecida por Deus. Sem levar em considerao as credenciais de Ascnio, o fato do moo encontrar-se
em Paulo Afonso em defesa de interesses legtimos de sua terra, o diretor presidente deixara-o mofar  espera antes de despach-lo com redonda negativa, recusando-se
a ouvir seus argumentos. Agreste, para ele, no passava de rido pasto de cabras e assim o disse. Indignou-se dona Antonieta ao saber do acontecido, telegrafou.
Foi tiro e queda.
Aminthas enfeitara a histria ao cont-la ao engenheiro- chefe, rindo-lhe nas fuas:
- Dona Antonieta Esteves Cantarelli,  o nome dela. Naturalmente o amigo j ouviu falar no Comendador Cantarelli, grande industrial paulista.
Empacotou recentemente.
O engenheiro, vencido, escondeu o desconhecimento: o nome lhe soava, disse, com o mesmo acento dos Matarazzo, dos Crespi, dos Filizzola. Ergueu o copo de cerveja,
em respeitoso brinde  senhora Cantarelli. no s Aminthas o acompanhou, todos os presentes associaram-se  homenagem.
O povo, agradecido, ainda no espanto da ddiva inesperada, ao referir-se  nova iluminao no a designava Luz de Paulo Afonso, Luz da Hidreltrica ou Luz da Companhia
do Vale do So Francisco, como seria justo e correto e em toda parte se dizia. Para a gente de Agreste era a Luz de Tieta.
Quando, na quarta- feira seguinte aos festivos acontecimentos do domingo, Tieta viera de Mangue Seco para assinar no cartrio a escritura dos terrenos, fora surpreendida
com uma faixa colocada na praa da Matriz, entre dois carunchosos postes da iluminao antiga, nas proximidades da casa de Perptua: O povo de Agreste sada agradecido
dona Antonieta Esteves Cantarelli. Apenas um seno: a palavra Esteves havia sido acrescentada, por exigncia de Perptua e Z Esteves, depois da faixa concluda.
Colocaram-na entre os dois outros nomes mas acima deles, defeito pequeno, no empanava o efeito impressionante das letras vermelhas sobre o fundo branco do madrasto.
Idia de Ascnio, contara com o apoio geral, na boca do povo Tieta era a herona da cidade. no a tinham colocado ainda no altar-mor da Matriz, ao lado da Senhora
Sant'Ana, como previra Modesto Pires, mas pouco faltava.
Ao passar na rua, no princpio da tarde, em companhia de Leonora e de Perptua, em caminho do cartrio onde marcara encontro com o dono do trapiche, das casas saam
pessoas para cumpriment-la, para lhe agradecer houve quem lhe beijasse a mo. ao sab-la em Agreste, o coronel Artur da Tapitanga abandonou a casa- grande da fazenda,
andando o quilmetro a separ-lo da rua, veio abraar a benemrita cidad:
- Minha filha, Deus escreve certo porlinhas tortas. Quando Z Esteves lhe tocou daqui, era porque Deus queria fazer voc voltar como rainha. Punha-lhe uns olhos
de bode velho e lbrico ,j sem foras nos ovos mas ainda com apetite no corao. - Quando vai me visitar, ver minhas cabras?
Tambm Bafo de Bode a homenageou  sua maneira, ao v- a na porta do cinema:
- Viva dona Tieta que manda um bocado e  um pedao de mau caminho!
Tieta, ao passar, colocou-lhe na mo negra de sujo o necessrio para uma semana de cachaa farta e ao adiantar-se, na inteno de alegrar-lhe os olhos, soltou as
cadeiras em requebro de proa de barco em meio a vendaval.
Concluda a escritura, lavrado o termo da compra do terreno, completado o pagamento em moeda viva, Tieta, antes de voltar para casa, passou na Agncia dos Correios
para abraar dona Carmosina e despachar uma carta.
J agora acompanhada tambm por Ascnio e pelo bardo De Matos Barbosa, atacado de saudade e reumatismo: tua presena, Tieta,  sol e medicina, basta-me fitar teu
rosto para me sentir curado.
Dona Carmosina anunciou:
- De noite, vou lhe ver para a gente conversar. Tenho muitas novidades... - Os olhos indicavam Leonora e Ascnio, assunto predileto.
- No estarei. Volto hoje mesmo, daqui a pouco, para Mangue Seco.
Passei para lhe ver e saber notcias de dona Mil.
- Volta hoje? Por que toda essa pressa?
- Estou levantando minha choupana, j comecei. Tu me conhece:
quando quero uma coisa, quero logo, tenho pressa. Desejo ver as paredes de p antes de ir embora.
- Voc no pode ir embora to cedo. Nem fale nisso.
- Por que no?
- Antes da inaugurao da luz? O povo no vai deixar.
Tieta riu:
- At me sinto candidata a deputado... Voc me representa na festa.
- Refletiu durante uns segundos, o olhar perdido.- Mas, quem sabe, talvez eu fique, prolongue as frias, no tanto pela festa mas para ver minha casinha de p, em
Mangue Seco.
- Fica, sim, com certeza. Ficam as duas... - Fitando a face melanclica de Leonora, dona Carmosina no resistiu: - Sei de algum que talvez fique para sempre. -
Os olhos midos faiscavam malcia.
Em casa, a ss com Perptua, Tieta dera-lhe notcias de Ricardo:
menino bom, sobrinho querido, estava sendo de inestimvel ajuda. Sob a orientao do Comandante, tomava iniciativas e providncias, atravessara duas vezes para o
arraial do Saco onde contratara o pessoal necessrio, pedreiros e carpinas, mestre-de-obra, gente habituada a trabalhar com troncos de coqueiros sobre a areia movedia.
Adiantara todos os detalhes, a construo iniciara-se na vspera. Ela o prenderia em Mangue Seco ainda uns dias, nomeara-o seu lugar-tenente.
- O tempo que voc quiser, mana, ele est de frias.
Por falar em frias, Ricardo mandara pedir os livros de estudo, nem na raia se descuidava dos deveres escolares. Dormia na sala da Toca da Sogra, numa rede. Menino
de ouro, Tieta queria ajud-lo e para tanto decidira abrir una caderneta de poupana em nome dele, num banco de So Paulo. Na carta que deixara na Agncia dos Correios,
dava ordens  sua gerente para abrir a caderneta em nome do sobrinho com considervel depsito inicial Perptua estremeceu ao ouvir a quantia - Aos quais todos os
meses ela acrescentaria determinada importncia, ainda no decidira quanto. Assim, quando Ricardo se ordenasse padre, somando capital, juros e correo monetria,
teria um bom peclio. Perptua elevou os olhos gratos para o cu, o Senhor comeava a cumprir sua parte no trato feito. Depois de agradecer a Deus, fitou Tieta e
a ela se dirigiu:
- No sei nem o que lhe dizer, mana. Deus h de lhe pagar.- Tomou, num gesto inopinado, da mo da irm, levou-a ao peito, apertando-a contra o corao. Usava corpete
de tecido grosso, duro como um peitoril. Com o leno negro enxugou os olhos lacrimosos.
Antes de regressar no fim da tarde a Mangue Seco, fugindo s manifestaes de seus conterrneos, cercada pela famlia, Tieta ainda recebeu a visita do padre Mariano.
O reverendo agradeceu-lhe, em nome dos fiis, a graa da iluminao nova que ia modificar a fisionomia da cidade, mudar-lhe os hbitos, imenso servio prestado 
comunidade. Beneficiando a todos, dona Antonieta criara, no entanto, srio problema para a parquia, pois a instalao eltrica da Matriz encontrava-se em petio
de misria, incapaz de suportar o impacto da energia de Paulo Afonso. Um engenheiro da Hidreltrica a quem ele consultara dissera-lhe ser absolutamente necessrio
mudar toda a instalao para impedir curto- circuito, evitar grave perigo de incndio. Onde buscar o dinheiro necessrio? A quem recorrer seno a ela? Muito j lhe
devia Matriz, a comear pela imagem nova da Padroeira, o ostensrio trazido de So Paulo, o padre era quem mais sabia mas sabia tambm da generosidade de dona Antonieta,
alma de escol, ademais, viva de comendador do Papa, ou seja, pessoa graduada na hierarquia da Igreja. Com um sorriso ambguo, Tieta ouviu em silncio, na presena
do pai, da madrasta, das irms e de Leonora.
Perptua repetiu as palavras do proco pensando na caderneta de ou Ana:
palma de escola, o senhor disse tudo, padre Mariano.
O reverendo no conseguia ler resposta positiva no sorriso equvoco a entreabrir os lbios carnudos; apenas podia constatar que Tieta remoara nesses dias em Mangue
Seco, o ar satisfeito, bonita como nunca, o sol pusera tons de ouro no cobre da pele.
- No se aflija, Padre, pode mudar os fios.
Tranqilizado, ia o cura agradecer quando ela prosseguiu, a voz se abrindo em riso, em tom de brincadeira:
- Fao isso em pagamento  Senhora Sant'Ana por lhe ter roubado O sacristo por alguns dias, meu sobrinho Ricardo que est em Mangue Seco me ajudando.
Estremeceu Perptua dentro do vestido negro, do luto fechado, da compostura devida ao sacerdote, no conseguindo esconder a satisfao de sbito refletida do rosto
carrancudo, num olhar de vitria. Ligando O sobrinho aos donativos feitos igreja, designando-o intermedirio nas suas relaes com Deus e os santos, Tieta dava
largo passo no caminho a conduzir  adoo e  herana. Deus acabara de passar  categoria de devedor, ao receber, pela mo de Ricardo, a doao das novas instalaes
eltricas da Matriz.
Igualmente radiante, padre Mariano ergueu a voz, escolhendo os termos do louvor:
- Deus no esquece quem ajuda a Santa Madre Igreja multiplica cada, bolo em perenes benesses. As bnos da Virgem, dona Antonieta, protegero a si e aos seus familiares
- elevou a mo, abenoando os Esteves e as Cantarelli, sorriu beatificamente. - De parte da Senhora Sant'Ana, posso adiantar que ela lhe cede de bom grado o escudeiro.
Estando Ricardo em ;..
companhia to sacrossanta, s poder aprender a praticar o bem.
Ao despedir-se, o reverendo referiu-se  aparncia de Tieta: louca, garbosa. Os dias na praia, disse, tinham sido para ela um verdadeiro tnico, ressumbrava sade
ejblo, aprazimento, a beleza do rosto refletindo a pureza da alma, tota pulchra, benedicta Domini. Que Deus assim o preserve.
Z Esteves foi o nico a demonstrar insatisfao, remoendo crticas ao peditrio e ao atendimento!
- Esse urubu de batina  um sabido: com a lngua doce e o latinrio vai arrecadando um dinheiro para a igreja, os tolos caem como patinhos. Me perdoe, minha filha,
mas voc precisa prestar mais ateno a seu dinheiro.
No se esquea que vai comprar casa, no pode estar desperdiando.
Somente uma semana depois Tieta regressou a Agreste, atendendo exatamente a um chamado de Z Esteves, transmitindo apelo urgente de dona Zulmira disposta a rebaixar
o preo da casa, a entrar em acordo. Deixara Ricardo  frente das obras, as paredes subindo, sozinho na Toca da Sogra pois havia trs dias o Comandante voltara com
dona Laura para o bangal na cidade. Trs dias, ou melhor, trs noites durante as quais a tia e o sobrinho trocaram o romntico areal das dunas pelo conforto do
colcho de crina da cama de casal no quarto do marujo.
Prosseguindo na educao do sobrinho, a lhe ensinar o bem -o bem e o bom -, o colcho chegara na hora exata, quando atingiam um estgio superior no estudo da matria
em que Tieta era mestra competente, emrita catedrtica, doctor honoris causa, como diria em latim o padre Mariano.
Ensinava-lhe em aulas prticas e intensivas quanto sabia, ou seja, tudo, o.
alfabeto inteiro, incluindo o indescritvel ipicilone.
Tieta voltou a Agreste na manh do dia do primeiro desembarque dos seres de espanto projetados do espao, mas no os viu e deles s veio a ter notcias no fim da
tarde por Ascnio exaltado, n auge do entusiasmo:
- Capitalistas do Sul, estudando as possibilidades de empregar capital aqui, no municpio, em empresa de turismo, coisa de grande vulto, querem asfaltar a estrada
e construir hotis. Que lhe parece, dona Antonieta? Que diz a isso, Leonora?
Empresa de turismo? Em Agreste, aproveitando a gua, o clima, a praia de Mangue Seco? Quem sabe, tudo  possvel, por que no? Fizera bem em comprar o terreno na
praia, devia aceitar a proposta de dona Zulmira, abandonando a posio intransigente, os preos da terra e dos imveis podem sofrer sbita valorizao, em So Paulo
Tieta assistiu a coisas de espantar.
Com seu faro nico, Felipe adquirira a preo de banana terrenos e mais terrenos em reas pelas quais ningum oferecia nada. Poucos anos depois, ganhava fortunas
na revenda. Tieta pediu a Perptua papel e caneta, escreveu um bilhete a dona Zulmira fechando o negcio, mandou Peto levar.
Decidiu demorar-se em Agreste o tempo necessrio para concluir o trato, lavrar escritura, tomar posse da casa. Mesmo sentindo o apelo ardente do corpo a reclamar
urgncia no retomo, sabendo que o moo sofreria o fogo do inferno na noite insone, ainda assim resolveu cuidar antes do negcio.
Aprendera a no perder a cabea, a no permitir que xod por mais forte e exaltante lhe cause prejuzo.
Ascnio prosseguia a traar as vias do radioso futuro de Agreste. A mudana comeara com a chegada das duas paulistas  cidade, tudo se fazendo agora mais fcil,
devido  deciso da Companhia do Vale do So Francisco de incluir Agreste entre os municpios com a energia de Paulo Afonso, a Luz de Tieta.

Captulo onde Tieta busca definir o amor e no consegue Tieta deixa os namorados na porta da rua, sozinhos, livres para a despedida. Da sombra do corredor, porm,
espicha o olho para ver o que se passa, onde as mos vo parar, a fora dos beijos, os lbios vorazes, as lnguas se enrolando, aqueles primeiros passos no caminho
do resto. Decepo completa e inquietante. Viu apenas um roar dos lbios de Ascnio na face de Leonora, receoso e apressado, aquilo no era beijo coisssima nenhuma,
perdera o tempo a espionar o mais completo e acabado par de idiotas. Da porta, onde demora at perd-lo de vista, Leonora acena longo adeus, certamente respondido
por Ascnio. Mau sinal, no agrada a Tieta o rumo do idlio.
Leonora no correr perigo maior se terminarem, ela e Ascnio, na Bacia de Catarina, em noite sem lua, por entre a penedia, no bem- bom. Depois,  lavar o xibiu
bem lavado, acabou-se. Quando chegar a hora do retorno a So Paulo, derramar algumas lgrimas de tristeza e saudade no nibus de volta - c'estfinie la comdie,
como dizia Madame Georgette e Madame Antoinette repete quando enfrenta xods e rabichos das meninas.
O perigo reside exatamente nos leves beijos medrosos, nesse namoro tonto, de cabodo, que j no se usa mais. Em Agreste, quando se namora assim, no respeito, contendo
os impulsos,  porque se tem em mira noivado e casamento. Casamento, vida em Agreste: iluses absurdas, sonhos delirantes. Em tais casos, no basta lavar a xoxota
bem lavada. A separao custa duro sofrimento, no se reduz a umas poucas lgrimas no nibus de volta.
Naquele dia, quando Tieta chegara de Mangue Seco, estuante de vida, vibrando de animao ao falar do terreno e da casa na praia, mais magra, o corpo no ponto exato,
Leonora cara-lhe nos braos, murmurando-lhe ao ouvido, ansiosa:
- Preciso muito conversar com voc, mezinha.
Durante o dia no tiveram ocasio, porm, de ficarem a ss. Perptua sempre presente, a adular a irm, j no lhe regateava louvores. Antigo poo de iniqidades,
Antonieta passara a ser poo de Jac, misericrdia dos sedentos, turris eburnea. Para gab-la gastava at as poucas expresses latinas que decorara em tantos anos
de sacristia, antes reservadas  exaltao do Senhor e dos santos, sendo turris eburnea exclusiva da Virgem Maria. Agora tudo era pouco para as virtudes de Tieta.
Na hora do almoo, a mesa completa: Z Esteves e Tonha, Elisa e Astrio, Peto a pedir a bno  tia, a regalar os olhos saudosos da carnao morena e farta. Fazendo-lhe
companhia na praia, quem estava bem situado para brechar at fartar-se, para bispar os mnimos detalhes, a tia  la vont no biquni nfimo, despreocupada, era Ricardo;
mas o idiota do irmo desviava a vista para no enxergar, tirado a ermito, a mstico. Devia estar de venda nos olhos em Mangue Seco, o bobalho; Deus d nozes a
quem no tem dentes, queixara-se Osnar. Falou, p!
 tarde, foram  casa de dona Zulmira para confirmr o acerto e de l ao cartdrio, deixar os dados para a escritura e marcar o dia de assin-la - quanto antes melhor,
pedira Tieta, com pressa de voltar a Mangue Seco. As paredes da choupana - Assim designava a pequena casa da praia - comeavam a subir, ela curtia cada tijolo, cada
p de massa, em companhia do sobrinho contagiado por seu entusiasmo. De noite, a sala de visitas se enchera: dona Carmosina, dona Mil, Barbozinha, a tropa do bilhar
escoltando Astrio;
Ascnio tinha aparecido no fim da tarde, ficara para jantar, no desgrudava de Leonora.
Tambm dona Carmosina anunciara necessidade imperiosa e urgente de longa conversa reservada com Tieta. Marcaram para o dia seguinte.
Amanh sem falta! - recordara a agente dos Correios, ao despedir-se. - Mil coisas a comentar. Com os olhos apontava o par de namorados no sof, distanciados um do
outro pelo menos um palmo, a paulista com um sorriso babado de admirao, ouvindo o discurso de Ascnio sobre o radioso futuro de Agreste.
Ascnio, o ltimo a sair, quando j Perptua se recolhera: s seis em ponto, ajoelhada na primeira fila, a devota ouve missa na Matriz, no pode dormir tarde. Tieta
abandona-os na porta,  vontade para a despedida apaixonada. Que fracasso!
Leonora vem sentar-se na cama da alcova, enquanto Tieta desfaz a maquiagem. Abre o corao: apaixonada, que fazer? Paixo roxa, no banal aventura, simples chamego,
ela no era disso, mezinha a conhecia, nesses trs anos de Refgio jamais tivera um caso. Amor, pela primeira vez.
- Me diga como agir, mezinha. Contar a verdade, no posso.
- no pode mesmo, nem pense nisso. S se ficasse doida e me tivesse dio.
- Nunca pensei, como poderia contar? Mas estou desarvorada, sem saber o que fazer. Me ajude nesse transe, mezinha. S tenho voc no mundo.
Tieta abandona os cremes de limpeza e o espelho, toma das mos da moa, acaricia-lhe a crina loira, nem s irms queria tanto quanto quela desditosa recolhida no
trotoar, a pequena Nora, marcada pela m sorte e todavia capaz de sonho e esperana.
- Eu sei que tu nunca vai contar, conheo minhas cabritas, ai de mim se no as conhecesse. O que tu deve fazer? Aproveitar as frias, divertir-se.
Namore o rapaz, ele  simptico e bonito, um pedao de homem. Um pouco ingnuo para meu gosto mas direito. Durma com ele se tiver vontade. Tu deve estar morta de
vontade, no ?
Leonora abana a cabea afirmativamente e logo esconde o rosto nas mos, Tieta vem sentar-se a seu lado na cama, prossegue:
- Durma com ele, passeie, namore, goze a vida mas no se prenda.
Tome cuidado para evitar escndalo. S no entendo por que tu ainda no dormiu com ele.
- Ele pensa que sou virgem, mezinha. Nunca vi ningum to crdulo e respeitador. no tenho coragem nem palavras para contar que no sou donzela. Tenho medo que
ele se desiluda, no queira mais me ver.
-  capaz. Agreste no  So Paulo,  o cu do mundo, parou no sculo passado. Aqui, ou bem se  moa cabauda ou rapariga de porta aberta. no viu o que se passou
comigo? Pai me mandou embora, me mandou ser puta longe daqui. Faz muito tempo mas continua sendo a mesma coisa hoje. Quem sabe, com jeito...
- Que jeito, mezinha? Ele pensa que sou donzela e que sou rica, filha e herdeira do Comendador Felipe. Fica inibido at para me pegar na mo porque ele  um pobre
de J e eu sou milionria. Sabe que ele ainda nem se declarou? Insinua umas coisas, suspira, parece que vai falar, engole em seco, fica calado, segura em minha mo,
no sai disso. Em Mangue Seco fui eu quem beijou ele. Fora da, roa os lbios no meu rosto quando se despede e nada mais.
- Eu vi, estava espiando,  de no se acreditar. Coitado do rapaz, deve estar desperdiando o ordenado na casa de Zuleika para se desforrar, ou gastando a mo se
lhe faltar dinheiro. - Sorri para Leonora: - Siga meu conselho: deixe o barco correr, d tempo ao tempo, v se divertindo. Pelo menos assim voc no se chateia.
- Me chatear? mezinha, vou lhe dizer: esses dias aqui foram os nicos felizes de minha vida. Estou amando. Pela primeira vez, mezinha. Com Pipo e Cid foi outra
coisa, nem de longe se parece. J lhe contei, se lembra?
Diante da adolescente massacrada no srdido cortio, Pipo, com o nome repetido nos rdios de pilha, a fotografia nos jornais, aparecia como a personificao dos
invencveis heris das histrias de quadrinhos, dos filmes de aventuras, das sries de televiso. Ser sua garota causava inveja a todas as demais chivetas da rua.
Quando ele a chutou, sofrera principalmente na vaidade. Vez por outra podemos dar uma metida, se quiser, dissera Pipo, cheio de si. Isso jamais. no aceitara a humilhao,
pretendendo-se a nica, a inspiradora dos gols marcados pelo craque nos matches de futebol. Chorara a semana inteira com a gozao da vizinhana mas dele mesmo no
sentira falta.
Quando, no inferninho asqueroso onde caava o mich que lhe garantisse a comida do dia seguinte, encontrou Cid Raposeira na solido, na droga, no abandono, amarfanhado
rosto de Cristo, to necessitado de companhia e ajuda, vibrara o corao de Leonora, sensvel e solidrio. Iniciou-se o trajeto do interminvel desespero, alternando-se
os raros dias de carinho e humildade, com os de loucura e violncia desatadas. Menos que companheira e amante, sentira-se enfermeira, samaritana, irm a cuidar de
algum ainda mais desgraado do que ela. Casal de prias perdido na metrpole fechada em pedra e em fumaa, sem condies de alegria e felicidade. Um e outro, o
glorioso Pipo e o contraditrio Cid, nada tinham a ver com o renitente sonho de lar e paz, de carinho, de amor.
-  amor, sabe, mezinha? Uma coisa diferente. Tudo que eu queria era poder ficar aqui, com ele, nunca mais ir embora.
Comove-se Tieta, pobre Leonora, escorraada cabrita. Afaga-lhe os cabelos, belisca-lhe a face:
- No  que eu seja contra, minha filha,  que no vejo jeito.
No jantar em casa de dona Mil, observando Leonora e Ascnio em idio, Tieta j se preocupara. Fosse simples aventura, beijos, apertos, umas quedas na beira do rio,
nos esconsos das rochas, nas areias clidas de Mangue Seco, bons lugares para descarregar a natureza, no teria maior importncia, bastando manter discrio para
evitar a lngua do povo de Agreste, longa e afiada. Se casse na boca do povo, pacincia. Nora partiria em breve para nunca mais voltar, pouco lhe interessava a
imagem que dela guardasse aqueles tabacudos. Mas a moa pretende vida em comum, lar estabelecido, filhos. Ouvindo certa vez Tieta relatar os problemas da protegida,
a insatisfao, o desejo de largar o ofcio, trocando as larguezas do Refgio dos Lordes por medocres limites de casa e marido - de amor, como ela repetia exaltada
-, Felipe, experiente e blas, a classificara de pequeno- burguesa delirante, sem soluo.
- Do meio dessa pequena burguesia desesperada  que surgem os marginais, os drogados, os que matam sem razo e os que se matam, os suicidas. no provocam minha simpatia.
Tieta ouvira a explicao, balanara a cabea, tolice discutir com Felipe, homem de saber e entendimento, merecedor de crdito - no por acaso subira to alto. Nem
por isso deixava de simpatizar com o sonho de Leonora, romntico e piegas. no chegava a entender inteiramente a nsia a consumir a rapariga, esse arrebatamento,
a inconformidade com a situao - alis privilegiada- em que vivia. Tais problemas jamais se haviam colocado para Tieta, pelo menos de idntica maneira. Mas, ao
contrrio de Felipe, sentia ternura e simpatia pela insatisfao da moa, dava-lhe ateno e afeto. Entre as colaboradoras da casa- cabritas escolhidas a dedo para
alegrar o cio de bodes ricos, poderosos, exigentes, muitos deles cheios de manias e taras -, Leonora era a sua predileta. Talvez porque sobrasse a Tieta carinho
a dar, devotamento disponvel, tinha para com a infeliz rapariga desvelos de me para filha. ao ver de Felipe, pequeno- burguesa desesperada, sem soluo, na opinio
de Tieta, tola, sonhadora, sentimental. Como jamais conseguira ser sentimental e tola, apesar de sonhadora, por isso mesmo estimava a atitude da moa agarrada 
iluso de um dia poder mudar a vida, constru-la conforme seus modestos desejos.
Quando, ainda h pouco, da sombra do corredor, espionava a frustrada despedida, Tieta deixara escapar um suspiro: Deus do Cu, por que tanta tolice, tanta nsia
intil? A vida pode ser simples e fcil, agradvel, excitante, quando se sabe lev-la com audcia e prudncia: um marchante, um protetor para companhia permanente,
para fornecer dinheiro  farta, para garantir slido peclio na velhice, exods para a cama, quantos o corpo reclamar, a boa vida, alegria e riso que tristezas no
pagam dvidas.
Na Bacia de Catarina ou nos cmoros de Mangue Seco, no escuro das grutas ou diante da imensido do mar, poderia Nora saciar a sede de amor nos braos de Ascnio.
Assim Tieta estava fazendo nos braos de Ricardo, no areal, na cama do Comandante. A seu modo, tambm ela andava apaixonada, e como! Apenas, ao contrrio do que
sucedia com Leonora, a paixo pelo sobrinho no a perturbava, dando-lhe apenas alegria. Paixo roxa, tambm:
estava devorando o seminarista, esfomeada, sequios - no era amor, por acaso?
Mas, depois, quando passasse a fria do desejo, bastaria lavar o xibiu bem lavado para esquecer, at que novamente crescesse em labareda dentro dela a brasa acesa,
inapagvel, da paixo. Paixo, amor, que diferena existe? Com Felipe fora diferente. Durara tantos e tantos anos, felizes sempre, ele superior e generoso, ela dedicada
e sabida, ternos amigos, clidos amantes, senhor e serva. Serva ou rainha? Seria isso o amor to falado. Provavelmente. no impedira, no obstante, as paixes, nem
sabe quantas. Mundo complicado, difcil de entender, uma confuso.
Acarinha Leonora, a cabea da moa repousando em seu colo, a cabeleira desnastra rolando sobre o lenol. Tieta necessita tomar providncia rpida para colocar nos
trilhos certos a vida de Leonora, para que as frias terminem alegremente como comearam, para que esse namoro bobelo se transforme em arrebatada paixo, saia do
atoleiro onde se afundou para erguer-se em chamas na beira do rio, nos cmoros de Mangue Seco. Para que o amor, como deseja Barbozinha, seja motivo de vida e no
de morte.
A mo materna nos cabelos e a voz de acalanto nos ouvidos acalmam a agitao de Leonora.
- Pode dormir tranqila, cabrita, que eu vou cuidar de tua vida.
Da famlia reunida no cartrio para a solenidade da escritura para assistir a solene cerimonia da escritura definitiva de compra E venda da casa antes de propriedade
de dona Zulmira, que passar a pertencer, aps tais formalidades e o respectivo pagamento, a dona Antonieta Esteves Cantarelli, a famlia Esteves encontra-se reunida
no cartrio do doutor Franklin Lins,  exceo do moo Ricardo, seminarista em frias em Mangue Seco, ocupado com encargos da tia paulista e rica (e louca).
Apoiado no bordo, a mascar fumo de corda, de to contente, o velho Z Esteves no cabe no largussimo terno de festa, feito sob medida nos distantes tempos de abastana,
cortado em boa casimira azul de contrabando, mandado tingir de negro para o casamento de Elisa, retirado do ba para a chegada de Tieta. Pela segunda vez o veste
em poucos dias, volta a ser algum. Muito em breve estar habitando casa de qualidade, em artria central, retirado pela filha prdiga do casebre de canto de rua,
de moradia e endereo desmoralizantes.
Se dependesse dele, mudaria hoje mesmo, apenas dona Zulmira acabasse de retirar seus trns. Antonieta, porm, decidira fazer alguns reparos na casa, conserta rbanheiro
e latrina, pintar as paredes, retelhar, luxos de paulista; ele resmungara mas no discutira: quem paga, manda.
Sob o comando da filha, sua vida se refaz. No cartrio, ouvindo doutor Franklin ler os termos da escritura, controlando as horas no relgio de ouro, marca Omega,
sinal de sua restaurada importncia, Z Esteves escuta berro de cabras que se aproximam aos saltos sobre os cabeos dos morros, enxerga terra e rebanho. Junto a
ele, humilde sombra do marido, Tonha, silenciosa e conformada. Casebre acanhado e pobre, vivenda ampla e rica, rua de frente ou beco lamacento, tudo lhe serve e
basta, desde que esteja em companhia do amo e senhor. H muito aprendeu a obedecer e conformar-se.
Perptua, rgida no luto inapelvel, traja vestido caro, reservado para a festa da Senhora Sant'Ana; na cabea a mantilha trazida por Leonora. Atenta, disposta a
impedir que na escritura seja introduzida clusula capaz de prejudicar os interesses de seus filhos, sobretudo os de Ricardo, herdeiro presuntivo. Com o Velho, todo
cuidado  pouco: passa o tempo bajulando Tieta, insinuando misrias contra as duas outras filhas, pedinchando. Ainda na vspera, a arrastara para um canto da casa,
fora murmurar segredos, intrigas certamente, na tentativa de jog-la contra as irms. Perptua no perde uma palavra sequer das clusulas e adendos.
Pela mo, mantm seguro o filho Peto. Esgrouvinhado, maldizendo os sapatos- usa alpargata aberta quando no pode andar descalo-o menino no entende por que motivo
a me o obriga a estar ali, parado, envergando meias, camisa limpa, a ouvir o doutor Franklin ler, com a voz mais descansada do mundo, um rol de pginas de nunca
acabar. Se a tia e a prima Nora ao menos estivessem  vontade, nos robes colantes, mal fechados, a vista ajudaria O a passar o tempo. Mas uma e outra puseram-se
nos trinques, to compostas nunca as vira. Um saco!
Elisa e Astrio escutam, reverentes; ela, o olhar de adorao posto em Tieta; ele, de cabea baixa, fitando o cho. Nem mesmo Leonora, semi-escondida no fundo da
sala, pode competir com o porte majestoso de Elisa:
a massa de cabelos negros, o busto erguido, as ancas altaneiras, elegante como se fosse desfilar numa passarela, o ar entre modesto e altivo, um deslumbre.
Casa em Agreste, tenha quem quiser, ela no. Da generosidade da irm rica, aguarda merc muito diferente: convite para acompanh-la a So Paulo, para ir de muda,
para irem ela e o marido, pois sozinha Tieta no a levar. Emprego para Astrio numa das empresas da famlia Cantarelli; para Elisa, um lugar no corao e no apartamento
da irm, se possvel o ocupado at agora pela enteada Nora.
Tudo quanto Elisa deseja  dar as costas a Agreste, limpar no caminho a poeira dos sapatos, nunca mais voltar. H de conseguir: Tieta veio para ajudar a todos eles,
transbordante de bondade e compreenso. Ademais, Elisa recorrera aos bons ofcios de dona Carmosina, amiga provada, a proteg-la desde menina, e ntima de Tieta.
Pedira-lhe para interceder junto  irm, possibilitando a realizao do projeto de mudana. Em So Paulo a vida a aguarda, a verdadeira, repleta de acontecimentos
e sensaes, no essa apatia de Agreste, esse cansao do sem jeito. O doutor Franklin emposta a voz nos termos jurdicos, Elisa ouve o excitante rumor das ruas atulhadas
de automveis luxuosos, num frmito escuta a fala cariciosa dos homens elevando-se  sua passagem quando  tarde comparece  Rua Augusta, indo de compras com Tieta.
Astrio ouve pensativo, um tanto contrafeito. O sogro vai ter onde habitar com decncia e conforto, na casa da filha; ser como se possusse casa prpria. Filha
magnnima, Tieta. Outra qualquer guardaria ressentimento do pai que a pusera no olho da rua, da irm que a delatara. Ela, no. Regressara com as mos pejadas de
ddivas para cada pessoa da famlia. Durante dias e dias, Astrio se perguntara por que, na distribuio dos benefcios, naquele esbanjamento, a cunhada ainda no
se fixara na irm mais moa e no cunhado, reduzidos aos presentes da chegada. Sendo eles os mais precisados, no entanto, pois Z Esteves, se nada tinha de seu, recebia
farta mesada e praticamente no gastava dinheiro, barraco e comida custando-lhe ninharia, enquanto ele e Elisa viviam em eterno aperto, a loja e a ajuda dando na
exata.
Perptua no precisa de auxlio, tem de um tudo, manso onde residir, casas de aluguel, penso do marido, dinheiro na Caixa Econmica, em Aracaju, e a proteo de
Deus. A proteo de Deus, sim, ria quem quiser- no lhe tem faltado. ao que Elisa soube e lhe contou, a ricaa abrira em banco de So
Paulo caderneta de poupana para os dois sobrinhos. Ele e Elisa nem filhos possuem, sobrinho a merecer a proteo da tia milionria, Toninho morrera e, no fosse
dona Carmosina gostar tanto de Elisa, no se sabe como teria terminado aquele assunto: a mentira vil, a notcia surrupiada, chantagem suja.
H algum tempo, no comeo das prolongadas negociaes para aquisio da casa de dona Zulmira, a cunhada propusera que, realizada a compra, ali fossem morar juntos,
os dois casais, o Velho e me Tonha, ele e Elisa: na residncia vasta e confortvel cabiam os quatro e sobrava espao. A idia no o seduzira, agradando ainda menos
a Elisa; Tieta ouvira as razes da recusa e com elas concordara. Diante disso, Astrio ficara  espera de uma palavra da caridosa parenta referente  aquisio de
casa prpria para a mana mais moa, a quem dava mostras de tanta estima. Espera v, jamais a cunhada voltara a conversar com eles sobre moradia. Somente na vspera
Astrio descobrira o motivo desse silncio. ao voltar do bilhar,  noite, comentando a escritura a ser assinada no dia seguinte, a compra da casa de dona Zulmira
finalmente decidida, Astrio previra, esperanoso: quem sabe, agora vai chegar a nossa vez. Em resposta, ouvira a espantosa revelao, tomara conhecimento dos alarmantes
planos de Elisa. A esposa lhe explicara dever-se a reserva de Antonieta ao desinteresse demonstrado por ela, Elisa, a respeito de casa prpria em Agreste. Do meio
dos lenis, a voz fustigara, decidida, insensvel, quase agressiva:
- Eu disse a Tieta que no queria ter casa prpria aqui, em Agreste. Se ela quiser fazer alguma coisa por ns dois, que nos leve para So Paulo, arranje para voc
um bom emprego numa das fbricas, nos ceda um quarto em seu apartamento,  um apartamento enorme, duplex. Duplex quer dizer que tem dois andares, um sobrado.
Astrio respondera com um gemido: a dor no estmago, ressurgindo, repentina e violenta. As palavras de Elisa soaram-lhe como um cantocho de funeral. Rasgaram-lhe
as entranhas. Emprego em So Paulo, no escritrio de: uma indstria? Monstruosa perspectiva! Sair da vida tranqila de Agreste r;
Ir para enfrentar a correria da cidade imensa, sentar-se diante de uma escrivaninha a fazer contas ou a anotar relatrios, das oito da manha s seis da tarde, sem
liberdade de ir e vir na hora que bem entendesse, sem amigos, sem o bar de seu Manuel, sem a mesa do bilhar, desgraa maior no podia amea-lo.
Em Agreste, a vida do casal decorria na pobreza,  verdade, a loja mal dava para o essencial, quando dava, mas com a ajuda de Antonieta iam atravessando sem problemas,
havia o suficiente para a casa, a comida e ainda sobrava para o cinema e para as revistas de Elisa. Ademais,  exceo de meia dzia de privilegiados, todos na cidade
eram remediados ou pobres e a vida transcorria sem percalos, na maciota. Tinha o moleque para ajud-lo na loja,
Elisa tinha a moleca para ajud-la em casa. Apenas o estmago o aperreava todas as vezes que o movimento comercial decrescia e um ttulo a pagar comeava a contar
juros mas o mdico, na Bahia, lhe garantira no ser cncer e sim nervosismo, no havia por que preocupar-se. Fora disso, vivia satisfeito, na boa companhia dos camaradas,
das partilhas no bilhar Brunswick, com as apostas, as disputas, as vitrias, taco de ouro, a prosa agradvel, poucos afazeres e a mulher bonita, a mais bonita de
Agreste,  espera na cama,  disposio para as noites em que se punha nela, sempre na mesma clssica posio, quase respeitosamente, como devem praticar tais atos
esposos que se prezam.
Quando solteiro, fora fregus assduo da penso de Zuleika Cinderela, amarrando rabichos, sempre por mulher de traseiro atrevido, de ancas bem torneadas, vistosas.
Na cama, no recusava variaes; constando indusive ser por demais chegado a comer bunda de mulher rapariga que dormisse com ele, se j no sabia, logo ia ficar
sabendo dessa sua preferncia. Quando ele aparecia na sala da penso, onde danavam, corria a voz entre as pequenas:
segurem o cu, Astrio est na casa. ao que consta, no se reduzira a subilatrios de mulheres- da- vida, descadeirando igualmente vrias solteironas, tendo merecido
em priscas eras o apelido de Consolo do Fiof das Vitalinas.
Casado, jamais lhe passara pela cachola possuir Elisa seno como conveniente, no buraco prprio e com decncia, ele por cima, ela por baixo, papai e mame, como
classificam as putas na penso, posio de fazer filho, ou seja, prpria para esposo e esposa. Tampouco lhe aflorara o pensamento mont-la por detrs, indo-lhe s
traseiras magnficas, ancas de gua, sem igual em toda a redondeza. no que lhe faltasse vontade: fosse ela rapariga ou moleca, roceira ou solteirona, e ele no
perderia pitu assim apetitoso, aquela suntuosa bunda, motivo fundamental da paixo a domin-lo, levando-o a noivado e casamento. Mas esposa no  para descarao,
a mulher da gente deve ser respeitada, posta entre as santas, num altar. Quando muito, uma vez na vida outra na morte, na hora do gozo, elevando-o ao infinito, dando-lhe
nova qualidade, Astrio corre a mo nas ancas da mulher, em furtivo agrado.
Leitora das revistas de fofocas nas quais so cantados os feitos dos galas de rdio, televiso, cinema, Elisa ressente-se do aparente desinteresse sexual do esposo,
de fornicao escalonada, burocrtica- burocrata do sexo, assim a fogosa atriz classificara o ilustre comediante do qual vinha de se desquitar, em sensacionais declaraes
prestadas  revista Amiga -, da maneira nica, repetida, sem as variaes to badaladas. O prprio Astrio, de quando em vez, relatando a ltima de Osnar ou de Aminthas,
de Seixas ou de Fidlio, se refere a outras curiosas formas e maneiras, sobre as quais tudo sabe dona Carmosina - ah!, infelizmente apenas na teoria, minha Elisa,
quem me dera a prtica! Quem lhe dera tambm a Elisa, talvez por isso injusta com o marido.
Desinteresse da parte dele no existe e sim a convico de que amor de esposo e esposa tem de exercer-se pudico, isento de arroubos, de maus pensamentos e de extravagncias,
respeitoso. Represado, Astrio contenta-se em set proprietrio daquele rabo, de espi-lo quase s escondidas, enquanto Elisa muda a roupa, de sentir-lhe a proximidade
na cama. Digno, contido esposo.
Bastavam-lhe Agreste, a vida pacata da cidade, os prazeres, mnimos, a boa companhia, no queria mais. So Paulo? Emprego em escritrio, bom ordenado, horrio rgido?
Quarto em casa da cunhada? Deus o livre e guarde.
Noite de discusso spera e desagradvel, Elisa perdera a cabea e o acusara de indiferente e molengas, de egosta a pensar unicamente nos prprios interesses, sem
ligar aos dela. Para ele, um pamonha, o marasmo de Agreste ' podia ser o ideal de vida, mas ela, moa e viosa, tinha ambies maiores: a cidade grande, plena de
possibilidades, vida digna de viver-se. Onde, alis, Astrio, se quisesse, poderia progredir, tornar-se algum, ganhar dinheiro, afirmar-se. Mas ele no a compreendia,
no fazia caso dela, tratando-a como se ela fosse um pedao de pau, um animal sem serventia, um trapo.
Segurando a barriga para conter as dores, Astrio fugira para a sala. Elisa terminou vindo busc-lo, ao ouvir-lhe os gemidos pungentes. Encontrou-o esvado, plido,
cor de cera, numa daquelas violentas crises de estmago.
Dera-lhe remdio, pedira desculpas pelas ms palavras, da exaltao passou s lgrimas. no recuara no entanto da disposio de usar de todos os recursos; junto
 irm para que ela os levasse a viver em So Paulo. Verde, a boca de fel, ele nada respondera mas entre os engulhos decidira tomar medidas urgentes para impedir
a concretizao do projeto, sem que Elisa viesse a saber e a responsabiliz-lo pelo fracasso dos monstruosos planos. Enquanto ouve doutor Franklin, medita e resolve.
Discreta, junto a uma estante onde se acumulam papis, encontra-se a formosa Leonora Cantarelli, enteada da promitente compradora. Um sorriso suave no rosto delicado,
talvez, entre todos os presentes, seja ela quem mais deseja possuir casa em Agreste, mesmo modesta, em rua sem calamento, mas com um pequeno jardim plantado de
cravinas e reseds, um coqueiro carregado no quintal, varanda onde estender a rede no calor da tarde. Ninho para ela e seu marido, marido com ou sem papel passado,
no impunha exigncias desde que fosse Ascnio Trindade. mezinha prometera se ocupar do caso, dar jeito em sua vida, Madame Antonieta no  mulher de falar em vo.
Leonora sente-se confortada, espera; escuta a leitura com pacincia, viril de obtida em duro aprendizado.
Do outro lado da barricada, ouvindo a interminvel lengalenga da escritura, dona Zulmira, velhssima, ar de ave de rapina, culos fora da moda escanchados no nariz
adunco, o tero enrolado no punho magrrimo, no pescoo um medalho com o retrato do finado marido quando jovem e noivo.
Sorri contente, a casa, convertida em dinheiro, servir  salvao de sua alma e  glria da Senhora Sant'Ana, no ir parar nas mos excomungadas de Joo Felicio,
amaldioado sobrinho. O coisa ruim no poder fazer com suas ltimas vontades o que estavam fazendo com o testamento de seu Lito os maus parentes, discutindo-lhe
a validade na justia, tentando roubar a Santa Madre Igreja. Acolitando-a, padre Mariano: o dinheiro resultante da venda da casa destina-se a missas no altar- mor
da Matriz diante da imagem da padroeira e em beneficio da alma da doadora, mas somente aps sua morte.
Antes, depositado em mos de Modesto Pires, render juros mensais que ajudaro s despesas de dona Zulmira, serviro para mdico e remdios, conforme consta de documento
anexo  escritura que o doutor Franklin est terminando de ler.
Emboscado no passeio em frente, o sobrinho Joo Felicio espia. Pequeno comerciante de secos e molhados, o rosto semelhante ao da tia, nariz curvo, queixo duro, gavio
pronto a atacar a presa. A presa acaba de lhe escapar, levada cu afora pela santa, dolo e superstio dos catlicos romanos. Na casa confortvel que esperara ocupar
em breve - a Velha no pode durar muito - com a mulher e o filho pequeno, ir viver Z Esteves, com a presuno, a arrogncia e a mulher, pobre infeliz. Tambm de
quem a culpa se ele, Joo Felicio, se casara contra a vontade da tia com moa protestante, filha do pastor da Igreja Batista de Esplanada? Catlica  maneira antiga,
desconhecendo as teses ecumnicas, para dona Zulmira protestante  sinnimo de hertico, inimigo, raa perdida e condenada, com ps de bode. Os crentes so filhos
do demnio aos quais os bons catlicos devem negar po e gua, j que infelizmente se acabou a Santa Inquisio.
Terminada a leitura, doutor Franklin convida as partes interessadas, para o ato da assinatura. Como testemunhas, apem suas irms Astrio e o Padre e depois apertam-se
as mos, em mtua felicitao. Dos fundos bolsos da saia negra de gorgoro de seda, Perptua, depositria provisria, saca rolos e rolos de dinheiro, entregando-os
ao doutor Franklin, todos os olhos acompanhando a operao. O tabelio conta nota por nota, antes de pass-las s mos de dona Zulmira.
Sorridente, Tieta remi uma apreenso: terreno e casa, comprados e pagos, escriturados em nome de Antonieta Esteves Cantarelli, pertencem sem sombra de dvida e
discusso a Antonieta Esteves, simplesmente? O advogado consultado em So Paulo, antes da viagem, garantira que sim, desde que existissem testemunhas de compra e
pagamento, tratando-se ento de simples engano de nome, facilmente corrigvel. Quem o dissera no fora um corrigvel qualquer, de porta de xadrez, e sim o Procurador-
Geral do Estado, fregus constante do Refgio, consultor jurdico de Madame Antoinette.
Do fim da e arde no arepago Tieta, depois de se despedir dos parentes e de ter contratado os servios do mestre-de-obras Liberato, recomendado como excelente por
Modesto Pires, consegue chegar sozinha  porta da Agncia dos Correios para a conversa reservada, conforme prometera na vspera a dona Carmosina.
Finalmente as duas amigas iro passar em revista os ltimos acontecimentos;
as duas interessadas em ouvir e contar, ruminando idias e planos, escondendo, uma e outra, segundas intenes. ao ver Tieta subindo o degrau da porta, dona Carmosina
larga o jornal e exclama:
- Enfim, ss! - ri, estendendo os braos para acolher a visita ilustre, figura importante. - Salve a minha lder!
Por demais ilustre e importante. no demoram sem companhia nem por "cinco minutos. Ainda ajeitam cadeiras, trocam palavras de afeto, Tieta perguntando como vai passando
me Mil - costuma dizer que dona Mil  sua segunda me -, quando surgem os primeiros conhecidos e na porta do Arepago juntam-se os curiosos. Todos querem ver
e saudar a conterrnea donatria da capitania de So Paulo, mandachuva no pas. Ficam parados, sorrindo para ela. Pedintes que no a encontraram em casa, de faro
aguado pela necessidade, descobrem-na na Agncia, cada qual recita histria mais triste. Triste e verdica. Com dois deles, Tieta marca encontro para a manha seguinte,
em casa. Dona Carmosina abana a cabea, assim no d. ao mesmo tempo, deixam- na alegre a gentileza e a pacincia de Tieta a ouvir e ajudar os pobres, a dialogar
com os ociosos que apenas desejam falar com ela, felicit-la pela luz. Rindo. Antonieta desabafa:
- Essa histria da luz j est me enchendo. ..
- No fale assim, minha negra. O povo manifesta sua gratido,  uma gente boa, ainda no est corrompida pela civilizao.
Do passeio, a voz do comandante Drio vem liquidar as ltimas esperanas de dona Carmosina. Ainda no ser desta vez que conversaro a batons rompus - de quando
em quando Tieta emprega uma expresso francesa; no Sul, conquistou, certamente sob influxo do marido, nvel de cultura desabitual nos cafunds destes sertes, fez-se
realmente uma senhora, no apenas pela elegncia e riqueza, tambm pelo intelecto; dona Carmosina sente-se orgulhosa da amiga e assim devem sentir-se todos os cidados
de Agreste.
Tomando de uma cadeira e nela escanchando as pernas, o Comandante demonstra sua deciso de ali se demorar batendo papo. Deseja saber quando Tieta pretende voltar
a Mangue Seco. Ele e dona Laura regressaro no dia seguinte, logo depois do almoo, no quer aproveitar a canoa? Aproveitar, sim. Concluda a compra da casa, assinada
a escritura, efetuado o pagamento, nada de especial a prende a Agreste. O Velho se encarregar de dirigir a limpeza e a pintura da vivenda, alguns consertos indispensveis,
antes de tudo a construo de banheiro e latrina decentes. Os que existem esto inservveis.
H muito dona Zulmira toma banho em bacia, faz coc em penico. O Comandante escuta a relao das obras, dos tais pequenos consertos, prev:
- Um ms de trabalho, da para mais... Liberato  descansado.
- no com Pai de fiscal, em cima dele... - garante Antonieta. -o Velho est doido para mudar-se, seu Liberato vai andar de rdea curta.
- Fez empreitada ou vai pagar pelos dias de trabalho?
- Comandante, pelo amor de Deus, no se esquea que nasci aqui.
Empreitada,  claro.
- Nesse caso, um ms. E Liberato, o que tem de descansado tem de competente. Nesse particular, pode ficar tranqila.
- Veja como so as coisas, Comandante. Considero que fiz uma boa compra, adquirindo a casa de dona Zulmira...
- Cara para os preos daqui...
- Ainda assim. Custou um bocado de dinheiro,  uma casa tima, vai entrar em obras, mas eu s penso na cabana de Mangue Seco. Minha cabea est l. Essa sim, me
apaixona. no quero viajar sem que ela esteja de p.
- O povo de Mangue Seco ainda  mais descansado do que o daqui.
Praia, sabe como . Com aquele ventinho, no d mesmo para se trabalhar muito...
- Por isso quero voltar logo, para dar um empurro. Cardo no  o Velho, no  de dar bronca em ningum... O pobre deve estar pensando que a tia o abandonou e foi
embora para So Paulo. Menino de ouro, esse meu sobrinho, Comandante.
Os olhos brilham quando ela fala do sobrinho. Dona Carmosina e o marujo concordam com o elogio. Deus fora extremamente generoso com Perptua: no apenas a retirara
do barraco, milagre considervel, dera-lhe bom marido e bons filhos. Exercendo a arte sutil de falar da vida alheia, dona Carmosina e o Comandante regalaram-se
durante alguns minutos considerando a bondade de Deus na premiao das virtudes eclesisticas de Perptua.
Eclesisticas? O adjetivo para as virtudes de Perptua devia-se a Barbozinha '. e dona Carmosina o encontra potico e perfeito. Assim, em prosa e riso, corre o
tempo. no adianta Tieta dizer que viera por uma noite e j se encontra h trs dias - e ainda, imagine!, no tivera tempo para conversar uns assuntos urgentes com
Carm. Para faz-lo se encontra ali, na Agncia, mas amanh retomar sem falta a Mangue Seco.
O Comandante nem parece ouvir a insinuao, explicando que Ricardo, estando onde est, em frias no prprio paraso terrestre, s tem razes para sentir-se feliz.
Enquanto ouve o Comandante, empolgado, a perorar sobre seu tema predileto, a beleza da praia de Mangue Seco, Tieta pensa ao pequeno Ricardo abandonado no colcho
de crina, na imensido selvagem das dunas sobre o mar. No paraso, Comandante, mas curtindo as penas do inferno!
Deve estar plantado no cmoro mais alto, buscando descobrir nas lonjuras do rio sinal de lancha, ouvir rudo de motor. Ela tampouco deseja outra coisa seno descer
a correnteza, atravessar a arrebentao da barra, desembarcar em Mangue Seco, correr para os braos de seu menino, sentir-lhe os plos arrepiados nas pernas e braos
musculosos, no peito adolescente, o calor, a vibrao do corpo, a timidez ainda no de todo vencida, o mpeto, o mastro do saveiro erguido, as velas desatadas. As
ltimas noites, rolando sozinha no leito da alcova, tinham sido insones e agoniadas. Para acalmar-se, findara por deitar-se na rede, no antigo gabinete do doutor
Fulgncio, onde Ricardo dormira. Buscando a lembrana do sobrinho, encontrou sinais evidentes da batalha travada com o Demnio na rede onde ele a desejara contra
a prpria vontade, onde a tivera nua, em sonho voluptuoso, e no conseguira possu-la por no saber como agir, pesadelo horrendo. Ali o donzelo seminarista comeara
a perder a castidade. Tieta espojou-se na rede, tocou a mancha branca, gemeu, cabra em cio.
Outro a aparecer para a prosa regalada, impedindo a conversa Intima e essencial: Ascnio. Chega acompanhado por Aminthas e Seixas. O Comandante no perde a ocasio
de criticar as iniciativas do patritico secretrio da prefeitura, ameaadores projetos tursticos, felizmente mirabolantes.
- Mirabolantes, uma conversa - protesta Ascnio. - a qualquer momento, o homem volta...
- Com a boazuda, espero... - corta Aminthas.
.para definir os planos, tenho certeza.
Comandante Drio eleva as mos aos cus:
- Para terminar com o sossego da gente. Vou cavar trincheiras em Mangue Seco, armar barricadas. Quando esses nudistas aparecerem l, recebo  bala, como Floriano
ameaou receber os ingleses.
- Nudistas? - interessou-se Tieta.
- Exatamente, no soube?
- Soube do casal que esteve aqui e foi a Mangue Seco...
.e l chegando, tiraram a roupa e bumba! Na gua, nuzinhos como Ado e Eva. Correndo praia afora...
Irreprimvel frouxo de riso sacode Tieta, no se contm. Pensa em Ricardo j to violentado, ainda por cima s voltas com nudistas. Era capaz de confundi-los com
diabos, vindos dos infernos, para sacrlegas bacanais em Mangue Seco, missas negras, para consumar a definitiva condenao de sua alma. Reduzindo a zero os efeitos
da longa pregao da tia, empenhada em acalmar seus temores, restaurando-lhe o nimo e a confiana.
- Ser que Ricardo viu essa gente nua?- pergunta, quando consegue controlar o riso.
Ao imaginar o seminarista em companhia do incrementado casal, todos riem, inclusive Ascnio. Comandante Drio conclui, vitorioso.
-  o que eu digo: Perptua e os padres, o bispo Dom Jos, voc, Tieta, todo mundo cuidando da inocncia do menino e os amigos de Ascnio liquidam todo esse esforo
numa tarde. De que adianta voc zelar pela castidade de seu sobrinho? Ascnio importa a devassido, entrega Mangue Seco aos proxenetas, nosso destino  o lenocnio...
Ascnio no se comove com o trgico panorama traado pelo Comandante.
- Quando os terrenos valorizarem, a Toca da Sogra valer uma fortuna, o Comandante vai me agradecer e a senhora tambm, dona Tieta. Fez negcio na hora certa, os
preos dos terrenos vo subir.
- no h preo que pague minha paz! - conclui, insensvel, o Comandante. Volta-se para Tieta. - Ento, amanh logo depois do almoo, a por volta de uma da tarde,
de acordo? Vamos aproveitar esses ltimos dias, antes que Ascnio transforme Mangue Seco em Sodoma e Gomorra.
- Vai amanh, dona Antonieta? - pergunta o acusado secretrio da prefeitura. - no esquea que no outro sbado  a inaugurao da praa e a senhora  a madrinha
da festa.
- no esqueo, no. Pode contar, no faltarei. Volto a tempo.
Se no voltar, iro busc-la  fora, anuncia Aminthas. Ele e Seixas ali presente, com Astrio, Osna regrumete Peto esto armando uma expedio punitiva para rapt-la
na praia, traz-la de volta. Mangue Seco  aquela maravilha, ningum pode negar a evidncia, praia tima para passeios, piqueniques, uiquiendes, o banho de mar,
a barra, as dunas, a vista, mas da a demorar-se l semanas inteiras quem vem a Agreste com tempo medido, isso seus concidados no podem tolerar. Dona Carmosina
concorda e aplaude a idia: uma expedio, quem sabe, no prximo domingo? Que diz a isso, Seixas?
- Bom, muito bom. Vou e levo minhas primas - aprova Seixas, opinando pela primeira vez na discusso.
A conversa reservada fica para a noite. Dona Carmosina suspira: mas, sem falta, heim! Se houver outro adiamento ela vai espocar, est inflada de assuntos, graves
e excitantes. no lhe passa pela cabea, porm, que a maior interessada na conversa  Tieta, apenas no demonstra.
Da conversa no caminho do rio Tieta passeia os olhos pelo cu, convertera-se em minguante a lua cheia que iluminara o areal de Mangue Seco mas fascam estrelas aos
milhares, inumerveis, ela no se cansa de contempl-la s, de admirar esse firmamento como j no existe nas cidades do Sul. Na cidade de So Paulo, onde vive e
labuta, encoberto pela fumaa da poluio,  negrume o firmamento.
- Estou fartando a vista no cu de Agreste, Carm. L, no tem nada disso. L o cu acabou.
Para conversarem a ss, o nico jeito foi fugir da casa repleta enquanto Barbozinha, invencvel, atravessava o pantanal de Mato Grosso  frente de um regimento da
Coluna Prestes, aps haver sido um dos Dezoito do Forte, o nico a escapar miraculosamente: um a mais, um a menos no aumenta o nmero, continuaro dezoito, essa
a grandeza das legendas. Aminthas advertiu o bardo herico:
- Cuidado com a lngua, meu poeta. Que voc seja o dcimo- nono ou o vigsimo- terceiro dos Dezoito, no vejo mal alm dos arranhes na verdade histrica. Mas, ao
se meter na Coluna Prestes, passa a correr perigo de cadeia.
Por muito menos, andaram encanando gente em Esplanada.
(Zuando dona Carmosina chegou para a conversa reservada, encontrou a sala de visitas cheia de amigos, a varanda ocupada por Leonora e Ascnio, sobrando apenas o
recurso da fuga. Aproveitando a deixa de dona Carmosina:
aqui a gente no vai poder conversar, tenho muita coisa a lhe falar mas no na vista desse povaru, como se h de fazer?, Tieta props a retirada. Haviam escapado
pelos fundos da casa, sem que ningum se desse conta. Agora, andam no caminho do rio:
- S que l, Carm, se ganha dinheiro. Quem quiser trabalhar, tiver disposio, pode fazer seu p de meia. Aqui, a pobreza  demais, eu j tinha me esquecido do
tamanho.
Tieta toma o brao de dona Carmosina, as duas amigas marcham em direo ao ancoradouro, ouve-se na sombra o rumorejar ainda distante da correnteza do rio. A brisa
da noite as envolve, chegada do mar, das bandas de Mangue Seco onde Ricardo espera, certamente postado no alto das dunas, buscando enxergar sinal de luz na distncia,
crucificado em medo e desejo, em pecado e saudade, dilacerado.
- Aqui a pobreza  por demais, a comear por minha gente. Vivem to apertados...
- Perptua at que no... - retifica dona Carmosina. - Todo ms coloca dinheiro na Caixa, em Aracaju, no  nenhuma tola.
- no pense que no sei, Carm, no nasci ontem, conheo as cabras de meu rebanho e a que mais conheo  Perptua. Sei que Ricardo estuda de graa, o Padre arranjou
com Dom Jos, sei que Peto est no Grupo Escolar, no paga nada, sei mais do que ela e voc podem imaginar. Mas, nem por isso, nego minha ajuda. Afinal, o que ela
tem  to pouco, s  alguma coisa em comparao com a pobreza dos outros, mas para o futuro dos meninos no  nada. Os meninos so uns amores, Ricardo  estudioso,
compenetrado, srio, vestido de batina fica to engraado, parece um anjo torto. - Fita a velha amiga. - Mandei abrir uma caderneta de poupana em So Paulo em nome
dele, como alis voc sabe...
- Eu sei? Que histria  essa? no sei de nada, voc no me falou, como havia de saber? - dona Carmosina reage nervosa, quaseinsultada com a indireta.
Tieta enche o caminho com uma risada alegre, divertida, aperta o brao da companheira, afetuosamente:
- Sabe porque leu a carta que eu escrevi  gerente do meu negcio mandando ela ir ao banco, abrir a caderneta, fazer o depsito. no me diga que no leu, Carm,
porque eu no acredito. Se eu fosse voc, tambm lia.
A princpio confusa, sem resposta, dona Carmosina termina contagiada pelo riso da amiga, reclama:
- Tambm nunca vi cartas mais discretas, mais reservadas que as suas.
No contam nada, nem as que voc escrevia para a famlia nem as que escreve para So Paulo. Nunca vi tanta avareza de palavras: faa isso, faa aquilo, como vo
as coisas, a clientela, firme? E as meninas, como se comportam? At agora no descobri que espcie de negcio voc tem, alm das fbricas. Dessas todos sabem.
- No h segredo, Carm, apenas sou ruim de escrita, quanto menos escrevo menos erro. Alm disso, no gosto que meus assuntos andem na boca do povo, ningum precisa
saber dos ganhos da gente; eu acredito em mau olhado. Mas a voc, no tenho por que esconder. O que eu possuo em So ' Paulo  uma butique de luxo, com preos muito
caros, para gente da alta sociedade, a clientela  de primeira ordem, rende um bom dinheiro. As meninas so as vendedoras, bonitas, elegantes, ganham bem. Por isso
mesmo, por causa da freguesia to chique, no quero gente de Agreste aparecendo por l. Imagine s, Carm, a loja cheia, aquela nata de So Paulo, tudo podre de
rico, e me aparece o pessoal daqui... Por isso nunca mandei endereo. Nas fbricas no me importo que falem, que inventem o que quiserem, sabe por qu? Porque nas
fbricas nada tenho, nem participao. Quando Felipe morreu, eu fiquei com os apartamentos, os imveis e a butique que, alis, j era minha, estava em meu nome.
- No caminho mal iluminado, busca enxergar na fisionomia da amiga se a explicao fora convincente ou no.
Dona Carmosina bebera-lhe as palavras, uma a uma. Assdua leitora de romances policiais, admiradora de Agatha Christie, sentia-se a prpria Miss Marple perdida em
Sant'Ana do Agreste. De deduo em deduo, espremendo as clulas cinzentas, partindo de pistas mnimas, tinha chegado  verdade: nada do que Tieta agora lhe contara
constitura surpresa para a presidenta do Arepago:
- Exatamente o que eu imaginava, butique de alto luxo, preos de arrancar o couro e a fidalguia toda de So Paulo deixando o dinheirinho l.
Voc faz muito bem em guardar reserva sobre seus negcios e sua vida. Creio que, se Elisa soubesse de seu endereo em So Paulo, teria arranjado maneira de se tocar
para l. no sonha outra coisa, a pobrezinha.
Tieta riu:
- Voc j pensou a parentada toda de Agreste, a comear pelo velho Z Esteves, de cajado, cuspindo fumo, em minha porta em So Paulo, invadindo a butique? At que
ia ser engraado, sd que estragava meu negcio para sempre.

No fez referncia a Elisa, como se no houvesse escutado o nome da irm, mas dona Carmosina insiste, volta  carga:
- Voc pensa levar Elisa para S ao Paulo, ela e Astrio?  tudo o que ela deseja na vida, e me parece que...
Tema do desagrado de Tieta. Interrompeu a amiga antes que tomasse a peito a defesa da causa de Elisa:
- Levar, para qu? Aqui, eles vivem direitinho com a renda da loja e a ajuda que eu dou. Sem que eu lhe perguntasse nada, outro dia ela me disse que no quer Ter
casa prpria em Agreste. Vive falando em So Paulo, insinuando um convite, no tem outro assunto. Posso at aumentar a ajuda que dou a eles, mas lev-los para So
Paulo, isso no.
- Posso perguntar por qu? Gosto de Elisa e queria v-la feliz.
- Eu tambm desejo que ela seja feliz, tambm gosto dela,  minha irm e sei que e lagosta de mim, no  hipcrita como Perptua. Mas eu gosto dela e gosto tambm
de Astrio, Carm. Aqui Astrio vive contente, para ele So Paulo ia ser um degredo. Adoro ver pessoas felizes,  to raro no mundo. Sei o que  ser infeliz, ro
beira de penico quando fui embora. Tive sorte, encontrei um homem bom, o meu marido. Famlia sortuda, Carm: Perptua, com aquela cara, arranjou marido, milagre
considervel, no foi o que o Comandante disse ontem? Milagre maior aconteceu comigo: eu era uma reles empregadinha no escritrio de Felipe, acabei de aliana no
dedo, - Exibe a aliana de ouro, diferente, trabalhada pea digna de antiqurio. - Tambm Elisa deu sorte, casou, Astrio  um bom rapaz, gosto dele. Em So Paulo,
Astrio ia ser mais infeliz do que Elisa  aqui.
- Ser?
- Tenho certeza. Aqui, ele tem amigos, de quem iria ser amigo em So Paulo? no  homem para aquela correria, aquele Deus nos acuda. E ela, ia ser feliz em So Paulo,
tua amiga Elisa? Tu conhece ela melhor do que eu, tu viu ela nascer, ns duas vimos, se lembra? Tu acha que Elisa, em So Paulo, vai agentar o marido ganhando ordenadinho
pequeno, que grande coisa ele no sabe fazer, vida modesta, com a estampa de rainha que ela tem? Me diga, Carm. Com aquela beleza? Sabe onde ela ia terminar? Num
randevu, fazendo a vida. Ser essa, a felicidade que ela procura?
Dona Carmosina estremece, as palavras de Tieta ressoam-lhe no crnio, marteladas na cabea. Desiste de lutar pela protegida. Prometera faz-lo quando Elisa, quase
chorando, lhe suplicara: fale com Tieta, Carmosina, diga que eu quero ir com ela, pea um emprego na fbrica paia Astrio, um cantinho no duplex para ns..
- Voc tem razo, no d p. Ia terminar mal. Como no pensei nisso, meu Deus? Voc  ainda melhor irm do que parece.
- Conheo minhas cabras. Foi bom voc ter me falado nisso, eu estava mesmo querendo lhe pedir para tirar essas idias da cabea de Elisa, ela lhe ouve muito. Aqui,
ela e Astrio podem contar comigo. Fora daqui, nada.
- Vou falar com ela, no vai ser fcil. Mas voc tem toda razo, no se pode arriscar. J pensou? Ai, meu Deus!
- A vida  uma confuso, no d para se entender. Elisa s pensa em ir para So Paulo, Leonora, agora, deu para falar que quer viver em Agreste, no quer sair daqui,
nunca mais.
Um sorriso aparece, clareando o rosto anuviado de dona Carmosina, aquele era um tema exaltante. Aproximou-se do rio, cresce o rumor da correnteza sobre as pedras,
rolam estrelas do cu, desfazem-se nas sombras.
-  verdade, ela me disse que j decidiu no ir mais embora. Conversamos muito, Nora e eu, nesses dias que voc passou em Mangue Seco. Ela est gamada, morta de
paixo. Coisa mais linda, Tieta. Dois desiludidos, dois... - busca na memria a palavra moderna, lida h poucos dias no artigo da revista -. .. carentes que se encontram,
do-se as mos e se completam.
Est disposta a ficar aqui.
- E voc pensa que ela vai se acostumar nesses confins? Por ora, est feliz porque no namoro com Ascnio esquece o que sofreu e ela sofreu como cabrito desmamado.
Mas, depois? Eu nasci aqui e aqui quero terminar meus dias mas s voltarei de vez quando estiver velha, coroca. Antes, s a passeio.
Para quem chega de cidade grande, acostumar em Agreste no  fcil. Mesmo quem nunca arredou os ps daqui se queixa da pasmaceira, veja Elisa. Se eu imaginasse o
que ia acontecer, no teria trazido Nora.  uma tolona, sentimental, acaba perdendo a cabea, afeioando-se a Ascnio, vai dar problema.
- Eu sei. - Dona Carmosina suspira, dramtica que nem autor de folhetim em cena culminante, de novela de rdio em fim de captulo. - Ela  milionria, ele  pobre!
Mas...
- no  por isso, Carm, todos os dias a gente assiste a casamento de rico com pobre. Voc pensa que eu ia me preocupar se o problema fosse esse?
J estaria cuidando do enxoval.
- Qual , ento?
Tieta detm-se na beira do caminho para dar maior nfase  confidncia, persiste o clima de melodrama, o suspense. Dona Carmosina espera, tensa, incapaz de esconder
a impacincia:
- O qu?
- Voc sabe que ela foi noiva de um vigarista que s queria o dinheiro dela. Botou mscara de engenheiro, fachada no lhe faltava mas era tudo. Ela, cega de paixo,
querendo financiar uns projetos do tipo, s no largou o dinheiro porque eu manjei a coisa e maneirei. Foi quando a policia apareceu atrs dele e se ficou sabendo
da ficha completa do patife. A pobre caiu de cama, quase morreu. A mim no me surpreenderam as revelaes da policia, no me engano com as pessoas, bato os olhos
num fulano e j sei o que vale, a qualidade do carter e o tamanho do cacete...
Dona Carmosina, descontraindo-se, explode numa gargalhada:
- Mulher mais maluca, nem depois de morta vai tomar jeito. Inventa cada uma: a qualidade do carter, o tamanho do cacete... Essa  boa! perdida em riso, refaz-se
aos poucos, volta ao amor de Nora e Ascnio. Disso tudo eu j sabia, voc mesma tinha me contado. E  por isso que eu digo:
dois feridos que convalescem, dois carentes - Dona Carmosina aproveita para repetir a palavra recm-aprendida - que se completam. Se o problema da diferena de fortuna
no atrapalha, ento...
- Acontece que ela foi noiva desse tipo uns bons seis meses, Carm.
Noivado em So Paulo no  como em Agreste. L, namorados e noivos tm muita liberdade, saem sozinhos para festas, para boates, fazem passeios que duram dias e dias...
noites e noites... As moas andam com a plula na bolsa, junto do batom.
- Estou entendendo...
- Pois . Esse negcio de moa casar virgem, j era, como dizem os cabeludos. S vigora em Agreste. O fato dele ser pobre no tem nenhuma importncia, Nora no liga
a mais mnima para isso. Nem ela, nem eu. Mas voc acha que nosso amigo Ascnio... - uma pausa.-  por isso que estou preocupada, Carm.
- Agora, quem fica ainda mais preocupada, sou eu. Preocupadssima.
Por que a vida  to complicada, Tieta?
- Sei l! E podia ser tudo to fcil, no ? Porca misria!, como dizem meus patrcios, os italianos de So Paulo.
Voltam a andar, dona Carmosina digerindo a incmoda revelao, ai, meu Deus, o que fazer? Tieta completa, antes que alcancem as margens do rio:
- Agora que comprei a casa, mandei arrumar e pintar, instalo os velhos, deixo dinheiro com Ricardo para acabar de construir o barraco em Mangue Seco, pego Leonora
e vou embora.
- Voc no pode ir embora antes da inaugurao da luz, j lhe disse. De eito nenhum.
- Tinha pensado em ficar mas no posso. no  tanto por mim, se bem no deva me retardar demais, deixei em So Paulo tudo que  meu na mo dos outros...
- Na mo de gente de confiana. ..
- Mesmo assim. Quem engorda o porco  o olho do dono. Eu ficaria para a festa, se no fosse por Nora. Preciso tirar ela daqui enquanto  tempo.
Ela no agenta outro baque, pode at morrer...
- no se precipite. Espere uns dias, quando voc voltar de Mangue Seco eu lhe direi alguma coisa.
- Sobre?
- Ascnio e Leonora...
- A vida pode ser to fcil, a gente mesmo  quem complica tudo.
Atingem a beira do rio, as canoas descansam no ancoradouro. Um pouco alm, na Bacia de Catarina, os ps de choro debruam-se sobre os penedos, aumentam a escurido.
A brisa traz um leve gemido, vem daquelas bandas.
As amigas avanam uns passos com ps de la. Vultos nos esconsos; sussurros, ais, sob os chores. A vida pode ser to fcil, repete Tieta. Sorriem as duas comadres,
a bonita e a feia, a que conhece o gosto e a carente (para usar a palavra da moda, to de agrado de dona Carmosina). Tieta anuncia:
- J escolhi o nome para minha cabana em Mangue Seco.
- E qual ?
- Curral do Bode Incio. Era o garanho do rebanho do Velho, um bode que mais parecia um jegue de to grande. O saco arrastava no cho. Com ele aprendi a querer
e a conseguir.
Multiplicam-se os ais de amor na ribanceira. Apressadas, as duas amigas retomam o caminho da casa cheia em cuja sala de visitas o vate Barbozinha, em encarnao
anterior,  frente do povo de Paris, assalta e conquista a Bastilha, liberta milhares de patriotas aprisionados. Magnfico episdio, com espadas e arcabuzes, fidalgos,
tribunos, a carminhola e sem perigo de cadeia.

Onde o leitor reencontra o seminarista Ricardo, anjo decado, sobre o qual ha bastante tempo so feitas apenas vagas referencias (quase sempre elogios na boca lasciva
da tia e de como ele se atira ao mar do alto dos cmoros, Ricardo observa o rio na impacincia de assinalar a lancha de Elieser ou o barco de Pirica, talvez a canoa
a motor do Comandante, e vislumbrar o vulto de Tieta. Como prosseguir ali sem ela, tendo o pecado por nica companhia? Assim os viu desembarcar de uma canoa que
eles prprios manobravam. no estavam todos os que haviam acampado nas proximidades do arraial do Saco, apenas dois casais e uma aliana pequena, de dois anos quando
muito.
Curioso, Ricardo acompanha cada movimento. O rapaz escuro, de cabelo esgrouvinhado, levanta a improvisada ncora, pedra disforme, amarrada a uma corda, atira-a ao
mar, prendendo a canoa. Toma a criana ao colo.
O outro, magro e alto, segura um violo. Das duas moas, uma exibe longos cabelos doirados escorridos sobre as costas, provavelmente a me da menina pois desce junto
com o rapaz que leva a criana; a outra, com flores nos cabelos,  mida e gil, atravessa correndo entre as casas dos pescadores, perseguida pelo moo do violo.
O som do riso sobe os cmoros e chega at Ricardo. Esto descalos os cinco e andam para a parte mais bela da praia, a que fica exatamente embaixo da duna mais 
levada, de onde Ricardo espia. A mais bela e a mais perigosa, a arrebentao violenta impedindo o banho de mar. Somente quem nasceu e se criou em Mangue Seco atreve-se
a nadar naquele trecho de mar erguido em fria contra as montanhas de areia.
Nas frias anuais em Mangue Seco, quando o Major era vivo, Ricardo acompanhara algumas vezes os filhos de pescadores, aventurando-se entre os vagalhes, mas o pai,
tendo-o pegado em flagrante, proibira tal loucura, sob ameaa de castigo severo. Mais de um banhista ali deixara a vida por ignorncia ou por desejo de exibir-se,
derrubado e arrastado pela violncia das ondas, massacrado de encontro aos cmoros. Bravio mar de tubares, sombras cor de chumbo em meio  gua revolta. Inesperados
e soberbos, alam-se em meio s vagas, rondam a praia, esfomeados, multiplicando O perigo. Pouco antes, Ricardo enxergara os vultos de um bando ameaador, saltando
na tormenta. Foram-se mar afora, j no se distinguem as manchas de chumbo e morte.
Do alto, Ricardo v os dois casais e a menina correndo pela praia, brincando. Sentam-se depois na areia e logo ressoa o som do violo, trazido pelo vento. Trechos
rotos de melodia, parece msica religiosa, lembra cantocho ouvido no convento dos franciscanos em So Cristvo. Na vspera, tendo ido ao arraial do Saco tratar
de compra e transporte de material para a construo, Ricardo soubera do acampamento dos hippies. Um grupo de mais de vinte moas, rapazes e crianas, novidade recente
e provocante.
Os dois filhos do dono da cermica onde adquirira os tijolos -o pedreiro errara no clculo, levando a tia a comprar quantidade bem menor que a necessria -, rapazolas
mais ou menos de sua idade, convidaram- no a ir espiar, ele aceitou.
No Seminrio e em Agreste escutara muita coisa sobre os hippies, opinies as mais contraditrias, a maioria de virulenta crtica. Asctico e feroz, Cosme, comentando
notcias dos jornais, condenara os hbitos indecentes, perniciosos, desses inimigos da moral, entregues  libertinagem e  droga, refugando a lei e os princpios
sacrossantos, monstros da pior espcie.
Dias depois, por acaso, quando no ptio buscava entender a Imitao de Cristo, preparando-se para a meditao espiritual da manha seguinte, Ricardo surpreendera
singular conversa, as vozes em discusso se elevando na roda prxima, formada por alguns padres, entre os quais o prprio Reitor, o reverendo ecnomo, o padre Alfonso
- o reverendo Alfonso de Narbona y Rodomon - e Frei Timteo, frade franciscano, vindo de So Cristvo, para dar a aula semanal de Teologia Moral no Seminrio Maior,
cuja sapincia e santidade corriam mundo. Parecendo um canio de to magro, os cabelos revoltos, a barba rala, os olhos de gua pura e a voz mansa, defendera os
hippies dos ataques de Dom Alfonso de Narbona y Rodomon, a vociferar em dura mescla de espanhol e portugus. Nobre castelhano, guarda- costas de Deus e da pureza
da f, leo- de- chcara dos bons costumes, vigrio da Catedral de Aracaju e professor de Teodicia no Seminrio Menor, Dom Alfonso era conhecido entre os fiis
pela alcunha de Labareda Eterna devido  virulncia dos sermes repletos de ameaas aos pecadores.
Indiferente  veemncia da condenao total aos hippies, enunciada em rude portunhol pelo fidalgo de Castela, Dom Timteo os considerou no apenas filhos de Deus,
como ns todos, mas os promoveu a filhos bem-amados pois renegam a hipocrisia, refugam a mentira, levantam-se, pacficos, contra a falsidade, contra o cinismo anti-humano
da sociedade atual, enfrentam a impiedade e a corrupo do mundo, suas armas so flores e canes, sua bandeira a de Cristo: paz e amor. Condenvel a maneira como
agem? Que desejava Dom Alfonso? Que eles tomem das armas, das bombas, das metralhadoras? Vo pelo mundo dando o bom exemplo da alegria de viver.
Perseguidos como sempre o foram todos os reformadores, os rebeldes, os contestatrios da ordem vigente e podre. Os padres ouviram sem vontade ou sem coragem de contestar
o renome de Frei Timteo, sbio e santo, faziam carismtico, os reverendos curvavam-se  sua passagem e o bispo Dom Jos o tratava de meu pai. Opinies contraditrias,
polmica desatada, mas nos ouvidos de Ricardo ficara ressoando a voz serena do franciscano a repetir as ' palavras paz e amor, divisa de Cristo, saudao dos hippies.
Demorou-se com os dois companheiros espiando de longe o acampamento, onde rapazes e moas pareciam indiferentes ao tempo, sentados em grupo a conversar. Alguns trabalhavam
metal e couro, um magricela tocava violo, outro descansava a cabea no colo de uma jovenzinha, todos vestidos com aquelas roupas mal cuidadas, com rasges e remendos,
colares nos pescoos, multicores, smbolos msticos. Alguns descalos, sobretudo entre as mulheres. Ricardo viu de longe e pouco; quando um dos rapazes props chegarem
at l, recusou, necessitando voltar a Mangue Seco onde os operrios esperavam material para as paredes da casa de veraneio da ingrata.
Agora, do alto dos cmoros, ele observa os dois casais e a menina.
Reconhece o magricela que dedilha o violo, vira-o na vspera. Deitaram-se na areia os quatro, a criana recolhe conchas, vem traz-la s para a me.
Os olhos de Ricardo voltam-se para a lonjura do rio nas primeiras, sombras do crepsculo. Que faz a tia, por que no volta? Por que o deixa ali, sozinho, sem a presena,
a voz, os confusos argumentos ainda assim consoladores, a mo, os lbios, o seio acolhedor, o ventre em febre onde todos os problemas se resolvem, as dvidas se
desfazem, a aflio e o tormento transformam-se em alegria e exaltao? Estaria ausente apenas uma noite, uma, to- somente, garantira. Duas j ele atravessara,
insone e desolado.
Talvez porque a msica houvesse cessado, Ricardo retorna o olhar vazio de esperana e fita a praia. Os casais despiram-se, o jovem do violo e a rapariga risonha
trocam um longo beijo, estreito abrao. O rapaz escuro e a moa loira, com a menina, adiantam-se para o mar, quem sabe na inteno de banhar-se. Os cabelos da mulher
rolam pelas espduas, tocam-lhe as ancas. Ricardo pe-se de p, grita, avisando do perigo. Para enfrentar as vagas que retornam enfurecidas da luta contra as dunas
e se preparam para novo embate,  necessrio ter nascido e crescido em Mangue Seco, na selvagem violncia do oceano e do vento desatados. O perigo  mortal, sem
falar na sombra fatdica dos tubares.
O grito perde-se na ventania, no alcana a praia, pai, me e filha adentram-se no mar, Ricardo dispara cmoro abaixo, nem repara no outro casal a fazer amor, joga-se
na gua exatamente quando o vagalho descomunal encobre os banhistas, derruba o rapaz e a moa, arranca a menina da mo da me e a arrasta para longe. Uns minutos
mais e o pequenino corpo ser lanado pelo mar contra a montanha de areia transformada em pedra.
Ricardo mergulha, desaparece sob as ondas, quando surge mais adiante traz a criana presa contra o peito. Utiliza apenas o brao livre para nadar.
Recordando conhecimentos adquiridos na infncia, submerge outra vez para aproveitar a fora da vaga no retorno. Durante um instante infinito, da praia enxergam-lhe
apenas o brao erguido, sustentando a menina fora da gua. E se no conseguir retornar, se perder a fora e arriar o brao? S respiram quando ele se ala em meio
 espuma, liberto das vagas.
A me atraca-se com a filha, buscando sentir-lhe a respirao, treme da cabea aos ps. O pai tenta dizer alguma coisa, no consegue, a voz estrangulada. O outro
casal j no faz amor, esto os quatro de p, unidos na angstia e no alivio; nus, de corpo e alma.
Ricardo apenas os enxerga. Ouve por fim o choro da criana, sorri e sai correndo enquanto a noite tomba de vez, sem prvio anncio, noite de quarto minguante, dunas
fantasmagricas. Nas trevas da noite acorrem os demnios.
Do verdadeiro inferno nas trevas da noite acorrem os demnios. durante o dia, atendendo e ajudando os operrios, trabalhando como se fosse um deles, serrando troncos
de coqueiros, revolvendo a massa de barro, areia e cimento, transportando tijolos na canoa do velho Jonas, na qual atravessa a arrebentao da barra para ir ao arraial
do Saco, Ricardo esquece a chaga exposta no peito, o pecado e a condenao. Chega a conceber esperana de perdo como se nada de grave houvesse sucedido.
Na canoa, durante a breve travessia, ao fitar a face plcida de Jonas, ouvindo-lhe a voz monocrdia, de imutvel diapaso, acontece-lhe por vezes sentir repentino
interesse pela vida. Pitando o cachimbo de barro, dominando a embarcao, mantendo-lhe o rumo, Jonas desenrola o novelo das histrias por ali acontecidas, casos
de tubares, aventuras de pesca e contrabando, atrapalhados, equvocos amores de Claudionor das Virgens. Sempre que o trovador aparece por aquelas bandas, pode-se
apostar sem medo de perder: vai acabar em arrelia e confuso, mulherengo como ele no h outro. Jonas puxa fumaa do cachimbo, compara:
- Femieiro que nem padre cura...
Que nem um padre cura? E por qu? Jonas ri, um riso descansado, ao recordar a condio de Ricardo, aprendiz de padre, fornece explicao e conselho, envelheceu no
mar, perdeu o brao esquerdo pescando caes, recolhendo contrabando, nada da vida lhe  estranho e indiferente:
- Tu vai ser padre, pois fique logo sabendo que padre sem catinga de mulher no presta. Como h de entender o povo se no sabe fazer menino?
Andou um desses no arraial, de nome Abdias, no se deu com ningum, as mulheres tinham medo dele, a igreja ficou vazia. J no tempo do padre Felisberto, que viveu
no Saco uns cinco anos, por causa do reumatismo, um padre direito com comadre e sete filhos, a devoo era grande, at ns, de Mangue Seco, vinha pra missa, para
ouvir ele falar, cada sermo mais desenvolvido, contando como o cu  bonito, com msica e festa todos os dias.
No era como Ooutro que, por desconhecer mulher, vivia no inferno, s sabia da maldade. Padre que no cheira a xibiu, cheira a cu, no presta.
Sem seimportar com o escndalo a refletir-se no rosto de Ricardo, Jonas manobra a canoa e conclui sua filosofia:
- Nenhum homem pode viver sem mulher,  contra a lei de Deus. Para que Deus fez Ado e Eva seno para isso? Me responda, se puder.
O moo no responde mas da mesma maneira que a labuta na construo da casa, a tosca viso de Jonas lhe d nimo e esperana de desatar o n do desespero.
Desat-lo ou cort-lo com o fio agudo do desejo quando ela, a tia, alegre e aloucada, rompe as comportas do medo e da conteno em que ele se afoga.
Na presena de Tieta, esquece a chaga aberta no peito, o pecado, o voto rompido, a condenao, mesmo sendo noite e estando os demnios soltos. A presena, o riso,
a voz morna, o amplexo, a boca, as mos, as coxas, o ventre aceso valem lepra, estigma e inferno.
Na ausncia da tia, porm, permanece leproso, marcado com o ferrete dos malditos, em danao, sem instancia de sade, pois ela no estando, os demnios se apossam
dele e o revestem inteiro de pecado, exibindo-o indigno e perdido.
Na rede, Ricardo a procura, por que ela demora tanto? Abandonara o colcho de crina da cama do Comandante e de dona Laura, como deitar-se ali sem a ingrata? Em Agreste,
quando ainda lutava para conservar a castidade, nas noites de tentao, na rede pendurada no gabinete do doutor Fulgncio, na insnia ou no sonho, ele a enxergava
e sentia nua, a perturb-lo at que aflito se esvasse na tentativa de possu-la sem saber como. Durante todas aquelas noites, a tivera a seu lado, no adiantando
prece e promessa, nem o decidido propsito de repelir a viso satnica a torn-lo possesso.
Agora, no entanto, quando conhece a rota e o porto, nem em sonho ela aparece e se ele tenta imagin-la na rede estendida, nua, v apenas Satans e o fogaru.
Que faz a desalmada em Agreste que no vem em seu socorro, libert-lo? Quase o ofende sab-la na cidade, longe dele. L, todos os homens vivem de olhos postos nela;
se atravessa a rua, as miradas e os comentrios seguem-lhe o rastro das ancas em balouo. Cercada por um halo de desejo reprimido, ciranda de fogo da qual todos
participam: de Osnar, com boca suja e a lngua solta, a Barbozinha, cujos versos descrevem- na nua e impudica na espuma das ondas; do rabe Chalita, que a conheceu
mocinha, a Seixas, que a prefere s primas; de Aminthas, metido a engraado, a Bafo de Bode, em destempero e afronta. Ricardo, acompanhando a tia, vestido de batina,
ouvira, ao passar, a fraseinfame do mendigo: ai, quem me dera morrer na sombra desse copado buceteiro! Em lugar de zangar-se, Tieta sorrira enquanto o semin aristaviraca
o rosto para esconder a confuso. Aprisionada nesse crculo de desejo, distante de seus braos, quem sabe se, leviana, no sorrira para algum outro?
Qual? Ricardo no personaliza, todos lhe parecendo indignos dela, no merecendo sequer fit-la, quanto mais recolher sorriso, olhar, gesto de interesse e atendimento.
Quem mais indigno, todavia, do que ele prprio, Ricardo, por menino, sobrinho e seminarista, com votos jurados e ignorncia completa? no obstante, ela atentara
em sua presena, sentira-se perturbada com a nsia a devor-lo, correspondera-lhe ao desejo.  verdade que, nesse estranho caso, Satans encontrava-se envolvido,
diretamente interessado na conquista de duas almas puras: a dele e a da tia. Os outros, eram todos uns perdidos, do bbado imundo a Peto, com treze anos incompletos
e desregrados.
Com qual deles? De repente, na noite aflita, de demnios soltos, Ricardo esquece o pecado, o medo do castigo, o temor de Deus, o sentimento de culpa, preso a um
pensamento apenas, nico e terrvel, que se apossa dele e o mortifica, aperta-lhe o corao, sufoca-lhe o peito: imaginar que ela, Tieta, sua Tieta, sua mulher,
sua amante, possa estar gemendo em outros braos, beijando outra boca, resvalando a mo por outro peito, enrolando as coxas noutras coxas. Com outro a enxerga, a
suspirar e rir; ser Ascnio, tio Astrio, o Comandante, quem?
Ricardo no suporta pensar nisso, fecha os olhos para no ver. no existe lepra, estigma, fogo do inferno que se compare a esse sentimento a afog-lo em raiva, destroando-lhe
as entranhas, pondo gosto de fel na saliva entre seus dentes, uma dor aguda a lhe atravessar os ovos. Em cama ou rede, em cho de terra ou de areia, com outro a
desfalecer, a nascer e a morrer, ah, no! Se tal desgraa acontecesse, aos crimes contra a castidade ele acrescentaria crime de morte, de assassinato e suicdio.
Somente Deus que d a vida, pode dar a morte, Ricardo sabe. Mas se levantaria contra Deus, preferindo v-la defunta do que em desmaio noutros braos e, sem ela,
no deseja a vida e sim a morte.
A lua se desfaz em minguante na noite de destroos, Ricardo desce aos infernos, se consome no cime, como pode sofrer tanto? Salta da rede, corre para o mar, o camisolo
o atrapalha, ele o arranca e joga longe, atira-se na gua, nada at cansar, at o completo esgotamento. Adormece na praia, nu em plo.
Da meditao espiritual ainda adormecido, percebeu um rumor de risos alegres, som de violo e a melodia de um acalanto to bonito e apaziguante que nele se embalou,
encontrando por fim Tieta num extenso e tranqilo territrio de campo e praia, morros e dunas; nua, com um bordo de flores retirado do altar de So Jos, ela conduz
irrequietas cabras, leva-as a pastar nas ondas. Os ps alados no tocam a areia, tampouco os de Ricardo. Do-se as mos e se encaminham, limpos de corpo e alina,
inocentes, para a mo de Deus aberta para receb-los.
Deus contm o mundo em seu regao: o campo, a praia, o mar, as cabras e os amantes. Soam ento as trombetas do juzo final, terna cantiga de ninar, e o profeta Jonas,
velho pescador de contrabandos, eleva-se das guas, cavalgando um tubaro, e proclama a verdade inconteste do Senhor: nenhum homem, seja rico ou pobre, velho ou
moo, forte ou fraco, pode viver sem mulher, nem mulher sem homem,  contra a lei de Deus. Ruem as muralhas do mar, quando Jonas, estendendo o cotoco do brao, ensina
que o amor no  pecado, nem mesmo de tia com sobrinho, de viva com seminarista. Uma menina vem e orna de flores os cabelos de Tieta e os de Ricardo e diz paz e
amor, numa voz de passarinho.
Msica e canto prosseguem alm do sonho e, ao toque dos dedos da criana, Ricardo descerra os olhos. Recorda-se do desvario da noite de cime, da desesperada prova
de natao, da queda, exausto e nu, sobre a areia onde dormira e ainda se encontra. A menina lhe entrega a ltima flor, aucena do campo; ele est cercado por uma
roda de moas e rapazes, algumas crianas, todos igualmente nus e sorridentes, a cantar para ninar seu sono. Acalanto a aquietar-lhe o corao, uma cano estranha,
portadora de paz e alegria, msica celeste. O violo que o magricela tange sobre o peito  harpa de anjo.
Ricardo senta-se devagar, sorri.
No seimporta de estar completamente nu, nem repara, admirado ou curioso, com malcia ou cobia, na nudez em torno, olha simplesmente e v as moas belas, algumas
quase meninas de to jovens, os rapazes barbudos ou imberbes. Cabelos compridos, por vezes rolando sobre os ombros, no eram assim os cabelos de Jesus? Noutros,
as crespas cabeleiras desabrocham em grandes flores desfiadas ou em emaranhados ninhos de pssaros. A roda prossegue em canto e dana, ciranda cirandinha vamos todos
cirandar.
Ricardo pe-se de p.
Encontra-se completamente livre do medo, da servido, do pecado. Na barra da manha, a dana e o canto, o sorriso, a tranqila face das moas e dos rapazes restituem-lhe
a alegria e a paz perdidas.
Libertos do tempo, sem pressa e sem horrio, cantam e danam para ele na atmosfera azul onde nasce o dia. Uma das moas, a me da menina resgatada das ondas, na
vspera, deixa a roda, se aproxima e o beija na face e sobre os lbios e Ricardo conheceu ento a fraternidade, soube-lhe o significado e o gosto. Depois, correram
todos para o mar e as crianas, tomando-o pelas mos, o conduziram.
Tudo era mistrio, sonho, fantasia. Sobre as guas serenas a manha desponta, enquanto moas e rapazes cortam as ondas mansas e as crianas recolhem conchas azuis,
vermelhas, brancas, cor-de-rosa. Alguns casais amam-se na madrugada mas Ricardo no procura ver nem saber, estendido entre eles na praia, em silncio, cercado de
conchas que as crianas lhe oferecem.
Depois, tomando das roupas velhas, desbotadas, rotas, poucas e precrias, reunindo a meninada, rapazes e moas se dirigem para as canoas. no perguntaram o nome
de Ricardo, no lhe disseram nada, nada lhe pediram e sim lhe deram alguma coisa grande, antes desconhecida para ele, uma pureza nova, no aquela do seminrio dependente
do medo e do castigo; agora o pecado j no existe. Nem o demnio, nem a maldade, nem o desespero, varridos da face da terra. Para sempre.
Da fmbria da praia, do comeo do mar, gritam em despedida: paz e amor e vo-se embora. Paz e amor, irmo. Ricardo ficou parado, quieto e redimido.
Da inesperada confisso o ao se dirigir a praia para tomar a canoa onde Jonas o espera para lev-lo de volta a Mangue Seco, nas mos os embrulhos com o serrote novo
e os quilos de pregos, Ricardo enxerga, sentado numa espreguiadeira,  sombra de um p de tamarindo de tronco secular, silhueta muito sua conhecida. Apesar da cala
de brim e da camisa esporte, reconhece Frei Timteo e se recorda que os franciscanos de So Cristvo possuem uma casa de veraneio no arraial do Saco.
Aproxima-se e lhe pede a bno. O frade busca reconhec-lo, onde viu aquele rosto adolescente? Ricardo explica: no seminrio, meu pai. no  seu aluno, ainda est
terminando o seminrio menor, o curso secundrio, somente depois vai realmente comear; contudo, j chegou  fronteira da deciso. E chegou no em tranqila caminhada
mas em desesperada luta com o demnio.
- Meu pai, quando posso vir me confessar?
- Quando quiser, meu filho, quando sentir necessidade.
- Pode ser agora mesmo, meu pai?
- Se deseja, meu filho.
Ricardo fica parado, esperando, certamente Frei Timteo vai vestir a sotaina e lev-lo ao confessionrio na capela do arraial. Mas o frade aponta a outra espreguiadeira:
- Descanse os embrulhos, sente aqui junto de mim, primeiro vamos conversar, depois eu lhe confesso. A tarde est bonita, vamos aproveit-la, Deus a fez assim gloriosa
para que os homens fiquem felizes. A felicidade dos homens  a maior preocupao de Deus. Voc est aqui de frias?
- Estou, sim, meu pai. Quer dizer, aqui no, em Mangue Seco.
- Mangue Seco  o lugar mais belo do mundo. no  verdade que Deus tenha descansado no stimo dia, como rezam as escrituras. - o frade riu, como se achasse graa
no absurdo que vinha de pronunciar. - No stimo dia o Padre Eterno estava inspirado, resolveu escrever um poema, fez Mangue Seco. Alis, at hoje ele continua fazendo
Mangue Seco, com a ajuda do vento, no  mesmo? Voc est com sua famlia?
- S com minha tia mas h trs dias estou sozinho, ela foi at Agreste, eu sou de l. Minha tia mora em So Paulo, veio passear, tinha ido embora h muito tempo.
Eu nunca tinha visto ela, antes.
Como o frade no comentasse, prossegue:
- A tia est fazendo uma casa em Mangue Seco, comprou terreno,  rica. Eu estou tomando conta da obra. Vim buscar material. O pedreiro, o carpinteiro, os serventes
so daqui.
- O povo de Mangue Seco no exerce esses ofcios. quem nasce ali s sabe lidar com o mar e no  pouco. Raa forte, meu filho.
- Meu pai, um dia no seminrio ouvi o senhor falando dos hippies para os reverendos padres, dizendo bem deles, dizendo que no so ruins.
- No me lembro desse dia especialmente mas s digo bem dos hippies, so pssaros do jardim de Deus, todos eles, os msticos e os ateus.
- Os msticos e os ateus, como pode ser isso, meu pai? no cabe em meu entendimento.
- No  o rtulo que d qualidade  bebida, meu filho. Para Deus o que conta  o homem e no o rtulo. Voc est com vontade de deixar o seminrio e seguir com os
hippies?
- no, meu pai. no sei se tenho vontade ou no de ir com eles, nunca pensei nisso. Mas, se tivesse, acho que no ia porque minha me era capaz de morrer. Para ela,
os hippies so demnios, encontrou alguns em Aracaju, ficou horrorizada. Tem medo que meu irmo, se deparar com eles, v atrs. Meu irmo menor, Peto. Ainda no
fez treze anos e no gosta de estudar.
- Por isso voc quis saber dos hippies, por causa de seu irmo?
- No, meu pai.  que, ontem, eu estava de corao pesado, na certeza de ter ofendido a Deus e posto fim  minha vocao, estava cheio de raiva e de cime, como
um amaldioado; s consegui dormir na praia, depois de nadar muito. Quando acordei, os hippies me cercavam e cantavam para mim.
Eles sossegaram meu corao, me deram a paz que eu procurava.
- Paz e amor, so palavras de Deus as que eles usam. Pssaros do jardim celeste, eu no lhe disse? Voc sente vocao para o sacerdcio ou foi mandado para o seminrio?
Ricardo medita, seinterroga, antes de responder:
- Me tinha feito uma promessa, acho que pela sade de meu pai. Mas quando ela me contou, eu mesmo quis ir, desde pequeno me me ensinou a temer a Deus.
- A temer ou a amar?
- E se pode amar a Deus sem ter medo dele? no sei separar as duas coisas, meu pai.
- Pois deve separ-la s. Nada do que faa por medo  virtude. Nada do que faa por amor  pecado. Deus no preza o medo nem os medrosos. Voc deseja mesmo ser padre?
- Desejo, sim, meu pai, mas no posso mais.
- E por que no pode, se deseja?
- no mereo. Pequei, violei a lei de Deus, desfiz o trato, rompi o voto.
- Deus no  homem de negcios, meu filho, no faz tratos de toma e d e quando um filho seu viola a lei, tem o remdio  mo, a confisso. Voc pecou contra a castidade,
no foi?
- Foi, meu pai.
- Com mulher?
- Sim, meu pai. Com...
- no lhe perguntei com quem, isso no muda a qualidade da culpa.
- Pensei, meu pai.
- Diga-me apenas uma coisa: apesar do medo do castigo, voc detestou o pecado ou acha que valeu a pena, mesmo tendo de pagar no inferno?
- Apesar do medo, no me arrependi, meu pai. no vou mentir.
Sorriu o frade com ternura e disse:
- Agora se ajoelhe para receber a penitncia e a absolvio.
- Mas, meu pai, como vou receber a absolvio se no me confessei ainda?
- O que voc vem de fazer, seno se confessar? Reze trs padre-nossos e cinco ave-marias e, se pecar de novo, no fuja de Deus com medo como se ele fosse um carrasco.
Se confesse, a um padre ou a Deus diretamente.
Ajoelhou-se Ricardo, recebeu bno e absolvio mas ainda quer saber se deve ou no continuar no seminrio, alcanar o seminrio maior preparando-se para a santa
misso de levar a palavra de Deus aos homens.
- Meu pai, depois do que eu fiz ainda posso aspirar ao sacerdcio?
Ainda sou digno?
- Por que no? H quem diga que os padres devem casar, h quem diga que no, essa  uma discusso difcil que no cabe aqui. Eu no sei lhe dizer qual o melhor padre:
se aquele que castiga o corpo, deixando-o amargar-se no desejo, aquele que se oprime para assim servir a Deus, macerando a prpria carne, violentando-se, ou o que
sofre por ter pecado, aquele que no resiste ao apelo, se entrega e se levanta para cair de novo. Um se martiriza, inimigo do prprio corpo,  forte, se santifica
talvez. O outro peca,  fraco, mas ao pecar se humaniza, abranda o corao, no vive em luta com o prprio corpo.
Qual deles pode melhor servir a Deus e aos homens? no posso lhe dizer, sabe por qu?
Ricardo fita o velho sacerdote, frgil carcaa, olhos de gua, luminosos, a mo ossuda que o abenoara e absolvera do pecado:
- Por que, meu pai?
A voz de Frei Timteo  clida e paterna:
- Quando eu me ordenei j era um velho. Velho e vivo. Fui casado, sou pai de quatro filhos, tenho o corpo em paz. Procure servir a Deus, servindo aos homens, no
sinta medo nem de Deus nem da vida; agindo assim ser um bom pastor.
- E o Demnio, meu pai?
- O Demnio existe e se revela no dio e na opresso. Antes de ter medo do pecado, meu filho, tenha medo da virtude, quando ela for triste e quiser limitar o homem.
A virtude  o oposto da tristeza, o pecado  o oposto da alegria. Deus fez o homem livre, o Demnio o quer vencido pelo medo. O Demnio  a guerra, Deus  a paz
e o amor. V em paz, meu filho, volte todas as vezes que quiser e, sobretudo, no tenha medo.
Ricardo beija a mo de Frei Timteo, recolhe os embrulhos:
- Obrigado, meu pai, vou em paz. Agora, eu sei.
Da canoa se volta, para novamente ver na tarde luminosa o frade to frgil e to forte. Ainda em vida e j em odor de santidade.
Onde o autor, esse calhorda, mete-se com assuntos que no so de sua conta e dos quais nada entende ainda em vida e j em odor de santidade - retomo o pensamento
do seminarista Ricardo, ao voltar  presena dos leitores para alguns rpidos e indispensveis comentrios com os quais busco fornecer baseideolgica e conseqncia
aos fatos e s reaes dos personagens. Assim evito que me acusem de no estar engajado, de no ser participante, de fugir a comprometimento.
No podem os senhores me culpar por metido, importuno e maador:
a quantas pginas j andamos no terceiro episdio desse arrastado relato, sem que eu haja interrompido a narrativa? Afinal, cabe-me o direito de faz-lo, sou o autor
e no posso permitir que os personagens se dem ao luxo de conduzir sozinhos os acontecimentos, ao sabor de emoes e ponto de vista nem sempre os mais convenientes
 mensagem desejada.
Desta vez, quem me faz tomar da mquina de escrever  Frei Timteo, frade franciscano, ao que tudo indica um desses muitos sacerdotes progressistas que esto tentando
reformar a igreja, partindo de teorias ditas ecumnicas.
Reclamam, exigem um cristianismo militante, situado ao lado dos explorados contra os exploradores, da justia contra a iniqidade, da liberdade contra a tirania.
Querem limpar a igreja de antiga incriminao: a de servir aos interesses das classes dominantes, dos aristocratas e dos burgueses, sendo pio do povo, quando no
 Santa Inquisio em caa s bruxas.
Contra tais avanados sacerdotes que esto rompendo preconceitos e reformulando teses, quem sabe reconduzindo a f crista s suas origens, levanta-se grita violenta
e agressiva, formulam-se libelos provocadores, acusaes perigosas, so tachados de subversivos e, por vezes, vtimas de processo e de cadeia - padres na cadeia
por subversivos, onde j se viu tal coisa depois de Nero e de Caligula?
Na discusso de dogmas no me envolvo, por no ser causa minha, se bem em princpio a polmica travada contenha interesse geral. Em matria de religio mantenho-me
neutro por no possuir nenhuma, a todas respeitando. Reportando-me, porm, a conceitos expressos pelo frade e a casos narrados pelo canoeiro Jonas, quero dar meu
testemunho sobre o problema em causa: as relaes entre castidade e santidade, to discutidas, e o fao com o esprito livre de prejuzo de qualquer ordem, apenas
no interesse gratuito de concorrer para completo esclarecimento do assunto.
Durante sculos e sculos, a castidade constituiu elemento indispensvel, ou quase,  produo de um santo ou de uma santa. Quanto mais flagelada a carne, maior
a possibilidade de beatificao. Assim consta, ao que parece, do direito cannico.
No aprovo o profeta Jonas, duvidoso profeta de contrabando surgindo sobre o dorso de vorazes tubares em lugar de sair do ventre da bblica baleia, quando afirma,
em frase chula, eivada de palavres, que padre se no cheira a vagina, cheira a nus, tentando sem dvida estabelecer discutvel conotao entre o celibato clerical
e a pederastia. Ora, isso nem sempre acontece, a conotao  imprpria e forada. Sobra razo, no obstante, ao rude marujo ao garantir a Ricardo que o pecado contra
a castidade no impede o sacerdote de atingir a bem-aventurana e o milagre.
No me proponho analisar teses morais, preceitos religiosos, quem sou eu? Apenas desejo constatar a evidncia acima enunciada, citando exemplos e apresentando provas.
Posso comear pelo prprio Frei Timteo, em odor de santidade ainda em vida, pois foi casado e  pai de filhos, provou do fruto e isso no impede que entendidos
e leigos o considerem um eleito de Deus, e como tal o proclamem e venerem. Casamento e filhos aconteceram antes da ordenao?  certo, no discuto. no serve o exemplo,
portanto? Eu o retiro, no preciso dele, existem muitos, passo a outro.
Passo ao padre Inocncio, falecido h pouco mais de um decnio, na avanada idade de noventa e seis janeiros, ainda lcido, capaz de distinguir uns dos outros seus
tataranetos. Vigrio por mais de cinqenta anos na cidade de Laranjeiras, enterrou, com devoo e lgrimas, trs concubinas, que lhe deram um total de dezenove filhos.
Cinco, Deus levou na primeira infncia, padre Inocncio criou e educou quatorze, oito vares, todos direitos, e seis moas, todas bem casadas - exceto Mariquinha,
muito dada a homens a ponto de Rubio perder a pacincia e requerer o desquite. Essa saiu a mim, disse o bom padre na ocasio, inocentando-a, tomando a si as culpas
da filha: para quem j tinha tanto pecado, uns quantos a mais no aumentariam a pena.
Na casa espaosa cresceram netos e bisnetos, todos portando o honrado sobrenome do reverendo, Maltez, todos por Deus abenoados. J av de vrios netos ainda fazia
filhos, e quando lhe trouxeram o primeiro tataraneto, para que ele lhe deitasse a bno e o batizasse, deu graas ao Senhor e louvou seu santo nome, no o fazendo
em vo.
Certa feita um missionrio, desses que vo de cidade em cidade pelo interior do Norte e do Nordeste, assustando o povo, e que no era outro seno W A, o nosso conhecido
Dom Alfonso de Narbona y Rodomon cuja pronncia da lngua portuguesa j era prenncio de condenao, ao v-lo, patriarca no recesso do lar, em companhia da terceira
e derradeira amsia, a mais linda das trs, jovem de vinte e poucos anos - curima digna de um rei, no verso do violeiro Claudionor das Virgens, que rimou sua face
de roma com a luz da manh - aode v-lo rodeado de filhos e netos, apontou-lhe um dedo acusador e apostrofou:
- No tem vergonha, padre, de levar vida assim licenciosa, e, no contente de pecar, exibir publicamente as provas do pecado, escandalizando os fiis?
- Deus disse: crescei e multiplicai-vos - respondeu padre Inocncio Maltez, a voz pacata e o sorriso ameno. - Eu cumpro a lei de Deus. no vi, em parte nenhuma,
notcia de que Deus houvesse dito que padre no pode ter mulher nem fazer filho. Muito depois  que inventaram essa lorota, obra de algum capado como Vossa Reverendssima.
Quanto ao escndalo dos fiis, para mortificao do missionrio, ele prprio constatou no existir. ao contrrio, o que havia era certo gudio, dir-se-ia mesmo certo
orgulho do vigor do santo varo, aos oitenta anos se gabando de ainda cumprir as obrigaes inerentes ao seu estado de mancebia.
No sendo padre Inocncio homem de mentiras, os fiis viram na potente faanha por ele revelada aspecto milagroso, evidente sinal da graa divina.
Alis, ao que parece, os primeiros milagres o padre Inocncio os realizou ainda em vida, antes de Deus o chamar ao paraso onde o esperavam as trs mulheres e nove
filhos, os cinco mortos cedo, quatro adultos e alguns netos e bisnetos, um pequeno cl no foram, no entanto, grandiosas essas primeiras provas de santidade: pequenas
curas, feitas  base de simples aplicao de gua benta, de molstias de pouca gravidade. Fez chover por duas vezes quando a seca ameaou o povo de Sergipe.
Apenas faleceu, porm, e j no mesmo dia do funeral, acompanhado por toda a populao da cidade e das vizinhanas, comeou a safra dos prodgios, cada qual mais
impressionante. Logo depois que o corpo do padre baixou  terra, ali mesmo junto ao jazigo perptuo onde repousa ao lado dos restos mortais das trs saudosas, uma
paraltica invocou seu nome, largou as muletas e saiu andando com passo firme. A notcia se espalhou.
Depois desse espetacular comeo, nunca mais se deteve o padre-mestre e at hoje as curas se sucedem, cada vez mais numerosas e extraordinrias.
Laranjeiras, cidade da maior beleza, esperara durante anos, inutilmente, igual a Agreste, os turistas que no vieram admirar-lhe o casario deslumbrante antes da
completa destruio, obra do tempo e do descaso. Em troca, com os milagres do padre Inocncio, h uma romaria permanente de enfermos e aflitos a acender velas na
igreja e no cemitrio, junto  campa onde atende o bonssimo e viril pastor de almas. Para mulher estril, basta rezar um tero e fazer o pedido,  tiro e queda;
se forar a reza, nascem gmeos.
Na data de aniversrio de sua morte, a romaria cresce em santa misso e os peditrios somam milhares, a cidade ganha movimento, comrcio e alegria.
Para acolher os peregrinos, alm dos descendentes do reverendo, encontram-se gratos miraculados,  frente dos quais a hoje beata Marcolina, a que largou as muletas
no dia do enterro do padre Inocncio, a primeira agraciada.
Cito um exemplo, poderia citar vrios, deixo de faz-lo por no querer tomar mais tempo aos senhores. Antes de despedir-me, lastimo apenas que no exista em Agreste
padre assim perfeito como o reverendo Inocncio Maltez, o santo de Laranjeiras, para promover o turismo religioso na cidade.
Padre Mariano no d asa a falatrios, por incorruptvel ou discreto, no sei.
No pretendo me imiscuir em sua vida, no o acompanho quando vai  capital, resolver assuntos da diocese, certamente; para dar vazo  natureza, segundo a m lngua
de Osnar e de outros debochados. Pelo menos escndalos no provoca, capazes de desencadear a ira de missionrios em busca de pecados; em Agreste jamais deu o que
falar. As beatas, a comear por Perptua, esto de olho em cima dele, permanentemente, no afrouxam a vigilncia.
Fugindo  tal vigilncia, me despeo. Preparo-me para ir a Laranjeiras, muito em breve. A idade est chegando, sabem como . Dizem que, com um bolo para os pobres
de padre Inocncio, se obtm surpreendentes resultados, tanto mais rgidos e duradouros quanto maior o bolo. Assim seja.
Da segunda apario dos superheris, desta vez vindos do mar, captulo recheado de perspectivas e projetos, envolvendo diversos cidados: do magnfico doutor a
Osnar, de peto a Ascnio Trindade quando os seres luminosos anunciados na profecia do beato Possidnio surgiram novamente em Agreste, vindos do Oceano Atlntico
em potente lancha a motor, modernssima, aumentados em nmero e em sexo pois aconteceram machos, fmeas e andrginos, j se haviam extinguido os ecos do escndalo
provocado pela minissaia de Leonora. A formosa paulista, com a compostura demonstrada no correr do tempo, silenciara os comentrios e cara nas boas graas das devotas.
Elisa desistira de desobedecer ao marido, guardando o seu polmico saiote para us-lo em So Paulo, em breve, se Deus quisesse. no se atrevera a afrontar o deboche
e a condenao de Agreste.
Com a segunda apario dos seres extraterrenos, porm, a minissaia tornou-se objeto familiar aos olhos de toda a populao da cidade.
Desabatado, Peto chega da beira do rio, a notcia empolga o bar: est desembarcando um batalho de gringas. Mal acaba de falar e a praa se enche de marcianos. Ascnio
Trindade despenca-se da prefeitura. Todas as fmeas vestem minissaias de tecido xadrez - escocs grado, reconhece dona Carmosina -, blusa amarela, de malha, altas
botas de pelica negra. Nem que fosse de propsito, com o objetivo de redimir Leonora por completo, a cidade  invadida por aquele desparrame de coxas e ancas expostas
 brisa e aos olhares vidos da multido que acorre de todos os lados.
Idnticas no uniforme, devem ser parte de um exrcito ou de uma seita religiosa. Verdadeiramente lastimvel a ausncia do beato Possidnio, perde farta matria para
indignao e pragas, seria um pagode. Voltara para Rocinha onde medita e cura.
Veterana, pois vinha pela segunda vez, pernalta e flexvel, comandante do batalho ou sacerdotisa, assistente do guru, a ruiva acena com a mo e retira os culos,
oferecendo  admirao geral os olhos de rmel. Minissaia de boneca a revelar tudo, constata Osnar:
- No mede um palmo dos meus...
E avana para saudar a viandante do espao, para reatar antigo conhecimento:
- Por aqui, de novo? Uma honra para o condado de Sant'Ana do Agreste.
- V, lindo, me oferea um guaran, uma coca- cola, v. Morro de sede.
Eu e todo o staff aqui presente.
Os demais membros do stafl aproximam-se lacres, efervescentes. Nos machos poucos reparam, os olhos no bastam para as fmeas. Alguns seres deixam em dvida atroz
os tabacudos cidados, confundidos, sem saber o que pensar: aquele ali ser macho ou fmea, mulher ou homem? E aquela figura estranha, ser hermafrodita?
Abre-se a janela da casa do prefeito, aparece o rosto aflito, a barba de trs dias do dentista Mauritnio. O sucesso da minissaia de Leonora na feira provocara assovio,
gargalhada, troa e trova; tantas minissaias reunidas na praa provocam pasmo e silncio. Entupida a calada em frente ao bar, esvaziam-se as lojas e os armazns.
- No bar j tem gua- de- coco - anuncia Ascnio Trindade convidando o Ente Excelso e seus companheiros. Seu Manuel curva-se para receb-la.
- Que eficincia! - Miss Espao eleva a voz, consulta os demais. Quem gosta de gua- de- coco?
- S com usque, filha- responde Afrodite, a longa cabeleira batendo no rego da bunda, cala bem colada, bluso hindu, uma cascata de colares.
- Por que ela no est de minissaia? - pergunta Osnar, sentindo-se lesado por no poder admirar coxas e ancas to prometedoras.
- Porque no  ela, lindo.  ele... Quer dizer... mais ou menos...  Rufo, nosso decorador. Tem um sucesso!...
- Negativo. O lindo aqui no aprecia, que se h de fazer?
Demoram pouco, esto de passagem, vindos de Mangue Seco onde outros ficaram, engenheiros e tcnicos, conforme revela a nova Barbarela. Os que esto curtindo as paisagens
so publicitrios, assistentes, secretrias, relaes- pblicas, contatos: competentssima equipe. Desalteram-se no bar antes de voltar  lancha e seguir rio acima
no rumo de Sergipe.
- O queima-rodinha  Rufo, e vs, Princesa, quem sois e donde vindes?
Por acaso polaca?
- Elisabeth Valadares, Bety para os amigos, Beb para os ntimos.
Carioca da gema, garota de Ipanema. Morou na rima?
Sorri com inmeros dentes, alvssimos, bem tratados, boca de anncio de pasta dentifrcia:
- Trago um recado para voc, amor. - amor  Ascnio Trindade para desaponto de Osnar. - Do Magnfico Doutor.
- De quem? - Ascnio, num p e noutro. - Repita, por favor.
- Do doutor Mirko Stefano, darling, no sabe? Tratam ele de Magnfico Doutor e  mesmo. Voc vai se dar conta sozinho, amor.  aquele po doce que veio comigo da
outra vez, se lembra? Sou secretria dele, secretria executiva, sabe? Mandou dizer a voc que no pde vir hoje, teve de ir a So Paulo para uma entrevista importante,
mas dentro de poucos dias aparecer para conversar com voc e acertar tudo.
- Tudo?
- Tudo, sim, honey. Tudinho.
- Mas tudo o qu?
- Ah!, isso no sei, quem sabe  o Magnfico,  assunto dele e seu, no me meto. Discrio  o meu lema. Agora, adeusinho, sonhe comigo, petit amour. Adeus para
voc tambm, lindo. - Lindo  Osnar, ele se regala: se pego essa boa no escuro, vai sair fasca, Beb vai saber o valor do pau de um sertanejo.
- Vamos, patota! - comanda a mtica secretria.
- No tem mais nada para se ver aqui? - pergunta o nervoso Rufo, abanando a cabeleira de Mona Lisa.
- Nada.
- Que saco!
Decorador enfadado mas atento, o esteta Rufo passa em frente a Osnar sem o notar sequer. Mede, porm, o garoto Peto e o aprova mordendo o lbio, lnguido. Osnar
acompanha-lhe olhar e gesto: xibungo sem- vergonha, bicha louca, no respeita nem mesmo uma criana. Criana? O corneta cresceu, espichou, certamente de tanto bater
bronha, est chegando a hora de Osnar cumprir a promessa feita e lev-lo  penso de Zuleika.
- Com quantos anos voc est, Sargento Peto?
- Vou fazer treze no dia oito do ms que vem.
- Oito de janeiro! Muito que bem.
Treze anos, a idade exata, Osnar vai combinar a festa com Zuleika e Aminthas, com Seixas e Fidlio. Na surdina, escondido de Astrio, seno ele conta a dona Elisa
e dona Perptua acaba por tomar conhecimento, o mundo vira abaixo. Osnar sorri consigo mesmo, vai ser uma pndega, um rebucet.
Ao cair da noite, chegando de Mangue Seco na canoa a motor, comandante Drio disse ter sido vista uma escuna ancorada na barra, dela haviam baixado ao mar duas lanchas,
uma das quais a que subira o rio, escalando em Agreste; a outra desembarcara indivduos e instrumentos na praia. Andaram fazendo perguntas aos pescadores, internaram-se,
depois, no coqueiral. ao Comandante todo esse movimento parece suspeito.
Ascnio Trindade, agora inteiramente certo de que se trata do estabelecimento de uma empresa turstica na regio, promete ao Comandante notcias concretas nos prximos
dias. O mandachuva enviou a secretria executiva com recado, vir em breve para conversar, na certa para anunciar os projetos e obter apoio da prefeitura. Apoio
que no faltar, Comandante.
Com o turismo reerguendo Agreste, Ascnio, timoneiro a comandar o progresso do municpio, poder ter esperanas de transformar o sonho em realidade. Depois de tantos
anos, pela primeira vez Ascnio Trindade sente-se mordido pela ambio, pelo desejo de ser algum. Algum com possibilidades de lutar por Leonora Cantarelli, bela
e rica. Antes completamente inacessvel, uma quimera. Agora conquista a ser realizada, meta a ser cumprida por um batalhador com os ps na terra, ideal de quem provou,
em transe difcil, em duro desafio, coragem e competncia capazes de superar os obstculos e ir em frente, aspirao de um jovem temerrio e lcido a vencer as provaes.
A mais difcil, a que o virara pelo avesso, a essa Ascnio j vencera, falta-lhe to- somente melhorar de vida, ser algum, para poder aspirar  mo de Leonora,
pedi-la em casamento. Ela rica, ele pobre. no importa mais. Porque, se ele no tem fortuna a oferecer-lhe, em compensao ela j no possui o bem mais precioso
que a noiva deve trazer para ofertar ao noivo na noite do matrimnio, o sangue da virgindade. Na face de Ascnio espelha-se a vitria mas no a paz, constata o comandante
Drio.
Do suicdio do prefeito Mauritnio Dantas e dos conselhos do coronel Artur da Tapitanga impossvel negar-se ligao imediata entre a presena em agreste dos pioneiros
comandados por Elisabeth Valadares, a ltima verdadeira " Garota de Ipanema, e o suicdio do cirurgio- dentista Mauritnio Dantas, prefeito de Agreste, a horas
tardias daquela mesma noite encontrado morto,; a lngua de fora, nu e feio. Usara o pijama para enforcar-se no banheiro.
Quando os desbravadores atingiram o bar e desfalcaram os estoques de coca- cola, guaran e cerveja do honrado portugus, o dramtico prefeito foi visto na janela
de sua casa, brechando as exibidas coxas marcianas e cariocas, rosnando nomes, bastante agitado. Mirinha, irm e enfermeira, no conseguiu lev-lo para o quarto
onde, durante dia e noite, entregava-se, ansioso e eficiente, ao exerccio da masturbao. Naquela tarde, comprovando haver chegado finalmente a safra de mulheres
solicitada, de h muito, ao bom Deus, exercitara-se  janela,  vista daquele mar de coxas, prova da magnanimidade divina.
Na opinio geral, doutor Mauritnio Dantas comeara a ficar tanta quando a esposa, Amlia, na intimidade Mel, juntou os trapos e foi encontrar-se com Aristeu Regis
em Esplanada, dali tomando o casal rumo ignorado. Aristeu Regis visitara Agreste na qualidade de enviado da Secretaria da Agricultura para estudar problemas ligados
ao cultivo da mandioca. Amlia no agentava mais viver ali, nem mesmo ostentando o ttulo de Primeira Dama do Municpio, ttulo e merda sendo a mesma coisa, segundo
ela.
Aristeu ofereceu-lhe o brao e o desconforto, ela no vacilou. Algumas senhoras, amigas de Mel, confidentes de seus desgostos, afirmam ter o delrio do prefeito
comeado muito antes pois sujeitava a esposa a desregramentos e abusos insuportveis, sendo esse o motivo real da fuga. Fosse assim ou assado, o processo de esclerose
acentuou-se visivelmente aps a partida da infiel. No dizer de Aminthas, nosso prezado Governador Civil administrara os chifres com perfeita honorabilidade e discrio
enquanto Amlia derramou o mel de sua graa ali no municpio. Quando preferiu faz-lo longe das vistas e das atenes do cnjuge, o Dignssimo Chefe da municipalidade
no resistira a tanta ingratido: jamais se opusera s folganas da esposa, por que ela o abandonara?
A demonstrao inicial da demncia deu-se poucos dias aps a desero de Mel: o prefeito decidiu, no sbado, atender os solicitantes, vindos das roas e povoados
com reclamaes e pedidos, em estado de completa nudez e, para tal fim, despiu-se, retirando inclusive os sapatos. Manteve-se de meias, no entanto, para no pisar
descalo o frio assoalho da sala. Qualquer cochilo de Mirinha e o dentista vinha para a rua ou a praa, de cuecas ou sem, a masturbar-se em pblico para jbilo dos
moleques. Durou meses essa penosa situao comentada aos cochichos.
Quando, da janela, doutor Mauritnio Dantas constatou o movimento de retirada das celestes minissaias, no se conformou. Atendendo  contnua e fervorosa solicitao,
Deus as enviara para consolo de seu sofrido servo, como ousavam partir? Interrompendo a solitria e deleitosa prtica, saiu porta afora, aos gritos, tentando apoderar-se
de pelo menos meia dzia, necessitando delas para esquentar-lhe o leito glido com a ausncia de Mel, suavizar as perfurantes molas do gasto colcho em que rolava
insone. Molas e chifres, segundo o implacvel Aminthas.
Seminu e atrasado, decadente campeo, chegou ao bar quando O onrico batalho j se desvanecia no caminho do rio. Seu Manuel Portugus, Astrio e Seixas sujeitaram
o prefeito, o mais delicadamente possvel, e o restituram  irm em pranto.
No cemitrio, Ascnio Trindade, herdeiro certo do posto, fez o elogio pstumo do saudoso chefe e amigo. Se bem nascido na capital, Mauritnio Dantas, nos dezoito
anos de residncia em Agreste, tornara-se estimado de todos e prestara reais servios  coletividade, profissional competente e administrador dedicado. Alm dos
benefcios devidos  diligente atuao de Amlia, que tantos eleitores conquistara para o marido antes de desertar da poltica, como murmurou Aminthas a dona Carmosina,
em fnebre aparte.
Padre Mariano aspergiu o caixo com gua benta, terminando de vez com a principal diverso dos moleques de Agreste.
De conformidade com a lei, o Presidente da Cmara Municipal, coronel Artur de Figueiredo, assumiu o posto. Mas o senhor de Tapitanga, marchando com passo firme para
os noventa anos, assumiu apenas para constar.
Ningum mais indicado do que Ascnio Trindade para dirigir os destinos, gloriosos e decadentes, de Sant'Ana do Agreste.
- Ascnio, meu filho, confio em voc. No prximo pleito, a gente lhe elege de uma vez, acabou-se. Enquanto isso, v conduzindo o barco que eu j estou mais para
l do que para c, s sirvo para cuidar de minhas cabras e assuntar a lavoura de minhas roas.
Com a bengala aponta para fora da janela:
- Agreste foi terra de muito cabedal e muito fausto. Teve at mulher dama francesa fazendo a vida nessas bandas. Mais de uma. Tudo se consumiu na fumaa do trem,
at o contrabando e as gringas. S ficou a medicina das guas, o clima salubre, sem falar na boniteza.
Encarou Ascnio com afeto:
- Voc  meu afilhado e podia ter sido meu filho se, em vez de se meter com uma lambisgia na Bahia, tivesse casado com Clia.
Referia-se  filha mais moa, nascida quando o coronel j comemorara sessenta e cinco anos e seis netos. Do dois casamentos tivera quinze filhos, na rua no sabe
quantos.
- no quis e por isso tenho de sustentar um vagabundo que passa o dia tocando bumbo, esse tal marido de Clia. ..
- Bumbo, no, coronel. Bateria. Xisto Bom de Som  considerado um dos melhores bateristas de Salvador...
- Isso  l profisso de homem...
Por um momento pensou na filha, tinha-lhe apego e a quisera na fazenda. Terminara sozinho com as cabras, esparramados pelo mundo os onze filhos vivos.
- Voc vai ser o prefeito de Agreste, seu av foi intendente, eu fui intendente e prefeito. S lhe recomendo uma coisa: mantenha a cidade limpa.
Essa terra sempre primou pela limpeza e pelo clima, desde os tempos de antanho, de dinheiro sobrando e muita animao. Conserve Agreste assim, j que no se pode
trazer de volta a animao.
Engano do Coronel da Tapitanga: a animao ia voltar inesperadamente, ameaando sade, limpeza e clima.
Do hmen na garupa do cavalo por uma porta safa das profundas dos infernos o seminarista Ricardo, por outra nelas penetrava, atravessando as chamas eternas, desvairado,
Ascnio Trindade, secretrio da prefeitura do municpio de Sant'Ana do Agreste, amoroso votado  decepo. Liberto de condenao e pena, ressuscitado no canto dos
hippies, na aura da santidade do frade, na fora os remos de Jonas, o seminarista cedeu sua vaga nos infernos ao amargurado sofredor, reincidente vtima dos descabaadores
profissionais.
Para quem fora mais difcil a conversa? Para ele, sobre cuja cabea ruiu o mundo pela segunda vez, ou para dona Carmosina, aplicada e atenta estudiosa das reaes
dos seres humanos, mas no fria, insensvel analista.
Sofrera com a dor do amigo, dilacerando-se ao dilacer-lo, prendendo as lgrimas nos olhos midos ao revelar a verdade sobre as conseqncias fsicas do infeliz
noivado de Leonora. Desejara ser sutil e delicada, escolher as palavras, explodiu brusca e aflita:
- Seja homem!
Foi tudo quanto disse num arroubo infeliz. Explicao difcil, mesmo para dona Carmosina, de verbo fcil e eloqente. Quando Ascnio a viu cheia de dedos, vacilante,
gaguejando, sem rumo para a confidncia, pedira numa voz de condenado  morte:
- Diga de uma vez, seja o que for.
Pensava saber do que se tratava desde a tarde, quando dona Carmosina lhe avisara, em segredo, no Arepago:
- Tenho um assunto a falar com voc. Passe l em casa hoje  noite.
Aqui, no pode ser.
Certamente, ante as visitas dirias, as conversas na varanda da casa de dona Perptua, a presena imposta a qualquer pretexto, as flores, o pssaro sofr, o casal
de noivos montado num burro, evidente insinuao em barro cozido, a noiva em branco, o noivo em azul, dona Antonieta ou a prpria requestada tinha mandado dona Carmosina
chamar sua ateno para a desagradvel inutilidade de tamanha insistncia. no se dava conta do abismo a separ-lo da moa paulista? Um pobreto de Agreste, reduzido
a nfimo salrio de servidor municipal de prefeitura sem rendas, no tem direito a aspirar  mo de herdeira milionria, cobiada por potentados e lordes do Sul.
no podia ser outro o tema da conversa.
Restava-lhe saber de quem a iniciativa. De dona Antonieta? De Leonora? Idntica na terrvel conseqncia, a punhalada causaria maior ou menor sofrimento, dependendo
no entanto de quem a vibrasse. Ascnio esperava partisse o recado de dona Antonieta, madrasta preocupada com o futuro da enteada, adotada e amada como filha nascida
de seu prprio ventre. no nega razes ao amor materno: ele as compreende e agir como homem de bem, afastando-se; antes de tudo, a felicidade de Leonora.
Talvez ela tambm sofresse com a drstica medida e esse sofrimento da bem-amada ajud-lo- ia a suportar a provao, a cumprir o sacrifcio. Podia acontecer tambm
- e por que no? - que Leonora se revoltasse contra a madrasta dinheirista e resolvesse lutar ao lado dele pela continuao do idlio.
Caber-lhe-ia ento mostrar dignidade e desprendimento, renunciando, imolando-se, j que nada pode oferecer a quem tanto tem a dar. Exaltantes pensamentos a consol-lo
durante a desassossegada tarde de espera.
Apesar do corajoso apelo para desembuchar tudo de uma vez, fosse o que fosse, dona Carmosina continuou buscando foras, reunindo coragem, um n na garganta. no
suportando mais tanta demora, Ascnio resolveu colocar as cartas na mesa, a voz lgubre:
- Dona Antonieta mandou pedir que eu deixe Nora em paz, no foi?
Antes fosse tarefa assim to fcil: junto com o recado, dona Carmosina daria opinio, conselho para que continuasse a luta, no abandonasse o campo de batalha. Vendo-a
ainda calada, Ascnio adiantou a pior hiptese:
- Ento, foi Leonora mesmo quem mandou dizer... - voz de condenado  morte aps a denegao do pedido de graa.
Dona Carmosina tenta falar, emite apenas um som gutural, Ascnio entra em pnico:
- Pelo amor de Deus, fale alguma coisa, Carmosina. Ela  doente?
Pulmo? J pensei nisso, no tem importncia. Tuberculose, hoje, no mete medo a ningum...
e Dona Carmosina faz das fraquezas fora:
- Nora foi noiva, voc sabe.
- De um canalha, sei. Queria avanar no dinheiro dela mas dona Antonieta o desmascarou, voc me contou. Mas eu no quero dinheiro de ningum, s lastimo que ela
seja rica. Tem muita gente que casa com separao de bens.
- Tambm tem homens que casam com viva...
- Com viva? A que vem isso? no entendo.
Tendo comeado, dona Carmosina foi em frente:
- Namoro em So Paulo, Ascnio, no  como aqui, noivado, muito menos - recordava as palavras de Tieta e as repetia. - L os noivos vo a festas sozinhos, a boates,
voltam pela madrugada, at viajam juntos. No Sul, moa para casar no precisa ser virgem. O preconceito da virgindade, porque  simples preconceito...  como se
ela fosse viva...
- Leonora? O tal do noivo? no  mais...
Leu a resposta nos olhos mnimos de dona Carmosina. Cobriu o rosto com as mos, de sbito esvaziado e inerme. Um desejo nico o assaltou: mata o canalha que conspurcar
a pureza de Nora e, que ao faz-lo, destrura o mal:
belo dos sonhos. Dona Mil vinha da cozinha com uma bandeja, cafezinho acabado de coar, bolos de milho e puba. Ascnio levantou-se e partiu, sen uma palavra.
Sab-la deflorada foi dura prova. Atravessou os quintos do inferno e no pde conter as lgrimas por mais se acreditasse macho, infenso ao choro.
Quando recebera a carta de Astrud, rompendo o noivado e comunicando O prximo casamento, e logo depois a soube grvida do outro, sofrera como um co danado mas nem
assim chorara. Na noite indormida porm, aps a noite pungente, o ardor dos olhos fixos dissolveu-se em pranto. Noite de pesadelo, de lgrimas e meditao, de luta
consigo mesmo. Antes de ouvir a sentena de morte da boca de dona Carmosina, Ascnio deixara Leonora na porta, a acenar adeus da casa de Perptua, ntegra, pura,
perfeita. Imagem para sempre perdida, jamais a rever assim completa. Agora, manchada, penetrada, rota, desonrada, nem por inocente vtima menos deflorada. Noite
em que o amor foi medido, pesado, confrontado, sujeito a todas as provas de uma vez, noite da batalha inicial contra o preconceito. Preconceito, simples preconceito,
dissera dona Carmosina e tinha razo. Muitas vezes, na faculdade, Ascnio participara de discusses sobre o candente tema: virgindade e casamento.
Teoricamente, tudo simples e fcil: mero preconceito feudal Citando o exemplo dos Estados Unidos e dos pases mais adiantados da Europa: Frana, Inglaterra, Sucia,
Dinamarca, Noruega, sem falar nos pases socialistas onde, segundo os reacionrios, campeava o amor livre, os estudantes progressistas, entre os quais Ascnio, defendiam
o direito da mulher  vida sexual antes do matrimnio. Por que apenas o homem tem esse direito? Preconceito patriarcal, machismo, opresso do homem sobre a mulher,
atraso social, os argumentos sucediam-se esmagadores mas, ainda assim, a maioria se mantinha apegada  exigncia secular: a mulher deve chegar virgem ao leito conjugal,
deixar sobre o alvo lenol as gotas de sangue, dote do marido. no adiantavam sequer as perguntas irnicas dos mais exaltados e custicos, querendo saber a diferena
entre a cpula e as desenfreadas sacanagens de todo tipo empreendidas por namorados e noivos, a bolinao levada aos ltimos extremos, dedo e lngua, pau nas coxas,
na bunda e etecetera e tal. Que adianta respeitar o hmen e conspurcar o resto?
Argumentos todos eles irrespondveis mas nem por isso convincentes para a maior parte dos universitrios. Exaltadas e inconseqentes, as discusses terminavam descambando
para o relato de anedotas frascrias sem que chegassem a acordo.
Ao rememorar na noite interminvel de amargura e indagao os debates com os colegas, Ascnio lembrou-se da surpreendente descarao de Mximo Lima, tanto mais inesperada
por ser o colega lder inconteste da esquerda estudantil, celebrada pelo radicalismo de suas posies ideolgicas, expostas em inflamados discursos contra a economia
e a moral burguesas.
Amigos fraternos desde os tempos de ginsio, Ascnio via em Mximo a expresso mais alta e sincera do revolucionrio, liberto de abuses e convencionalismos, lcido
e consciente. Ele prprio, Ascnio, se bem solidrio com as reivindicaes do movimento estudantil, no se comprometera com nenhuma organizao ou grupo poltico,
nem sequer apoiava todas as posies de Mximo, contentando-se em admir-lo e defend-lo quando a direita atacava, acusando-o de inimigo de Deus, da Ptria e da
Famlia.
Haviam sado juntos de acalorado debate sobre divrcio, virgindade, direitos da mulher, Mximo ainda exibia nos olhos um resto da exaltao com que defendera a igualdade
dos sexos em todos os domnios humanos.
Rindo, em tom de pilhria, para divertir-se, Ascnio lhe perguntara:
- Me diga a verdade, mano velho. Se um dia voc viesse a saber que Aparecida - aparecida era a noiva de Mximo, colega de faculdade e de iderio poltico - no era
virgem, tivera um caso antes, assim mesmo voc casava com ela?
- Se casaria com ela, sabendo que no era virgem?  claro que sim. Respondera sem vacilar. Em seguida, porm, deixando cair os braos e a exaltao, honradamente
confessou. - Para falar a verdade, no sei. Nunca pensei no assunto em termos pessoais. Uma coisa  certa, Ascnio: o preconceito vive dentro da gente. Voc pensa
uma coisa, defende seu pensamento, ele  correto, voc sabe disso, mas na hora de aplic-lo... Casaria mas, antes, teria de esmagar o preconceito...
- E conseguiria?
- no sei, no posso te dizer. S poderia tirar a limpo se a coisa acontecesse e eu tivesse de resolver, de enfrentar o problema.
Acontecera com ele, Ascnio, tantos anos depois, quando no tem Mximo a seu lado para o debate, a conversa, o conselho. Formados, Aparecida e Mximo j no so
os radicais de ontem, se bem no houvessem renegado os dias da juventude; ele se acomodara na Justia do Trabalho, advogado de sindicatos e de operrios, ela pendurara
o diploma para dedicar-se ao marido e aos filhos. Sozinho, Ascnio deve enfrentar e resolver o problema.
Na noite sem descanso, em nenhum momento culpou Leonora, a seu ver incauta vtima do canalha. no a julgando culpada ou indigna, sofria to somente pelo fato de
sab-la deflorada, incompleta. Dilacerado pela dvida: prosseguir desejando-a como esposa, sonhando noivado e casamento ou desaparecer para sempre de sua frente?
Ter foras para fit-la, sabendo que ela foi possuda por outro, desonrada?
Nesse dilema debateu-se noite afora, o corao opresso, as lgrimas impondo-se sobre o orgulho masculino, vacilando entre a fora do preconceito e a fora do amor.
Uma nica soluo no lhe ocorreu em momento algum, exatamente a desejada por Tieta: transformar o idio casto em agradvel aventura casual, trocar o sonho do casamento
pela possibilidade de dormir com Leonora enquanto ela permanecesse em Agreste, aproveitando-se do conhecimento de seu estado, encerrando o caso na porta da marinete,
num rpido ou prolongado beijo de despedida.
Quando a madrugada nasceu sobre o rio, o amor vencera a primeira batalha: Ascnio no conseguira arrancar Leonora do corao, nem a ela nem ao propsito de t-la
como esposa, senhora de seu lar. no obstante, a ferida estava aberta, sangrando, e ele temeu encontr-la imediatamente.
Talvez no conseguisse esconder o sofrimento; sobretudo, no desejava que ela o soubesse a par da verdade. no era homem de dissimular seus sentimentos, no sabia
usar mscara, tudo que ia por dentro dele se refletia no rosto. no estando certo de poder controlar face e corao, guardando ainda nos olhos lgrimas por chorar,
decidiu ir fiscalizar algumas obras da prefeitura em Rocinha, pontilhes e mata- burros. Acordou o moleque Sabino que dormia na sala do cinema, numa cama de vento,
deixou com ele um recado para Leonora: chamado urgente obrigava-o a afastar-se da cidade por um ou dois dias; partindo ao romper do sol, no pudera despedir-se.
Apenas voltasse, iria v-la.
Iria v-la ou no, tudo dependendo da reflexo e da deciso dela decorrente. Selou o cavalo - ddiva do coronel Artur da Tapitanga  prefeitura - e tocou-se para
os matos, levando na garupa o hmen roto de Leonora. l com ele, no passo lento do cansado animal, levantando detalhes, dvidas, indagaes.
Uma nica vez ou muitas vezes? Muitas no teriam sido pois o embusteiro fora desmascarado e expulso; talvez algumas poucas, mais de uma, porm. Que importa quantas
vezes? O terrvel  ter ela se dado a outro, no se haver conservado ntegra e pura.
Fizera-o todavia antes de conhecer Ascnio, nada a assemelhava  traidora Astrud, a escrever-lhe cartas de amor enquanto se rebolava com outro e dele engravidava.
Leonora apenas se entregara em momento de desvario, quando a paixo falou mais alto que a decncia.
Teria apenas se deixado possuir, enganada pela lbia do miservel ou, no prosseguimento dos embates, conhecera a violncia e a doura do prazer, desmanchando-se
em gozo?
No dorso do cavalo, no meio das plantaes de mandioca ou do verde milharal, ouvindo queixas e pedidos dos roceiros, as indagaes o perseguiram e revolveram, o
hmen de Leonora atado  garupa do cavalo, mil vezes deflorado na viagem lenta, no combate longo.
Do dilacerado hmen o amor cresceu vitorioso. Ascnio, aos poucos, sem a ajuda de hippies, de padres progressistas e de profticos canoeiros, acalmou o corao,
reteve as lgrimas e enterrou o preconceito. Passou a imagin-la viva, uma jovem, formosa e infeliz viva. Imbatvel dona Carmosina, cabe-lhe sempre a derradeira
palavra. A uma viva no se reclama virgindade, apenas decoro e amor. Decidiu prosseguir no sonho - de to difcil consecuo - de um dia pedir a mo de Leonora
em casamento. Sab-la enganada e violada fez com que a sentisse ainda mais prxima e querida, mais amada.
De regresso a Agreste, foi em seguida visit-la em casa de Perptua.
Leonora achou-o abatido, sem dvida cansado da viagem, tantas lguas a cavalo, sob o sol ardente, cuidando dos interesses do municpio. Passou-lhe a mo na face,
brandamente, em inocente agrado. Violada, sim, porm perfeita de candura e de pureza, casta mais que qualquer virgem.
Depois, com o recado do magnata do turismo e o suicdio do prefeito, a certeza da eleio prxima para o cargo, as novas perspectivas abertas para o municpio e
para ele prprio, Ascnio sentiu-se com esperanas vlidas. O fato de Leonora no ser mais virgem facilitava, inclusive, a boa soluo. No mercado do matrimnio,
o valor da jovem... Meu Deus, como pensar em termos de mercado quando se trata de amor, to forte amor a ponto de matar e enterrar o mais antigo e arraigado preconceito?
Vitorioso, sim, mas no em paz, tinha razo o Comandante. Ainda no, pois a pelcula do novo hmen na chaga aberta no peito de Ascnio renasce pouco a pouco, lentamente.
Onde o autor procura e no encontra termo justo para designar o refgio dos lordes no, no deverei usar nenhuma das palavras clssicas: prostbulo, lupanar, bordel,
serralho, alcoice, conventilho, penso de mulheres, casa de putas, nem mesmo randevu, para classificar o Refgio dos Lordes, na capital do glorioso Estado de So
Paulo, abrigo luxuoso, discreto, fechadssimo.
Maison de repos, talvez, no fosse o termo servir tambm para designar sanatrio destinado a malucos endinheirados e enrustidos. Enrustidos, os selecionados fregueses
do Refgio, mas dificilmente fracos da cabea, quase sempre crebros privilegiados, de elevadssimo QI, sagazes financistas quando no prudentes e esclarecidos pais-da-ptria.
Funcionasse na Bahia, seria castelo, a designao soa bem, recorda nobreza e fausto. Em So Paulo, o Refgio dos Lordes participa da medicina e da bolsa de valores,
no se reduzindo a satisfazer as necessidades sexuais dos ricos e dos poderosos- dos mais ricos e dos mais poderosos- pois atende e trata com terapeutica prpria
melindrosos complexos, atende a graciosas taras, indo da massagem sueca ou nipnica ao diva de irresistveis psicanalistas com escola completa, faculdades nacionais
e por vezes estrangeiras, ditas BBC: boca, boceta e cu. Serve tambm, quando necessrio, como local de encontro o mais conveniente pela discrio, para o trato e
a concluso de assuntos reservados, referentes  economia, s finanas e  poltica. Ali discutem-se superiores interesses, fundam-se bancos, erguem-seindstrias,
escolhem-se candidatos a governador.
Ao abandonar a simplicidade de Agreste, onde a casa de Zuleika Cinderela  apenas puteiro e nada mais, para envolver-me com os grandes do Sul, com a intelectualidade
dos tecnocratas, empresrios, homens de Estado, altas patentes, os dirigentes dos destinos ptrios, sinto-me acanhado, faltam-me conhecimento e inspirao  altura
do nobre tema. Como designar o pequeno imprio dirigido em francs com competncia, dedicao e toute la delicatesse por Madame Antoinette?
Perdoem-me se no encontro a palavra justa, sinto-me embaraado, temo cometer imperdovel erro, rude narrador habituado a cho rido e a vidas modestas, de dinheiro
parco e duro trabalho. Alis, para que classificar esse aprazvel local de relax, onde os grandes do mundo distendem os nervos e recuperam as foras? Nesse bendito
recanto, segundo consta, figures j de todo impotentes se reerguem pururucas e obtm satisfao nas mos sbias e belas das meninas, quando no nos lbios de carmim.
Ah!, quanto custa ser pobre e indito. Digo indito pois sei que as portas do Refgio dos Lordes excepcionalmente se abrem para aqueles escribas de fama e glria,
uns poucos privilegiados. Um dia l chegarei, quem sabe, se a sorte ajudar. Poderei ento encontrar a designao exata. Por ora, no.
Da primeira conversa onde se decide do destino das guas, das terras, dos peixes e dos homens com a gentil assistncia profissional das competentes meninas de madame
Antoinette o jovem parlamentar faz um gesto, as meninas levantam-se nuas e obedientes, abandonando os primeiros excitantes toques, sorriem e se afastam. Esperaro
na sala ao lado, sabem guardar as convenincias, uma loira e a outra ruiva. O Jovem Parlamentar, ainda no to rico ou poderoso quanto desejaria, confidenciara ao
Magnfico Doutor a possibilidade de trocarem as parceiras aps a primeira etapa. Antes de sair, a loira observou a resenha de usque na garrafa, seria suficiente?
Tambm os dois cavalheiros esto nus, como convm, mas o Magnfico Doutor guarda a negra pasta a seu lado.
Quarento bem cuidado, o Jovem Parlamentar no possui no entanto a classe do Magnfico Doutor, que  um gala de novela, se quisesse poderia ganhar a vida exibindo-se
no vdeo. Certa tendncia a engordar, um comeo de barriga que a sauna no consegue controlar, nos olhos a cobia e a manha, o Jovem Parlamentar possui reputao
duvidosa, discutida nos bastidores da Cmara Federal. Nos bastidores, jamais em pblico, quem se atreveria a acus-lo? Passa por bem visto nos altos escales e sobretudo
nos reservados crculos que realmente dispem do poder. Seu nome comea a repontar no noticirio como candidato a elevados cargos; o mandato parlamentar, ultimamente
bastante desacreditado, j no basta para conter-lhe o prestigio em ascenso. Obtivera promessa firme de ser includo na prxima turma a cursar a Escola Superior
de Guerra.
O Magnfico Doutor, habituado ao trato com os grandes, em nenhum momento pronunciou-lhe o nome por desnecessrio e imprudente. Tampouco durante a conversa citaram
quantia ou falaram em pagamento. Apenas, em certo instante, abriu-se um sorriso amplo no rosto calculador do Jovem Parlamentar: nem sempre aparece nos tempos atuais
transao assim rendosa. Em termos de legtimo patriotismo, o Jovem Parlamentar desenvolve cauteloso trabalho de contatos e acertos, com reconhecida habilidade.
Propina seria palavra escandalosa e indigna para designar a expressiva gratido daqueles que lhe utilizam os mritos e as relaes. Se respeitvel bolada lhe advm,
trata-se de merecida pecnia- finalmente a palavra certa! - pois um passo em falso, um erro de pessoa, pode custar mandato e carreira: os da linha dura so infensos
 corrupo e vivem de olho atento, desconfiadssimos.
Tarefa delicada, exige alta recompensa.
 reconfortante v-los ali, no fim da tarde, estendidos nus e cmodos em amplos divs em uma das salas  prova de som reservadas por Madame Antoinette para ruidosas
surubas, mandando as meninas embora, adiando O deleite, sacrificando o tempo de lazer ao trato de superiores interesses, conscientes ambos de seus graves deveres.
- Aqui, estamos a coberto de curiosidade e indiscrio. - Fregus recente e vaidoso, o Jovem Parlamentar louva as virtudes do Refgio.
Essas salas destinadas antes de tudo  confraternizao sexual, em moda desde os banhos romanos, servem igualmente para importantes conversas de negcios entre magnatas
desejosos de sossego e reserva. Como bem diz o Jovem Parlamentar, no Refgio dos Lordes esto a coberto da curiosidade e da indiscrio.
O Magnfico Doutor abre a pasta, retira um estojo de couro, oferece charutos. Conhece hbitos e preferncias dos parceiros, estudou, entre divertido e enojado, a
biografia do Jovem Parlamentar.
- Cubanos... - esclarece a sorrir pois, sendo Cuba matria proibida em qualquer setor da vida nacional, a oferta ganha importncia.
O Jovem Parlamentar no se contenta com um, champanha a trs:
- Antes, s fumava cubanos. Agora andam difceis, culpa da canalha comunista. - Aspira o olor do charuto- Sublime! Precisamos libertar Cuba das garras de Fidel Castro,
varrer do continente essa ameaa vil e constante de subverso. - Um pouco retrico, fala como se estivesse na tribuna da Cmara.
- Mais dia, menos dia, os americanos acabaro com ele. -o Magnfico Doutor estende o isqueiro de ouro, acende o charuto do interlocutor. Mas, quando quiser charutos
cubanos, no faa cerimnia, tenho sempre um bom estoque.
O Jovem Parlamentar no pode esconder o laivo de inveja nos olhos gulosos: esses tipos sabem gozar a vida, nada lhes falta, do-se a todos os luxos. E esse  apenas
um testa- de- ferro, imagine-se os outros, os patres.
Decide fazer o trato mais difcil, aproveitar a oportunidade:
- Obrigado. Mas, vamos ao que importa, no devemos deixar as garotas esperando por muito tempo. Devo-lhe dizer que as coisas no se apresentam fceis, h obstculos
srios, diria mesmo: quaseintransponveis. O nosso amigo declara que no deseja envolver-se no caso.
- Mas, h poucos dias as notcias eram outras.
- Os jornais ainda no haviam falado no assunto. Leu o que andaram escrevendo?
- Ora, os jornais. .. Sempre sensacionalistas.
- Dizem que s existem cinco empresas dessas em todo o mundo, que nenhum pas autoriza. Poluio, palavra suja, amedrontadora. Tremenda.
- Apenas cinco? Exagero dos jornais - rebate vitorioso. - Posso lhe citar pelo menos seis.
- A diferena no  grande. Temo que... Os argumentos tm de ser de peso, sem o que no conseguiremos mover nosso amigo e, se ele no se mover, no vejo como obter
autorizao para o registro.
O Magnfico Doutor no  pastor de cabras mas tambm ele conhece seu rebanho, para tanto  pago e bem pago. Para mercadejar, sabendo, quando indispensvel, aumentar
a parada e sabendo tambm at onde ir:
- Compreendo. Todavia no falta peso aos argumentos que j oferecemos  sua compreenso e  de nosso ilustre amigo.
- Insuficientes. Argumentos ridculos, disse-me ele. Ridculos, foi a palavra que ele usou. Mesmo porque, como  do seu conhecimento, no lhe cabe a deciso final,
ele prprio deve argumentar, e para isso precisa de argumentos que convenam. - Serve-se de nova dose de usque. - Apenas cinco, cinco ou seis, no mundo inteiro...
Est nos jornais. Apodrece a gua, mata os peixes, envenena o ar. Leu o artigo de O Estado de So Pauto? Na Itlia, d cana. - Lana ao ar a fumaa azul do charuto
cubano, subversivo porm inigualvel.
O Magnfico Doutor baixa a voz apesar de estarem a ss na sala reservada do Refgio dos Lordes onde no h perigo de ouvidos indiscretos, tampouco de microfones
secretos como acontece nos romances de aventuras sobre petrleo rabe e contrabando de armas com espies multinacionais e espias fabulosamente sexys.
- Os meus amigos esto dispostos a reforar os argumentos. - A voz amaneirada torna-se quaseininteligvel: - Quanto?
O Jovem Parlamentar pensa, faz imaginrias contas nos dedos, calca no preo, pede alto. O Magnfico Doutor balana a cabea negativamente.
- Metade.
- Metade?  muito pouco.
- Nem um centavo a mais. - A voz ainda mais afetada: - Tenho quem faa por menos.
- V l... De acordo. Afinal os jornais mentem tanto e o Estado com essa mania que o Julinho Mesquita tem de democracia se coloca contra tudo que nos interessa.
Vai acabar se dando mal...
Da pasta, o Magnfico Doutor extrai um talo de cheque.
- Ao portador - recomenda o Jovem Parlamentar, revelando inexperincia. O Magnfico Doutor esconde um sorriso de debique.
O Jovem Parlamentar recebe, levanta-se, vai ao armrio, guarda o cheque no bolso do palet. Servem-se de mais uma dose, erguem os copos, num brinde mudo. Marcam
novo encontro, em data prxima, ali mesmo, impossvel local mais discreto, agradvel e apropriado para assuntos de relevante importncia para o desenvolvimento nacional.
O Jovem Parlamentar bate palmas, a porta se abre, as meninas retornam. Afinal, a vida no se resume a cuidar dos interesses da ptria.
O Magnfico Doutor no aceita a gentil oferta de troca de parceiras.
Apressado, reduz-se a coito rpido, deve pegar o avio, tem encontro marcado no Rio. Demora-se O Jovem Parlamentar, satisfeito da vida. Peixes, guas, caranguejos,
ostras, algas marinhas... Tudo isso no Nordeste, vagamente.
Existir mesmo o Nordeste ou se trata de inveno subversiva de literatos e cineastas? A rapariga a seu lado  loira como uma escandinava. No Nordeste, uma sub-raa
escura. O Jovem Parlamentar sente-se redimido, em paz com a conscincia.
Na sada, a gerente vem despedi-lo: satisfeito, Deputado? O Deputado, diente novo, ainda no um habitu, agradece e solicita notcias de Madame Antoinette. A gerente
explica:
- Madame est em Paris, visitando a fama. O senhor sabe que Madame Antoinette e filha de um General da Frana? La mre est de la Martinique. Trs chic! - Comea
a treinar seu francs para um dia suceder a pattoa atual na propriedade da casa. Quando Tieta se cansar e resolver se mudar de vez para o serto de Agreste.
A propsito de microfones e espies uma rpida palavra, apenas, um pedido de desculpas. vem de se ler, nas pginas precedentes.. ..no h perigo de ouvidos indiscretos,
tampouco de microfones secretos como acontece nos romances de aventuras sobre petrleo rabe e contrabando de armas, com espies multinacional s e espias fabulosamente
sexys.
 verdade, nada disso existe no Refgio dos Lordes, local do encontro secreto do Magnfico Doutor com o Jovem Parlamentar.
Lamentvel deficincia, a enfraquecer a trama, diminuindo a intensidade do enredo, limitando grandemente a emoo e o interesse. Mas, que fazer?
Tenho de me reduzir ao contexto de modesto folhetim cuja ao transcorre em pas subdesenvolvido. no me cabe culpa se o leitor no encontra na travessia dessas
pginas ferozes xeques, romnticos bedunos, frios espies de diversas nacionalidades e ideologias, alguns pertencendo ao mesmo tempo a servios secretos opostos
e inimigos, ingleses loiros e impassveis, potentes americanos que derrubam seis fmeas de uma s vez e cobrem todas elas, restando-lhe ainda a esposa a criar filhos
no lar texano, russos barbudos mastigando crianas regadas a vodka. Nada disso, uma pena! Devo me contentar com sorridentes testas-de-ferro e alguns corruptos nacionais.
Quanto a rabes, personagens no momento em alta voga nas pginas dos best-sellers, alm de Chalita, envelhecido leo do deserto, no me resta nenhum outro j que
o mascate morreu de tiro, dignamente, como compete a um bom contrabandista. Mais no posso fazer, peo desculpas.
Do regresso a agreste, captulo noticioso por excelncia no qual Tieta cita o exemplo do velho Z Esteves ao regressar a agreste para a festa da inaugurao das
benfeitorias na praa do Curtume, acompanhada pelo sobrinho Ricardo, Tieta quis saber de Leonora notcias de seus amores. A moa sorriu, embaraada, tomou das mos
da protetora:
- No sei o que se passou, mezinha. Ascnio esteve fora durante dois dias, vendo uns trabalhos da prefeitura, voltou diferente. Sempre entusiasmado com a histria
de turismo, sempre terno, porm menos reservado. M e disse que, com a morte do prefeito, vai ser eleito para o cargo, a situao dele vai mudar. Est exaltado, nem
parece o mesmo. At me beija, sabe? Outro dia, dona Perptua deu um flagra na gente... Estou to contente, mezinha!
- Ainda bem. Pelo jeito, voc no demora a estrear a margem do rio.
Vai gostar da novidade. Aproveite enquanto  tempo, mais dia menos dia a gente arruma as malas e capa o gato.
- Ai, mezinha, nesse dia vou morrer.
- Ningum morre de amor, como  mesmo que Barbozinha diz? De amor a gente vive.
Boa, devotada Carm! Com todo seu diploma de sabida, deixara-se enrolar pela trama de Tieta e, para impedi-la de apressar a data da partida, revelara a Ascnio a
situao de Leonora, deflorada pelo calhorda do noivo.
Acontecera exatamente o que Antonieta desejava. Ascnio, a par do acontecido, mudara imediatamente de conduta, tornando-se audacioso e beijoqueiro.
No tardar a perder o resto do acanhamento e a chamar a namorada aos peitos, arquivando os planos de casamento e lar, interessado to- somente em cama. Na cama
tudo se resolve.
Tudo. Basta citar o exemplo do sobrinho Ricardo, quase louco de remorso e medo, apavorado, querendo desistir do seminrio, sentindo-se leproso e condenado s penas
eternas aps ter dormido com a tia no areal de Mangue Seco. Agora, no quer outra ocupao, se pudesse passaria o dia no fuque-fuque, adolescente deslumbrado, fora
estuante, potncia sem limite, desejo infinito, ilimitada, dulcssima estrovenga. Um temporal, um terremoto, uma festa! A qualquer momento, nas dunas, no banho de
mar, onde quer que seja e possa, ele a derruba e monta. Tieta est quebrada, moda, mordida, sugada, satisfeita, trfega menina em frias, saltitante cabrita. Cabrita?
Cabra velha que antes jamais recebera bode novo, de trouxa apenas desatada, insacivel garanho. Fogoso e exigente, meigo e exultante, Ricardo tambm mudara. Perdera
o medo, enterrara o remorso mantendo, ao mesmo tempo, a vocao sacerdotal. Descobrira a bondade de Deus.
No sbado, no fim da tarde, quando os operrios regressaram ao arraial do Saco, Ricardo os acompanhou na canoa de Jonas. De volta, irradiava serenidade no rosto
juvenil e, encontrando Tieta na praia, oferecida no mai a mostr-la mais que a vesti-la, desviando os olhos, informara:
- Hoje vou dormir em Agreste, Jonas me leva na canoa.
- Hoje, por qu? Daqui a mais uns dias, a gente vai para ficar. O principal est feito, do resto o Comandante se ocupa, basta a gente vir uma vez ou outra, passar
um dia e uma noite. Hoje, por qu? J se fartou de mim?
- No diga isso nem por brincadeira.  que hoje me confessei, amanh vou comungar, e se dormir aqui... Volto amanh mesmo. Me d licena, me deixe ir.
Pedido, splica, queixume, a voz trmula do menino dividido entre ela e Deus, cabrito no pasto de Tieta, levita do santurio. Bastaria uma palavra, um gesto, um
olhar para ret-lo a seu lado, para impedir igreja e sacramento.
Um menino, um levita, eleito e pecador, casto e lascivo, forte e frgil. Um menino de Deus. Dela, o Deus Menino.
- V e rogue a Deus por mim. Vou me roer de saudade, na tua ausncia.
Te quero aqui amanh.
Falta e ausncia iria sentir, a ro-la por dentro, quando embarcasse na marinete para So Paulo; com certeza no bastariam algumas lgrimas nem lavar a xoxota bem
lavada. Ai, meu menino, levita de Deus! Ensinara-lhe o amor, o gosto de mulher, as delicias, os sabores requintados, fizera-o homem.
Quando ela for embora, Ricardo buscar noutros braos, noutro colo, noutro regao as sensaes, a exaltao e a alegria aprendidas em Mangue Seco. Tieta sente uma
raiva sbita, decide em definitivo demorar em Agreste at pelo menos a inaugurao da luz. Para gozar durante mais umas semanas esse desperdcio de prazer, esse
mar revolto, essa ventania desvairada. Depois, ela o deixar para Deus, livre do medo e dos perigos da castidade que conduz  tristeza e ao mal, quem bem sabe 
Tieta, vtima da conspirao das beatas, bruxas fedendo a donzelice encruada. Frustradas e amargas, as solteironas odeiam o prximo. Assim era Perptua antes de
casar-se, antes do Major.
No domingo pela manha, a exposio punitiva descera da lancha de Elieser, enchendo de risos a praia de Mangue Seco. Juntaram-se todos diante das erguidas paredes
da biboca de Tieta, as ripas para o telhado comeavam a ser colocadas, num tronco de coqueiro o habilidoso comandante Drio gravara o nome escolhido: Curral do Bode
Incio. Fizeram coro ao merecido elogio do ausente seminarista, pronunciado pelo Comandante: Tieta devia a Ricardo a rapidez do andamento da obra.
Mais tarde, andando para os cmoros, Antonieta ouvira o relato de dona Carmosina.
- Falei com Ascnio sobre o que voc me contou a respeito de Leonora... Essa histria de noivado no Sul, as viagens, a plula, voc sabe...
Tieta afetara surpresa e inquietao:
- Voc disse a ele que Leonora no  virgem? Meu Deus, Carm! mas logo concordara. - Pensando bem, acho que assim  melhor, que ele saiba a verdade. Eu te agradeo,
Carm. Deve ter sido desagradvel.
- Se foi... Mas estou contente: pensei que ele ia romper com Leonora, desistir, no querer mais ver a cara dela, mas Ascnio superou o preconceito, Tieta. Um cara
direito. no quer que ela saiba que eu contei,  um cavalheiro.
Tieta aprovara com a cabea, rindo por dentro. O que o cavalheiro deseja, ela sabe demais: sem cabao a cont-lo, Ascnio vai tratar de dormir com Nora, passar-lhe
a vara, exatamente como Tieta previra. Se antes, apaixonado, sonhara noivado e casamento, desistiu ao saber da verdade, nenhum homem de Agreste casa com moa deflorada.
Mas nem por isso  tolo a ponto de larg-la de mo quando nada o impede de lev-la aos esconsos do rio, sob os chores em noite sem lua. Com o que estariam resolvidos
os problemas de Leonora. Depois, lavar o xibiu, derramar algumas lgrimas na partida. Por que diabo Ricardo demora tanto a voltar, ela se perguntara olhando o rio
do alto das dunas sem descobrir sinal da canoa de Jonas. Na igreja, na missa das oito, talvez o coroinha houvesse se dado conta dos olhares lbricos, da boca aberta,
vida a exibir a ponta da lngua, de dona Edna, putssima e vulgar. Audaciosa.
- Est aborrecida, Tieta? Se fiz mal em contar, me diga.
- Fez muito bem, Carm. Estava pensando no cachorro do noivo. E com Elisa, voc falou tambm?
No, com Elisa dona Carmosina no conversara, tentando tirar-lhe da cabea a louca idia de partir com Tieta para So Paulo, levando Astrio na bagagem. Depois do
difcil dilogo com Ascnio, ainda no tomara flego, no reunira coragem suficiente para vibrar novo golpe. A decepo de Elisa ia ser terrvel, ela no tinha a
fibra de Ascnio, provado pela doena do pai e pela traio de Astrud. Tieta devia pacientar um pouco, dona Carmosina falaria quando se apresentasse a ocasio, quando
a prpria Elisa puxasse o assunto. Deixasse a pobre conservar por mais uns dias suas iluses paulistas.
Quem primeiro tocou nesse assunto, porm, foi Astrio, e o fez com Tieta quando ela voltou a Agreste. Ficou de tocaia no bar, sonsando, at Perptua dirigir-se para
a igreja em companhia do filho seminarista, na hora da bno. Aproveitou a folga:
- Queria falar com voc, cunhada. Um assunto de meu interesse, meu e de Elisa. Mas, antes, me prometa guardar reserva dessa nossa conversa.
- Toque em frente, cunhado, sou boa de segredo, nem imagina quantos guardo no meu peito, por isso  que tenho esse ubere grande. - Ri alegremente, anda satisfeita.
-  a propsito de uma idia de Elisa. Ela, se ainda no lhe falou, vai lhe falar para pedir que voc leve a gente para So Paulo. Que me arranje um emprego e ceda
um cmodo para ns em seu apartamento.
- Falar, ela ainda no falou mas j insinuou. Voc quer ir?
- Deus me livre! - Arrepia carreira, no v Tieta se ofender: - Quer dizer: eu teria muito prazer em morar em sua companhia, voc  mais que uma irm, tem sido nossa
providncia. Mas, eu no quero viver em So Paulo, no vou me dar bem. Elisa tem vontade de ir embora daqui para que a gente melhore de vida mas eu sei que no vai
dar certo.  pior ser pobre l do que aqui.
- Voc tem razo, cunhado,  isso mesmo. Mas pode ficar descansado, no vou levar vocs comigo. Voc ia se dar mal e lugar de mulher  ao lado do marido. Se Elisa
me falar, tiro essa idia da cabea dela.
- No sei como lhe agradecer, cunhada.
- No agradea. Elisa  minha irm, tenho obrigao de cuidar dela, de ajudar vocs no que puder. Mas aqui, l no.
Em toda sua vida, poucas vezes Tieta via pessoa to contente quanto Astrio ao fim da conversa. Fitou o cunhado com afeto:
- Oua, Astrio, voc precisa no deixar Elisa fazer tudo que deseja. Se ela lhe falar em So Paulo, diga que voc no quer, que daqui vocs no saem. Ponha rdea
curta em sua mulher.
- Se eu disser isso, s vou  botar ela contra mim. Vai bater o p, chorar, falar nisso o dia inteiro, at me obrigar. Como  que posso convencer ela?
- Pergunte ao velho Z Esteves e ele lhe explica. Pergunte como  que ele ensinou a me de Elisa a obedecer. Quem sabe, ele lhe empresta o bordo.
A receita  boa, cunhado. Bem aplicada, basta uma vez. Nunca mais me Tonha levantou a voz para o Velho. Quanto a essa histria de So Paulo, deixe comigo.
De noite, Tieta teve Ricardo na rede conforme planejara. Ali, onde em sonhos o rapazola a desejara e no soubera possu-la, ela o cavalgou e por ele foi montada,
cruzando a noite no rumo da aurora. Contendo a respirao, sufocando os ais de amor enquanto juntos praticavam o ipicilone. Ah!, o ipicilone!
De como, premido pelas circunstancias, o impoluto Ascnio Trindade, aps secreta entrevista com o magnifico doutor, inicia a pratica da mentira e, na aurora dos
novos tempos, entrega-se a soberba, incorrendo de uma s vez em dois pecados capitais ao trmino da conferencia com o doutor Mirko Stefano, Ascnio Trindade sente-se
outro homem. Uma hora de conversa bastara ao carismtico relaes- pblicas para conquistar a confiana e a admirao do probo funcionrio municipal. Probo e sonhador.
O Magnfico exibira plantas e desenhos devidos a competentes e imaginosos arquitetos, engenheiros e urbanistas;
citara nmeros e frmulas esotricas; empregara termos mgicos: organograma, know- how, insumos, mercado de trabalho, marketing, status - a prefeitura de Sant'Ana
do Agreste ter status de municpio industrial.
Ascnio deslumbrou-se.
Na porta do velho sobrado colonial, sede da municipalidade, despedindo o visitante, Ascnio Trindade assume nova condio, a de empresrio. O termo  falso, correto
ser dizer-se estadista. Administrador de comuna destinada a glorioso futuro de riqueza e progresso - futuro ou presente? Por ora, apenas secretrio da prefeitura
com plenos poderes. Em breve, prefeito:
os plenos poderes confirmados pelo voto do povo, unnime segundo tudo indica.
Em determinado ponto da conversa pareceu-lhe perceber, nas discretas e sibilinas palavras do enviado da Diretoria, insinuao suspeita, referncia a pagamento de
servios prestados. no entendera bem mas, por via das dvidas, foi logo esclarecendo que seu apoio ao grandioso projeto se devia exclusivamente aos superiores interesses
do municpio e da ptria. Verdade cristalina: nenhum baixo sentimento, nenhuma pretenso pouco louvvel na sua maneira de agir. Apenas o amor  terra natal, a seu
desenvolvimento, fizera-o vibrar de entusiasmo durante a exposio do doutor Mirko Stefano, tcnico, poliglota e convincente. Valia a pena ouvi-lo.
Conhecedor da natureza humana, hbil negociador, o Magnfico recuou. Sabia recuar, h tempo e ocasio para cada coisa. Por favor, caro Senhor Prefeito, please, no
me entenda mal. Referia-se a formas de pagamento da empresa ao municpio, diretas e indiretas, considerando servios remunerveis a colaborao da prefeitura ao
sucesso do projeto, ao conceder a necessria autorizao para que num de seus distritos, o de Mangue Seco, se instalasse o complexo industrial, duas grandes fbricas
interligadas.
Alm dos benefcios diretos, arrecadao de considerveis impostos, crescimento da renda bruta per capita, empregos para naturais do lugar, a empresa tomaria a seu
cargo providenciar melhoramentos necessrios e urgentes: asfaltamento da estrada, por exemplo. A empresa pressionar o Governo do Estado, o Ministrio competente,
se necessrio, no falta prestgio aos Diretores, digo-lhe em confiana, Senhor Prefeito. Construo de hotel, estabelecimento de linha de nibus, servio de Lanchas
no rio. Sem falar na rea de Mangue Seco, onde se ergueriam as fbricas dando nascimento  moderna cidade operria, dezenas de residncias destinadas aos trabalhadores,
tcnicos e funcionrios. Para todo esse mundo de progresso a empresa concorrer, graciosamente. Antes de visar lucros, os dignos Diretores desejam contribuir para
a construo de um Brasil poderoso,  altura de sua gloriosa misso no mundo. E viva!
Preso aos lbios do doutor Stefano, Ascnio enxergou Agreste reerguido da decadncia, colocado na vanguarda dos municpios do interior baiano. Nos cus, a viso
da fumaa das chamins, pagando com juros o atraso devido  ausncia da fumaa do trem- de- ferro, trazia ao mesmo tempo a riqueza para Agreste e um laivo de soberba
a instalar-se no corao de Ascnio:  frente do progresso, a comand-lo, o jovem prefeito, incansvel batalhador.
Ao final da conversa com o enviado da Diretoria Provisria, quando, em nome da prefeitura, autorizou a Sociedade a examinar as possibilidades de estabelecer suas
indstrias em terras do municpio, Ascnio sentiu reviver aquela antiga ambio do estudante de Direito, do noivo de Astrud, planos de triunfo. Interesse pessoal
somando-se a elevado sentimento cvico. Pessoal, no mesquinho ou desonesto.
Vislumbrou a possibilidade de construir,  base do novo progresso de Agreste, carreira de administrador e poltico, a lev-lo e a elev-lo at Leonora. Carreira
vitoriosa, dando-lhe as credenciais exigidas a quem deseje candidatar-se a marido de herdeira paulista, gr-fina e milionria.
At ento, julgara-a inatingvel, vivendo no pavor do anncio de data de partida, do fim do acanhado idlio de silncios e expectativas, de meias palavras e gestos
imprecisos. Agora, tinha um horizonte, campo de luta, j no se sentia msero funcionrio de um burgo nas vascas da agonia pois, como afirmara poeticamente o Magnfico
Doutor, raiava sobre Agreste a aurora de grandes eventos, a manha do progresso.
Pena no poder contar o milagre a Leonora, nem a ela nem a pessoa alguma. O doutor Mirko Stefano exigira a mxima discrio, segredo absoluto at nova ordem. Somente
aps a concluso dos estudos preliminares, apenas iniciados, poderia a empresa dar publicidade  notcia auspiciosa.
Uma palavra dita antes do momento exato pode botar tudo a perder.
Se bem,  primeira vista, a regio de Sant'Ana do Agreste, nas proximidades de Mangue Seco, parecesse o local ideal para a instalao das fbricas, os relatrios
conclusivos dependiam ainda de um levantamento completo de possibilidades e vantagens, de anlises diversas, indo da profundidade do mar na barra do rio Real ao
apoio da administrao. Novos tcnicos desembarcariam logo aps o Natal Para o complicado trabalho que iriam realizar o doutor Stefano solicitou reserva e boa vontade
ao Senhor Prefeito, alm da necessria autorizao. Eram propriedade da prefeitura as terras  margem do rio? A quem pertenciam? A discrio impunha-se inclusive
para evitar uma alta exagerada nos preos dos terrenos, tornando antieconmica a utilizao da rea. Por ora, silncio; depois, os foguetes.
Colaborao, toda a que se fizer necessria. Silncio, mais difcil. O povo da terra  perguntador, o que no sabe, inventa. Se Ascnio nada disser sobre a entrevista,
o fuxico vai crescer, ser pior. no pode fazer referncia a um projeto de turismo? As cogitaes so nesse sentido; ele prprio, Ascnio, assim imaginara.
A idia pareceu extremamente divertida ao Magnfico Doutor, no conteve o riso. Os olhos postos nas ruas pacatas de Agreste, atravs das janelas do primeiro andar
da prefeitura, concordou, jovial:
- Turismo... Boa bola. Bem achado, Senhor Prefeito. C'est drole.
Ascnio no perguntou o motivo do riso, do ar zombeteiro do ilustre visitante, do mote em francs. Ajudou-o a enrolar plantas e projetos, a coloc-los num tubo longo,
de metal, a reunir os papis, a fechar a elegante pasta negra, de executivo. Na porta da sada, doutor Mirko Stefano confiou pasta e tubo ao peso- pesado postado
de sentinela; notava-se-lhe o volume do revlver no cinto. Um segundo campeo, de idntico peso, medida e carantonha, chegou correndo do bar, onde degustava uma
bramota em companhia do chofer, o palet aberto, a arma exposta.
O doutor viera desta vez acompanhado apenas de chofer e do par de alagoanos. Para desolao de Osnar e Fidlio, presentes ao desembarque, nem uma s marciana ou
garota de Ipanema descera da Rural, apenas o Grande Chefe Espacial, o motorista e os dois pistoleiros. no deixara de ser, no entretanto, matria para assombro e
comentrio pois h anos no se via em exibio nas ruas de Agreste outras armas alm dos faces dos roceiros na feira do sbado, e das maldies e pragas do profeta
Possidnio, sendo os primeiros simples instrumentos de trabalho e servindo as ltimas apenas contra o demnio e a impiedade.
Alm de armados, de pouca conversa. O que veio desalterar-se no bar no despregou os olhos da porta da prefeitura onde deixara o colega. Osnar no se atrevera a
pedir notcias de Bety, Beb para os ntimos. Reagiu, indignado,  sugesto de Fidlio, gozador:
- Por que voc no bate um papo com ele? Conte a histria da polaca, conquiste-lhe as graas, descubra o que veio fazer. Mostre que  o tal.
- V  merda.
A mal-encarada dupla embarcou na Rural, no banco traseiro, guardando os documentos. O Magnfico Doutor apertou a mo de Ascnio, abriu-se num sorriso de velho amigo:
- At breve, caro prefeito. Merry Christmas! Alis, se me permite mandarei uns brindes para o Natal das crianas pobres.
Partiu a Rural, o pequeno grupo de basbaques ainda demorou-se a olhar para Ascnio, ele tambm ali parado, meditando em tudo que lhe fora dito e a Agreste prometido.
Brindes de Natal para as crianas pobres, um festivo comeo. Osnar se aproximou:
- Ento, Capito, a que veio o Astronauta?
Avesso a embustes, considerado por todos um cidado ntegro, de rgidos princpios, Ascnio viu-se de repente obrigado a mentir, a abandonar sua maneira de ser.
Seja tudo pelo bem de Agreste! Embaraado e sem jeito, respondeu:
- Que pode ser, seno turismo? - adianta detalhe que no lhe parece matria secreta: - Est interessado em comprar terras em Mangue Seco. O coqueiral...
- Terras do coqueiral? Puta merda, Capito Ascnio. Vai dar uma confuso dos diabos. At hoje no se tirou a limpo quais so os donos...
Atrapalhado, Ascnio avista Leonora na porta da casa de Perptua, os olhos na prefeitura. Ficara de ir busc-la, a ela e a Tieta, para o banho na Bacia de Catarina,
est na hora. Despede-se s pressas.
Osnar estranha as maneiras do secretrio da prefeitura: Ascnio est escondendo leite. Empresa de turismo, muito dinheiro, novidades s pencas.
E se esses caras comprarem o coqueiral e a praia de Mangue Seco? Se fundarem um clube exclusivo, reservado para os scios? no, no podem faz-lo,  impossvel,
as praias so propriedade do povo, inalienveis, no ?
Talvez comprem terrenos, construam hotis, lojas, armazns modernos...
Quem sabe, Beb vir passar uns tempos no coqueiral para estudar na prtica o interesse turstico das dunas e dirigir a publicidade: aproveitem nossa oferta e venham
praticar o coito carnal nas alvas areias de Mangue Seco, pagando depois em mdicas prestaes mensais. Mesmo no sendo polaca, Bety parece-lhe capaz de audazes cometimentos.
Da inaugurao da praa com discursos e danas, capeulo eufrico excetuando-se parte da meninada ainda na matin, no cine-teatro Tupy, praticamente todo o resto
da populao da cidade reuniu-se, s cinco da tarde do ltimo domingo antes do Natal, na antiga praa do Curtume, de agora em diante praa Modesto Pires. O jardim,
o passeio que o circunda, o obelisco ao centro, o calamento de pedras, benfeitorias devidas  ao de Ascnio Trindade na prefeitura, merecem o elogio geral.
- Esse Ascnio  um arretado.
- Imagine quando ele for prefeito de verdade.
- Agreste vai virar um jardim.
Um estrado de madeira, armado para a cerimnia e para a exibio dos ternos de reis e do bumba-meu-boi; no obelisco, a placa de concreto, coberta com a bandeira
brasileira. Na esquina, na parede da casa de Laerte Curte Couro, de propriedade de Perptua, placa de metal igualmente coberta. Pena a Lira Dois de Julho ter-se
dissolvido havia cerca de trinta anos, com a morte do obstinado maestro Jocafi que a dirigiu e regeu durante mais de meio sculo. Ascnio sonha com a reorganizao
da Lira cuja fama repercutira em todo o serto da Bahia e de Sergipe. Difcil  encontrar quem empunhe a batuta, no municpio no h quem possa faz-lo.
Madrinha da inaugurao, cercada pela famlia e pelos amigos mais prximos, majestosa e sorridente, verdadeira rainha ou melhor, plagiando o vate Barbozinha, Madona
transportada da Renascena para os oiteiros de Agreste, dona Antonieta Esteves Cantarelli, pelo brao do coronel Artur da Tapitanga, seguida por Ascnio Trindade,
Modesto Pires, dona Ada, a filha Marta e o genro, engenheiro da Petrobrs, avana em direo ao singelo monumento. Silncio e ateno, pescoos esticados. Dona
Antonieta estende a mo, puxa a fita verde e amarela descerrando a placa de concreto onde se l a data festiva e o nome do benemrito coronel Artur de Figueiredo,
prefeito em exerccio. Cerimnia simples, saudada por palmas, emocionante, no entanto, pois Perptua saca de negro leno do bolso da saia negra e enxuga uma lgrima
- lgrima negra, de luto, segundo sussurra ao ouvido de dona Carmosina o irreverente Aminthas, em dia de humor igualmente negro.
Os meninos do Grupo Escolar atacam o hino. Vivas ao coronel que acena com a mo, agradecendo. Todo satisfeito, de brao com Tieta: a cabrita monts virou cabra de
qualidade, beres fartos e expostos. Ah!, seus tempos!
Z Esteves, no cmulo da satisfao com a proximidade da mudana para a nova residncia, suspende o bordo e a voz:
- E viva minha filha, a senhora dona Antonieta Esteves Cantarelli!
Entusiasmo geral, nova lgrima de Perptua, Elisa aberta em sorriso de vedete, desperdiando beleza, Leonora, a mais animada, comandando as palmas. Por que no do
vivas a Ascnio Trindade?
Aplausos para dona Ada: a ela coube descobrir a placa na parede da esquina com o nome do logradouro reformado: praa Modesto Pires (cidado eminente).
- Viva Modesto Pires! - grita Laerte Curte Couro, da porta da casa, ao lado da mulher e dos filhos, puxando o saco do patro.
Dona Preciosa e dona Auta Rosa, diretora e secretria do Grupo Escolar, tentam conter a indisciplinada e incompleta turma, recrutada  fora.
Devido s frias fora difcil reunir mesmo aquele punhado de alunos, mais difcil ainda mant-los em ordem. Vamos, o hino, seus rebeldes! A professora Auta Rosa,
loira, nervosa e bonita, conta com admiradores fanticos entre os discpulos. Dona Preciosa impe-se a muque, a berruga no nariz, a voz de cabo de esquadra:
- Um, dois, trs, agora!
Cresce o hino sobre a praa e o casario na voz das crianas e dos populares. Se ningum der um viva a Ascnio, eu perco a vergonha e dou! ameaa Leonora em pensamento,
revoltada com tanta ingratido.
Chega a vez de padre Mariano, acolitado por Ricardo em vermelho e branco, galante e piedoso. Bendito seja Deus!, suspira dona Edna, ao lado de Terto, seu marido
(no parece mas ). Os olhos de Cinira pregados no coroinha, nas partes aquela comicho. Tambm Tieta contemplou o sobrinho e sorriu. no teme as rivais, seu nico
rival  Deus e entraram em acordo, para Deus a alina, o corpo, para a piedosa tia.
Padre Mariano benze o jardim, o obelisco, a praa, todos os presentes.
Reserva bnos especiais para o nosso nclito chefe, o coronel Artur de Figueiredo, para o benemrito muncipe Modesto Pires, para a generosa, exemplar ovelha de
nossa parquia, dona Antonieta Esteves Cantarelli, e para sua gentil enteada. Que no lhes falte jamais a graa do Senhor, amm.
Ricardo, na mo a caldeirinha de gua benta, estende o aspersrio ao reverendo. Gotas sagradas sobre as cabeas mais prximas, adianta-se Perptua para merec-las.
O engenheiro da Petrobrs, doutor Pedro Palmeira, usa da palavra para agradecer, em nome do sogro. Refere-se  paz e  beleza de Agreste: que jamais sejam conturbadas
pelos horrores de um mundo de violncia, poluio e guerras. A barba negra, os cabelos longos, na moda, tambm ele provoca olhares, apetites e frustraes. ao lado,
de sentinela, a esposa, filha do lugar, conhecedora.
Por fim, discursa Ascnio Trindade, em representao do coronel Artur da Tapitanga, cuja voz no mais alcana as alturas indispensveis aos tropos oratrios. Inflamado,
buscando inspirao nos olhos de Leonora, prev dias de glria, grandiosos e iminentes, para Sant'Ana do Agreste. Os prezados concidados podem se alegrar, est
prximo o fim do marasmo e da pobreza, das dificuldades, da pasmaceira. E possvel que se localize em Agreste a sede de um novo plo industrial a ser implantado
no Estado da Bahia, a competir com o Centro Industrial de Aratu, nas proximidades da capital. Volvero os tempos de fartura e movimento, novamente teremos motivos
de orgulho, nosso rinco bem-amado resplandecer, luminosa estrela no mapa do Brasil - Que diabo o Capito Ascnio est arquitetando? - pergunta Osnar.
- Ele est escondendo leite.
- Escondendo? Bem, Ascnio ainda no quer divulgar os planos da empresa de turismo, parece que so formidveis - retruca dona Carmosina.
- Ele se referiu a plo industrial.
- Fora de expresso. Voc no vai negar que o turismo hoje  uma indstria da maior importncia. - Dona Carmosina explica: - O que acontece  que Ascnio est apaixonado.
- Baratinado... - concorda Aminthas.
Com um brado vibrante: Salve Sant'Ana do Agreste!, Ascnio encerra a fogosa e confusa orao. Do fundo da praa Modesto Pires, chega a voz de cachaa de Bafo de
Bode no tardio viva:
- Viva Ascnio Trindade e viva sua namorada! Quando  o casrio, Ascnio?
Leonora enrubesce em meio aos risos de Elisa e dona Carmosina. Livres dos discursos, moas e rapazes aos pares, de mos entrelaadas, circulam no passeio, inaugurando-o
de fato. Leonora fita Ascnio, estende-lhe a mo, mais um par de amorosos a contornar a praa. Dona Carmosina suspira, comovida. Da casa de Laerte Curte Couro saem
improvisadas garonetes, funcionrias do Curtume, com bandejas de pastis, empadinhas e clices de licor. Servem aos convidados de honra, oferta de Modesto Pires.
O coronel Artur da Tapitanga senta-se num dos bancos verdes, de ferro, confidencia a Antonieta, enquanto lhe alisa a mo e examina os anis - sero verdadeiros ou
falsos os brilhantes? Se verdadeiros, valem uma fortuna:
- Meu afilhado Ascnio vai acabar maluco com essa histria de turismo. Imagine que apareceu l em casa, na fazenda, para dizer que vo montar fbricas aqui, construir
uma cidade em Mangue Seco. Anda de juzo mole, acho que  devido  sua enteada. - Muda de assunto: - Voc ainda no foi me visitar na fazenda, ver minhas cabras;
o rebanho d gosto a gente olhar. V e leve a moa. Tenho um bode inteiro que  um portento, paguei um dinheiro por ele; se chama Ferro- em- Brasa.
 noite, os ternos de reis e o bumba-meu-boi exibem-se no estrado. Os ternos, em nmero de trs, dois da cidade, o terceiro vindo de Rocinha, o mais bonito, o Soldo
Oriente. Uma dzia de pastoras, enfeitadas de papel de seda, conduzindo lanternas vermelhas e azuis, as vozes soltas, os ps na dana:
Somos pastoras Das estrelas do cu Chegamos do Oriente Para saudar o Deus menino Neste dia diferente Tieta acompanha o canto do reisado, tomada de emoo. Menina
de ps descalos, fugindo de casa para acompanhar os ternos nas ruas de Agreste.
Tanto sonhara empunhar uma lanterna, pastorear estrelas! Somente cabras e cabritas lhe couberam, vida afora. Valera a pena voltar para ver e ouvir.
Somos as pastoras Da lua e do sol, somos as pastoras do arrebol.
Para assistir o bumba-meu-boi de Valdemar Cot, com o boi e a caapora, o vaqueiro em seu cavalo, danando no tablado, espalhando a meninada pela praa. Uma nica
perna, um nico brao, esvoaante, branco lenol, agilssimo, alegre fantasma, a caapora vem pedir a bno a dona Antonieta,  o moleque Sabino. Depois, o bumba-meu-boi
e os ternos de reis descem a rua principal, param de porta em porta, saudando os moradores, pedindo permisso para entrar. Danam e cantam na sala em louvor dos
donos da casa. Clices de licor, copos de cerveja, goles de cachaa so servidos ao vaqueiro, ao boi,  caapora, s pastoras do arrebol.
Improvisada orquestra, paga pela prefeitura, composta da harmnica de Claudionor das Virgens, do cavaquinho de Natalino Preciosidade, da viola de Lrio Santiago,
toma lugar no estrado, ocupando cadeiras emprestadas por Laerte, ataca msicas de dana, variadas, para todos os gostos, logo surgem os pares.
- Olhem quem est danando! - Astrio aponta Osnar que comprime nos braos de macaco uma cabocla esfogueada, novinha, a saia no joelho, as pernas grossas.
- Sujeito mais sem- vergonha - rosna dona Carmosina, furiosa por no ser ela a felizarda comprimida contra o peito do debochado, ai!
O assustado se anima, vrios pares rodopiam no estrado. O cavaquinho chora num convite. Leonora olha para Ascnio, ele sorri, ela murmura, a voz rompendo cristais:
- Vamos...
Sobem ao tablado, a harmnica ataca a marchinha carnavalesca, Leonora desliza, os olhos semicerrados. Ascnio conduz o corpo leve da moa preso ao seu, os cabelos
soltos tocam-lhe o rosto, sente-lhe o hlito clido, noite gloriosa. A dana conquista a praa, generaliza-se. O engenheiro da Petrobrs, doutor Pedro e dona Marta,
a esposa, incorporam-se aos danarinos. Dona Edna aceita o convite de Seixas com o consentimento de Terto - e ele que se fizesse de besta e no consentisse! Dona
Edna exige do marido compreenso e cortesia. Seixas a enlaa, ela adianta a coxa, mais audaciosa a cada rodopio. Quem acha, encaixa, diz Osnar e Seixas executa.
Cerimonioso e grave, o vate Barbozinha estende a ponta dos dedos a Tieta, solicitando o prazer da contradana. Diante do que, Elisa consegue decidir Astrio e dona
Carmosina exige de Aminthas o sacrifcio:
- Me tire para danar, seu mal-educado.
- Vamos, Elizabeth Taylor, mas tenha piedade de meus ps.
- Cretino!
Os ternos de reis voltam  praa, dissolvem-se no estrado, Fidlio dana com a porta- bandeira do Sol do Oriente em busca do arrebol. O vaqueiro em seu cavalo zaino,
o boi, a caapora, correm atrs do bando de meninos chefiado por Peto. Ricardo ficou em casa, fazendo companhia  me. Depois do rosrio, na rede, esperar a volta
da tia.
Esgotadas as possibilidades de cachaa, Bafo de Bode retira-se da praa cada vez mais animada, a dana pegando fogo!
- Eta ferro! Hoje vai ter movimento na beira do rio. .. - equilibra-se para aconselhar: - mete os peitos, Ascnio, seja homem!
Desaparece no beco mas ainda se lhe escuta a voz podre e moralista:
- Toma cuidado, Terto, para no arrancar os fios da luz com os chifres...
Para o que diz Bafo de Bode, ningum liga, advertncia e sugestes perdem-se na msica da harmnica, do cavaquinho e da viola, no jbilo da festa, na paz da noite
de Agreste.
Das chamas morais as chamas verdadeiras, captulo emocionante no qual Tieta exibe um resplendor do fogo liberto das penas do inferno, nas chamas do cime se consome
o seminarista Ricardo, na noite da festa. s nove horas em ponto, a luz do motor se apagou dando por findas as danas no tablado armado na praa do Curtume (perdoem:
praa Modesto Pires) mas dona Carmosina inventou um passeio at o rio, espcie de piquenique noturno. No bar de seu Manuel abasteceram-se de cerveja e guaran, de
bolinhos de bacalhau, especialidade do lusitano.
Da rede onde se recolhera  espera, o seminarista ouve o grupo na calada, reconhece vozes, a de Leonora, a de Aminthas, a de Barbozinha em galanteio, esse velho
ridculo no se assunta!, o riso de Tieta. Pensou que iam se despedir na porta mas os passos prosseguem pela praa e se perdem, ningum entra em casa. Ricardo salta
da rede, penetra na alcova, abre a janela sobre o beco, avista o grupo lacre no escuro da esquina, a caminho do rio.
Sente-se enganado, trado, miservel.
Outra coisa no deseja Tieta seno voltar para casa, cansada do dia festivo, iniciado com a missa das oito e longo sermo do padre Mariano.
Quando enxerga a magnnima ovelha na igreja, entre os fiis, o grato reverendo supera-se, estende a prdica, servindo latim e citaes da Bblia.
Tieta anseia reencontrar a ternura e a violncia de seu menino, apenas entrevisto  tarde na hora da cerimonia, deslumbrante nas vestes de coroinha, a oferecer ao
padre o aspersrio. Indiferente s exibies folclricas, tendo de rezar o rosrio quotidiano, egosta, Perptua retivera o filho em casa para lhe fazer companhia.
Rodopiando nos braos de Barbozinha, de Osnar, de Fidlio- todos disputando a honra de danar com ela - O pensamento de Tieta estava em Ricardo, ajoelhado diante
do oratrio a debulhar o tero com Perptua. Insensata imagem, sonhara-se enlaada pelo sobrinho vestido de batina; deslizavam no tablado, romntico e apaixonado
par. Assim como estavam Leonora e Ascnio: a moa de olhos semicerrados, descansando a cabea no ombro do rapaz.
Tieta aprovara a idia de dona Carmosina e acompanhara o grupo na esperana de rapidamente desviar a quadrilha para outros rumos, deixando a ss Leonora e Ascnio,
livres para os beijos e as juras de amor. Na Bacia de Catarina, sob o negrume dos chores, o namoro poderia desenvolver-se como devido, ao gosto de mezinha: ardente
xod e nada mais.
Sentam-se sobre as pedras, Osnar empunha um abridor de garrafas, dona Carmosina desfaz o embrulho de bolinhos de bacalhau, comem e conversam. De mos dadas, Ascnio
e Leonora permanecem alheios ao mundo em redor, sorriem abobados. Tieta se impacienta, levanta-se :
- Estou caindo de sono. Proponho...
No chegou a propor deixarem ali o casal de namorados, tomando o rumo de suas casas os dispostos a dormir, mergulhando na escurido dos becos os caadores noturnos,
porque Barbozinha, a seu lado, aponta para a cidade e pergunta:
- Que  aquela luz ali? Parece fogo.
No parece,  um fogaru. Elevam-se labaredas, um claro se abre no negrume.
- Incndio! - anuncia Aminthas.
- Onde ser?
Tambm Ascnio se pe de p, tem o mapa da cidade na cabea:
-  no Buraco Fundo.
- Ai, meu Deus! - geme dona Carmosina.
No Buraco Fundo moram os mais pobres entre os pobres, os que nada possuem, os mendigos, bbados sem ocupao, velhos que se arrastam para esmolar um pedao de po
nas ruas do centro.
- Vamos l. - Ascnio ajuda Leonora a levantar-se.
Tieta j partira, sem esperar convite. Quando mocinha, estando certa noite nos esconsos da Bacia de Catarina com um caixeiro-viajante, ouvira gritos e percebera
a claridade das labaredas. Quando chegaram, porm, ao lugar do incndio, as chamas terminavam de devorar a casa de dona Paulina, vitimando trs dos cinco filhos
da viva, os menores. Incndio em Agreste  raridade mas quando acontece deixa sempre um saldo de mortes, por falta de qualquer recurso para extinguir o fogo.
Dissolve-se o piquenique, o grupo sai no encalo de Tieta mas ela se distancia, o passo rpido em seguida se transformara em correria. Surgem pessoas nas esquinas,
atradas pelo claro nos cus.
Tieta  dos primeiros a chegar ao Buraco Fundo, as chamas envolvem uma das casas, por sorte isolada das demais. Alguns populares, moradores do local, cercam uma
rapariga gorda que grita e arranca os cabelos:
- Ela vai morrer, ai minha avzinha!
Bafo de Bode, a voz pastosa, as pernas trpegas, explica que Marina Grossa Tripa, lavadeira de profisso e, se encontra fregus, meretriz de baixo preo, acordada
pelo fogo em sua casa, fugira porta afora, esquecendo no quarto dos fundos a velha Miquelina, sua av. Com a violncia do fogo na madeira velha, nas palhas de coqueiro
do teto, a anci, praticamente incapaz de andar, a essas horas deve ter virado torresmo.
Uma vintena de vizinhos e curiosos assiste ao espetculo da neta aos gritos suplicando que, por caridade, pelo amor de Deus, lhe salvem a av, sua nica parenta.
Ningum se oferece: se a prpria Grossa Tripa, a quem cabe obrigao de neta, no  to louca a ponto de enfrentar o fogo, de penetrar naquele inferno, no sero
estranhos que iro faz-lo. Consolam-na recordando a longa existncia da av Miquelina, de cuja idade se perdera memria.
Vivera tempo suficiente para o bom e o ruim, vamos deix-la descansar. no paga a pena correr perigo mortal para tentar prolongar-lhe a vida por uns meses, umas
semanas, uns dias.
Sem esperar o fim da explicao de Bafo de Bode, indiferente aos argumentos dos vizinhos, Tieta se atira em direo ao fogaru, no atende a gritos e conselhos.
Quando Osnar e Aminthas despontam no imundo canto de rua, ela acaba de desaparecer nas chamas. De toda parte, apressados, afluem homens, mulheres, meninos, pois
o sino da igreja est badalando, fnebres sons de desgraa e morte.
Aumentam burburinho quando Leonora aparece amparada por Ascnio, seguidos por dona Carmosina que pe a alma pela boca.
- Dona Antonieta est l dentro. ..
Ao saber que Tieta invadira o incndio, Leonora solta-se da mo do namorado, tentando segui-la, mas Aminthas a sustm a tempo. Ascnio, plido, vem e a toma nos
braos.
Rui o telhado, cresce imensa labareda, espalham-se milhares de fascas crepitantes. Ricardo, descalo e de batina, atravessa o povo a tempo de ver Tieta surgir das
chamas, trazendo nos braos o corpo mnimo da velha Miquelina, viva, inclume e furiosa, a praguejar contra a neta desalmada que a abandonara na hora do perigo,
te arrenego, maldita! O fogo respeitara o catre onde jazia, esperou que a viessem recolher para, de uma lambida, reduzi-lo a cinzas. Sobem chamas pelo vestido de
Tieta e os anelados cabelos exibem uma aurola de fogo, um halo, um resplendor.
Tais foram o espanto e a comoo que os assistentes emudeceram, ficaram parados. Somente Bafo de Bode teve raciocnio e ao. Surgiu com uma lata cheia de gua e
a despejou sobre Tieta.
Da trova popular e da poesia erudita ao v-la estendida sobre o lenol, as feias queimaduras, pernas e braos em carne viva, os cabelos chamuscados, Ricardo engoliu
o soluo mas no pde impedir a lgrima. No sal da lgrima havia sabor de orgulho.
Quando, obedecendo s ordens do doutor Caio Vilasboas, todos se retiraram para que Tieta pudesse repousar, o sobrinho ficou de sentinela. Ela lhe disse:
- Venha e me d um beijo.
Se o assunto da luz da Hidreltrica, cujos fios e postes se aproximavam velozmente da cidade, fizera de Antonieta Esteves Cantarelli cidad benemrita, figura mpar
entre os filhos de Agreste, o salvamento da velha Miquelina, abandonada no fogo pela neta e l deixada  espera da morte pelos curiosos aglomerados diante do incndio,
elevara-a  categoria de santa. Entronizada no altar-mor da Matriz, ao lado da Senhora Sant'Ana como previra Modesto Pires, um dos primeiros a visit-la no dia seguinte.
Os poetas acertam sempre, deles  o dom divinatrio. Gregrio Eustquio de Matos Barbosa, o vate De Matos Barbosa, versejador elogiado nas colunas dos jornais da
Bahia, reconhecido nos cafs de literatos da capital, apaixonado antigo de Tieta, comps uma ode em seu louvor, exaltando-lhe a beleza e a coragem, beleza deslumbrante,
indmita coragem; em versos de rigor clssico e rimas ricas a comparou quela guerreira e santa que um dia tomou das armas, salvou a Frana e enfrentou as chamas
da fogueira com um sorriso nos lbios.
Joana D'Arc do serto, assim escreveu, impvida vencedora das trevas e do fogo, desafiando a morte, resgatando a vida.
Por coincidncia, tambm o trovador Claudionor das Virgens, ao inspirar-se no incndio para compor versos de cordel, canonizara-a em rimas pobres:
Da neta escutou o rogo Trouxe a velhinho nos braos.
Vinha vestida de fogo:
Pelos dons do corao Pela beleza dos olhos Santa Tieta do serto Durante o dia inteiro, na porta, uma romaria de viventes querendo notcias, mandando recados, abraos,
amizade.  cabeceira da cama, ao lado de Leonora, o poeta Barbozinha, o ex-boa pinta, murcho e reumtico mas fiel  paixo da mocidade, declamando ode a consagradora
aos ps de leito, junto a Elisa, o sobrinho Ricardo, robusto e terno, ansiando beijar cada queimadura, pedir perdo dos maus pensamentos, t-la nos braos. Peto
trouxera-lhe uma flor colhida nos matos.
Na cama de casal do doutor Fulgncio e de dona Eufrosina, na lembrana imperecvel de Lucas, ouvindo o rumor do povo na praa a lhe pronunciar o nome, entre o gasto
poeta e o ardente seminarista, Tieta, santa pelos dons do corao e pela beleza dos traos, impvida Joana D'Arc do serto, navega em mar de amor.
Quarto episdio das festas de natal e ano novo ou a matriarca dos Esteves com papai Noel descendo dos cus em helicptero, poemas de louvao e maldio, te de um
e foguetrio, um grito de alerta abalando a cidade, instrutiva polemica na imprensa sobre os perigos e vantagens, os benefcios e malefcios da indstria de dixido
de titnio, quando no municpio inauguram jornais murais e bolsa de imveis e se fica sabendo da importncia do sobrenome Antunes dos ritos da morte e das aflies
da vida de como pela primeira vez papai Noel desceu em agreste sentado  mesa de despachos do prefeito, Ascnio trindade estuda, o programa de festejos da inaugurao
da luz da Hidreltrica, a ser apresentado  Cmara Municipal para a devida aprovao, em sesso prxima. Cabos e fios devem chegar a Agreste dentro de um ms, mais
ou menos, segundo o clculo dos engenheiros. Ascnio pretende celebrao  altura do evento os postes de Paulo Afonso representam o primeiro, histrico passo de
municpio no caminho de volta  prosperidade. Quem sabe, alm dos engenheiros comparecer algum diretor da Companhia do Vale do So Francisco, um bam-bam-bam da
poltica, do governo federal? Primeiro passo tambm na afirmao pblica do jovem administrador, futuro prefeito.
subindo o degrau inicial de uma carreira fulgurante. Festa similar quelas antigas, quando se deslocavam para Agreste caravanas de ricaos e de polticos, vinham
autoridades da Capital: discursos, banquetes, bailes, foguetrios, o povo danando na rua.
Onde buscar dinheiro para t amanh despesa? Vazios, como sempre, o:
cofres da Prefeitura, Ascnio deve sair mais uma vez rua afora, de lista em punho, a solicitar contribuies. Fazendeiro, criador de cabras, plantador de mandioca
e milho, Presidente da Cmara Municipal, indiscutido dono da terra h mais de cinqenta anos, o coronel Artur de Figueiredo encabea todas as listas, seguido por
Modesto Pires, cidado rico e praa pblica.
nicos donativos dignos de considerao, os demais revelam apenas a pobreza do comrcio, a decadncia da comuna.
Ascnio, porm, deseja e h de marcar com inesquecveis comemoraes;
a noite em que a luz ofuscante da Hidreltrica de Paulo Afonso substituir a mortia eletricidade do fatigado motor inaugurado por seu av quando Intendente. Talvez
possa, finalmente, em meio  alegria e ao entusiasmo declarar-se  bela Leonora Cantarelli, pedindo-lhe a mo em casamento, noivo oficial. Desde o regresso de Rocinha,
quando, no lombo de cavalo, amargou a notcia comunicada por dona Carmosina e digeriu o hmen da paulista, Ascnio vive em permanente exaltao. Calcado o preconceito
reduzido a dormente espinho, a mau pensamento afastado de imediato toda;
as vezes em que nele reincide, a paixo crescera em incontrolvel ternura pelo inocente vtima do monstruoso sedutor. Crescera tambm a intimidade dos namorados,
em repetidos e prolongados beijos, na chegada e na despedida.
Acendendo o desejo, dando ao amor dimenso nova e maior.
Para a declarao, Ascnio espera contar com a boa vontade da madrasta, de corao abrandado pelas homenagens que lhe sero prestadas na festa. Um dos itens do projeto
elaborado por Ascnio manda batizar com o nome da filha prdiga a via de entrada da cidade pela qual chega e parte a marinete de Jairo e por onde ingressaro igualmente
os fios do progresso, a Luz de Tieta, na consagrao do povo. Denominado Caminho da Lama, desde tempos imemoriais, ser a rua dona Antonieta Esteves Cantarelli (cidad
benemrita). A placa j encomendada na Bahia, antes mesmo dos vereadores tomarem conhecimento do plano: existir algum to ingrato a ponto de opor-se ?
Desta vez, Ascnio no esqueceu o Esteves, exigido por dona Perptua e pelo Velho, insolente e cheio de si. Mas o dinheiro para o banquete, o baile, a msica, as
bandeirolas nas ruas, as faixas, os fogos? Para as pedras do calamento? (Zuem poderia ajudar o financiamento da festa, concorrendo com os gastos, se por ali aparecesse,
seria o doutor Mirko Stefano, empresrio interessado em erguer uma grande indstria nas imediaes de Mangue Seco, representante legtimo do progresso. Aps a conferncia
onde exps planos e exibiu plantas, o ilustre paredro ficara de voltar em breves dias. A esperana de Ascnio reside naquela empolgante figura: para o doutor Mirko
nada parece ser difcil, lembra um gnio das histrias de mil e uma noites, sado da lmpada de Aladim. Ah!, se ele se manifestasse de repente...
E eis que de repente ele se manifesta, gnio risonho e todo- poderoso, baixando dos cus em companhia de Papai Noel. A imponente nave sobrevoa a Prefeitura, a Matriz,
o jardim: viso alucinante, espantoso barulho, at ento desconhecidos aos olhos e ouvidos tacanhos do povo de Agreste.
Sol forte e brisa amena, vinda do mar Atlntico, um dia aprazvel, tpico do vero sertanejo. A cidade parece adormecida quando, pelo meio da manha, o rudo surge
e cresce, inslito, e Peto atravessa a rua, os olhos postos no alto, reconhecendo e proclamando o helicptero, mquina nunca enxergada antes em Agreste mas numerosas
vezes admirada por Peto nas revistas que dona Carmosina lhe permite folhear na agncia dos Correios. Comerciantes apetecem nas portas das lojas. No bar deserto,
seu Manuel suspende a desagradvel tarefa da lavagem de copos, espia e exclama: que os pariu!
Ascnio, interrompido pelo barulho assustador, abandona papel, Ipis e devaneio, chega  janela e assiste ao pouso do aparelho no centro da praa, entre a Prefeitura
e a Matriz. Padre Mariano, acolitado por beatas que se benzem apavoradas, mostra-se no alto da escada que conduz ao adso.
Do helicptero, cujos motores continuam a trabalhar, as hlices rodando lentamente para a admirao dos primeiros curiosos abobados, desembarcam o Magnfico Doutor,
esportivamente vestido de cala jean e colorida camisa da praia do Hava, com mulheres sensuais e flores exticas, e o prprio Papai Noel, o mais belo entre quantos
existiram pois quem porta as barbas brancas e enverga a roupa vermelha no  outrem seno a figura eficiente, executiva e excitante da nossa conhecida e to apreciada
Elisabeth Valadares, Bety para os colegas, Beb para os ntimos. Uma secretria realmente competente  pau para toda obra e em vsperas de Natal se transforma, se
necessrio, em Papai Noel, sob a direo do inventivo gnio da lmpada de titnio, o Magnfico Doutor.
Ascnio, ao enxergar helicptero, Papai Noel e o doutor Mirko indicando ao embasbacado Lencio a carga no interior do aparelho, no contm um grito de entusiasmo,
um sonoro viva! O Magnfico Doutor suspende a vista, acena com as mos para o Secretrio da Prefeitura.
- Fiz questo de trazer pessoalmente os brindes de Natal para as crianas pobres - explica o mago, apertando calorosamente as mos de Ascnio que desceu a escada
de quatro em quatro para receber e saudar os visitantes.
Deixando a cargo de Papai Noel o transbordo de coloridas sacolas do bojo do aparelho para a Prefeitura, gratificante tarefa que o capenga Lencio executa com surpreendente
rapidez, o Magnfico Doutor acompanha o jovem funcionrio para dois dedos de conversa. Apenas para lhe dizer que os resultados dos estudos realizados at o momento
pelos tcnicos e peritos em Mangue Seco so extremamente satisfatrios e positivos.
Apesar de regies mais ricas, mais bem servidas de vias de comunicao e de conforto, mais bem aparelhadas materialmente, como Valena, no recncavo, Ilhus e Itabuna,
no sul do Estado, e at mesmo Arembepe, junto  Capital, se encontrarem empenhadas na disputa, oferecendo facilidades de toda ordem para a instalao em seus limites
da magna indstria, as preferncias dos empresrios tendem a inclinar-se para Agreste. O Magnfico Doutor influi nesse sentido, cativo da beleza e do clima, da gentileza
da populao.
Impressionado, quase comovido, Ascnio bebe-lhe as palavras de bom pressgio e pergunta-lhe se ainda  necessrio manter o assunto em reserva.
Aps a descida do helicptero com a carga de brindes, vai ser difcil, praticamente impossvel, esconder a verdade.
Em dia de francs, o Magnfico concorda:
- Alors, mon cher ami... Pode adiantar que existe a perspectiva da instalao no municpio, nas vizinhanas da praia de Mangue Seco, das duas fbricas integradas
da Brastnio - indstria Brasileira de Titnio S.A. Mais do que perspectivas, possibilidades concretas.
Explica que todavia a deciso fina se encontra na dependncia de concluses e acertos:
- Estamos em fase de estudos, com mais de um local  vista, como j lhe disse. As chances de Agreste, porm, so muito grandes. Personnellement, je sus pour...
Mas a soluo no depende somente de votre servteur.
Eleva os braos num gesto oratrio que lhe enfatiza as palavras grandiloqentes:
- A presena da Brastnio em Agreste transformar o municpio em poderoso centro industrial, fervilhante de vida, magnifique!
Ascnio refora a candidatura de Agreste com a notcia de que da a alguns dias, um ms no mximo, a eletricidade e a fora de Paulo Afonso sero inauguradas, postas
a servio da Brastnio. A Prefeitura tinha intenes de organizar uma festa de arromba, para comemorar os novos tempos, mas a pobreza franciscana do municpio...
O Magnfico Doutor no o deixou terminar, quis detalhes da festa e concretamente o montante da nota de despesas. Naquela mesma manha, Ascnio fizera e refizera clculos,
traduziu-os timidamente em contos de ris.
Para ele alta soma, ninharia desprezvel para doutor Mirko Stefano, cujas verbas de relaes- pblicas para contatos e providncias iniciais, em moeda forte, eram
praticamente inesgotveis. Com um gesto liquidou a preocupao principal de Ascnio: o calamento da rua, despesa maior e indispensvel.
- Deixe comigo, mando calara rua. A Brastnio se sentir honrada em colaborar para o maior brilho dos festejos. Passadas as festas de Natal, estarei aqui de novo.
Para uma conversa definitiva, para acertarmos nossos relgios e dar o sinal de partida. Assim espero.
Ascnio no sabe se ele fala da instalao da fbrica ou dos preparativos da festa da Luz de Tieta:
- De qual partida?
- Da partida para o progresso e a riqueza de Agreste! - A voz clida, afirmativa, inspira confiana. - Quanto  inaugurao da luz, a Brastnio se responsabiliza
pelo calamento e concorrer para as demais despesas, participando da alegria do povo do municpio e eu farei o possvel para estar presente. Servir  o supremo
objetivo da Brastnio; servir  ptria. Brasilubber alles - tratando-se de dinheiro, o Magnfico abandona o diplomtico idioma francs por lnguas mais concretas:
o alemo e o ingls - auf Wiedersehen.
Merry Christmas, my dear.
Cresceu a aglomerao na Praa Desembargador Oliva. Nomeando-se embaixador dos meninos da cidade, Peto aproximou-se do aparelho, puxou conversa com o piloto, sorriu
para Bety Papai Noel, veio ajud-la no desembarque das sacolas. ao apert-la s, curioso, sente bonecas, automveis de lata, percebe brinquedos midos para crianas
pequenas, desinteressa-se - em breve cumprir treze anos, ser um rapaz e Osnar o levar  primeira caada.
Da porta da Prefeitura, ao lado de Ascnio, o Magnfico Doutor contempla as velhas casas da Praa, a gente pobre reunida no assombro do helicptero, pronuncia:
- Amanh, com a Brastnio, aqui se erguero arranha- cus!
Baba-se Ascnio, santas palavras, que os anjos digam amm,  quanto deseja. no resiste, transforma o aperto de mo em cordial e grato abrao:
- Muito obrigado, doutor. Fico  espera.
- Imediatamente aps as festas de fim de ano.
Antes de reentrar no helicptero, Papai Noel acolhe de encontro ao peito o indbil representante das crianas pobres, nem to criana nem to pobre, beija-o na face.
Lbios macios e quentes, perfumado hlito, gostosura!
Peto retribui-lhe os beijos, achega-se mais, sente o volume do busto, os seios soltos sob a tnica vermelha de cetim.
O bojo do aparelho est repleto de sacolas idnticas s que ficaram na sala do andar trreo da Prefeitura, onde se rene o Conselho Municipal quando raramente o
coronel Artur da Tapitanga o convoca, sempre a pedido de Ascnio, um formalista. Reunies inteis, nas quais os edis aprovam por aclamao o que o coronel decidiu,
exatamente como o faz o Parlamento Nacional em relao aos projetos do Executivo.
As hlices ganham velocidade, eleva-se a nave, ruma em direo ao mar.
O Magnfico Doutor prossegue a viagem natalina, levando para Valena, Ilhus e Itabuna, em nome da Brastnio, Papai Noel, sacolas e promessas de futuro grandioso.
no ir, no entanto, a Arembepe. Para cada local e ocasio, uma estratgia.
Do contedo das sacolas, captulo no qual a Brastnio coloca Jesus a seu servio meia centena de sacolas de papel, com as cores e a insgnia Ordem e Progresso -
da bandeira brasileira, contadas e acumuladas na sala de reunies do Conselho Municipal; separadas em dois grupos de vinte e cinco.
No primeiro, destinado s meninas, predomina a cor amarela e cada sacola contm uma pequena boneca de plstico, um fogozinho de lata, duas bolas de ar, um saco
de balas, uma lngua- de- sogra, um reco-reco de madeira. Nas outras, a cor dominante  o verde; a boneca e o fogo foram substitudos por um automovelzinho (de
plstico) e uma cometinha (de lata). Em todas as cinqenta, idntica estampa com a efgie de Jesus de um lado, e do outro uma inscrio onde se l em caracteres
dourados: Deixai vira mim as criancinhas.
Oferta da Brastnio - Indstria Brasileira de Titnio S.A., uma empresa a servio do Brasil Peto, perdidas as ltimas iluses, abandona a Prefeitura:
- Que zorra! Um lixo...
Em compensao, Lencio freme de entusiasmo:
- Viva Deus! Sete mimos em cada saco, que fartura! Vou querer para meus trs netos, as duas meninas e o menino. no me falte, por favor, doutor Ascnio.
Ascnio concede as trs sacolas ao ex-soldado e ex-cangaceiro, fiel auxiliar da Prefeitura, salrio mnimo nem sempre pago em dia. Naquela hora alegre e luminosa
no pode negar-se a nenhum pedido, estando ele prprio cumulado, tendo recebido de uma vez e inesperadamente tantas mercs.
O Natal das crianas pobres. A soluo do problema a afligi-lo, o financiamento da festa de inaugurao da luz da Hidreltrica: a benemrita Brastnio paga tudo,
calamento e bandeirolas, foguetes e msica e o doutor Mirko Stefano honrar a cidade com sua presena. Mais ainda, porm, excitam- no as notcias sobre as perspectivas
da instalao em Agreste da monumental indstria: o doutor praticamente garantiu o feliz resultado dos estudos. Nem Itabuna, nem Ilhus, nem Valena, nem Arembepe...
Ascnio fica em dvida: teria o doutor Mirko citado Arembepe entre os locais possveis? Guarda a impresso de haver escutado o nome da praia famosa, atrao turstica
internacional, apesar de no chegar aos ps de Mangue Seco. Mas no tem certeza pois, ao repetir o nome das cidades concorrentes, o magnata os reduzira s duas do
sul do Estado e  terceira, do recncavo. Enfim, no importa, pois as preferncias dos responsveis pela Empresa fixam-se em Agreste.
Para fechar sua visita com chave de ouro o doutor Mirko liberara Ascnio da obrigao de sigilo: pode comunicar a boa nova ao povo. Ele o far durante a distribuio
dos brindes de Natal.
Mentir no  o forte de Ascnio Trindade, no sabe faz-lo, comete indiscries, escapam-lhe detalhes, revela pistas. Assim aconteceu no discurso pronunciado na
Praa do Curtume (retificando em tempo: Praa Modesto Pires) quando levianamente anunciara para breve grandes novidades, dando a entender a existncia de projeto
muito mais considervel do que simples empreendimento turstico, fazendo referncia, imagine-se!, o plo industrial.
A maioria no maliciou mas alguns ficaram de orelha em p. Osnar o interpelara no caminho do rio:
- Que conversa  essa, Capito Ascnio, de plo industrial? Nessa histria tem gato escondido...
De brao com Leonora, fugira  pergunta com uma pilhria:
- Com o rabo de fora... Adivinhe, se puder.
Ao coronel Artur de Figueiredo, por motivos bvios - mandachuva, prefeito em exerccio, alm de padrinho e protetor- expusera em detalhes a conversa anterior com
o grande empresrio, planos e plantas. Fora  fazenda Tapitanga a propsito. Mas o coronel anda meio brocho, j no se interessa por nada tirante terras e cabras.
Considerara o projeto pura maluquice, se no fosse pior, tenebroso plano de vigarista:
- Grande empresrio, meu filho? Esse tipo no passa de um gatuno. S que ele no sabe que  mais fcil tirar leite do saco de um bode do que arranjar verba em Agreste.
Tomou o bonde errado. Ladro e doido.
Discutir com o padrinho? Intil, no o convenceria. Mas agora ali estavam os brindes, cinqenta sacolas contendo brinquedos para as crianas pobres, o coronel ter
de render-se  evidncia. Grande empresrio, sim. Nem maluco nem vigarista, representante de imensos capitais, falando em nome da Brastnio, indstria para a produo
de dixido de titnio, bsica para o desenvolvimento nacional. Situada em Agreste, cujo prefeito  o dinmico e competente Ascnio Trindade. Se ainda no , ser,
assim que haja eleio, cuja data o Tribunal Eleitoral do Estado deve marcar em breve.
Faz-se absolutamente necessrio assinalar com solenidade significativa a entrega dos brindes, a ddiva da Empresa. Ascnio decide constituir uma comisso de senhoras
e senhoritas gradas para a comovente cerimnia da distribuio, na vspera de Natal, da a dois dias. Vai ser um sucesso, um Natal inesquecvel, graas  Brastnio.
Sorri sozinho, imaginando Leonora, fada a repartir brinquedos e alegria entre a meninada.
Convocar Barbozinha para agradecer em nome das crianas aos generosos industriais da Brastnio. Nessas ocasies ningum o iguala, sabe como atingir o corao dos
ouvintes, arrancando lgrimas e aplausos. Tambm ele, Ascnio, dir umas palavras: para anunciar aos povos o comeo de uma nova era para Sant'Ana do Agreste - a
era da Brastnio e - por que no? - de Ascnio Trindade. Sim, Leonora, de Ascnio Trindade, no mais um pobreto, reles funcionrio municipal pouco acima de Leoncio,
igual a Lindolfo. Um administrador, um poltico, um estadista. Merecedor de tua mo de esposa. Calca o espinho aos ps: a virgindade no passa de tolo preconceito.
Uma jovem viva, paulista, bela e rica.
Deixa as sacolas sob a guarda de Leoncio, duplamente feroz, jaguno e praa de pr. Dirige-se  casa de dona Perptua, para comunicar a chegada dos brindes a Leonora
e a dona Antonieta, esta ltima ainda recolhida ao leito onde as queimaduras cicatrizam sob a terna vigilncia do sobrinho seminarista, um menino de ouro.
De como o vate de matos Barbosa compe e declama um poema que no  ouvido em razo do exagerado sucesso da festa onde foram distribudos os brindes da Brastnio
as crianas pobres, captulo por isso mesmo agitado e confuso, com dona Edna em plena ao a verdade deve ser dita e proclamada: a distribuio dos brinquedos superou
todas as previses; mais do que animado rebulio de moas e senhoras, de crianas felizes, foi um Deus-nos-acuda, um pandemnio, desbordando de todos os limites
da ordem e da boa educao.
Em Agreste, terra falta de recursos e de distraes, qualquer cerimonia, de missa a enterro, congrega o povo vido de entretenimento. A notcia da chegada dos brindes
na mquina- voadora, conduzidos por Papai Noel em pessoa, correu mundo. Assim, na manha da vspera de Natal, a carantonha e a fama de valentia de Lencio no conseguem
conter a massa infanto-juvenil, comandada por adultos, na maioria do sexo feminino, reunida em frente  Prefeitura, cuja porta de entrada ele mantm fechada  chave.
Nem mesmo Ascnio Trindade, conhecedor, por ofcio e devotamento, dos problemas e realidades do municpio, jamais imaginara existissem tantas crianas em Agreste.
ao que se v, todas pauprrimas, pois at os filhos de Agostinho Po Dormido, dono da padaria, apatacado cidado, candidataram-se aos regalos da Brastnio: um menino
e uma menina, gordos, bem alimentados, nos trinques. Encontram-se entre os primeiros da fila mandada organizar por Ascnio, ali deixados pela me, dona Dulcinia
Broa Azeda. Fila interminvel a desfazer-se e refazer-se, no pra de chegar gente. A molecada corre, grita, levanta poeira, rola no cho, uma baguna generalizada.
- Que esporro medonho! - comprova Aminthas, espiando da porta do bar, o taco na mo. - no vai ajudar, Osnar? Ascnio pediu...
- Desatino s cometo por causa de mulher. V voc, se quiser.- Osnar passa giz no taco, admirando-se da inesperada presena de Peto que chega e se acomoda numa cadeira,
disposto a acompanhar a partida de bilhar. - Por aqui, Sargento Peto? Pensei que voc fosse o nmero um da fila...
- Para ganhar aqueles bagulhos? Eu, hein? Fico na minha, p! 'rendo feito to longo discurso, estendeu os gambitos, chamou seu Manuel, ordenou uma Coca- Cola na
conta de Osnar.
Na sala da Prefeitura, desfalcada da insubstituvel dona Carmosina, presa ao leito com um resfriado fortssimo, febre, dor de cabea, tosse e catarro, a numerosa
e galharda comisso de honra coloca-se sob o comando de dona Mil e entrega-se afobada  tarefa de dividir o contedo das sacolas para atender ao maior nmero possvel
de crianas.
Alguns rapazes ajudam, vieram acompanhando namoradas; entre eles o filho de seu Edmundo Ribeiro, coletor, o jovem Lelu de quem j se teve notcia anterior e venrea.
Universitrio, segundanista de Economia, magricela, prafrentex, cabeludo, no rigor da moda, cala Lee desbotada, camisa aberta, as fraldas fora das calas, as mangas
arregaadas, a barba por fazer,  o ai - Jesus das moas, no chega para as encomendas. Seixas tambm est presente, combia um batalho de primas.
- Nem assim vai dar... - declara Elisa, voltando da janela de onde fez um balano da situao, calculando o nmero de crianas.
Elisa e Leonora, elegantssimas, so as duas estrelas da comisso, formosuras que se completam e se opem, a loira paulista, filha de imigrantes italianos, a morena
sertaneja, brasileira de muitas geraes e muitos sangues misturados. Os olhos ladinos de Lelu pousam numa e noutra, a compar-la s.
Ambas lhe apetecem, mas tm dono: uma  esposa sria de comerciante ainda moo, a outra namora o secretrio da Prefeitura, uma lstima. ao desviar o olhar, encontra
o de dona Edna a fit-lo, dolente, derramado em sombra e insistncia. Lelu responde ao sorriso, dona Edna se aproxima, seguida de Terto, que no parece ser seu
marido mas com ela casou no juiz e no padre.
Entra na sala padre Mariano, veio benzer os brindes. Vav Murioca, sacristo idoso e ranheta, carrega o repositrio de gua benta e o aspersrio, enquanto Ricardo,
de sobrepeliz branca debruada de vermelho, conduz o turbulo e o incenso. Dona Edna vacila. Primeiro a devoo, depois a diverso:
dirige-se ao padre, beija-lhe a mo, devora Ricardo com os olhos. Ai que o amoreco no afasta a vista, como antes! Pela primeira vez enfrenta o cpido olhar e mira
o rosto da oferecida, sorrindo levemente ao dizer bom dia, dona Edna. Anjo sem mcula mas homem feito. Bom dia, meu coroinha. Ai, quem lhe dera as primcias!
Tendo cumprido a devoo, dona Edna ruma para Lelu que busca conquistar as graas do marido Terto. Tolo, no h necessidade de amaciar-lhe os cornos.
Ante a declarao de Elisa, logo confirmada por Seixas, dona Mil, aps breve conferncia com Ascnio, ordena sejam todos os brinquedos retir-los das sacolas, acumulados
atrs da mesa da presidncia do Conselho municipal, em cujos lados so dispostas as cadeiras de espaldar dos vereadores, formando uma espcie de barricada a defender
os brindes e as senhora e moas encarregadas da distribuio. Cada criana receber um presente.
- Nada de proteo! - recomenda Ascnio Trindade, meio Ascnio, meio em brincadeira.
Dona Mil no ri, d ordens:
- Boneca, automvel, corneta, fogo e reco-reco s para os necessitados. A fila est cheia de filhos de gente que no precisa, uma vergonha. ':ma esses, uma bola
de ar ou um queimado, e olhe l! Esto aqui porque os pais no tm brio na cara.
Para que no haja dvidas, exemplifica:
- Est ouvindo, Dulcinia? Teus filhos esto na fila, como se a padaria no desse dinheiro. Teu irmo tambm, Georgina, um moleque grande daqueles. S quero ver.
Apenas Lencio destranca a porta e permite a entrada, a fila se desfaz, a meninada avana em bloco, mes e pais postam-se diante da mesa de mos estendidas, empurram
as cadeiras.
A poder de gritos e de alguns puxes de orelha, padre Mariano contm a avalancha durante os minutos necessrios  cerimnia da bno. ao terminar, ainda tenta cometer
pequeno sermo mas desiste diante da gritaria e da balbrdia que, de imediato, se estabelecem. Padre Mariano, Vav Murioca e Ricardo so envolvidos pela leva de
candidatos aos donativos da Brastnio. Indiferente aos brindes mas amiga da confuso, dona Edna se aproveita e, em meio  gua benta e ao incenso, consegue ao mesmo
tempo apertar a mo de Lelu em doce promessa e roar a bunda na batina de Ricardo, faanha limitada, porm divertida e grata.
Torna-se impossvel qualquer espcie de controle, fracassam as tentativas de distribuir bonecas e foges s meninas, automveis e cornetas aos meninos, bolas de
ar e caramelos aos filhos de gente endinheirada. Um tumulto, um motim: a comisso imprensada contra a parede, as cadeiras derrubadas, mos maternas arrancando os
brindes. A donzela Cinira tem uma tontura e desmaia, Elisa sai  procura de um copo com gua. Falta de homem, diagnostica dona Mil desistindo de distribuir brindes
para aplicar belisces e cascudos nos moleques mais ousados.
Desaparece rapidamente o monte de brinquedos. Os retardatrios recebem to- somente a estampa colorida com a efgie de Jesus e a frase de oferenda da Brastnio.
Na rua, estouram discusses entre mes e pais, duas mulheres do Buraco Fundo se agarram pelos cabelos, crianas se batem entre choros e xingos.
Vencidas, arrasadas, desfeitos os penteados, amarrotados os vestidos, senhoras e moas da comisso de honra ameaam chiliques. Dona Dulcinia retirou-se s pressas,
aps entregar aos filhos corneta, boneca, fogo e automvel, levando ela prpria reco-reco e lngua-de-sogra, balas para o marido; para isso aceitou participar da
comisso, dona Mil que v pregar sermo em outra freguesia. Georgina afoga os soluos no leno, o irmo a ameaara: vou contar a papai que voc no quis me dar
nem o automvel nem a corneta, sua burra.
Em meio  barulheira dessa algazarra festiva e rude, do intolervel som de vinte abjetas cornetas de lata, o vate Barbozinha, na tribuna do conselho, declama o poema
composto especialmente para a ocasio, comovente, bblico e louvaminheiro. Em vo Ascnio, Seixas, Lelu e outros rapazes reclamam silncio. Tambm Leonora e Elisa,
duas formosuras raras, erguem as vozes e suplicam, por favor, um minuto de ateno. Do poema, ali pouco ou nada se pode ouvir, para tristeza do bardo insigne que
passara dois dias e duas noites escolhendo rimas, contando as labas e buscando informaes sobre dixido de titnio.
- Me diga, mestre Ascnio, que diabo  isso?
O que fosse, exatamente, tampouco Ascnio o sabia. Importante, importantssimo produto, cuja fabricao vai significar grande economia de divisas ao pas, passo
fundamental para o desenvolvimento ptrio. Em que consiste, porm, disso no tem a mais mnima idia, confessara um tanto encabulado.
Ascnio resolve adiar para melhor ocasio o discurso anunciando aos povos a nova era: os povos, em bulha e correria, se retiram com os brindes, desinteressados de
poesia e oratria. Mulheres pobres com os filhos escanchados nas ancas, homens mal vestidos levando crianas pela mo, molecotes soltos nas esquinas, rapidamente
a multido se desfaz. Largadas nos caminhos, atiradas fora, as estampas com a efgie de Jesus, a frase do Novo Testamento e o nome da Brastnio. no possuem valor
de compra e troca.
Tendo Bafo de Bode pedido um brinde ou um trago de cachaa a Lencio, este lhe ofertou uma estampa, nico brinde a sobrar.
- Por que no oferece  senhora sua me? - perguntou o mendigo, ofendido.
O capenga Lencio considera a festa um sucesso sem exemplo e a Brastnio organizao digna dos maiores elogios. nico a receber sacola ntegra - no uma, trs e
com antecedncia, sem empurres nem briga ainda conseguira surrupiar uma cometa que termina dando a Bafo de Bode para se ver livre dele.
Pequena corneta de lata, vagabunda mas barulhenta. Bafo de Bode desce a rua a sopr-la, produzindo um som incmodo, arrepiante, medonho. Com ele obtm o silncio
necessrio para perguntar aos povos onde Terto ir pendurar os novos chifres ser no tem lugar no corpo que no esteja ocupado.
Resta-lhe enfi-los no cu, so chifres de menino, maneiros, no doem. O que diz Bafo de Bode, podre de bbado, no se repete, muito menos se escreve.
Onde finalmente Barbozinha declama como devido seu poema e Ascnio trindade lana proclamao aos povos desanimando agreste soldados de derrotado merecimento da
caridade, batendo em retirada, atravessaram a praa e refugiaram-se em casa de Perptua, onde, na varanda, estendida na rede, Tieta convalesce. Animada curriola,
repartida entre a indignao e o riso, ainda sob o comando de dona Mil, demissionria:
- Ai, Tieta, minha filha, no tenho fsico para agentar uma tareia dessas. Para outra igual, Ascnio no conta comigo.
Arrastam cadeiras, colocam-se em torno  rede. Tieta reclama detalhes, enquanto beija a mo de padre Mariano e se regala a admirar Ricardo, ainda de sobrepeliz branca,
levita do santurio. O reverendo veio apenas dizer-lhe bom dia mas aceita um copo de suco de caj antes de retomar  igreja, arrastando consigo o seminarista. Tieta
prende um suspiro, scia de Deus, cada qual com seus horrios.
Elisa, mancando, vai  cozinha preparar um cafezinho bem forte para o ofendido Barbozinha. A pequena Araci equilibra nos braos magros pesada bandeja com copos de
sucos de frutas: de manga, de mangaba, de caj, de umbu. As primas de Seixas espiam para o interior da casa onde penetram pela primeira vez, desejando bispar o mximo.
Cutucam-se, maliciosas, envesgam os olhos para a rede onde as carnes rijas de Tieta se exibem no decote e no abandono do neglig de nilon, amarelo com rendas brancas,
o fino.
Perptua escolta o padre at  porta da rua. De regresso, elogia o gesto dos industriais, a valiosa oferta de brindes de Natal s crianas da cidade.
Tentara convencer Peto a entrar na fila mas o peralta sumiu de suas vistas. Da janela, espiara o movimento, condena a m- educao do povo.
- Essa gentinha no merece a caridade de ningum. Ento, os homens mandam um avio de presentes e o resultado  essa vergonheira... At d nojo.
Tieta toma a defesa do povo de Agreste, humanidade sofrida, condenada  misria, cujos filhos no conhecem outros brinquedos alm de bruxas de pano e caminhes feitos
com restos de madeira, tampas de cerveja no lugar das rodas.
- Eles so pacientes demais.
Dividem-se as opinies, a discusso ameaa pegar fogo, a atmosfera guerreira da Prefeitura invade a pacfica varanda da manso onde as paulistas se hospedam. Seixas,
por uma vez exaltado, a favor de Tieta, defendendo O direito dos pobres  revolta. Elisa, exibindo o p inchado, conseqncia do piso de potente lavadeira disposta
a obter bonecas e cornetas para os oito filhos, no encontra desculpas, nem para a m- educao do z-povinho nem para a ausncia da malta do bilhar.
No se refere a Astrio, de planto na loja, sem poder abandonar o balco, na vspera de Natal sempre se vende alguma coisa. Mas Osnar, Aminthas, Fidlio, eles e
outros, deixaram-se ficar no botequim, de taco e giz na mo, em vez de atender ao pedido de Ascnio comparecendo  Prefeitura para ajud-la s a conter as feras,
porque no passam de feras...
Presidente da Comisso de Honra, dona Mil devia ser a mais indignada, a primeira a condenar a grosseria geral. Muito ao contrrio, defende os canibais:
- Feras coisa nenhuma! Pobres, somente pobres e nada mais. Brigando, se atropelando por uma bonequinha de plstico que no vale dez ris de mel coado, por uma corneta
de lato, para dar aos pobrezinhos dos meninos.
Por falar nisso, que idia pssima, essa de oferecer cometas... no podiam escolher outra pinia qualquer?
Observao com a qual todos esto de acordo; o vibrante concerto de cornetas, tantas e to estridentes, sopradas em conjunto, fora o pior da festa.
Dona Mil volta-se para o poeta que ainda no abriu a boca:
- Tenho de ir embora, deixei Carm na cama, com febre; quando se resfria fica enjoada como ela s, vira um alfenim. Mas antes quero ouvir os versos de Barbozinha.
L no deu jeito. Por causa das cornetas.
Em geral, o vate no se faz de rogado para declamar seus poemas mas est de calundu, a vaidade ferida com a falta de respeito de seus concidados; pede desculpas,
mas... Tieta intervm:
-  claro que voc vai dizer a poesia, no guarde agravo. De qualquer maneira tinha de recit-la para mim que no pude ir, no  mesmo? - Os olhos marotos postos
em Barbozinha. - Ento, meu velho? Estamos esperando, lasque o verbo...
Barbozinha obedece. Amoroso trovador, submisso s ordens de sua musa, pe-se de p, retira do bolso de dentro do palet duas folhas de papel, caprichada caligrafia,
sonoros alexandrinos. Pigarreia, solicita um gole de pinga para lavar a garganta, Araci corre a buscar. O poeta emborca a cachaa, estala a lngua, estende a mo
e desfralda a voz.
Arauto da boa nova, anuncia o nascimento de Cristo, pobre e nu, na manjedoura em Belm. Que venham as crianas de Agreste, todas, sem exceo de nenhuma, participar
da alegria universal, pois  infncia pertence essa festa de Natal por deciso da benemrita Brastnio, cujos proprietrios, nobres e magnnimos construtores da
ptria grandiosa e justa, atiram braadas de brindes valiosos no regao da pobreza, transmudando as lgrimas das crianas desprovidas em risos lacres, em pipilar
de pssaros, em gorjeio de aves felizes.
Buscara inspirao na Bblia e na beleza do cho, do rio, do mar; molhara a pena nos profundos sentimentos de solidariedade humana. Assim iluminou obscuros lares
com estrelas- d'alva, comparou os diretores da Brastnio a novos Reis Magos descobrindo os speros caminhos de Agreste, trazendo, nas mos de bondade, ouro, mirra
e incenso. Rimou a pobreza do povo com a grandeza nacional, o infeliz menino dos outeiros de Agreste com o infante divino, rei da Judia, rimou titnio com Ascnio.
Ascnio Trindade, capito da aurora, a romper os muros do atraso, a abrir as comportas do progresso.
Leonora, empolgada, ergue-se em aplausos, os demais a acompanham:
palmas e exclamaes entusisticas. Triunfo completo a compensar a decepo anterior.
- Chegue aqui, quero te dar um beijo! - exige Tieta e beija o vate na face maltratada, imprimindo-lhe nas rugas a marca dos lbios, em batom cor de vinho.
- Bravos, Barbozinha, gostei muito. Merecido, esse elogio a Ascnio - considera dona Mil. - Ascnio no desanima e se um dia Agreste voltar a valer alguma coisa,
a ele se deve. A ele e a voc, Tieta. Foi voc chegar e tudo mudou: foi como um claro nos iluminando. no falo da eletricidade de Paulo Afonso, falo de qualquer
coisa que eu mesma no sei explicar, no passo de uma velha boboca. Uma coisa que a gente no v, no toca mas existe, uma luz que veio com voc, minha filha, Deus
lhe abenoe.
Aproxima-se da rede e beija Tieta com carinho maternal. Despede-se :
- Vou embora, Carm deve estar sobre brasas, vai me dizer muitas e boas. Com razo.
Ascnio pede-lhe mais um minuto, um minuto apenas, por favor.
Pondo-se tambm de p, faz sua proclamao aos povos, anuncia a nova era, a era da Brastnio. no acrescentou seu nome ao da grande indstria de dixido de titnio,
por desnecessrio. Merecendo apoio e aplauso de dona Mil, j o fizera De Matos Barbosa em versos que Leonora decorou e repete baixinho, entreabertos os lbios de
carmim.
Teu paraso, est ameaado!, capitulo onde a bomba explode a crnica de autoria de Giovanni Guimares explodiu em agreste no dia seguinte ao Natal. Bomba de retardamento,
pois o nmero de A Tarde em que foi publicada datava de trs dias atrs, da antevspera de Natal, quando o vate Barbozinha no havia ainda cometido seu poema para
a festa das crianas pobres.
A culpa cabe por inteiro  gripe que, retendo dona Carmosina febril sob os cobertores do leito, em suadouro, no apenas desfalcou a Comisso de Honra da dita festa,
como impediu o comparecimento da exemplar funcionria  agncia dos Correios em dia de distribuio de correspondncia.
Substituiu-a dona Mil, cansada da maratona da manha na Prefeitura, com pressa de voltar para junto da filha enferma. Entregou as poucas cartas quelas pessoas que
acorreram aps a chegada da marinete, naquele dia atrasadssima, deixou o resto, inclusive os jornais, para distribuir aps o feriado.
A Tarde possua cinco assinantes em Agreste mas o pacote continha sempre seis exemplares, sendo o sexto destinado a dona Carmosina Sluizer da Consolao, representante
do jornal no municpio. Todos os seis ficaram na Agncia, atados com um barbante, como chegaram. Dona Carmosina se encontrava de tal maneira tomada pela gripe a
ponto de no se interessar sequer pelos acontecimentos da festa na Prefeitura, quanto mais pela cansativa leitura dos jornais.
Amanheceu melhor no dia de Natal, sem febre mas ainda fraca, o corpo pedindo cama e repouso, dormiu quase toda a manha.  tarde, recebeu a visita de Tieta e Leonora,
acompanhadas do comandante Drio e dona Laura, alm de Ricardo, que ostentava no dedo largo anel de ouro, com uma pedra de jade, de raro verde- escuro, oval e lisa,
pea de valor.
Tieta saa de casa pela primeira vez aps a noite do incndio. Algumas marcas das queimaduras, vermelhas, desagradveis de ver-se, resistiam s pomadas e ungentos.
Outra, que no fosse ela, esperaria a cicatrizao completa antes de exibir-se em pblico, mas Tieta j no suporta permanecer em casa, deitada na rede, sobretudo
em dia festivo.
Na vspera organizara uma ceia  maneira do Sul para a famlia c os amigos, aps a missa do galo. Vieram Barbozinha, Ascnio Trindade, padre Mariano, Osnar, Aminthas
e Fidlio. Seixas tinha compromisso com as primas. O Comandante e dona Laura tampouco puderam comparecer.
Todos os anos, desde que voltou a Agreste, o Comandante promove na vspera de Natal uma festa para os pescadores de Mangue Seco: a populao no chega a quarenta
pessoas, contando homens, mulheres e crianas.
Renem-se todos numa espcie de brdio comunal que se prolonga em animado arrasta- p. Modesto Pires contribui para os gastos mas no participa da comilana, vai
 missa do galo no arraial do Saco. Em compensao, a filha Marta e o genro Pedro confraternizam com os pescadores. Por esse motivo o Comandante no aceitou o convite,
prometendo, porm, vir com a esposa para Agreste na manha do dia de Natal, a tempo de saborear, no almoo, em casa de Perptua, os restos do peru, as sobras da ceia.
Nem isso Carmosina e dona Mil podem fazer o mximo que Carmosina se permite  deixar o leito, estender-se na espreguiadeira.
Tieta, precavida, trouxera de So Paulo pequenos presentes de Natal para a famlia mas, alm disso, agradecida pela forma como a receberam e tratam, deu dinheiro
a Z Esteves e Tonha, a Astrio e Elisa e cadernetas de poupana a Ricardo e Peto, abertas em nome dos sobrinhos em banco de So Paulo. Ademais, a Ricardo, pela
inestimvel ajuda que lhe est prestando na construo do Curral do Bode Incio, ofertou aquele anel, jia do acervo do finado Comendador Felipe. As mos carregadas,
chegam, ela e Leonora,  casa de dona Mil.
- Mais presentes? no se contenta com os que nos trouxe de So Paulo?
- Dona Mil abana a cabea ao receber o leque japons. - Voc no toma jeito, Tieta.
- At melhorei da gripe... - declara, animada, dona Carmosina admirando o broche de fantasia, vistoso.
No se demoram. Leonora tem encontro marcado com Ascnio, vo  matin, e dona Carmosina, o rosto abatido, a voz rouca, ainda no est em condies de prosa longa.
- Volte para a cama - ordena Tieta. - E no pense em sair amanh.
Se quiser, eu fico de planto no correio.
O Comandante prope uma comisso de pelo menos cinco pessoas para assumir a responsabilidade de substituir a boa Carmosina:
- Uma s no chega...
- No  necessrio ningum; amanh  dia de pouco movimento, s tem mala depois de amanh. me d um pulo l, no precisa mais.
No dia seguinte, depois do almoo, dona Mil foi entregar o resto da correspondncia e os jornais, demorou-se a ver se aparecia algum com cartas a enviar, matando
o tempo a conversar com Osnar e Aminthas at por volta das quatro horas, quando fechou a porta e, levando consigo o exemplar de A Tarde, voltou para casa. Quem por
acaso precisasse enviar telegrama, sabia onde encontrar a agente dos Correios e Telgrafos.
Bem mais disposta mas ainda guardando o leito, dona Carmosina ajeita os travesseiros, pondo-se cmoda para a leitura da gazeta. Relanceia os olhos pelos ttulos
da primeira pgina, reportagem sobre a carestia da vida, as dificuldades da populao praticamente impedida de comemorar o Natal devido  alta dos preos. no somente
das castanhas, das avelas, das nozes, das amndoas, do queijo de cuia, do bacalhau; tambm do feijo, do arroz, da carne-seca, tudo pela hora da morte. Virando a
folha, na pgina nobre 97 de A Tarde, a do editorial, dos tpicos, das crnicas e artigos importantes, matria de sua especial predileo: a coluna diria de Giovanni
Guimares.
Ao ver de dona Carmosina, ningum supera esse cronista na graa do comentrio galhofeiro ou no ferrete da crtica aguda s mazelas da sociedade de consumo.
Bate os olhos midos no ttulo da matria e o que v? Carta ao poeta De Matos Barbosa, em letras negras e gordas, encimando as duas colunas em grifo, assinadas por
Giovanni. O rosto da enferma se ilumina, exclama: Oba!
Mas a alegria de ver o nome do amigo no alto da pgina transforma-se em agitada agonia apenas l a primeira linha da crnica: Teu paraso, poeta, est ameaado!
do grito de alerta, captulo onde se resume a famosa crnica em capitulo anterior, o nome de Giovanni Guimares foi referido na condio de amigo do poeta Barbozinha,
parceiro de bomia, de vida airada nos castelos e nos cafs de subliteratos, sem que houvesse no entanto aluso s qualidades e ao conceito do foliculrio, redator
de A Tarde desde os tempos distantes de calouro na faculdade de Medicina, assinando h vrios anos na popular gazeta da capital baiana, quotidiana e quase sempre
risonha coluna, muito lida e apreciada. Por vezes, o tema tratado levava o articulista sem maldade mas enfurecido a trocar a leveza e a graa do comentrio pela
spera denncia das injustias sociais, substituindo o sorriso trocista e bonacho por impetuosa ira. Quando apontava violncias e dizia da opresso e da misria.
Teu paraso, poeta, est ameaado! Com essa frase de advertncia, o articulista inicia a dramtica missiva dirigida ao poeta e cidado do municpio de Sant'Ana do
Agreste, Gregrio Eustquio de Matos Barbosa. Dona Carmosina tenta adivinhar: o que ser, meu Deus? Recorda a gostosa gargalhada do jornalista, ecoando na agncia
dos Correios quando visitara Agreste homem mais alegre, logo amigo de todos, sobretudo de Osnar.
No comeo da crnica, Giovanni Guimares reporta-se exatamente  visita a Agreste, havia alguns anos, a convite do poeta que ao aposentar-se de funo pblica exercida
com exemplar deduo na Prefeitura de Salvador, abandonara a vida agitada da capital, os hbitos notvagos de bomio, os crculos literrios, retornando aos ares
saudveis, ao clima admirvel do torro natal.
Recorda os dias, poucos, porm felizes, de permanncia na buclica cidadezinha, reino feliz da paz, recanto idlico e os passeios no rio, o banho na Bacia de Catarina,
as idas  praia de Mangue Seco, obra prima da natureza, paisagem do comeo do mundo, nica e incomparvel. Em companhia de Barbozinha, cicerone perfeito, Giovanni
pudera conhecer e desfrutar as delicias desse paraso na terra, den de beleza e harmonia, onde o homem - em que pese a lngua ferina das beatas - ainda o prximo
do homem.
Durante a curta estada em Agreste, escandalizava as beatas fazendo, no adro da igreja, na hora da bno, o elogio do pecado e do inferno, repleto de mulheres belas
e dadivosas, enquanto o cu no passa de uma chatice eterna de santos barbudos e hinos montonos. Mas, nem mesmo as velhas xeretas resistiam ao riso comunicativo,
ao calor humano que se desprendia do estrina, riam com ele. O nico cu onde vale a pena viver  Agreste, paraso na terra, conclua. Ali, ao respirar aquele ar
fino e puro, sentia-se rejuvenescer, limpos os pulmes e o corao. Um pndego, cutucavam-se as comadres.
Pois bem: Teu paraso est ameaado de morte, poeta, a Magra busca instalar-se nas guas do rio Real, nas ondas de Mangue Seco, corveja sobre campos e dunas. Para
transformar o difano cu azul em poluda mancha negra, para envenenar as guas, matar os peixes e os pssaros, reduzir os pescadores  misria, substituir a sade
por enfermidades novas de imprevisveis conseqncias. Dona Carmosina suspende a leitura para respirar: ai, meu Deus, por que to terrvel profecia? Uma vez, na
prosa no Arepago, Giovanni perguntara-lhe por quantos anos ainda o povo de Agreste gozaria em paz a delicia do clima perfeito, a doce convivncia, distante dos
males da sociedade de consumo?
Mais dia menos dia, ele mesmo respondera, os horrores da civilizao aportariam na Bacia de Catarina, nos cmoros da praia, adeus felicidade!
Sabes tu, meu poeta, que no mundo inteiro existem apenas seis fbricas de dixido de titnio Que recentemente um juiz condenou  priso os diretores de uma delas,
na Itlia, pelo mal causado ao Mediterrneo, pela poluio das guas e destruio da flora e da fauna martimas Sabes que nenhum pas civilizado aceita em seu territrio
essa monstruosa indstria que a empresa, cuja presena ameaa o Brasil, no obteve autorizao para erguer suas chamins malditas na Holanda, no Mxico, no Egito
Vade retro; exclamaram os governantes recusando os imensos capitais, no somente por estrangeiros mas sobretudo por assassinos da atmosfera e das guas. Dona Carmosina
descansa o jornal sobre o lenol, de algumas dessas coisas ela sabe, delas tomara conhecimento, lera nos jornais, mostrara inclusive ao comandante Drio artigo em
O Estado de So Paulo e juntos aplaudiram a sentena ditada pelo juiz italiano, um porreta.
Teus maravilhosos versos, poeta, sobre a praia de Mangue Seco, sero amanh os nicos testemunhos da beleza das lmpidas guas, da areia fauna, da riqueza dos cardumes
de peixes, da valentia dos barcos de pesca, quando a Megera, elevando-se das chamins das fbricas ai construdas, estender seus gadanhos de fumaa sobre as dunas.
Toda a paz e a beleza que cantaste em tantos poemas de amor vai apodrecer e acabar nos efluentes de sulfato ferroso e do cido sulfrico, nos gases do dixido de
enxofre, na poluio desmesurada. Meu Deus!, sussurra dona Carmosina, sentindo um peso no peito, falta de ar.
Apesar de ainda no terem obtido a necessria autorizao do Governo Federal para o estabelecimento de tal indstria no pas, os diretores da recm organizada Brastnio:
Indstria Brasileira de Titnio S.A. - de brasileira bem pouco e latem, meu poeta, afora os testas- de ferro- sabem de antemo que no lhes ser permitido erguer
suas fbricas nos estados do Sul lotam-se para o desditoso Estado da Bahia, onde quatro zonas esto sendo objeto de estudo da Empresa, em busca de local onde instalar
suas fatdicas chamins. Tcnicos e agentes espalham-se nas plagas grapinas, entre Itabuna e Ilhus, no Recncavo, para as bandas de Ialena e h quem diga que
at os subrbios da capital, nas imediaes de Arembepe, esto sob sua mira. Tudo indica, porm, que as preferncias dos reis da poluio pendem para a regio do
litoral norte do estado, a foz do rio Real, os coqueirais de Mangue Seco. Todo o calor da tarde cai sobre dona Carmosina, l fora o cu escurece. Pobre Barbozinha:
seu amigo Giovanni Guimares a alert-lo publicamente enquanto ele rima louvores aos donos da Brastnio, aos reis da poluio. Suprema ironia do destino!, clama
dona Carmosina espantando as moscas.
- Precisa de alguma coisa, Carmo? - A voz de dona Mil da porta da rua.
- Nada, me.
A regio grapina  rica, meu poeta, pesa nos destinos da economia nacional, tem formas para impedir a ameaa a seu mar, ao rio Cachoeira,  prpria lavoura do cacau,
fonte importante de divisas. O mesmo pode-se dizer do Recncavo, menos rico mas defendido pelos restos do prestgio poltico dos bares da cana-de-acar, decadentes
porm bares. Quanto a Arembepe, seria sem dvida o local perfeito do ponto de vista dos empresrios, devido  proximidade da capital, s vias de comunicao, ao
lado do Centro Industrial de Aratu, mas nenhum governo, por mais discricionrio, se atrever a conceder autorizao para que seja poluda a cintura da cidade, acabando-se
com a pesca, tornando as praias impraticveis, expulsando os turistas, empesteando a prpria capital do Estado. Ah!, meu poeta, resta apenas o municpio de Agreste,
esquecido de Deus e dos homens, desprotegido da sorte. O habitat da Maldita ser Mangue Seco. ateno, poeta! Po aparecer por a, se j no apareceram, os emissrios
da poluio, prometendo mundos e fundos, falando em progresso e riqueza, mas a morte que eles conduzem em sua pasta repleta de moedas estrangeiras.
Empapada de suor, dona Carmosina chega ao fundo da crnica de Giovanni Guimares. Escuta ao longe a voz de dona Mil conversando na porta com uma vizinha. L as
ltimas linhas: Ergue a voz, poeta, toma da lira e desfere um grito de protesto, defende a paz e a beleza de teu rinco de sonho, desperta a clera do povo e impede
que a poluio se instale sobre colinas e praias, desa ao fundo das guas, cubra de negro o cu difano de Agreste. A crnica termina repetindo a mesma grave, tenebrosa
advertncia do comeo: Teu paraso est ameaado de morte, poeta!
Dona Carmosina, as mos trmulas, o corao descompassado, levanta-se, esquecida da gripe, veste-se s carreiras e, sem dar qualquer explicao a dona Mil, alm
do aviso: volto logo, sai porta afora, o jornal em punho, em busca de Barbozinha. A essa hora da tarde o poeta costuma estar no bar, peruando o jogo de bilhar ou
a partida de gamo entre Chalita e Plnio Xavier.
Mas quem ela encontra no comeo da rua da Frente  o comandante Drio que pergunta ao avist-la :
- Onde vai assim correndo, minha boa Carmosina? - aproximando-se constata a alterao da amiga, lembra-se de que ela devia estar na cama, se assusta. - Sucedeu alguma
coisa?
Dona Carmosina estende-lhe o jornal:
- Leia.
Ali mesmo, parado no meio da rua, o Comandante devora a crnica.
Interrompe a leitura, pragueja:
- Com mil demnios!
De nova e discreta conversa no elegante ambiente do refgio dos lordes, discreta apesar da grossura em todos os sentidos de sua excelncia - meus caros, o que vocs
esto pleiteando  de lascar. o que eu devia fazer, era mandar meter vocs na cadeia.
Assim falou, para comeo de conversa, Sua Excelncia. Havia retirado o palet; a rapariga nua, sentada sobre suas pernas, brincava com os suspensrios negros que
sustentavam as calas do eminente estadista, resguardando-lhe as banhas da barriga. No rosto avelhantado de Sua Excelncia, placas vermelhas.
Os olhos astutos, os gestos lassos, a voz arrastada, a vulgaridade e a prepotncia.
O Magnfico Doutor no responde, apenas sorri, espera que as meninas acabem de servir as bebidas e se retirem. Uma delas lembra Bety, toda ruiva, desperta-lhe o
apetite. Quem sabe, ao fim da entrevista.
Tampouco o Velho Parlamentar se sente confortvel na presena das raparigas. Nada tem contra elas nem contra o fato de estarem nuas, o Velho Parlamentar freqenta
a casa h sculos, habitu desde os tempos de Madame Georgette, quando o atual Refgio dos Lordes ainda se chamava Nid d'Amour. Gosta de raparigas e de v-la s nuas,
no existe melhor colrio para vista cansada, segundo afirma. Mas tudo tem sua hora e seu lugar e se o lugar  adequado para o nu artstico, o assunto no o  para
ouvidos estranhos, no se devendo misturar alhos com bugalhos.
Uma das nudistas apoia-se no elegante guarda- chuva negro de propriedade do Velho Parlamentar. Educado em Oxford, o Velho Parlamentar adquiriu hbitos e feies
de lorde ingls: alto e magro, bem escanhoado, bigode branco e altivo, traje cortado em alfaiate londrino, roseta na lapela, a aparncia fleumtica. Os modos populacheiros
de Sua Excelncia certamente lhe desagradam. Sua Excelncia  o oposto de um lorde ingls e no fora a posio alcanada- pobre So Paulo!- dada de mo beijada por
Vargas nos tempos da outra ditadura, posio renovada e mantida  custa dos mais variados e discutveis recursos e alianas, jamais lhe seria permitida a entrada
em crculo to distinto e reservado.
Tendo Sua Excelncia falado em cadeia, o Velho Parlamentar permite-se tossir, para adverti-lo da inconvenincia de tratar assuntos de monta, de altos interesses
e patriticas ilaes, na presena de garotas de indiscutvel graa e tentador apelo mas decididamente imprprias para a ocasio e o elevado debate scio-econmico.
Pigarreia com cautela, a medo: Sua Excelncia, impulsivo, ao ser interrompido, por vezes reage com ofensiva brusquido. Costuma tratar os auxiliares diretos, secretrios,
oficiais de gabinete, de ladres - empregando alis termo prprio pois o so e como! - e no respeita nem idade nem mandato parlamentar dos correligionrios, sobretudo
agora com o poder legislativo to por baixo.
Ao ouvir o tmido pigarro, Sua Excelncia faz uma careta, a pique de abrir a boca para dizer o que pensa do Velho Parlamentar e de sua mania de prudncia e discrio,
mas se contm. De fato, o gracioso gesto da menina sentada em suas pernas, a lhe massagear sabiamente o cangote,  incompatvel com reunio de trabalho: um estadista
nem sequer num randevu pode se ter o entregar ao necessrio relax. Tratar de fazer a conversa concreta e breve.
Com uma palmada no doce traseiro, desaloja a menina e a despede, recomendando:
- Esperem no quarto. - Sorri para a outra, a picante ruiva que despertou o interesse do Magnfico Doutor, a seguir a cena, conformado.
Nem tudo na vida so flores, no  mesmo? Muitas ruivas existem por a. Seja tudo pelo bem da Ptria!
Saem as raparigas, garrido squito, deixando as garrafas e os copos servidos. Usque daquela marca no existe no Palcio dos Campos Elseos, somente encontrado no
Jquei Clube e no Refgio dos Lordes. Sua Excelncia saboreia, conhecedor:
- Isso, sim,  usque, o resto  porcaria. Mando comprar do melhor, os ladres compram usque falsificado, embolsam o troco. Devia meter todos na cadeia. Vocs tambm.
A diretoria inteira.
O Audacioso Empresrio, orgulhosa e rdega juventude, sado de famosa Escola de Administrao e Economia onde hoje dita conferncias, aps brilhante curso de executivo
nos Estados Unidos, competentssimo tecnocrata, um dos crebros mais bem dotados da nova gerao, ameaa abrir a boca para replicar mas o Magnfico Doutor o impede
com um gesto quase imperceptvel. Se ele protestar, vai por tudo a perder: assusta-se o testa- de ferro pago tambm para evitar impensadas gafes dos senhores diretores,
tcnicos formidveis, polticos desastrados. no so do ramo, como diz Sua Excelncia, quando se refere aos empresrios e - muito em particular - aos militares.
Ao ver Sua Excelncia sorrir, baixando os suspensrios, num gesto bonacheiro, parecendo um caipira, o Audacioso Empresrio reconhece a experincia e a habilidade
do Magnfico Doutor; para tais misses, imbatvel em esperteza e tino. Sua Excelncia inicia a cobrana:
- O Senador pode dizer o trabalho que tivemos.
O Velho Parlamentar, tranqilizado com a retirada das moas, mas sempre contido como compete a um britnico ( seu ar britnico, sua elegncia londrina, definira
um cronista parlamentar que lhe devia pequenos favores), concordou com um aceno de cabea e reforou a afirmao de Sua Excelncia:
- Uma trabalheira.
Sua Excelncia ia falando e despindo-se ao mesmo tempo, as meninas  espera no quarto:
- O Senador pode dizer tambm quanto tivemos de gastar...
Um gesto apenas, mas significativo, do Velho Parlamentar para demonstrar a enormidade da quantia despendida. Sua Excelncia, de camisa e cuecas, a cinta dobrada
sob o volume da barriga, levanta o copo, os demais o acompanham no brinde:
- Hoje ningum faz favores de graa, tudo  muito arriscado. Na situao atual ningum pode se considerar seguro. - Conta nos dedos: Trabalho, dinheiro e risco.
Muito risco. Apesar disso obtive a autorizao para o funcionamento da indstria de vocs. Mas, j sabem: vo poluir longe daqui, So Paulo no agenta mais tanta
fumaa. - Os olhos gananciosos passam do Magnfico Doutor para o Audacioso Empresrio. - outro no conseguiria, s mesmo eu. Sabem o que isso significa?
- O pas h de agradecer a Vossa Excelncia - pronuncia afoito e ingnuo o Audacioso Empresrio.
- O pas uma porra! - impulsivo, como se sabe, Sua Excelncia. Fita o Audacioso Empresrio: esse sujeitinho pretende por acaso goz-lo? Desaparece a figura de caipira
bonacho, ergue-se novamente o maioral, senhor de barao e cutelo, aquele que pe e dispe.
Imvel, britnico, o Velho Parlamentar pousa o olhar confiante no Magnfico Doutor cuja voz melflua, em tom menor porm audvel, coloca a aptido em seus devidos
termos:
- O pas e a Brastnio, Excelncia. O Natal das crianas pobres de So Paulo a quanto subiu? Recorda-se, Excelncia?
O Audacioso Empresrio estremece ao ouvir a quantia absurda. Quer falar, obter uma reduo, mais uma vez o gesto quase imperceptvel do Magnfico Doutor o retm:
com Sua Excelncia no paga a pena pechinchar,  perigoso; a concesso da licena ainda no foi publicada e certamente no o ser antes de tudo estar em ordem, a
maquia depositada no banco, na Sua, como nos folhetins sobre vendas de armas e poos de petrleo. Adianta-se o Magnfico Doutor, numa pergunta cuja resposta conhece:
- Como sempre?
- Exato.
Ao sair pela porta que leva ao quarto onde as duas moas o aguardam, resignadas, Sua Excelncia, dirigindo-se ao Magnfico Doutor, aponta o Audacioso Empresrio:
- Mudo, ele  melhor do que falando. Quando abre a boca, caga tudo.
Mas voc, no dia que deixar esses ladres, me procure, tenho colocao para voc no meu gabinete.
Apressada, uma das raparigas volta  sala em busca da roupa de Sua Excelncia. Apenas ela fecha a porta, o Velho Parlamentar eleva o guarda-chuva e pigarreia. O
Magnfico Doutor entende, estende a mo para a pasta.
No pergunta o custo do Natal dos pobres do Senado, acertara preos e valores com o Jovem Parlamentar, no incio da longa e custosa operao, ali mesmo, no Refgio
dos Lordes.
Abre a pasta, preenche um cheque (ao portador, naturalmente). Para cada situao, um lance, para cada parceiro, uma gorjeta, mais gorda ou menos gorda, sempre pondervel.
O Magnfico Doutor pensa em termos de gorjeta, gorjeta  o que se d a um criado mesmo se ele enverga esmquingue, fraque ou casaca. Excitante partida de xadrez.
Algumas vezes, raras, terminando em escndalo, em processo. Em xadrez, medocre jogo de palavras.
Suspende os ombros: no Brasil, ao que se lembre, nunca. De qualquer maneira, h sempre um risco a correr quando se deseja gozar a vida ao mximo. Alm de ser estimulante
diverso, empregar a inteligncia que Deus Lhe deu a mover as peas: a calhordagem de Sua Excelncia, a hipocrisia do Velho Parlamentar, a presuno do Audacioso
Empresrio. Tudo perfeito, no fora ter perdido a ruiva, jogada suja de Sua Excelncia.
O Velho Parlamentar embolsa o cheque, depois de constatar-lhe o montante: apenas o combinado, nem um centavo a mais, corretos porm avaros. O rosto impassvel no
demonstra a decepo. Afinal, quem se empenhou, correndo risco, foi Sua Excelncia, por isso mesmo recebe aquela imensa bolada, em divisas, a salvo na Sua. Belo
pas a Sua, longe todavia da perfeio da Inglaterra. Vai levantar-se - h uma menina, uma s, a mais novinha de todas, a esper-lo - quando o Magnfico Doutor
coloca outra questo, abrindo inesperadas perspectivas:
- Sua Excelncia retirou-se antes que pudssemos tratar do problema da localizao...
- Em So Paulo, j sabem, no pode ser. Alis, em todo o Sul.
- J nos decidimos pela Bahia. O problema  onde, na Bahia... - O Magnfico Doutor expe os dados do que ele chama de pequeno porm importante detalhe.
O Velho Parlamentar permite-se sorrir britnicamente, no fleumtico rosto de lorde uma nuana de satisfao. Ah!, os poderosos e necessitados empresrios tero de
pagar caro, desta vez no tratam com a sfrega inexperincia do Jovem Parlamentar. Preo elevado, Srs. para comear, pela informao confidencialissima, ainda circunscrita
aos altos escales: consta que esto pedindo a cabea de Sua Excelncia. Falam em cassao, nada mais nada menos. Sim, exatamente por corrupto. Depois, o estabelecimento
de novos contatos para resolver o pequeno porm importante detalhe, importante e grande problema, nem pequeno, nem detalhe, God save the King!
Tudo tratado com discrio e finura, entre cavalheiros. Sua Excelncia  um grosso, um porcalho, um asco, o oposto de um lorde.
De Ascnio trindade entre a cruz e a caldeirinha no auge da discusso, falto de argumentos, imprensado contra a parede, Ascnio Trindade perde a cabea, abandona
a amabilidade habitual e, mandando para o inferno o respeito devido  situao social, patente e idade dos interlocutores, grita para quem queira ouvir, no Arepago
e na rua:
- no  porque o Comandante tem uma casa em Mangue Seco e quer gozar sozinho as delicias da praia que Agreste vai fechar as portas ao progresso. no ser por causa
de meia dzia. de privilegiados que recusaremos as indstrias que desejam se instalar em nossa terra. Agreste se redimir, doa a quem doer.
Quase um discurso, sem falar na exaltao. Criatura de entusiasmo fcil mas de trato lhano e convivncia agradvel. Patriota s voltas com quimricos projetos para
reerguer o decadente burgo, abarrotando de cartas as sesses de turismo dos jornais da capital, Ascnio reunira at ento a estima, o apoio e os aplausos unnimes
de seus conterrneos.
O apoio e o aplauso dos importantes, pela cordialidade e deferncia com que os acolhe quando tm algo a tratar na Prefeitura e pelo esforo desprendido em prol de
Agreste. Secretrio da Prefeitura h seis anos, Ascnio realizara milagres, entre os quais o de colocar em dia o recebimento dos impostos municipais, pequenos, poucos
e, ainda por cima, sistematicamente sonegados. Enfrentando o compadre dos prefeitos, o total desinteresse do tesoureiro Lindolfo Arajo, galante presena a enfeitar
o prprio da Municipalidade, funcionrio relapso e nulo, a relutncia de comerciantes e fazendeiros mal-acostumados, Ascnio conseguira por ordem nas magras finanas
da Prefeitura, sem se atritar com ningum - contado no se acredita.
A estima dos pobres, da cidade e do interior, pela ateno que dispensa a cada um dos numerosos e atrapalhados problemas trazidos ao chefe da comuna, em realidade
a seu preposto, na esperana de soluo ora simples, ora difcil, quando no impossvel. Reivindicaes, reclamos, queixas, desavenas, brigas de vizinhos, cercas
movidas durante a noite modificando limites e rumos de stios e posses, animais invadindo terreno alheio, um mundo de mesquinhas questes prprias  vida de um municpio
pauprrimo, na maioria pessoais, sem nada a ver com a administrao pblica. Nem por isso Ascnio deixa de escut-la s e, freqentemente, de resolv-la s. Faz as
vezes de prefeito, conselheiro e juiz, solucionando litgios, reconciliando desafetos, esclarecendo dvidas, conduzindo ao casamento relutantes sedutores responsveis
pelo ventre inchado de incautas ou apressadas tabaroas, chega a receitar remdios para soltura dos intestinos, priso de ventre e barriga d'gua. Ouve com ateno
infindveis lengalengas de roceiros a propsito das manhas de um maldito jegue ou das desventuras de um setuagenrio abandonado pela mulher e pelos filhos, sozinho
a lavrar rido e ingrato pedao de terra. Sendo, quando preciso, veterinrio e agrnomo.
Para os assuntos de atendimento impossvel, encontra uma palavra de nimo, de consolo. Se bem o cargo de secretrio da Prefeitura lhe especifique limitado nmero
de obrigaes, o fato de Ascnio funcionar como representante ou substituto permanente do prefeito no lhe deixa tempo livre.
Sobretudo aos sbados quando infindvel romaria demanda a sede do executivo municipal, durante e depois da feira. Ele atende a todos, sem exceo.
Assim age sem nenhum interesse pessoal, gratuitamente, sem nada pedir em troca. no pede porm recebe. Recebe considerao e vveres.
Tratam- no de doutor, no porque houvesse cursado trs anos de faculdade, mas por considerarem- no como tal, sapiente, sem particularizarem o ttulo concedido, doutor
disso ou daquilo. Doutor, simplesmente. Trazem-lhe pequenos presentes, mesmo quando no necessitam consult-lo.
Vale a pena v-lo ao fim da tarde dos sbados, a caminho de casa onde, pitando o cachimbo de barro, a velha Rafa o espera: leva matalotagem com que se alimentar
durante a semana. Ddivas trazidas pelos roceiros e sitiantes, farto e variado mafu: pernis de porco e de cabrito, gordos capes- cevei bem cevado para o senhor
mandar fazer uma canjinha e ganhar sustncia, explica a velha vendedora de puba e mandioca -, olorosas jacas, cachos de bananas amarelecendo, razes de inhame e
aipim - aipim - cacau, doutor, mole de desmanchar na boca, garante o caboclo risonho e desdentado -, a fina farinha de mandioca, beijos molhados em leite-de-coco,
quiabos, maxixes, chuchus e jils, tudo escolhido para o moo paciente e bondoso. Fartura de mantimentos, servindo a quatro casas pois Ascnio divide carnes, farinha,
espigas de milho, frutas, razes e legumes com o capenga Lencio e o sonhador Lindolfo- um dia se armar de coragem e embarcar na marinete de Jairo para enfrentar
em Salvador os microfones at uma estao de rdio ou as cmeras da televiso - o qual, por sua vez, reparte a quota que lhe coube com a famlia do amigo Chico Sobrinho,
em cujo lar acolhedor janta aos sbados e almoa aos domingos.
 necessrio levar em conta, para explicar o destempero de Ascnio, que, a partir da tarde anterior, quando a notcia da crnica de Giovanni explodiu na cidade,
sua vida no tem sido fcil. Encheram-lhe o saco, essa a expresso justa.
Jamais a popularidade de A Tarde atingira ndices to altos na regio.
Todos queriam tomar conhecimento da crnica, onde encontrar exemplares do jornal? Habitualmente, o nico  disposio do pblico  o de propriedade de seu Manuel,
colocado sobre o balco do bar, folheado pelos fregueses, lido por Aminthas e Fidlio. Nessa tarde, disputado quase a tapa, andou de mo em mo antes de sumir misteriosamente.
A conselho de Aminthas, seu Manuel, baseado nas leis da procura e da oferta, tentara cobrar aluguel pelo emprstimo da gazeta, provocando revolta geral. O mesmo
Aminthas props, em revide, a imediata socializao de todo o estoque de bebidas do bar, castigo para a ganncia do mondrongo. A atmosfera, entre jocosa e inquieta,
participava do pnico e da galhofa.
Quantas vezes, naquele fim de tarde e princpio de noite, Ascnio tivera de repetir a mesma explicao: parecia-lhe prematuro qualquer julgamento.
Prematuro e injusto pois somente conheciam - quando conheciam - os argumentos do jornalista adversrio da Brastnio, fazendo-se necessrio, antes de expressar opinio,
de tomar partido, conhecer tambm as razes dos diretores e tcnicos da Empresa.
A noitinha, quando se dirigia para o encontro sagrado com Leonora, na porta da casa de Perptua - costumavam andar em volta da praa, de mos dadas -, caiu-lhe em
cima o poeta De Matos Barbosa, exaltado, empunhando um exemplar de A Tarde, cedido pelo rabe Chalita, um dos cinco privilegiados assinantes. Durante horas,  tarde,
Ascnio fugira dele, sabendo-o em lastimvel estado de nimo.
A princpio, o vate se considerara desmoralizado para sempre, coberto de oprbrio devido ao poema perpetrado em louvor da monstruosa indstria denunciada  nao
por seu querido e grande amigo Giovanni Guimares, excelso cronista, em carta aberta dirigida a ele, De Matos Barbosa, poeta e filsofo, atravs das colunas ilustres
de A Tarde. Honra imensa apenas superada pela desonra ainda maior resultante dos repudiados alexandrinos.
Por sorte, a crianada enlouquecida com os brindes - brindes vagabundos, diga-se de passagem, abaixo da crtica, umas merdolncias, qualificava o bardo, um tanto
quanto tardiamente - haviam impedido a audio dos renegados versos, ouvidos e aplaudidos no entanto pelos amigos presentes  famlia em casa de Perptua.
Correra para junto de Tieta ao ver-se envolto em vergonha e ela, a rir e pilheriar, levantara-lhe o nimo, reerguendo-o das cinzas, levando-o a superar o abatimento
e a partir para outra. Refeito vinha informar a Ascnio, a quem no culpa pelo terrvel quiproqu, na certa to inocente das criminosas intenes da Brastnio quanto
ele prprio que, atendendo ao grito de alerta de Giovanni Guimares, convertera a lira em arma de combate e estava produzindo a toque de caixa uma srie de poemas
satricos e colricos,  maneira de Gregrio de Matos, os Poemas da maldio, com os quais pensa concorrer de maneira decisiva para impedir a concretizao dos malficos
planos da excomungada Brastnio, arrancando a mscara, expondo a hipocrisia e a vileza dos criminosos diretores. Pelo prximo correio, enviar a Giovanni, para publicao
em A Tarde, os primeiros poemas. Desfraldara a bandeira da guerra. Quanto  execrvel composio anterior j no existe:
Barbozinha destrura os originais e desejava pedir a Leonora o favor de queimar em fogo purificador a cpia feita logo aps a leitura.
Cansado, em atraso para o encontro com Leonora, Ascnio no tentou demov-lo da denncia potica, seria perder tempo e latim. Prometeu-lhe a destruio da cpia
mas no o enganou: reservava sua opinio sobre o assunto para quando possusse maior soma de informaes. Mais informaes, para qu? Inteis, fossem quais fossem,
considerou o poeta, diante dos argumentos de seu excelso amigo Giovanni Guimares, irrespondveis.
Nesse estado de nimo, aps uma noite de mal dormir, com pesadelos onde admirou arranha- cus magnficos erguidos nas dunas de Mangue Seco e reconheceu cardumes
de peixes mortos, sem possuir ainda argumentos com que enfrentar e refutar as afirmaes do cronista, Ascnio ouviu a leitura do malfadado artigo na ntegra, como
se no o houvesse fido e relido na vspera. Ainda mais funreo na voz encatarroada de dona Carmosina, entrecortada de tosse e de sarcsticos e corrosivos apartes;
dela e do Comandante. ao terminar, dona Carmosina lhe oferece uma cpia datilografada, fizera trs: uma para ele, outra para o Comandante, a terceira para qualquer
emergncia.
A princpio, cauteloso, disse que ia tirar o assunto a limpo, no podendo devido a uma simples crnica, mesmo assinada por Giovanni Guimares, condenar projeto assim
vital para a comunidade: a implantao em terras do municpio de fbricas de uma indstria cuja importncia  inegvel. No distante e abandonado coqueiral, em Mangue
Seco, em terras desabitadas, sem nenhuma espcie de serventia.
Distante e abandonado? Sem qualquer serventia? Cresceu a indignao do Comandante: para Ascnio os pescadores de Mangue Seco no existiam, nem eles nem os cidados
de Agreste que possuam casas de veraneio na praia.
Impacientou-se Ascnio. no se referira  praia de Mangue Seco e sim ao coqueiral. O projeto da Brastnio - ele vira plantas e desenhos localizava-se bem mais abaixo
e mais para dentro e no ao lado da praia.
Mesmo se alguma poluio pudesse haver - e no existe indstria sem poluio - no atingiria nem os pescadores nem os veranistas.
Pouco a pouco, curiosos foram se juntando na porta e no passeio da agncia, a ouvir o empolgante debate. Dona Carmosina, animada com a presena de pblico, retrucou
com cerrada argumentao, superando as nsias da gripe: no se trata de uma indstria qualquer, de tolervel porcentagem de poluio. Estava em jogo a produo de
dixido de titnio, Ascnio sabe por acaso o que isso significa? Convidou-o a ler o artigo publicado em O Estado de So Paulo, a sentena do juiz Viglietta, o Comandante
guardara o recorte. Uma fbrica situada no coqueiral no somente atingiria a praia, tornando impraticveis a pesca e o banho de mar, como destruiria a povoao de
Mangue Seco ao envenenar as guas e o ar, transformando, como escrevera o juiz italiano na corajosa sentena, o oceano numa lata de lixo.
Ascnio revidou j esquentado, reduzindo s devidas propores os evidentes exageros de dona Carmosina. Para comear, disse, no existe em Mangue Seco nenhuma povoao
de pescadores, apenas um aldeamento composto de meia dzia de casas de desocupados a servio do contrabando, punveis por lei se a lei fosse cumprida. Os veranistas
no passavam de quatro ou cinco casais, a maioria preferindo ir para o arraial do Saco onde o banho de mar no oferece perigo e existe muito mais conforto, inclusive
armazm e igreja. Quanto ao volume da poluio, compete aos tcnicos opinar e no a um simples jornalista sem categoria cientfica.
De to ofendida, dona Carmosina curou-se da gripe: Giovanni Guimares, ficasse Ascnio sabendo, no era um simples jornalista e sim um grande jornalista, homem probo
e culto, com um nome a zelar. Ascnio andava pela faculdade quando ele ali estivera em inesquecvel visita, por isso no O conhece. Dona Carmosina no admite que
se tente diminuir-lhe a figura, pr em dvida a capacidade e a honradez de um amigo sincero de Agreste.
Reafirmou, veemente, sua disposio, a dela e a do Comandante, de lutar por todos os meios contra o que haviam passado a denominar de a fumaa da morte, que, alis,
conforme esclarece, douta e precisa, a prpria dona Carmosina,  amarela e no negra, nisso Giovanni se enganara.
Logo se arrependeu do desastrado exibicionismo pois Ascnio montou no erro do jornalista, apontado por quem? Por um adversrio? no. Por sua maior admiradora e amiga.
Se at a cor da fumaa ele desconhece, imagine-se o resto. Onde melhor prova da incapacidade cientfica de Giovanni, tima pessoa, agindo de boa f, acredita Ascnio,
mas em matria cientfica um perfeito ignorante? no basta ser autor de crnicas brejeiras...
A histria da cor da fumaa provocou risos, Ascnio marcara um ponto.
Dona Carmosina ficou uma fria. ao apegar-se a detalhe sem importncia, em meio  volumosa massa de dados concretos apresentada por Giovanni em sua crnica, Ascnio
age de forma desonesta. Acusou, repetindo violenta e ofensiva:
- Voc est sendo desonesto! - soletrava a palavra rude: - desonesto!
Ao ver do Comandante, havia pior. Apontou algo que lhe parecia imperdovel atitude de Ascnio: sabedor, h muito, dos projetos da Brastnio, devido  sua condio
de secretrio da Prefeitura, escondera-os da populao, mentira, referindo-se a planos tursticos, fazendo-se assim cmplice do crime projetado. Atitude que lhe
parecia realmente pouco compatvel com o exerccio de um cargo de confiana. Uma traio  comunidade.
Foi demais. Levantando-se, Ascnio despejou o saco cheio at a borda, lanou as citadas frases sobre a meia dzia de privilegiados e as delcias que o Comandante
deseja gozar sozinho, tentando egoisticamente impedir o progresso do municpio, a instalao da indstria redentora. Estende o brao e o dedo:
- O progresso de Agreste passa por cima seja do que for, seja de quem for! - afirmao solene e agressiva.
Atravessa por entre os curiosos, dirige-se para a Prefeitura. Aminthas, espectador mudo e aparentemente respeitoso, define a frase e a situao:
- Uma declarao de guerra! - Volta-se para Osnar: - Comeou a guerra da fumaa, mestre Osnar. Em que batalho voc se alista? No da fumaa amarela ou no da fumaa
negra?
Osnar no ri, apenas abana a cabea, aquele assunto no lhe agrada.
Onde o comandante Drio de Queluz recruta voluntrios ao leme da canoa a motor, comandante Drio espera que Tieta conclua a leitura da crnica de Giovanni Guimares.
Ele e dona Laura passaro em Mangue Seco o Ano- Novo e as festas de Reis. Tieta e Ricardo aproveitam a conduo e a companhia: vo dar o empurro final nas obras
do Curral do Bode Incio, certamente atrasadas devido ao Natal, qualquer pretexto serve aos praieiros para no trabalhar. Tieta deseja inaugurar a biboca - assim
a designa - antes da volta para So Paulo, marcada para imediatamente aps a instalao da luz da Hidreltrica; no pensara prolongar por tanto tempo a estada. Viera
por um ms, terminar passando dois; para quem tem negcios a cuidar, um absurdo. Para o curral, mandou fazer em Agreste uma cama larga, colcho dela de barriguda:
nela se despedir de Ricardo quando chegar a hora de partir. Por intermdio de Astrio encomendou cadeiras e mesas dobradias, camas de campanha; comprou redes na
feira.
Para os hspedes: o Velho e me Tonha, as irms, os sobrinhos, os amigos que utilizaro o curral em sua ausncia.
A primeira reao de Tieta, aps a leitura, deixou o Comandante alarmado. Devolvendo-lhe as pginas datilografadas, ela comentou:
- H um dinheiro a ganhar, Comandante, nesta histria.
- Dinheiro a ganhar?
- no foi o senhor mesmo quem me disse que essas terras do coqueiral no tm dono, so devolutas?
- no  bem assim. Donos elas tm, mas quais so ningum sabe direito. Modesto Pires comprou uma parte, a que era do pessoal do povoado.
Foi ele quem me disse no ter comprado mais devido  confuso, o coqueiral tem no sei quantos donos, o que  o mesmo que no ter nenhum.
- Pois ento: a gente compra esses terrenos para vender ao pessoal da Companhia. Compra por um, vende por dez, por dez ou vinte. Felipe era um craque nessas operaes.
- Deus me livre, Tieta. no quero ganhar dinheiro  custa da desgraa de minha terra.
- Comandante, se agente no pode impedir, se no tem jeito a dar, pelo menos ganha um dinheirinho. Quando Ascnio comeou com essa histria de turismo, eu pensei
em comprar terrenos por aqui.
- Primeiro, eu no tenho com que comprar um gato morto; segundo, vai ser a maior dificuldade localizar os donos; terceiro- fez uma pausa antes de enunciar: - no
vou cruzar os braos, Tieta, vou partir para a briga. Sou o homem mais pacato do mundo, mas essa gente no vai poluir Agreste sem meu protesto. Isso no.
A canoa pesada, impelida pelo motor de pouca fora, desce o rio sem pressa. A voz apaixonada do Comandante conquista a ateno de Ricardo. A princpio, o seminarista
seguira a conversa de ouvido distrado, o pensamento vagando na correnteza. Esses dias em Agreste, as festas de Natal, deixaram lembranas e marcas tnues mas persistentes.
Ficaram-lhe na cabea, fazem-se presentes e ele encontra sabor em record-la s. Pela primeira vez, dera-se conta do interesse com que, na rua e na igreja, certas
mulheres o fitavam. As moas, debruadas nas janelas, seguiam- no com os olhos, quando passava de batina, indo ajudar padre Mariano na missa ou quando atravessava
a praa, shorte e camiseta, a caminho do rio. Cinira mordia os lbios ao v-lo, suspirava; dona Edna, essa nem se fala; comia-o com os olhos mesmo na vista do marido.
Na festa dos brindes de Natal, Ricardo sentira o contate das ancas redondas de dona Edna abandonando-o, na confuso. A lembrana mais pertinaz e grata, porm, 
a de Carol, semi-escondida atrs da janela, segurando a cortina e sorrindo para ele, os lbios abertos, carnudos, os olhos midos. ao perceb-lo vindo no passeio,
Carol retirara-se da janela para melhor poder espi-lo e para lhe sorrir - coisas defesas ao seu estado de amsia do ricalhao. Mais moa e mais escura que a tia,
possua o mesmo busto farto, idnticos quadris, poderosos e maneiros, igual exuberncia de carnao, quem sabe a mesma alegria?
Em Agreste, Ricardo no se demorara a pensar naqueles meneios e sorrisos, lbios mordiscando-se, ancas em navegao sutil. Desfaziam-se na fumaa do incenso. Retornam
na canoa, e no espelho do rio ele enxerga faces e gestos, no lhe desagradam.  noite ter Tieta nos braos, sobre as dunas, como da primeira vez. Na presena do
Comandante e de dona Laura, eram tia e sobrinho comportados. Ela dormia na cama de solteiro, ele na rede. Nas areias, no alto dos cmoros, porm, sumia o parentesco,
o vento levava os ais de amor para o outro lado do oceano. H pouqussimos dias comeara tudo aquilo, parecia uma enormidade de tempo, pois Ricardo, nesse nterim,
fizera-se outro. Quantos dias? Quantos anos? Curioso que jamais se houvesse sentido to prximo de Deus, to convicto da vocao sacerdotal. Por qu? Ao diz-lo
a Frei Timteo, o franciscano no percebera contradio no caso, ao contrrio.
- Voc ps  prova sua vocao. Agora, est em paz consigo mesmo.
Ricardo emerge desses pensamentos para escutar a veemente declarao do Comandante, a voz em crescendo:
- Vou brigar e quando eu brigo  de verdade.
- Pensa que vale a pena, Comandante?- ceticismo na interrogao de Tieta.
-  o que eu tambm pergunto - intervm dona Laura, preocupada.
- Mesmo que no sirva de nada, no vou deixar que destruam Mangue Seco sem que eu proteste.
A canoa corta a gua, margeando o rio que se alarga  aproximao da foz. A paisagem ganha em beleza, avista-se ao longe o oceano, a correnteza torna-se mais rpida,
a embarcao mais leve. A voz do Comandante baixa de tom mas conserva o acento de paixo, busca convencer:
- Escute, Tieta, pense no que vou lhe dizer. Se eu abrir a boca em Agreste para protestar, no vou conseguir nada,  a pura verdade. Vo me ouvir porque me respeitam,
alguns ficaro de acordo, ningum far nada. O mesmo acontece com Barbozinha, no vai adiantar nada ele escrever tanta poesia. Talvez A Tarde publique algum poema,
qual a serventia? Nenhuma.
 capaz at que haja quem venha se divertir  custa dele, acusando-o de vira casaca: primeiro elogiou, chamou os homens da companhia de Reis Magos, depois, quando
seu nome apareceu no jornal, mudou de lado. Voc sabe como  a lngua do povo.
- Coitado de Barbozinha! Est to magoado. Quando soube da crnica, ficou feito doido, disse que estava desmoralizado, me deu um trabalho...
- Foi atrs de Ascnio, a est o resultado.
- Ascnio no tem culpa, ele tambm no sabia nada dessa tal... Como  mesmo o nome?
- Brastnio.
- Falaram em progresso, mandaram brindes, Ascnio vibrou, podia acontecer o mesmo com qualquer um.
- no nego. Ascnio meteu na cabea que tem de reerguer o municpio, repetir a administrao de seu av que foi o melhor Intendente de Sant'Ana do Agreste no tempo
da carochinha. Botou luz na cidade, calou as ruas, construiu o ancoradouro, o sobrado da Prefeitura. Basta ouvir falar em progresso, Ascnio fica maluco, com isso
pode botar a perder tudo quanto ns temos: o clima, a beleza, a paz. Uma coisa eu lhe digo, Tieta: meu voto ele no ter para prefeito.
- no diga isso, Comandante. Ascnio, com o amor que tem ao Agreste, pode fazer muita coisa boa...
. e muita coisa ruim. Antes, eu no duvidava da honradez de Ascnio. Mas ele praticou um ato muito feio.
- E qual foi?
- Ele sabia dos planos dessa gente, viu as plantas, os projetos, estava a par de tudo e calou a boca, ficou tapeando todo mundo com histrias de turismo...
- O coitado no sabia do perigo da tal indstria... Parece que  o fim, no ? Pelo que diz o jornal...
- Se ... no pode haver nada pior. Vamos dar por certo que ele no soubesse do perigo. Mas como explicar que continue a defender a Brastnio mesmo depois do artigo
de Giovanni Guimares? Hoje mesmo, de manha, na agncia dos Correios, ele disse as ltimas a mim e  Carmosina. Conheo o mundo, Tieta, aprendi que a pior coisa
para um homem  a ambio do poder. no h honradez que resista.
Aponta para os cmoros de Mangue Seco que surgem em meio  arrebentao, erguidos diante do mar; do embate com os vagalhes eleva-se uma cortina de gua. A voz do
Comandante, ardente :
- J pensou, tudo isso coberto pela poluio? O progresso  uma boa coisa mas  preciso saber que espcie de progresso. - Pousa os olhos em Tieta. - Voltando ao
que eu dizia: se formos apenas eu, Barbozinha, Carmosina, uns dois ou trs mais, a protestar, pouco vai adiantar. Mas se voc, Tieta, se juntar a ns, levantar a
voz, tomar a frente, a a coisa muda...
- Eu? Por que?
- Porque, para o povo de Agreste voc  a tal. Com razo: a luz da Hidreltrica, a velhinha salva no incndio, sua figura, a bondade, a franqueza, s, u amor  vida.
Para a gente de Agreste, depois da Senhora Sant'Ana, est voc. O que voc diz faz lei. no se deu conta disso?
- Sei que gostam de mim, sempre gostaram. Quem me botou para fora de Agreste foi o Velho, com medo da lngua das beatas, no foi o povo.
Gostam de mim, mas da... Por que hei de me meter, me diga Comandante?
Adoro minha terra, penso vir acabar meus dias aqui, quando a idade chegar.
Mas, da a me meter numa briga dessas...
-  sua obrigao, permita que eu lhe recorde. Voc diz que adora Agreste e  verdade: comprou casa na cidade, est construindo outra em Mangue Seco, s lastimo
que no fique de vez, sem esperar a velhice. Sorriu para Tieta com amizade. - Voc j pensou que, se cruzar os braos agora, quando quiser voltar, nada disso existe,
acabou tudo, Mangue Seco virou um esgoto da fbrica de titnio? J pensou no motivo por que nenhum pas do mundo quer essa indstria em suas terras?
Tieta no responde, os olhos fixos na paisagem que vai se ampliando diante dela, a imensido do mar de Mangue Seco. Sua terra, seu princpio, ali comeou. Nos outeiros
de Agreste, pastoreando cabras, nas dunas de Mangue Seco, coberta pela primeira vez. Sua terra? Seu comeo, sim. Sua terra, porm,  So Paulo, a cidade imensa,
a farista, poluda, solitria. L esto plantados seus interesses: o negcio rendoso, o mais fechado e caro randevu do Brasil, o Refgio dos Lordes, os apartamentos,
a loja no andar trreo, um dinheiro mensal, cada vez maior, por que h de se envolver com as encrencas de Agreste? Antes foi Tieta, a pastora de cabras, a soltar
o berro de desejo nos cmoros de Mangue Seco. Agora  Madame Antoinette, patroa de raparigas, cafetina a servio de milionrios. Nada lhe cumpre fazer ali, nesses
confins do mundo. Se polurem as guas e os cus de Agreste, a beleza de Mangue Seco, tant pis.
Na voz do Comandante, uma splica desesperada:
- S voc, com seu prestgio, pode salvar Agreste.
Endurece a face de Tieta, Madame Antoinette. Nada mais tem a fazer em Agreste,  tempo de retornar a So Paulo. Visitou a famlia, desfrutou da paz da terra, beneficiou
os seus e a comunidade, atendeu aos pobres, basta.
Nada mais lhe cumpre fazer, repete para si mesma.
Apenas deixar que as guas corram. Um dia voltar e, se valer a pena, retirada dos negcios, velha e respeitvel senhora, ali passar os ltimos anos de sua vida.
Bom lugar para esperar a morte, dizia o caixeiro- viajante responsvel pela surra e pela expulso. no fosse para v-la e t-la nos braos, nos esconsos do rio,
fugiria do caminho que conduz aos infelizes limites de Agreste. Tinha razo: isso aqui s serve para se esperar a morte, clima de sanatrio, tranqilidade e paz,
paisagem incomparvel. Vai responder um no redondo ao Comandante quando uma dvida a atravessa: ser que no mundo j no se tem direito  existncia de um lugar,
um nico que seja, bom para nele se esperar a morte?
- Se voc disser no, Tieta, acabou-se Agreste,  o fim de Mangue Seco.
Antes que ela abra a boca, a voz de Ricardo chega do fundo da canoa, imperativa:
- A tia vai dizer sim, Comandante. no vai deixar que arrasem Mangue Seco. Seno, por que havia de fazer o Curral do Bode Incio?
Tieta volta-se, seu menino cresceu, de repente virou homem feito. Num espanto o escuta, acento decidido, inflexvel - Li o artigo do jornal, Comandante, seu Barbozinha
me mostrou. A tia no vai deixar que acabem com os peixes e com os pescadores. Nem ela, nem eu. Se achar que eu sirvo para alguma coisa, pode contar comigo, Comandante.
Da inaugurao da bolsa de imveis em mangue seco, quando o ]ovem seminarista Ricardo desata o no gordio em mangue seco, o dia esplendido de sol, a imensido do
mar, as dunas de areia, o infindo coqueiral, aparentemente a paz mais completa.
Aparentemente, constataram pouco depois.
Acompanhados pelo Comandante - dona Laura ficara na Toca da Sogra com Gripa, nas arrumaes -, Ricardo e Tieta examinam os progressos da construo da pequena casa
de veraneio. O Comandante sorri ante o espanto da tia e do sobrinho: no esperavam encontrar o telhado pronto e terminado. Os operrios no folgaram na semana de
Natal, fosse pela fama, fosse pelo dinheiro de Tieta, pelas duas coisas juntas e sobretudo pela assistncia do Comandante que substitura Ricardo no controle das
obras e lhes quisera fazer uma surpresa. Enquanto Tieta coberta de ungentos e Ricardo de cuidados permaneciam em Agreste, ele oferecera aos trabalhadores a cervejada
comemorativa da cumeeira e prometera em nome da apressada proprietria um bom agrado se antes do Ano- Novo o telhado estivesse colocado. Agora falta apenas cimentar
o cho, pintar as paredes, aplicar as portas e janelas e cercar o terreno onde, numa esquina, o providencial e habilidoso comandante Drio havia fincado na areia
o tronco em que gravara o singular nome da casa de veraneio de Tieta. Dali se v a Toca da Sogra e o Nosso Cantinho, a ampla e confortvel vivenda de Modesto Pires.
Distante da praia, nas margens do rio, avista-se a casa do doutor Caio Vilasboas, cercada de varandas, sem nome a design-la.
Esto acertando com os mestres pedreiro e carpina o andamento dos trabalhos finais, quando aparece o engenheiro Pedro Palmeira. Vestido apenas com uma sunga de banho,
queimado de sol, um filho escanchado no pescoo. Rapago jovial, de prosa animada e riso fcil, bom companheiro de veraneio- disputa peladas na praia com os moleques
e os pescadores jovens, carteia animado biriba, aps a sesta, com a esposa, o Comandante e dona Laura -, naquela tarde parece preocupado. Sua primeira pergunta,
mesmo antes de desejar bom dia, revela o motivo:
- Leram a crnica de Giovanni Guimares? Que me dizem? - Pousa o menino no cho.
- Estamos ameaados do pior - responde comandante Drio.
- no  mesmo? Hoje estive discutindo com seu Modesto sobre isso.
Ele pensa de maneira diferente da minha, v um dinheiro a ganhar.
Escondendo um sorriso, Tieta olha para o Comandante a lembrar-lhe o comeo da conversa na canoa. O rapaz, esgaravatando a areia com um talo de palha de coqueiro,
prossegue:
- Foi desagradvel. Evito conversar sobre certos assuntos com seu Modesto, nossos pontos de vista raramente coincidem. Mas hoje no pude evitar, foi chato. - Corre
a retirar o filho que mergulha nas sobras da massa de reboco.- Marta terminou chorando, seu Modesto, quando se exalta, no escolhe palavras. Para ele, o dinheiro
passa antes de tudo. Antes dos valores fundamentais que esto ameaados pela poluio da Brastnio, a isso no d importncia.
Tieta sente-se corar. no pensara ela tambm, antes de tudo, no dinheiro a ganhar? no propusera ao Comandante a aquisio das terras  margem do rio onde a fbrica
pretende se instalar para revend-la s com lucro?
Fizera-se necessrio o Comandante falar em paz, em beleza, no clima de sanatrio, na felicidade do povo para que ela refletisse e pensasse naqueles outros valores,
maiores - fundamentais, no dizer do engenheiro barbudo e preocupado -, o direito  sade,  beleza,  paz, a um lugar bom para esperar a morte. Somente aps Ricardo,
seu menino de ouro, de ouro e diamantes, proclamar, em nome deles dois, militante solidariedade  causa de Agreste, ela se decidira.
- Se u Modesto interrompeu o veraneio, foi para Agreste, futucar no cartrio as escrituras antigas para tirar a limpo a quem pertence o coqueiral.
- no vai ser fcil descobrir. Uma vez, ele j andou querendo saber, quando comprou a parte que pertencia aos pescadores e pensava fazer um loteamento. no conseguiu
nada.
- Porque desistiu, Comandante. Como o loteamento no foi para a frente, ele desistiu. Mas agora disse que no volta sem ter descoberto quais so realmente os proprietrios
- informa o genro. - Pelo que ele soube por um dos tcnicos da Brastnio que apareceram por aqui, antes de eu ter chegado, o local ideal para a fbrica, alis as
fbricas pois so duas, interligadas, fica um pouco mais abaixo dos terrenos dele, nas margens do rio. O tato cara queria saber a quem pertenciam para informar os
diretores com vistas a negcio. Seu Modesto fez boca- de- siri,  claro.
- Se andaram se informando na cidade devem estar certos que o coqueiral pertence aos pescadores ou que no tem dono,  o que todo mundo pensa em Agreste.
- Se u Modesto me disse que comprou toda a rea de propriedade dos pescadores.
-  verdade.
- Agora quer o resto, para revender  Brastnio. A essas horas, deve estar no cartrio, infernando doutor Franklin.
Entretidos na conversa, no repararam na aproximao do austero doutor Caio Vilasboas. No veraneio, o mdico abandona o formalismo habitual, despe-se do colarinho
duro, passa o dia de pijama e, se  obrigado a sair de casa, acrescenta o guarda- p azul que usa quando toma a marinete de Jairo. ao passar por eles, cumprimenta
mas evita parar, leva pressa, anda em direo  praia. Seguem- no com os olhos, curiosos.
- Ser que tem algum doente? - preocupa-se o Comandante ao ver o mdico desviar o rumo para as casas dos pescadores. - Doutor Caio nunca vem por essas bandas.
O engenheiro palpita:
- no ser outro candidato a comprar o coqueiral? Pensando que pertence aos moradores?
-  isso, no  outra coisa, voc acertou em cheio. A corrida est comeando. Sabe, doutor Pedro, na canoa eu vinha dizendo a Tieta que a gente precisa reagir, protestar,
impedir essa monstruosidade.
- De acordo, mas de que jeito? Como diz Giovanni Guimares, o pessoal do cacau tem fora poltica, o do Recncavo tambm. Mas aqui todo mundo vai achar que pode
ganhar dinheiro com a instalao da fbrica.
- Se Tieta tomar a frente, o povo fica do nosso lado.
O engenheiro concorda, sorri para Tieta:
- Isso  verdade. Seu Modesto diz que o povo botou dona Antonieta no altar, junto da Senhora Sant'Ana. E teve por qu.
O rudo de um motor, descendo o rio.
-  o barco de Pirica - reconhece o Comandante.
O barco enfrenta a arrebentao, traz um passageiro. Olho de marujo, comandante Drio o identifica:
- Edmundo Ribeiro, por aqui? no me diga que...
O coletor, acompanhado do filho Lelu, desembarca na praia, em frente s cabanas para as quais se encaminha, os ps afundando na areia. O engenheiro completa a frase
do Comandante, deixada pelo meio:
.veio em busca dos proprietrios do coqueiral, sim, senhor. Com certeza.
- Mais um. Vai ser uma loucura. Temos de fazer alguma coisa, logo.
- O que  que se pode fazer? - pergunta o barbudo: - Se fosse em Salvador, agente mobilizava os estudantes, ia aos jornais, ameaava com uma passeata. Mas aqui...
O Comandante coa a cabea, pensativo. Protestar, sim, era indispensvel. Mas, como? Que diabo podiam fazer mesmo com Tieta  frente, obtendo o apoio do povo?
- Fazer o qu? - tambm Tieta deseja saber.
Vestido de calo de banho, descalo, torso nu, cor de bronze, parecendo mais um jovem pescador do que um levita do santurio, Ricardo volta a se fazer ouvir, voz
sem apelao:
- No dia que esses sujeitos aparecerem de novo em Agreste ou em Mangue Seco, a gente bota eles pra correr.
- Hein? - exclama o Comandante antes de explodir de entusiasmo.
- Cardo! - exulta Tieta voltada para o sobrinho, seu menino, bode inteiro e macho, bodastro.
- Toque aqui - O engenheiro estende a mo ao seminarista.
Por entre a meia dzia de choupanas, os vultos do doutor Caio Vilasboas e do coletor Edmundo Ribeiro cruzam-se, inaugurando a bolsa de imveis na praia de Mangue
Seco.
Onde o autor, um sacripanta, a pretexto de fornecer dispensvel informao, defende-se de severas crticas no, no pensem que quero me meter na briga recm-iniciada,
quem sou eu? J defini minha posio de completa neutralidade, narrador objetivo e frio, expondo fatos concretos. no venho tampouco comentar a visvel mudana operada
na maneira de ser do moo Ricardo. Apenas, mais uma vez constato a influncia de uma perfumada e gostosa - como direi? -, de um perfumado e gostoso favo de mel,
inebriante rosa negra. Transforma gelo em fogo, carneiro em leo, seminarista devoto em estudante subversivo e arruaceiro.
Outro dia, escandalizado, meu amigo e companheiro de lides literrias, Flvio D'Alambert (Jos Simplcio da Silva, bancrio, na mediocridade da vida civil e burguesa;
se por acaso j forneci essa explicao, aqui a repito, antes ser acusado de redundante do que de omisso), revelou-me que, em certos seminrios, atualmente, os estudantes
lem e analisam Freud e Marx e no O fazem para neg-los, refutando-lhe s as herticas teorias, denunciando-os  policia poltica  falta da Santa Inquisio; uma
vale a outra. Muito ao contrrio, comentam-lhe s os escritos entre elogios e aplausos. no obstante a presena de Frei Timteo no corpo docente, penso que os alunos
do seminrio de Aracaju no conheciam Marx e Freud nos idos de 1965 - data to prxima, ainda ontem, parecendo contudo distante passado ante as transformaes do
mundo; ocorrem elas com tato rapidez que o tempo  jogado para trs, o presente se reduz a breve, fugaz instante. O encontro com os hippies, as repetidas conversas
com Frei Timteo, uma e outra coisa concorreram para a inesperada evoluo do jovem mas, em definitivo, o que o fez outro, virando-o pelo avesso, foi a dolente rosa
negra, o suculento favo de mel onde sequioso e faminto mergulhou e renasceu.
Emprego muito a propsito as imagens acima, rosa negra, favo de mel, metforas destinadas a evitar palavras exatas e justas, seja por pernsticas, incompletas e
feias as que no ofendem o pudor: vagina e vulva, por exemplo, terrveis palavres; seja por criticveis e condenadas as que exprimem com vigor, exatido e poesia,
a doura, a graa, o calor, a eternidade, a perfeio:
xoxota, xibiu, boceta. No texto anterior - Ai de mim! -, utilizadas e repetidas.
Meu confrade e crtico Flvio D'Alambert, a quem entrego as pginas escritas para correo gramatical, conselhos estilsticos e acentos, recriminou-me asperamente
pelo uso e abuso de tais termos, por coloc-los na prpria escrita literria, enfeando a linguagem, emporcalhando a frase. Por que tanto repetir palavras obscenas,
por que voltar seguidamente ao maldito tema em copiosas referncias quilo que ele trata pudicamente de aparelho genital da mulher?
Mas pergunto eu: como no falar de coisa to importante na vida do homem? Por que lhe dar nomes speros e agressivos, poluindo-lhe a beleza e a graa? Por que lhe
negar os doces apelidos nascidos da lngua grata do povo? Na mesa do bar, quando Aminthas, Fidlio, Seixas, o vate Barbozinha, o diligente Ascnio comeam a discutir
altas filosofias, a desovar conhecimentos em maratonas intelectuais, Osnar, chateado, a bocejar, protesta:
- Como vocs perdem tanto tempo discutindo essas besteiras, quando se pode falar de boceta, coisa adorvel?
Osnar, afirma dona Carmosina, e nisso concordo com a sabichona, por vezes nos lava a alma.
Aproveito, alis, a referncia  malta do bilhar para responder a outra restrio feita pelo caro e meticuloso Flvio D'Alambert  presente narrativa.
Chama-me a ateno para o fato de no ter sido o leitor informado da profisso de trs dos quatro compadres de contnua presena nas pginas deste melodramtico
folhetim. De Osnar se sabe a condio invejvel de cidado apatacado, vivendo de rendas; e os demais? Falou-se da tendncia a humorista de Aminthas, do fanatismo
pelo som moderno e do parentesco com dona Carmosina, nada disso definindo profisso ou fonte de receita.
Sobre Seixas, apenas referncias s primas, um rol delas; de Fidlio, nada se conta, fugidio indivduo. Concordo com a crtica, confesso o erro, dou a mo  palmatria.
Tem razo o amigo Flvio D'Alambert ao apontar-me a grave lacuna, a falta de informao assim importante, direi mesmo fundamental: o meio de vida de certos personagens.
A economia condiciona o mundo e dirige as aes humanas, ensina Marx aos seminaristas. Ou  o sexo, como aprendem em Freud? Confuso medonha. Aproveito-me dela para
fornecer a informao, redimindo-me da negligncia. So os trs, Aminthas, Seixas e Fidlio, funcionrios pblicos. O primeiro, federal, os dois outros, estaduais.
A par da condio de servidores da Nao e do Estado dos trs rapazes, o leitor no mais os pensar desempregados, troca- pernas, boas- vidas. Troca- pernas, boas-
vidas, de acordo; desempregados, no.
Chego por fim ao motivo nico dessa minha interveno. Desejo apenas informar os nomes dos cinco assinantes de A Tarde. So eles: Modesto Pires, o rabe Chalita,
Edmundo Ribeiro, doutor Caio Vilasboas e seu Manuel Portugus. O sexto exemplar, como se sabe, vem, gratuito, para dona Carmosina, oferta da gerncia. Aps a publicao
da Carta ao Poeta De Atos Barbosa, a explosiva crnica de Giovanni Guimares, o nmero de assinaturas passou de cinco a nove, dona Carmosina - ela sempre sai ganhando
embolsou polpuda comisso. Polpuda em termos de agreste, naturalmente... Tudo no mundo  relativo, como diria Einstein, desconhecido dos seminaristas de Aracaju.
Da formosa Leonora Cantarelli, estendida na rede, entre cabras e baleias, sob um sol azul a formosa Leonora Cantarelli, estendida na rede, na varanda da casa de
Perptua, recolhe o apressado beijo de despedida de Peto, cujas obrigaes de torcedor, acrescidas do receio de sofrer castigo devido a imprudentes palavras, chamam-
no ao bar onde, a partirdas cinco, comea um torneio de bilhar disputado pelos melhores tacos da cidade. Peto no dispensa o beijo da prima quando chega e quando
se despede. Leonora diverte-se com as manhas do garoto, a esperteza e os olhos astutos. Fora disso, terno e solicito, sempre s ordens das parentas paulistas, pronto
para qualquer servio. Pela tia Antonieta tem verdadeira idolatria, o que no o impede de brechar-lhe os decotes, de alegrar a vista nos detalhes expostos.
Aps a partida de Barbozinha para a agncia dos Correios Peto permanecera fazendo companhia a Leonora, narrando-lhe peripcias de pesca.
Sara rio abaixo naquela manh, com Elieser, na lancha. O peixe mordia que dava gosto, carapebas enormes; o molinete e a vara trazidos de presente pela tia Antonieta
para Cardo revelaram-se legais paca. Voltara com o sambur cheio de carapebas e robalos deste tamanho - marcava o tamanho com as mos -, dera  tia Elisa, comeriam
no jantar peixe pescado por ele, Peto, rei da isca e do anzol. Tia Elisa  legal no tempero, de se lamber os beios. Bonita tambm, a mulher mais bonita de Agreste,
para comparar-se com ela s mesmo Leonora.
- Entre a tia e a prima, o preo  duro. Se eu tivesse de escolher, ficava com as duas.
As antenas sempre ligadas, Perptua escuta ao passar, repreende:
- Que falta de respeito  essa, moleque? Isso  coisa que se diga? Quer ficar de castigo?
Peto capa o gato antes que a me decida mand-lo fazer uma hora de banca ou o obrigue a acompanh-la  igreja para a chatice das devoes vespertinas; no bar os
campees devem estar se reunindo. Pisca o olho para Leonora, rouba-lhe o beijo, e quando Perptua o procura - cad esse endemoninhado? - no lhe percebe nem o rastro.
Queixa-se do filho mais moo enquanto explica a Araci como arear os talheres para deix-los reluzindo; aproveita a presena da moleca para uma faxina geral, a casa
anda um brinco.
- Esse menino me consome a vida. Ricardo no me d trabalho mas Peto no sei a quem saiu. Parece filho de Tieta... - tapa a boca com a mo, arrependida, no v a
sirigaita contar  madrasta.
-  um menino timo - elogia Leonora.
- Voc  que  boa, fecha os olhos para as bobagens dele.- Desaparece no quarto do oratrio.
A ss, Leonora retoma os livros de autoria do poeta De Matos Barbosa, emprestados pelo autor: dois de versos, um de pensamentos filosficos.
Emprstimo feito debaixo de muitas recomendaes. Tomasse cuidado pois ele possui apenas aqueles nicos volumes e as edies esto h muito esgotadas. De uma delas
o exemplar vale hoje verdadeira fortuna, e ainda assim quem possui no quer se desfazer. Tiragem limitada, fora de comrcio, ilustrada com dez gravuras de Calasans
Neto, a cores e em preto- e- branco, financiada por amigos do poeta, fora vendida a subscritores quando a embolia o ameaou de morte ou, pior, de mudez, cegueira,
paralisia, cadeira de rodas.
Com o produto da venda direta, obtivera dinheiro para pagar quarto particular em hospital e as contas de farmcia. Mdicos, tivera dos melhores, de graa; quem,
em Salvador, no conhecia e estimava o poeta De Matos Barbosa e sua mansa loucura?
Ao entregar os envelhecidos tomos, folheando com Leonora a bela edio dos Poemas de Agreste, revendo as ilustraes, Barbozinha foso fala sobre a vida, os caprichos
do destino. Aquele fora o ltimo livro que conseguira publicar. Recuperado porm marcado pelo derrame, a voz presa, o passo tardo, aposentado da funo pblica,
partira para o voluntrio exlio na placidez da terra natal, distante das portas de livraria, dos animados cafs e das tertlias, das colunas dos jornais, do sucesso
e do renome. Enquanto isso, daquelas primeiras cabras e baleias, talhadas na madeira h onze anos, para ilustrar poemas sobre os outeiros de Agreste e os cmoros
de Mangue Seco, inesperadas baleias vindas do mar, em navegao no rio Real, cabras com dengues e meneios de mulher, alteando-se sobre as rochas, disparara o jovem
gravador Calasans Neto - O caboclo Cal, um porreta, assim o trata e define o vate Barbozinha - para rpida e gloriosa carreira, hoje nome nacional, com exposies
inclusive no exterior, em Nova Orleans e em Londres, sim senhora, minha gentil amiga. Assim  a vida, uns subindo, outros descendo a rampa, constata ele sem amargura:
tendo vivido numerosas existncias, encamado tantas e tantas vezes, esses altos e baixos no O apoquentam. Muito menos agora quando o fraterno Giovanni Guimares,
glorioso e popular cronista de A Tarde, o retira do ostracismo para lhe entregar o estandarte da luta contra a poluio.
Compusera, em duas noites de inspirao e raiva, cinco Poemas da maldio para marcar com o ferrete candente da poesia a face podre dos vendilhes da morte. Viera
com idia de os ler para Tieta, musa eterna e singular dos livros publicados, brao e corao a sustent-lo quando o raio O atingiu e o vate encontrou-se soterrado
sob a humilhao da versalhada em louvor  Brastnio, aquela abjeo por ele produzida devido ao engano em que lamentavelmente incorrera em companhia de Ascnio,
ambos inocentes vtimas da perfdia. Aproveitou para agradecer  encantadora slfide ter destrudo, nas chamas purificadoras, a cpia do corpo de delito, apagando-se
assim, para todo o sempre, a lembrana da infmia; os originais ele os havia igualmente transformado em cinzas.
No encontrando Tieta, a ingrata no o informara da ida para Mangue Seco, declamou para Leonora dois dos cinco poemas redentores: os outros trs, ele os considerava
impublicveis em jornais ou revistas, imprprios para recitativo, defesos a ouvidos inocentes. Para Tieta, viva, ntima e velha amiga, musa permanente, se animaria
a diz-los. Para Leonora, no, pois retomando o estro de Gregrio de Matos, ele, De Matos Barbosa, baixou o pau com vontade, em linguagem vigorosa e spera, nos
criminosos diretores da Brastnio. Em certos versos, como negros e brutos diamantes, cintilam palavres - A imagem  do prprio Barbozinha.
A chegada de Peto, com o ruidoso entusiasmo de pescador bem sucedido, apressou a partida do bardo para a agncia dos Correios onde ia postar os poemas e longa carta
para Giovanni Guimares. Antes, porm, declamaria poemas e carta para a amiga Carmosina. Essa, se bem donzela, pode ouvir qualquer barbaridade, no se escandaliza.
L se foram, primeiro o poeta, cachimbo apagado, passo lento, ardente corao; depois o garoto, sem- vergonha e afetuoso, no espanto da primeira adolescncia. Leonora
contempla as gravuras, cabras e baleias, pedras e montes, a moa com o basto e um estranho sol azul a nascer sobre as guas ribeirinhas, extravagncia ou insolncia
do artista. no a surpreendeu, porm, aquele sol azul, era-lhe familiar. Desde o desembarque em Agreste, Leonora se sentia cercada por uma atmosfera difana, em
tons celestes, um mundo mgico, irreal, onde no cabe a maldade; nem a maldade nem a desgraa. Os lbios murmuram u duas estrofes do repudiado poema de Barbozinha,
aquelas onde o vate se referiu a Ascnio Trindade, capito da aurora.
Encurralado capito, h dois dias e duas noites sem repouso, a face intranqila, os olhos injetados, as marcas da insnia. Na primeira noite, quase mudo. Andando
com Leonora em torno  praa, tomara da mo da moa e a prendera entre as suas, em busca de apoio e segurana. A crnica no jornal deixara-o doente. Pouco a pouco,
talvez porque ela no houvesse feito comentrio nem perguntas, ele falou do problema. O destampatrio de Giovanni Guimares deve possuir alguma base concreta - disse
-, uma parcela de verdade mas ele, Ascnio, sem querer adiantar nenhuma afirmao, tem quase certeza de haver imenso exagero na exaltada diatribe do jornalista,
resultante quem sabe de que obscuras razes. Alguma poluio h de decorrer da indstria de titnio, todas as fbricas poluem, umas mais, outras menos. no acredita,
porm, naquela apavorante histria de perigo mortal para a flora e a fauna, para o rio e mar. De qualquer maneira, antes de tomar posio, devem esperar que a denncia
do jornalista se confirme ou se reduza, colocada nos devidos termos pelos especialistas competentes. Leonora suspendeu-lhe a mo e a beijou: Ascnio tem razo, 
preciso esperar, talvez tudo isso no passe de tempestade em copo d'gua.
Na noite seguinte, a da vspera, fora ainda mais difcil. Habitualmente, Ascnio arranja no decorrer do dia pelo menos dois ou trs motivos para aparecer em casa
de Perptua, pedindo licena para entrar por um momento ou chamando Leonora  janela, ela dentro da sala, ele no passeio: um dedo de prosa, um sorriso, um beijo.
Naquele dia, porm, no aparecera. Leonora tivera notcias, por dona Carmosina, da violenta discusso travada pela manha na agncia dos Correios. Depois, o Comandante
passou com dona Laura para buscar mezinha e Ricardo mas no fez referncia ao incidente, De Ascnio, nem sinal.
Aps o jantar, na hora sagrada, ele chegou, srio e triste. Leonora esperava-o na porta, Ascnio no quis entrar nem mesmo para dizer boa noite a Perptua. Atravessaram
para o jardim da praa onde moas e rapazes namoram, circulando aos pares. Houve um tempo de silncio, pesado, depois ele perguntou:
- J soube?
- Da discusso? J.
- Horrvel. Perdi a cabea, destratei o Comandante, uma pessoa muito mais velha do que eu, um homem de respeito. Mas ele me acusou de desonesto.
- O Comandante? Pensei que tivesse sido Carmosina.
- Ela s me xingou, no ardor da discusso, no tem importncia. Mas o Comandante falou que eu menti, que, estando a par dos planos da fbrica, nada disse, enganei
todo mundo. Para ele, eu me revelei indigno da confiana depositada em mim. no sei se isso  verdade, mas o resto : menti, escondi o que sabia, procurei tapear
os outros. Mas eu juro que s fiz isso para o bem de Agreste. O doutor Mirko, voc sabe quem , me pediu segredo pois nada estava ainda decidido e se a coisa viesse
a pblico podia botar tudo a perder.
Para mim, o interesse de Agreste passa por cima do que quer que seja.
Como o fizera na vspera, Leonora levou a mo de Ascnio aos lbios e a beijou. O rapaz sorriu, um sorriso to triste que ela pode medir quanto ele estava magoado
e temeroso. Ento, ali mesmo em plena praa, sob uma rvore, sem se preocupar com a presena dos casais de namorados, ela se deteve e, tomando-lhe do rosto, o beijou
na boca. Para que ele e todos a soubessem solidria incondicional.
Na rede, admirando as gravuras, as altivas cabras, as pacas baleias, o grande sol azul, sonho e realidade, Leonora conta os minutos. Pela manha, Ascnio mandara
Lencio com um recado: tem pela frente um dia muito ocupado com os problemas do calamento da rua da entrada da cidade Leonora se encontra a par do complexo festivo,
da projetada homenagem  Joana D'Arc do Serto - mas se conseguir tempo passar a v-la, a qualquer hora. Nos lbios de Leonora esvoaam os versos de Barbozinha
sobre o capito da aurora.
Badala o sino da Matriz anunciando cinco horas da tarde. O capito da aurora est cercado de ameaas e perigos. Apenas ele ou ele e ela, o idlio de Ascnio e Leonora,
o sol azul de Agreste? Onde a altivez, o entusiasmo, a certeza de triunfo do Capito Ascnio Trindade a comandar o progresso, derrubando os muros do atraso, acendendo
esperanas no burgo morto e no peito de Leonora? Murcho, inquieto, triste, quase derrotado. Vencido ou vitorioso, pouco importa, meu amor.
Ei-lo que irrompe porta adentro, sem sequer ,pedir licena, de novo altivo, entusiasta, triunfante, nas mos um mao de jornais, a notcia de asfalto prximo no
Caminho da Lama e a placa com o nome da rua dona Antonieta Esteves Cantarelli (cidad benemrita).
Do calamento da rua, da placa e da manchete no jornal, quando Ascnio trindade reassume a ameaada funo de lder, captulo todo em flashback encontra-se Ascnio
trindade na entrada da cidade, entre a praa do Mercado e a curva da estrada, acertando com o mestre-de-obras Esperidio do Amor Divino detalhes do calamento da
rua, por onde fios e postes da Hidreltrica penetraro em Agreste, quando a atrasadssima marinete buzina - espantoso som!- e logo surge numa nuvem de poeira, apario
ao mesmo tempo familiar e surpreendente, fulgurante. ao perceber o secretrio da Prefeitura, Jairo freia o veculo, ouvem-se guinchos e exploses, a marinete estremece,
salta, dana, ameaa derrapar, desconjuntar-se, partir-se ao meio, estanca. O velho e indomvel corao do motor prossegue descompassado a pulsar- Jairo no  besta
de deslig-lo; quem garante que ele voltar a pegar?
Naquele dia j lhe fez poucas e boas.
At aquele momento, quando Jairo usou os freios provando-lhe s no apenas a existncia mas tambm a qualidade das peas de fabricao antiga, as de hoje no valem
nada, o dia fora extremamente desagradvel para Ascnio. Desde a primeira leitura da crnica de Giovanni Guimares sua vida tem sido um pesadelo. A partir da conversa
com doutor Mirko Stefano, o Magnfico Doutor - assim o designara a secretria executiva, a mesma que depois apareceu vestida de Papai Noel, na ocasio em que viera
 frente do batalho de tcnicos - at a exploso da crnica, Ascnio erguera maravilhoso, imenso castelo, prevendo sensacional futuro para Agreste e para ele prprio.
As chamins das fbricas construdas em Mangue Seco propiciam o progresso: estrada asfaltada, larga, quem sabe de duas pistas, quase auto-estrada, cidade modelo,
no coqueiral, para operrios e empregados, moderno hotel em Agreste em edifcio de vrios andares, comuna prspera e rica. A Brastnio, pioneira, abre o caminho
para vrias outras indstrias desejosas todas de se beneficiarem das condies mpares do municpio.  frente de tudo isso, comandando, administrador competente,
profcuo, incansvel, pleno de idias e capaz de execut-la s, um estadista, Ascnio Trindade, prefeito de Sant'Ana do Agreste, ora marido, ora noivo da bela e virginal,
virginal, no, da bela e cndida herdeira paulista Leonora Cantarelli. Por vezes prolonga o tempo de noivado, perodo de douras quando o desejo vai conquistando
direitos e territrios corpo afora, pouco a pouco; por vezes casa logo, na urgncia de enxerg-la no lar e de imagin-la grvida, o ar angelical amadurecendo com
o crescer do ventre.
Castelo de cartas, a exploso o levou pelos ares, a ele e  segurana do moo. Viu-se de sbito em meio a um vendaval igual aos que se abatem em certas ocasies
sobre Mangue Seco, arrancando coqueiros pela raiz, desfazendo as cabanas dos pescadores, revolvendo o oceano, levantando incrveis redemoinhos de areia, mudando
a posio e a altura das dunas. Quando termina e a paz retorna, a paisagem modificou-se, lembra a anterior mas j  outra, diferente.
Ascnio recusa-se a aceitar as afirmaes de Giovanni Guimares sobre os malefcios resultantes da indstria de dixido de titnio, apegando-se  condio do jornalista,
leigo na matria, incompetente a respeito de questes cientficas. Mas, se for verdade o que ele assegura e denuncia, assessorado quem sabe por fsicos e qumicos?
A crnica ressuma extrema segurana, como se o autor tivesse absoluta certeza de tudo quanto afirma. Tudo no, pois a prpria dona Carmosina, apaixonada partidria
do artigo, nele descobrira erro primrio, relativo  cor da fumaa. Se errou nesse detalhe, pode ter Giovanni errado em todo o resto. Mas, se  parte a cor da fumaa,
no restante ele tiver razo? Sendo assim to perigosa essa indstria, mortal para os peixes, acabando com a pesca e os pescadores? A verdade  que atualmente h
uma verdadeira mania de se ver poluio em toda parte, de se atribuir s chamins das fbricas as desgraas do mundo.
Que posio deve ele tomar, em definitivo? Se ficar provado exagero de Giovanni Guimares, o problema ser de fcil soluo. Mas se, ao contrrio, os entendidos
vierem em seu apoio? Romper Ascnio com o Magnifico Doutor, recusando-lhe a autorizao e as facilidades prometidas para a instalao da Brastnio no municpio
ou enfrentar o perigo da poluio, considerando mais importante para o futuro de Agreste a transformao econmica da zona, a riqueza resultante da industrializao
do que a escassa pescaria da reduzida colnia de Mangue Seco, a limpidez das guas, a beleza do rio? Como agir, que posio, que partido tomar? Abrir mo de tudo,
dos projetos administrativos e dos sonhos de noivado e casamento, para garantir a permanncia do clima puro, da beleza clara, da modorrenta paz? A que servem o cu
puro, a gua clara, a beleza, a paz? Bom lugar para esperar a morte; com o correr do tempo a frase do caixeiro-viajante torna-se repetido lugar- comum, verdade patente.
Antes de enfrentar o perigo, sacrificar uns poucos pescadores- e com isso pr fim ao contrabando na barra do rio Real, que h quase um sculo resiste s espaadas
incurses da policia -, sujar as guas, em troca de riqueza, do movimento, do incontido progresso. So poucos e contrabandistas os pescadores de Mangue Seco; so
numerosos, srios e trabalhadores os do arraial do Saco, do outro lado da barra, e a morte dos peixes, o envenenamento das guas atingir toda a foz do rio, o mais
em frente. Meu Deus,  de enlouquecer qualquer cristo ou marxcista o contraditrio universo das razes em causa. Ascnio, farto, exausto, os nervos em ponta, tenta
liquidar o ltimo argumento a pemirb-lo recordando que, localizados a praia e o arraial do Saco em terras de Sergipe, o destino dos pescadores que ali vivem no
 problema dele, administrador de municpio baiano. no se convenceu.
A prova de que no se convenceu foi a deciso tomada na Prefeitura, pela manha, em relao ao indispensvel calamento do Caminho da Lama, na entrada da cidade,
para as festas da inaugurao da luz da Hidreltrica. Urge dar incio ao trabalho, dentro de um ms os postes chegaro s ruas de Agreste e se acender a luz de
Tieta. Por via das dvidas, fazendo das tripas corao, Ascnio resolve deixar de lado as mirabolantes promessas do doutor Mirko Stefano e retomar o plano anterior,
modesto calamento de pedras - pedras sobrando no rio e nas colinas, a nica coisa realmente barata em Agreste alm de mangas e cajus - financiado pelos apatacados
da terra; correr a lista, mendigo pblico, mais uma vez.
Decidido mas esmagado, desabitualmente irascvel e ranheta, mantm longa e difcil conversa com mestre Esperidio, acertando prazo e preo para a empreitada. Ascnio
a deseja rpida e barata, Esperidio considera inaceitveis as magras propostas do secretrio da Prefeitura, levando em conta sobretudo a limitao do tempo: dever
contratar quantidade de trabalhadores, entrar pela noite adentro trabalhando, e ainda assim vai ser dureza entregar a obra na data precisa. Terminam por ir ao local,
examinar de perto.
Conseguem chegar por fim a um compromisso sobre o oramento quando Jairo freia a marinete e a poeira sufoca Esperidio do Amor Divino, magricela e esporrento. Voltando
a respirar, o mestre-de-obras reclama:
- Esto falando por a em poluio, como se essa desgraada marinete no estivesse acabando com os pulmes da gente h mais de vinte anos.
Jairo desce, segurando dois pacotes, descansado, indiferente s trs horas de atraso, s paradas,  volubilidade do motor naquele dia de humor bastante instvel:
- Duas encomendas para voc, Ascnio. Essa, foi Canuto quem mandou. - Um embrulho largo, ainda na embalagem original, endereado a Canuto Tavares por uma firma da
capital.
ao receb-lo, Ascnio apalpa o pacote:
- Sei de que se trata: Volta-se para Esperidio: -  a placa da rua.
Chegou mais cedo do que eu esperava.
- Esse outro, foi Miroel, da agncia de passagens, quem me deu, dizendo que era urgente. Parece ser coisa importante, veio no nibus que faz a linha direta de Salvador
a Aracaju. Parou em Esplanada, s para deixar esse troo. Est entregue. Rapidez e eficincia. - Ri.
Entrega, ri e fica  espera. Rodo de curiosidade, aguarda a abertura dos embrulhos. O primeiro, como Ascnio previra, contm a placa para nova rua, com o nome de
dona Antonieta em letras brancas sobre fundo azul. Jairo e Esperidio aproximam-se para admir-la, Ascnio a encomendara na Bahia, em firma especializada, por intermdio
de Canuto Tavares. O funcionrio relapso da agncia dos Correios e Telgrafos  uma espcie de correspondente de Agreste em Esplanada, a cujos prstimos Ascnio
recorre com freqncia.
Apressada e decidida passageira, dona Preciosa, diretora do Grupo Escolar, levanta-se e toca a extraordinria buzina da marinete, espantando pssaros - Jairo no
se enxerga: indiferente ao atraso enorme, ainda salta para conversar, quando esto, finalmente, na reta da chegada. O pacote, dirigido a Ascnio Trindade, Dinmico
Prefeito de Sant'Ana do Agreste, URGENTE, assim em maisculas e ainda por cima em vermelho, contm jornais e uma carta. Enquanto a poluio sonora da buzina pe
calangos em fuga, Ascnio abre um dos jornais e seu rosto se descontrai, desaparecem a irritabilidade, a fadiga, a amargura, ao ler, em letras garrafais, manchete
em primeira pgina: A Brastnio desmascara um impostor e ao constatar, num relance, no ser outro o impostor desmascarado seno O cronista de A Tarde, Giovanni Guimares.
Surgindo na porta da marinete, dona Preciosa ergue a voz cida e ameaadora, habituada a ralhar com meninos, reduzindo-os ao silncio e  obedincia, a verruga a
tremer, indaga:
- O bate-papo vai demorar muito, Jairo?
- J estamos indo, dona Preciosa. - Quem respondeu foi Ascnio, andando para a marinete, seguido por Jairo e Esperidio. Segura os jornais como quem segura ouro,
pedras preciosas, remdio contra a morte.
Das razes a favor irrespondveis argumentos, os de Giovanni Guimares, na opinio do vate Barbozinha, em conversa com Leonora. no h mais o que discutir, disseram
dona Carmosina e o Comandante: o cronista de A Tarde pusera o preto no branco, os pontos nos . no pensavam assim proprietrios e diretores de outros jornais, a
prova est em frente a Ascnio Trindade, sobre a mesa do prefeito. Exemplares de dois dirios da capital nos quais, em fartas matrias, as opinies negativas do
articulista em sua Carta ao poeta De Matos Barbosa viram-se sujeitas a completa reviso, spera crtica e desagradvel confronto com as responsveis declaraes
de cientistas de peso e de administradores conscientes de seus deveres.
Um desses jornais estampa a manchete agressiva, vista por Ascnio antes de embarcar na marinete onde, excitado, a releu, constatando a violncia do tratamento aplicado
a Giovanni: impostor, nem mais nem menos. A gazeta no levou em conta o renome do articulista, a simpatia e a considerao a cerc-lo.
Longo editorial, em negrita e corpo doze, canta loas  Brastnio, em frases e adjetivos junto aos quais os louvores de Barbozinha no excomungado poema empalidecem.
No momento em que o Governo do Estado conclui as obras do Centro Industrial de Aratu, criando as condies para um surto novo na vida da Bahia, a localizao na
Boa Terra de uma indstria da importncia da Brastnio, fundamental para o desenvolvimento do pas,  a mais auspiciosa notcia do ano que termina, um inigualvel
presente de Natal  populao do Estado - afirma o artigo-de-fundo. Pode-se proclamar ter sido a Bahia contemplada com a sorte grande ao ser escolhida pela ilustre
diretoria da Empresa que se prope aplicar em nosso Estado capitais de vulto antes aqui desconhecido em se tratando de empreendimentos privados. H quem fale, naturalmente,
em perigo de poluio, mas os negativistas sempre existiram, em qualquer parte e ocasio, opondo-se ao progresso, pregoeiros da desgraa.
So vozes isoladas e de duvidosa procedncia, servindo a escusos interesses.
Se, por simples curiosidade, nos detemos a examinar a biografia poltica dessas aves de agouro a grasnar infmias, localizaremos de imediato rano ideolgico suspeito,
a marca registrada de Moscou. Nesse tom, todo O editorial. no cita o nome de Giovanni Guimares mas est na cara.
Cita-o, porm, na entrevista concedida ao mesmo jornal, um dos dinmicos diretores da Brastnio indstria Brasileira de Titnio, o jovem vitorioso empresrio Rosalvo
Lucena, economista de reputao nacional, diplomado pela fundao Getlio largas, da qual logo se tornaria professor, Managerial Sciences Doctor pela Universidade
de Boston. Comeou o titular de tantas excelncias levando Giovanni na gozao, ameno nonista sem nenhum conhecimento cientfico, dever manter-se nos limites dos
fatos acontecimentos quotidianos, no comentaro de casos de poltica e de vitrias e derrotas no futebol, ao que sabe, seus temas prediletos, no se metendo a dar
palpite naquilo que ignora, transformando-se de cronista em impostor, tentando lanjar a opinio pblica contra um empreendimento de alto teor patritico que significar
para o Brasil economia de divisas, ampliao do mercado de trabalho, riqueza. Sobre o imaginado e inexistente perigo mortal que as fbricas da Brastnio representariam,
segundo O odioso foliculrio, melhor ser ouvir a opinio de um tcnico de competncia indiscutvel, o doutor Kar Bayer, nome familiar a todos quanto se interessam
pelos problemas do meio ambiente. Num retrato em trs colunas Ascnio v, no centro da pgina, o dinmico doutorRosalvo Lucena, o ilustre cientista Bayer e o simptico
doutor Mirko Stefano ao Iado do nosso diretor quando da visita realizada  redao desta folha.
O ilustre tcnico, em texto extremamente cientfico e ininteligvel, por isso mesmo de muita fora de convico, respondendo a trs perguntas- por ele mesmo redigidas
pois esses reprteres so uns analfabetos em matria de problemas ecolgicos -, liquidou o assunto. Com grande gasto de elmenita, cloreto, Austrlia, catalisador,
pentxido de vandio, necton e plncton, efluentes, provou por a mais b no passar de balela toda essa conversa de perigo de poluio, de morte de peixes e contaminao
das guas, desprezvel demagogia. Quem h de duvidar, diante de tanta cincia?
No outro jornal, no menos entusiasta da instalao da Brastnio, indstria de salvao nacional, primordial, fator de reerguimento da economia baiana, o engenheiro
Aristteles Marinho, da Secretaria de Indstria e Comrcio, deu sua penada a favor da Empresa. Perigo nenhum, garante o tcnico, despojado de termos difceis e de
efluentes, competncia modesta se comparada  do germnico Bayer. Importante, porm, pois reflete o pensamento da administrao estadual que, tendo, segundo ele,
estudado acuradamente o assunto, levando em conta os interesses vitais da populao, conclura pela perfeita inocuidade e pela extrema importncia da indstria a
ser implantada no Estado pela Brastnio. Termina afirmando que os baianos podem dormir descansados, o governo est vigilante e no permitir ameaas s terras, s
guas e ao ar nos limites da Bahia. Quando fala em governo, refere-se ao Estadual e ao Federal, indissolveis na defesa dos recursos naturais e da sade do povo.
Os jornais - alguns exemplares de cada um dos dois - vieram acompanhados de uma breve carta do doutor Mirko Stefano, dirigida ao caro amigo doutor Ascnio Trindade,
na qual lhe informa ter a Brastnio contratado os servios de uma empresa d viao e obras para realizar estudos e apresentar projeto para o alargamento e a pavimentao
dos cinqenta quilmetros da estrada a ligar Agreste a Esplanada. A mesma empresa asfaltar, por conta da Brastnio, a rua da entrada da cidade, conforme o prometido.
Em breves dias, as mquinas e os tcnicos chegaro. no se refere nem aos jornais nem a Giovanni Guimares.
Reflexo do autor a propsito de nomes e tcnicos cansado do esforo feito para manter inclume minha propagada e prudente posio de narrador objetivo, evitando
envolver-me na polmica ao resumir e transcrever opinies divergentes, expostas em crnicas, editoriais, tpicos e entrevistas, permito-me curta reflexo sobre nomes
de famlia e maneiras de agir de tcnicos fora de srie, famosssimos, cujas concluses ditam lei. Fao-o no desejo de evitar ao leitor engano e confuso.
Em tempos bicudos, quando o livro se transforma em artigo de luxo em lugar de ser, como deveria, objeto de primeira necessidade igual ao po e  gua (alis, tambm
absurdamente caros, no existe mais nada barato a no ser aporrinhaes e tristezas), no posso permitir que o leitor, tendo empregado seu rico dinheirinho na compra
de exemplar deste empolgante e volumoso folhetim - duas qualidades intrnsecas aos bons folhetins -se ja levado a concluses errneas. O que poderia suceder se no
for esclarecido de imediato detalhe referente ao cientista Karl B ayer, cuja entrevista a uma folha de Salvador teve o essencial de seu profundo contedo includo
em captulo anterior. Sintetizado, pois sendo a entrevista longa e prenhe de cincia fsica, qumica, ecolgica e que jandas, sua transcrio na ntegra no me pareceu
recomendvel para dizer a verdade, a cincia do doutor Bayer, de to volumosa e macia, torna-se massuda e enfadonha. Deixemos, porm, esse detalhe de lado e falemos
do nome de famlia do doutor, assunto primeiro desta reflexo. Bayer - sobrenome famoso, ostentado por Herr Professor KarL Famoso, conhecidssimo, por isso mesmo
dando facilmente lugar a confuses de perigosas conseqncias. Apresso-me assim a dizer que, at onde posso assegurar, no  o professor membro da famlia de nacionalidade
alema, proprietria de grandes indstrias e emprios qumicos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Nacionalidade significando, no caso, capital, capital social
e de giro; em tempo de multinacionais, ainda mais do que o lugar do nascimento e o sangue, o dinheiro determina a nacionalidade.
Ao topar com Herr Professor Karl Bayer ditando regras no captulo anterior, gritei aleluia, sonhei imortalidade acadmica e prmios literrios (em pecnia, se possvel),
pensando estivesse nosso folhetim cumulado de honra devido  presena entre a pobre humanidade de Agreste de um dos grandes do mundo, um Bayer. Nas pginas iniciais
deste fiel relato das aventuras de Tieta, expressei a esperana de que, no decorrer da narrativa, nela surgisse, para glria de quem a redige (mal e porcamente),
a figura de um magnata, de um dos verdadeiros donos da Brastnio. Um grande patro, no um borra- botas qualquer, Magnfico Doutor, Managerial Sciences Doctor, Moo
ou Velho Parlamentar, Sua Excelncia, todos assalariados, ocupando altos postos, muito bem pagos, em certos casos pagos em divisas, mas nenhum deles um verdadeiro
patro. ao ler o nome Bayer encimando a entrevista, pulsou-me disparado o corao, imaginando estar diante de um dos legendrios reis da indstria mundial. Fatal
engano: trata-se apenas de mais um testa-de-ferro, tcnico reputado e alemo porm Bayer bastardo, no passando de simples coincidncia.
Busco esclarecer o detalhe pois, segundo li alhures, esto os Bayer legtimos associados  indstria de dixido de titnio em mais de um pas. A transcrio da entrevista
do Bayer esprio poderia sugerir, por conseqncia, solerte e malvola inteno de caracterizar a existncia na Brastnio de capitais germnicos, majoritrios e
colonizadores. Ora, o carter nacional e patritico da Brastnio tem sido repetidas vezes afianado e eu no pretendo discutir tal afirmao. Nem retific-la, nem
ratific-la. Mantendo-me  margem, apenas esclareo, cumprindo obrigao de autor imparcial, ser o Bayer da entrevista um Karl qualquer, tcnico de renome e nada
mais: no possui aes na companhia. Se os outros Bayer, donos de meio mundo, tm dinheiro e mandam na empresa, no sei nem desejo saber. Meta a mo em cumbuca quem
quiser, no eu, macaco velho.
Evitando assim qualquer confuso no esprito do leitor, antes de retornar ao folhetim propriamente dito, gostaria de acrescentar uma palavra sobre a atuao desses
capacitadssimos tcnicos, pagos a peso de ouro. Palavra de pouca valia por ser de leigo em matria cientfica - mais leigo ainda do que o cronista Giovanni Guimares,
cujas boas intenes esto dando nesse bode todo - no obstante capaz, quem sabe, de revelar curiosa circunstncia na aplicao dos incomensurveis conhecimentos
desses senhores cuja opinio, como se disse atrs e em seguida se provar, dita leis e orienta governantes.
O Herr Professor Karl Bayer foi categrico: nenhum perigo de poluio.
Com isso liquidou os ltimos escrpulos de certos homens de governo aparentemente receosos da propalada capacidade poluidora da Brastnio. A segurana expressa pelo
competente tcnico no significa no entanto inflexibilidade; tudo no mundo depende de hora e lugar e de quantia em jogo.
amanh Herr Bayer pode mudar de opinio, afirmar exatamente o contrrio e nisso reside a grandeza (e a fortuna) dos tcnicos fora de srie.
Sou levado a essa concluso lendo nos jornais notcia da chegada ao Brasil de outro tcnico ilustre e infalvel. Vem por conta de multinacional com matriz nos Estados
Unidos negociar contrato de risco para prospeo de novos campos petrolferos garantindo, no maior entusiasmo, possuir nosso subsolo incomensurveis reservas do
cobiado ouro negro. Trata-se do mesmo competente especialista outrora contratado por governantes nacionais para tirar a limpo de uma vez por todas a existncia
ou no de petrleo no Brasil. Foi ele ainda mais categrico, explicito e peremptrio em sua resposta negativa do que, na polmica sobre a Brastnio, o conclusivo
Bayer.
Aps meses de estudo, pesquisas, prospees, banquetes, garantiu, sob palavra de honra, a total, absoluta ausncia de petrleo no subsolo brasileiro:
nem uma gota para remdio, na terra e no mar. no passando toda e qualquer afirmo em contrrio de agitao subversiva, a servio de Moscou, merecedora de severa
represso. Embolsou rgio pagamento e, se no me engano, recebeu de lambugem magna condecorao pelos servios prestados ao Brasil. Sua opinio fez lei e vrios
indivduos foram trancafiados no xadrez, entre os quais um certo Monteiro Lobato, escritor de profisso, teimoso brasileiro irresponsvel a ver petrleo onde petrleo
no havia; inexistncia provada e comprovada pelo relatrio de Mister... Como  mesmo o nome do porreta?
O nome o leitor pode v-lo nos jornais, onde brilha de novo, agora afirmando exatamente o contrrio sobre a existncia do petrleo no subsolo brasileiro, na terra
e no mar, pago dessa vez por seus patrcios. No caso, nascimento e dinheiro coincidem para lhe dar a nacionalidade norte-americana, uma das melhores entre as atuais.
Quem sabe, com o passar do tempo, nosso Herr Professor Bayer mudar tambm de opinio. Quanto aos outros Bayer, os magnatas, a esses pouco importa se a indstria
de dixido de titnio polui ou no. Se polui, o faz bem longe deles, em ignotas terras da Bahia. A fumaa mortal, amarela ou negra, no os alcana, cabe-lhe s apenas
recolher os lucros do capital aplicado e das gorjetas pagas a sabiches e a excelncias.
Da morte e do bordo o velho Z Esteves morreu de alegria, conclui Tieta ao tomar conhecimento dos detalhes finais. Cara morto, envolto em riso quando, tendo fechado
negcio para a compra da terra e do rebanho, voltou ao curral com Jarde Antunes e seu filho Josaf. no fizera por merecer morte assim to leve, segundo o comentrio
do genro, em cuja casa se realiza o velrio. Astrio murmura a medo aos ouvidos do amigo Osnar:
- Ruim como a peste. Botou fora tudo que tinha mas nem com a pobreza baixou a crista, vivia dando esporro em todo mundo. De repente, esse farturo. Tieta lhe satisfazendo
todas as vontades e ainda por cima as cabras, deu nisso.
Conversam no passeio, a sala repleta. Pela janela, enxergam Tonha, numa cadeira ao lado do caixo. Ali sentada, obediente, silenciosa, s ordens do marido como durante
toda a vida. Astrio Simas conclui, olhando a sogra:
- Um carrasco. Perto dele ningum levantava a voz. Nem Perptua:
Retifica: - S Antonieta. Dizem que desde menina.
Do outro lado do esquife, Perptua leva o leno aos olhos secos, arfa o peito em inexistentes soluos, enquanto na cozinha, assistida por dona Carmosina, Elisa prepara
caf e sanduches para ajudar a travessia da noite.
Acontecera no caminho de Rocinha, em terras de Jarde Antunes, nas encostas de um morro, cabeos de capim ralo, figos-da-ndia, penhascos, paisagem agreste e spera,
prpria para os ps e os olhos de Z Esteves, nativo daquele cho. O rebanho bem tratado, dando gosto ver. Zeloso, Jarde cuida pessoalmente dos bichos e da mandioca
desde o raiar do sol. Seu pedao de terra limita com a propriedade de Osnar, onde a mandioca, o milho, o feijo, as cabras, as ovelhas e os trabalhadores so administrados
pelo compadre Lauro Branco, que com certeza o rouba nas contas mas lhe d descanso e despreocupao, uma coisa pagando a outra e, ao ver de Osnar, por preo ainda
assim barato.
Josaf, caboclo forte, de olhar arteiro, ouve o pai falando das cabras e do bode, sabe quanto lhe custa a deciso finalmente tomada, e se pergunta a razo por que
homens como Jarde e Z Esteves so de tal maneira apegados a uma terra sfara e ingrata, de ridos outeiros carecas, a uns bichos ariscos. Ainda adolescente, a exemplo
dos demais rapazes de Agreste, Josaf abandonara os pais e a casa de barro batido, rumando para o Sul. Comeara varrendo O armazm de seu Adriano, em Itabuna; em
dez anos chegara a scio e realizou o sonho de sua vida: adquiriu uma roa de cacau, pequena ainda, produzindo por volta de quinhentas arrobas, mas um bom comeo.
Isso, sim, valia a pena, lavoura de rico. Cultivar cacau era o mesmo que plantar ouro em p para colher em barras, duas vezes por ano. Mandioca e cabras, labuta
de pobretes.
Todos os anos, por ocasio das festas de Natal e Ano- Novo, Josaf, bom filho, visitava os pais. H dois anos a me morrera e desde ento tenta convencer Jarde a
vender posse e rebanho e ir com ele para Itabuna; se no pode viver longe do campo, venha ajud-lo na roa de cacau, nas terras fartas de Itabuna. O pai resistia,
no desejando mudar de cho mesmo por outro mais frtil, cacau em lugar de mandioca, bois e vacas em lugar de cabras. Mas desta vez, ao chegar, Josaf ouve notcias
das transformaes e novidades de Agreste. Armou-se ento de tais argumentos que Jarde no teve como contest-lo, inclusive porque lhe fez ver ser ele, Josaf, proprietrio
de metade daqueles bens, herana da me. F-lo a contragosto mas no podia perder aquela oportunidade de ganhar um dinheiro realmente grande para aplicar em novas
roas de cacau. Curvou-se o velho, na casa do sem- jeito.
Ao saber da deciso de venda, anunciada por Josaf no Bar dos Aores e transmitida ao sogro por Astrio, Z Esteves se ps imediatamente a caminho, percorrendo os
trs quilmetros e meio a separar as terras de Jarde das ruas da cidade. O preo no lhe pareceu alto, apenas o pagamento tinha de ser  vista. De volta a Agreste,
Z Esteves contou e recontou o dinheiro escondido, p-de-meia acumulado em cerca de doze anos, a partir do primeiro cheque enviado pela filha rica de So Paulo.
Tem para pagar mais de metade mas ainda falta um bocado de dinheiro.
No mesmo passo, retornou  presena de Jarde e Josaf. Props entrar com a maior parte e completar o restante ms a ms. Josaf recusou: quer o dinheiro todo de
uma vez, no se dispondo a financiar nem um tosto. Por que no pede  sua filha? Para ela no  nada, uma ridicularia - perguntou, enquanto o velho Jarde, calado,
se retirava, deixando a conversa por conta dos dois. Foi ver as cabras sob o sol, por seu gosto morreria ali, nos outeiros calvos, perto dos bichos indceis.
Pedir  filha, fcil de dizer, difcil de fazer. Z Esteves coa a cabea.
Tieta, no pouco tempo que leva em Agreste, comprara a manso de dona Zulmira, uma das melhores residncias da cidade, onde ele e Tonha vo viver como lordes, mandara
nela fazer obras - na opinio de Z Esteves dispensveis, onde j se viu em Agreste moradia com dois banheiros, cada qual maior? - adquirira terreno em Mangue Seco
onde construa casa de veraneio, gastos enormes, um dinheiro e tudo pago no contado. Tieta no mede despesas para ter conforto; toca o bonde para a frente, exigindo
o melhor: mveis, utenslios, banheiras mandadas vir da Bahia. Banheiras, imagine-se ! Para que diabo? Essa gente do Sul no sabe mais o que inventar.
Quando Tieta quer uma coisa, no discute, vai pagando. Mas Z Esteves nunca soube que ela quisesse encostas de morro plantadas de mandioca, outeiros de figos-da-lndia
e pedras onde saltam cabras. Josaf deu-lhe prioridade at o dia seguinte. no vendo outra soluo, Z Esteves almoa s carreiras, aluga o bote de Pirica, desce
o rio para Mangue Seco.
- Por aqui, meu Pai? Que foi que deu em vosmic? - Tieta leva-o a ver a casinha quase pronta onde Ricardo, de brocha em punho, ajudando na caiao, lhe pede a bno.
O velho repara no neto: o corneta desasnou, nem parece o rato de sacristia do comeo das frias.
Tieta prossegue, enquanto visitam a obra:
- Alguma novidade nos trabalhos da casa? Aperte seu Liberato, tome o exemplo de Cardo que botou o pessoal daqui para trabalhar a toque de caixa.
Quero dormir em nossa casa em Agreste, antes de ir embora.
- E tu e j t querendo ir - assim liguem a luz nova. S espero a festa. Vim por um ms, vou passar quase dois. J pensou - Para a festa tu tem de ficar pois foi
tu, minha filha, quem botou essa luz em Agreste. A quem se deve agradecer o benefcio?
Tieta sente por detrs do elogio, a agitao e o acanhamento do pai:
- A que veio, Pai? Me diga.
- Quero tratar um assunto com voc.
- Pois fale que eu lhe ouo.
- Aqui no - diz em voz baixa, apontando com os olhos Ricardo, os trabalhadores, a Toca da Sogra onde o comandante Drio, que o acolheu  chegada, est estirado
na rede, lendo.
- Ento venha comigo, vamos ver se vosmic ainda tem pemas para subir um combro O minsculo mai deixa  vista mancha escura e recente na parte interna da coxa de
Tieta, que explica: pancada de um caibro, ali, na obra. Ela e Ricardo, para dar o exemplo, trabalham de operrios. Ouvindo a explicao, Ricardo sorri  socapa.
Sorte o mai cobrir a bunda, o ventre, o entre- pernas.
Recorda a voz da tia, entre gemidos:
- Doido, tu vai acabar me obrigando a andar de calas compridas aqui, na praia Tambm Tieta esconde um sorriso ao contar do caibro escapando-lhe das mos. Adorado
caibro, alm dos lbios e dentes vorazes; a juventude, a areia e as ondas. Ah!, o amor na praia, na fmbria do mar, carcia de espumas.
Anjo revele, terei foras para desprender-me de teus braos e partir?
Sob a cancula do comeo da tarde, pai e filha sobem as dunas, em silncio, ela pensando nas sublimes estrepolias de Ricardo, ele buscando a palavra precisa para
colocar a premente questo. Resolve-se :
- Tenho um pedido a te fazer, minha filha.
- Pea, meu Pai, que, se eu puder, atendo, vosmic sabe.
-  a coisa que mais desejo no mundo mas tu tem sido to boa comigo, tem me dado tanta satisfao que fico com medo de abusar.
- Ora, Pai, deixe disso que vosmic nunca foi dessas cerimnias.
Quando vosrnic queria uma coisa s no pedia se pudesse tomar. V, pea.
Diante deles se abre passo a passo a paisagem violenta, fascinante e infinita. Naquele mar oceano pai e filha temperaram a alma, crestaram a pele ao contato do vento
de areia, cortante fio de punhal. O cajado, intil no cho movedio, atrapalha mais do que ajuda na subida. O Velho sente o esforo, j no possui a agilidade e
a resistncia de antes quando, atrs de raparigas, escalava os cmoros a correr e saltava sobre as pedras dos cabeos para segurar e montar cabras em cio, no lhe
bastando a mulher jovem e bonita trazida dos roados. Ainda assim avana sem se queixar do escaldante sol de vero, o pensamento no pedido e na resposta.
L em cima, depois de contemplar por um instante o panorama inslito, sentam-se sobre uma palma de coqueiro. Tieta se ajeita para encobrir outra mancha ainda maior.
Felizmente a ventania varreu a marca dos corpos sobre a areia e na praia o mar lavou a lembrana noturna dos embates. Imagine vosmic, Pai, sua filha e seu neto
na descarao. Assim como eu vi vosmic se pondo nas cabras.
- Tu bem sabe, minha filha, que passei a vida criando cabras. Depois que tu partiu as coisas desandaram, acho que foi castigo de Deus - coa a cabea, a areia incrusta-se
nos cabelos brancos e crespos, duros capuchos de algodo- por minha ruindade te botando para fora de casa. S pode ter sido.
- no fale nisso, Pai. Ningum se lembra mais, esquea tambm.
- Castigo, sim. Acabei perdendo tudo e se tu no tivesse vindo em meu auxlio, ia acabar mendigando porque se dependesse de Perptua eu morria de fome e Elisa no
tem onde cair morta. Tu me deu de um tudo mas, antes que Deus me chame, queria ainda ter uma alegria, alm dessa de te ver, que eu no merecia.
- Pai, pare com essas galantezas, no so de seu feitio nem precisa me gabar tanto. Diga logo qual  essa alegria que vosmic tanto deseja. Se eu puder, lhe satisfao.
- Poder, voc pode, no sei se vai querer. Como lhe disse, dou a vida por meio metro de terra e um casal de cabras. Um casal, trs ou quatro, meia dzia e j  demais,
d para ocupar meus dias.
- Se bem entendo, vosmic quer ter outra vez uns alqueires de terra e umas cabeas de cabras,  isso?
- E mais um bode, um bodastro bem inteiro, parecido com Incio, tu te recorda dele? Nunca mais houve um bode igual aqui em Agreste.
- Se me recordo? Botei o nome dele em minha biboca: Curral do Bode Incio. Ele no atendia a ningum, nem a vosmic, mas vinha comer na minha mo. Ento, o Pai quer
ter terra e rebanho, de novo. A gente pode pensar nisso. Ou vosmic j tem alguma coisa em vista e veio de trato feito?
- Ningum pode lhe esconder nada, minha filha, voc nasceu inteligente, saiu a mim. Elisa  tola, saiu a Tonha. Perptua  enrolona e tratante...
O Velho ri, riso encatarrado, de fumo de corda, cavo e grosso, satisfeito e cmplice. A areia voa sobre eles, entranha-se nos cabelos anelados de Tieta, na crespa
carapinha de Z Esteves.
- Guardei todos os meses uma parte do dinheiro que tu mandava, tirando o bastante para o aluguel e para a comida, juntando o resto na idia de um dia comprar uma
nesga de terra e um par de cabras. O que juntei d para pagar bem mais da metade do que Josaf est pedindo pela criao de Jarde.
Mas ele quer tudo  vista, no fia nem um vintm. - acrescenta, para anim-la: - Vendo o dinheiro vivo,  capaz de fazer uma reduo.
- Quanto falta, Pai?
Tieta pensa na maleta, entupida de notas quando desembarcou, agora quase vazia. Fizera despesas grandes em Agreste, comprara uma casa, construra outra, adquirira
mveis, encomendara na Bahia banheiras, latrinas e espelhos, ajudara meio mundo. Um pedao de terra, cabras e um bode inteiro para alegrar os ltimos anos da vida
do velho Z Esteves, dinheiro jogado fora. no j lhe deu segurana na velhice, no vai tir-lo do buraco em que vive para residir em casa confortvel, para Agreste
luxuosa? Ainda quer mais? Um abuso. Tieta no gosta de abusos nem  de desperdcios.
Reflete-se a aflio no rosto splice do Velho, ali parado,  espera da resposta, no alto das dunas de Mangue Seco, nas mos o bordo do tempo em que possua rebanho
grande e impunha sua vontade s filhas baixando-lhe s nas pernas e nas costas a taa de couro cru e aquele mesmo cajado de pastor.
Ao senti-lo agoniado, Tieta recorda Felipe a lhe explicar quanto  mais profunda e pura a alegria de dar do que a de receber, quando, para satisfazer-lhe a fantasia
e a vaidade, comprava-lhe caras e absurdas inutilidades. Felipe lhe ensinara o gosto singular de fazer os outros felizes. Se fosse necessrio, descontaria um cheque
com Modesto Pires, o dono do curtume se pusera s ordens para o caso dela vir a necessitar de dinheiro liquido.
- Pois v e feche o negcio, Pai.
Z Esteves ficou mudo e por um timo a face se lhe contraiu num rctus doloroso, tanta alegria semelhando dor aguda. Empunha o bordo, num esforo levanta-se e desce
das dunas com a filha ao lado, ela sorrindo contente ao v-lo sem palavras. Andam juntos at a praia onde o barco de Pirica estava  espera. Antes de embarcar, o
Velho tenta beijar as mos da filha mas Tieta no consente. O rudo do motor dando a partida foi abafado por outro muito maior: um helicptero, vindo do mar, sobrevoa
o coqueiral, to baixo a ponto de se poder ver trs pessoas na cabina, duas delas de binculo examinando os arredores.
Ao chegar a Agreste, Z Esteves no parou sequer em casa, tampouco na casa nova para ver o andamento das obras, nem no bar para contar do helicptero. Do desembarcadouro
saiu direto para a estrada de Rocinha, tomando pela terceira vez no mesmo dia o caminho das terras de Jarde.
Apoiava-se no cajado, a subida das dunas deixara-lhe as pernas trpegas e a respirao curta.
Antes de entrar no assunto, relatou a Jarde e Josaf a apario da mquina voadora, os homens de binculo especulando os terrenos do coqueiral de Mangue Seco. Josaf
ouviu atento mas no comentou, Jarde disse:
-  o pessoal da tal fbrica que acaba com os peixes. no soube?
Mas Z Esteves nem respondeu, ocupado em regatear o preo com Josaf; obteve pequena reduo. Acertados os detalhes - ainda naquela tarde mandaria Pirica novamente
a Mangue Seco com um recado para Tieta por causa do dinheiro a completar - Se m poder esconder a satisfao foi com Jarde e Josaf ver as cabras no cercado. Enquanto
discutiram, haviam tomado uns tragos de cachaa para cortar o cansao de Z Esteves e desanuviar o rosto triste de Jarde.
No curral, voltou a admirar o pai do rebanho, bode novo e bonito, de avantajado porte e berro forte, de nome Seu M. Josaf puxou o animal pelos chifres para que
Z Esteves melhor o observasse. ao comentar-lhe as trouxas, quimbas de respeito, o novo dono abriu na gargalhada, o homem mais feliz do mundo. To feliz que lhe
faltou a respirao; no cabendo no peito a alegria, o corao falhou sob o peso imenso.
Rindo estava, rindo arnou no cho, a mo estendida para o bode, apontando-lhe os bagos; assim contara Jarde a Astrio Simas ao lhe entregar o corpo do sogro.
Ia o velrio em meio, entupida a pequena sala da casa de Astrio, gente conversando na calada, quando, acompanhada por Ricardo, pelo comandante Drio e por dona
Laura, Tieta chegou de Mangue Seco onde a tinham ido prevenir.
- Teve o troo no meio da gaitada, nem sentiu. - Astrio repete  cunhada os detalhes ouvidos de Jarde e Josaf.
- Morreu de alegria... - diz Tieta.
Naquela hora no sabia ainda da participao- indireta- da Brastnio na morte do velho Z Esteves. Precedida pelo cunhado, anda para o caixo, se abraa com Tonha.
As irms acorrem, algum acorda Peto. Tambm Leonora se aproxima do grupo familiar e beija mezinha.
Para os parentes de Agreste a morte de Z Esteves  uma carta de alforria. Tieta, porm, reencontrara o Pai h apenas um ms. Durante vinte e seis anos no o vira,
dele no sofrera agravo desde a surra e a expulso distantes e, nesses dias em Agreste, divertira-se com seus repentes, alegrando-se ao v-lo chegar mascando fumo,
ranzinza e implicante, mas ainda capaz de ambio, de projetos e de alegria, sabendo rir, insolente comandante de cajado em punho. Reconhecia-se no Velho, tanto
se pareciam pai e filha.
Astrio enverga caca compungida, Elisa chora aos soluos, Perptua enxuga os olhos com o leno negro, clama aos cus a dor de filha inconsolvel.
Tieta no chora nem eleva a voz. Passa de leve a mo no rosto do pai, adusta face de pedra, escura. Das trs irms, somente ela perdera bem precioso, ente querido,
somente ela est rf. Ela e Tonha, a desvalida Tonha.
Morrera rindo para o bode, feliz com suas novas cabras, em seu reconquistado pedao de terra. Tieta se apodera do bordo abandonado a um canto da parede, anda para
o passeio onde a conversa corre animada como convm a uma boa sentinela.
Onde se enterra o velho Z Esteves, livrando de sua rstica e insolente presena as aprazveis pginas desse emocionante folhetim o enterro de Z Esteves serviu
para provar o prestgio de Tieta.
Tivesse o Velho batido as botas antes dela voltar  cidade, paulista, viva e rica, e, alm da famlia, talvez o acompanhamento no reunisse sequer uma dzia de
pessoas.
Devido  estada de Tieta transformou-se num acontecimento. Antes da sada do fretro, padre Mariano celebrou missa de corpo presente em casa de Elisa, rogando a
Deus receber em seu seio aquela alma, amparando-a com sua infinita misericrdia. De muita misericrdia precisa a alma de Z Esteves, pensa o padre enquanto pronuncia
palavras de louvor e sentimento. Buscou qualidades do finado a elogiar e, no as encontrando, elogiou as filhas, possuidoras as trs de virtudes peregrinas, citando
a devoo de Perptua, um dos pilares da parquia, modelo de me catlica, a modstia de Elisa e seu devotamento ao marido, esposa exemplar e, por fim, os excelsos
predicados de Antonieta, cujo cnjuge portara, devido a mritos excepcionais, titulo e considerado do Vaticano, concedido pelo Pai da Cristandade, Sua Santidade
o Papa, o que a fazia pessoa da Igreja. Com sua frutuosa visita, propiciara a Agreste benfeitoria de incalculvel valor, a luz de Paulo Afonso, e  Matriz concedera
a nova instalao eltrica. Dera, ademais, herica prova de dedicao e amor ao prximo, atirando-se s chamas, com risco de vida, para salvar de morte horrvel
uma pobre anci. Pouco faltou para os assistentes aplaudirem a eloqncia do reverendo na exaltao das virtudes das irms Esteves, a Batista, a Simas e a Cantarelli,
da ltima, as virtudes e os feitos.
A populao compareceu em massa. Nas alas do caixo, alm de Astrio, os notveis da cidade: o vate Barbozinha, Modesto Pires, o Comandante, Doutor Vilasboas, Osnar,
Ascnio Trindade. Ascnio apresentara psames em nome do padrinho, coronel Artur de Figueiredo, prefeito em exerccio que se deixara ficar na Tapitanga. N ao comparece
a enterro de velho.
Morte e funeral de menores de sessenta anos no lhe fazem mossa. Mas falecimento de ancio deixa-o amofinado. Manda pedir desculpas s irms e a Astrio, aparecer
depois para as condolncias.
Do bolso de Ascnio, sobram as pginas dos jornais enviados pelo doutor Mirko Stefano. Pretende esfreg-los nas fuas do Comandante, fazendo-o engolir o insulto,
a acusao de desonestidade. Esfregar, engolir:
fora de expresso. Tais pretenses no implicam em violncias fsicas e sim em reparao moral. Segurando a ala do caixo, ajudando a depositar na cova o corpo
de Z Esteves, Ascnio Trindade estufa o peito, eleva e exibe o altivo penacho de capito dos mosqueteiros de Agreste, D'Artagnan da aurora.
Da pressa e da ambio de lucro, captulo onde o coqueiral se valoriza em casa, apenas chegam, antes mesmo de trocarem de roupa, Tieta com urgncia de tirar o vestido
negro e quente, Perptua, fazendo uma pausa nas lamrias, afirma:
- Agora, temos de tratar da herana.
- Herana? - surpreende-se Tieta. - O Velho no deixou nada.
- no deixou?  o que voc pensa. Todo ms ele encafuava o dinheiro mandado por voc, menos um pingo de nada para a feira e o aluguel. Dava sumio no resto. Nunca
tirou um tosto para oferecer um presente a mim ou a Elisa, aos netos. S fazia visita na hora do almoo ou do jantar, voc no reparou? Deve ter muito dinheiro
escondido.
Economia de mais de dez anos, uns doze, bolada respeitvel. Para fazer o que, com tanto dinheiro? Perptua se exalta ao contar, a voz desagradvel, sibilante, ainda
mais rspida devido ao tema da conversa:
- Vrias vezes perguntei a ele o que pensava fazer com esse dinheiro, me respondia que eu fosse me meter com minha vida. Aconselhei a colocar na Caixa Econmica
ou a botar na mo de seu Modesto, rendendo juros.
No quis, no tinha confiana em ningum, muito menos em banco. Penso que guardava sem necessidade - baixa a voz -, de ruim que era, Deus me perdoe.
- Tenha piedade, Perptua. no faz ainda uma hora que acabamos de enterrar o Velho; antes de pensar nos defeitos dele, a gente deve se lembrar que era nosso pai.
Perptua recua, no deseja desagradar Tieta:
- Voc tem razo padre Mariano tambm diz que me falta o dom da misericrdia. Meu dever  estar chorando, eu sei. Mas, o que  que voc quer?
Quando penso no que a gente curtiu na mo dele... Tu  quem bem sabe.
- Sei, sim. Mas assim mesmo sinto a morte dele, era meu pai, tinha defeitos e qualidades, boas qualidades. Era franco e quando queria uma coisa sabia brigar para
obt-la.
- Qualidades? Te esconjuro. Mas morreu, acabou-se. Voltando ao que interessa,  preciso descobrir onde ele escondia o dinheiro. Talvez me Tonha saiba. Encontrando,
a gente retira uma parte para as despesas feitas com a sentinela e o enterro, tu no estava, tive de pagar tudo; outra, para mandar dizer as missas de stimo e de
trinta dias. O resto se divide entre me Tonha e ns trs. Metade para ela, metade para ns. Se algum quiser outras missas que pague de seu bolso.
No receio de escandalizar a irm rica, a tia generosa, anuncia soberba prova de amor filial:
- Eu mesma vou mandar rezar mais trs: uma em meu nome, duas em nome de cada um dos meninos. E todos os anos, enquanto Deus me der vida, farei celebrar missa no
dia da morte dele.- no resiste e acrescenta:- Creio que isso  melhor do que inventar qualidades que o Pai no tinha.
Tieta sente-se cansada e farta. no adianta discutir, tempo perdido:
nenhum argumento mudar a opinio de Perptua. Retira-se :
- Vou trocar de roupa, tomar banho e dormir, estou exausta.
Portador do recado de Astrio, Pirica viera encontr-la  noite nos cmoros, em desatada festa com Ricardo. Sorte o Comandante ter gritado para localiz-la. Pirica
comenta a morte do Velho, aps dar a notcia:
- Indagorinha trouxe e levei ele no barco. Ia to contente que at me deu um agrado.
Passara o resto da noite na sentinela, recebendo psames, repetindo as mesmas palavras, ouvindo histrias acerca de Z Esteves, algumas engraadas, outras bravias,
do tempo de prosperidade. Depois, a manha do enterro, metida naquele vestido apertado, feito para o clima de So Paulo, a caminhada para o cemitrio, a encomendao
do corpo, o desfile do povo em condolncias, a volta melanclica. Tieta quer dormir, no pensar em nada, nem sequer em Ricardo, de repente sentindo-se estranha a
Agreste. Rompera-se uma das amarras a prend-la  terra natal e pela primeira vez desde que chegara teve realmente vontade de voltar para So Paulo.
Estava tirando a roupa para tomar uma chuveirada, cair na cama e dormir sem hora de acordar, quando, falando da sala de jantar, Perptua anuncia-lhe a visita de
Jarde e Josaf: queriam v-la com urgncia, motivo srio. Tieta enfia um robe- de- chambre e vem atend-los, levando-os para a varanda. Perptua fica por perto,
rondando.
Sentam-se. Jarde roda o chapu na mo, baixa os olhos deslumbrados com a viso do busto da paulista, mal coberto pelas rendas do desabi. Josaf toma a palavra.
- Desculpe, dona Antonieta, a gente vir lhe incomodar numa hora to ruim mas o assunto  urgente por isso ns no tivemos outro jeito, o Pai e eu.
-  sobre a compra da posse?
- E do rebanho, sim senhora. Seu Z Esteves disse que tinha falado com a senhora e que a senhora ia pagar o restante.
- Mas agora ele morreu.
- Por isso mesmo a gente est aqui.  que ele, quando voltou de Mangue Seco, depois de pedir um abatimento, que ns fizemos porque estvamos com pressa de fechar
o negcio, deu logo uma parte do pagamento, de garantia, mais da metade. - Enfia a mo no bolso da cala, puxa um mao de dinheiro amarrado com uma fita cor- de-
rosa desbotada, deposita-o numa cadeira ao lado de Tieta. - Est aqui o dinheiro que seu Z Esteves deixou conosco, em confiana. no quis receber papel nenhum...
- Maluco! - pensa Perptua ao ouvir tal absurdo. Aproximara-se, apenas percebera o motivo da conversa: o Velho comprando terras e cabras sem nada lhe dizer, na surdina,
para isso economizara durante todos aqueles anos.
Jarde se distrai, os olhos fogem para o decote do robe, Tieta se compe:
tem de tomar cuidado devido s manchas escuras nos seios, nas coxas, na barriga; em todo o corpo a marca e o gosto dos lbios de Ricardo. Ali, naquela hora, recm-
chegada do enterro, flagrando Jarde a lhe brechar o decote, conversando negcios, sente um frio de prazer a percorr-la. ao cansao, mescla-se o desejo, uma doce
lassitude. Josaf prossegue:
- A gente veio lhe trazer o dinheiro. Pena seu Z Esteves ter morrido, ele queria a todo custo a roa e as cabras, ficou doido por Seu M.
Ante o olhar de Tieta, de incompreenso, explica:
- Seu M  o pai do rebanho, um bodastro de dar gosto.
Levanta-se, caboclo alto e disposto; Jarde o imita, ainda encabulado.
Josaf lastima, antes de estender a mo na despedida:
- Para a gente, a morte de seu Z Esteves tambm foi um golpe, a venda j estava feita, agora se desfaz. Vamos oferecer a seu Osnar, cuja propriedade  vizinha da
nossa, s que a dele  um colosso, s perde para a do coronel Artur.
Se seu Osnar no se interessar, vamos ter de nos mexer para conseguir comprador e quando a gente tem pressa, a senhora sabe como ...
- Por que corre tanta pressa, seu Josaf? Foi essa pressa, essa correria que abalou o corao do Velho.
- Precisamos desse dinheiro, meu pai e eu, para contratar um advogado em Itabuna, doutor Marcolino Pitombo; no tem outro que se compare com ele em questo de litgio
por posse de terra.
- O senhor est em questo por l?
- L no. Aqui. Vou trazer doutor Marcolino a Agreste,  para isso que preciso do dinheiro e quero vender os roados e o rebanho. Tenho alguma coisa em Itabuna mas
preciso de um dinheiro maior, disponvel, para contratar o doutor e trazer ele at aqui.
- Aqui? E por que, se mal lhe pergunto?
- A senhora conhece o coqueiral de Mangue Seco, comprou um terreno na parte que  de seu Modesto Pires, seu Z Esteves me disse. Sabe quem  o dono do resto, das
terras que vo do Quebra Pedra at os limites de seu Modesto? Essas terras que agora a tal companhia quer comprar para botar a fbrica? Pois so da gente, de meu
pai e desse seu criado.
- O coqueiral? Me disseram que ningum sabe direito quais so os donos, ainda outro dia o Comandante falou nisso.
- Se tem mais algum com direito, no sei. Possa ser que sim. Se tem, que aparea, constitua advogado como eu vou fazer e apresente as provas porque eu vou apresentar
as minhas. Herana antiga, dona Antonieta, consta dos livros do cartrio. S que meu pai e meu av nunca ligaram, quem dava valor ao coqueiral, mais mangue do que
terras? Eu mesmo s vim ligar importncia agora, aqui chegando. Meu pai me falou na histria da fbrica, lembrou que esses terrenos so da gente. Assuntei o zunzum,
soube que os engenheiros andam por l. Ontem mesmo seu Z Esteves me disse que tinha um helicptero voando por cima dos coqueiros, que ele e a senhora tinham visto.
-  verdade. O senhor precisa mesmo andar depressa porque tem muita gente grada interessada no coqueiral.
- E no havia de ter, com os alemes querendo comprar?
- Os alemes?
- Foi o que eu ouvi dizer em Itabuna, eles andaram sondando por l tambm; procurando lugar para a fbrica no rio Cachoeira mas houve uma grita danada, e ainda est
havendo, porque diz que esta tal de fbrica acaba com tudo que  peixe e marisco e bota veneno no ar. At eu assinei um papel protestando contra essa idia deles
seinstalarem ali. Mas aqui, eu sou a favor.
Lugar bom para uma fbrica dessas, no tem lavoura que pague a pena e cabra  um bicho que no morre mesmo.
- Cabra pode ser que resista. Mas os peixes se envenenam e morrem, a pescaria se acaba.
- Ora, dona Antonieta, em Mangue Seco o que tem  meia dzia de preguiosos, vivendo do contrabando. Com a instalao da fbrica vo ser operrios, aprender a trabalhar,
vo virar gente.
- Mas no Saco a pesca  o nico sustento do povo. E l a colnia de pescadores  grande.
Josaf ri, matreiro, pela boca e pelos olhos astutos, repete em voz alta o argumento que Ascnio Trindade pensara sem ousar dizer:
- O povo do arraial do Saco? Mas isso  l com os sergipanos, o Saco fica do outro lado da barra, eles que se arranjem. Por mim, quero  vender meus terrenos aos
alemes. Ns temos um papel.
Esto conversando de p, Jarde no resiste, espicha os olhos para as rendas do neglig, pele mais bonita, redondos beres de cabra feita. Josaf mete a mo no bolso
interno do palet, tira a carteira e dela uma folha de papel amarelado, estende a Tieta. Uma carta velhssima, a tinta desbotada, onde h referncias s terras na
beira do rio, no rumo do mar, pertencentes  famlia Antunes.
- Antunes em Agreste, que eu saiba, s eu e meu pai, no existem outros. Fui saber no cartrio, doutor Franklin me disse que o nome de Manuel Bezerra Antunes, meu
tatarav, est l, na escritura. Com a histria da fbrica, tem no sei quantos se dizendo dono.  por isso que vou constituir advogado, entrar logo com uma ao
de posse. Para isso preciso trazer doutor Marcolino; para questo de terra no h igual a ele. Comeou a carreira como advogado do coronel Baslio, j pensou?
- Coronel Baslio? no sei quem seja.
- Um bam-bam-bam l do sul do Estado, desbravador de matas, homem valente e direito. Teve uma questo de terras que nem  bala resolveu.
Pois doutor Marcolino, novinho ainda, deslindou o caxixe, ganhou na justia, de cabo a rabo. Imagine agora que est velho e cuidou durante a vida inteira desses
enredos.  para trazer ele que preciso vender os outeiros e as cabras.
Depois, negocio o coqueiral com os alemes, compro roa de cacau.
- J entendi.
Antes de apertar a mo que Josaf lhe estende, de tocar a ponta dos dedos de Jarde, Tieta demora um segundo pensativa, pergunta:
- Essas suas terras so vizinhas das de Osnar, no foi isso que o senhor disse?
- Exatamente. So pegadas uma na outra, a propriedade dele e a nossa.
- Oua, seu Josaf. Se o senhor no encontrar comprador at amanh pela manha, volte aqui para falar comigo.
- Se a senhora pensa em comprar, no procuro mais ningum.
- Se u Josaf, vim ontem de Mangue Seco quando soube da morte de Pai, no dormi um minuto a noite inteira, cheguei do cemitrio ainda h pouco. no gosto de tomar
resoluo sem pensar. no lhe prendo: se encontrar comprador, pode vender. Se no encontrar, venha me ver amanh cedo e eu lhe digo o que decidi.
- Se tratando da senhora, dona Antonieta, vou esperar, no falo com ningum antes de ter sua resposta. Para mim, aqui, em Agreste, acima da senhora, s Sant'Ana.
Em Itabuna me contaram da luz da Hidreltrica, quase no acredito, parece milagre. Aqui soube do incndio, benza Deus!
O aperto de mo, forte e caloroso, do caboclo franco e decidido. A ponta dos dedos de Jarde, baixando a vista. To rica, to herica, quase santa e que pedao de
mulher.
Perptua acompanha-os at a porta. Volta, a voz ainda mais acre:
- Ento era para isso que o Velho escondia o dinheiro, para comprar terras e cabras. Na idade dele, maluquice! - toma do mao de dinheiro, sopesa-o. - Vivia passando
misria, comendo na casa dos outros, com essa dinheirama toda guardada. E tu ia pagar o resto, dar essas terras a ele, por qu?
- Porque quando ele queria uma coisa, queria por cima de tudo. Igual a mim, Perptua. Igual a voc, ns somos iguais. Tenho saudades dele.
- Por isso tu vai comprar o rebanho e a terra de Jarde? Ou tu vai te associar com ele e Josaf ns terrenos do coqueiral?  isso, no ?
Tieta deixa a pergunta sem resposta, dirige-se ao quarto. Perptua a observa de costas, andando, o passo firme, as ancas em meneio, indiferente  opinio dos demais,
recorda-se do pai na fora da idade. Cabrita louca, violento bode, os dois da mesma raa caprina e demonaca, comprazendo-se em pasto de iniqidades. Iguais os trs,
afirmara Tieta. Perptua balana a cabea, discordando. Na ambio talvez, duros e obstinados como as pedras dos outeiros de Agreste. No mais, imensa distncia a
separ-la deles, a distingui-la.  uma senhora, recatada viva, serva de Deus. Em seu devoto peito cabem saudades apenas do Major, inesquecvel poo de virtudes,
to garboso ao envergar a farda de gala ou o pijama de listas amarelas.
O pensamento ainda no Major, de repente estremece: e o relgio mega, de ouro, trazido de So Paulo por Tieta, presente para o Pai? De ouro, relgio e pulseira,
valiosos. Vira quando Astrio o retirara do pulso do Velho.
Esquecera-se de falar sobre isso. E preciso vend-lo para dividir o dinheiro.
A no ser que Tieta o queira guardar, recordao do Pai. Nesse caso, deve pagar a parte da viva e das rfs.
Outra vez a lembrana do Major: bonito, galhardo militar, em seu pulso forte iria bem relgio assim, de qualidade, combinando com a farda de gala ou com o pijama
de listas amarelas. Metido no pijama, um homem e tanto; nunca mais haver outro.
dos ritos da morte e das aflies da vida no fim da tarde daquele trinta e um de dezembro, repousada, Tieta vestiu-se discretamente e, aps conversar em casa com
Osnar e no curtume com Modesto Pires, tomou de dona Carmosina na agncia dos Correios e Telgrafos e com ela dirigiu-se  casa de Elisa. Do balco da loja onde demora
na esperana de algum fregus retardatrio para a derradeira compra do ano, Astrio as v passar, adivinha-lhe s o destino: vo fazer companhia a Elisa, consolar
me Tonha. Lzna um olhar em direo do Bar dos Aores, hoje no tem direito  diverso costumeira; ainda bem que as partidas decisivas do campeonato de bilhar que
designar o Taco de Ouro de 1965 foram adiadas devido  morte do velho Z Esteves, sogro de um dos quatro semifinalistas:
Astrio Simas, Jos da Mata Seixas, Ascnio Trindade e Fidlio Drea A. de Arroubas Filho. Logo no ltimo dia do ano: haviam previsto uma bramota comemorativa para
festejar o campeo. H trs anos Astrio detm o cetro, arrebatado a Ascnio Trindade cujas obrigaes na Prefeitura o trazem afastado da mesa de bilhar, aparecendo
apenas uma tarde ou outra. Ultimamente, salva-se uma alma do purgatrio quando ele empunha taco e giz: ao cargo somou-se o namoro para deix-lo sem tempo para o
esporte. Astrio suspira: adiada a disputa, suspensa a festa, o demnio do Velho at depois da morte o persegue e chateia.
Elisa atira-se nos braos da irm, em renovada tribulao. A morte deve ser honrada, o sentimento dos parentes do defunto, proclamado em ais e soluos, lgrimas
e lamentos, sinais de dor visveis e constatveis. Assim se demonstra a considerao dispensada ao finado, em provas pblicas de afeto e saudade. Alm e acima da
mgoa e da dor, situam-se os ritos da morte, obrigatrios, dos trajes negros ao clamor das carpideiras.
Num canto da sala, silenciosa, apagada, de repente velha sem idade, me Tonha, os olhos vermelhos. Apesar de todo o despotismo, Z Esteves fora tudo o que possura.
Ele a tirara da casa dos pais, roceiros pobres e, sendo homem de posses, um senhor da cidade, com terras e cabras, quase um coronel, a desposara aps hav-la derrubado
nos matos. Casara no padre e no juiz quando podia t-la abandonado de bucho cheio, ao deus- dar; assim costuma acontecer em Agreste com freqncia e impunidade.
Junto ao marido Tonha viveu, silenciosa e obediente, quase trinta anos.
Tomando esporros, sofrendo maus tratos, ouvindo xingos, mas tendo calor de companheiro a acalent-la, rude mo de amparo, e vez por outra um beijo, uma carcia,
o fogo do bode velho persistindo no vcio at  vspera da morte.
Z Esteves gabava-se de feitos de cama e se algum punha em dvida tamanho vigor em sua idade, apelava para o testemunho de Tonha:
- Estou mentindo, mulher? Diga pra ele.
Piscava o olho, ria o grosso riso de fumo- de- corda, cuspindo negra cusparada. Tonha baixava a vista, um sorriso fugaz, entre envergonhado e afirmativo.
A chegada de Tieta e dona Carmosina aciona o aparelho da aflio, mergulha a sala em trevas. ao v-la s, Tonha levanta-se, rompe em soluos.
Elisa a acompanha, passa dos braos da irm para os da amiga e protetora.
Tonha repete, em montono cantocho:
- Que vai ser de mim, agora?
Tieta prende a madrasta contra o peito, em silncio, antes de reacomod-la na cadeira e sentar-se a seu lado, junto  mesa:
- Fique descansada, me Tonha, nada h de lhe faltar. Vosmic vai morar com Elisa e Astrio e todo ms eu mando um dinheirinho para suas despesas.
Tonha tenta lhe beijar a mo, igual a Z Esteves na hora de embarcar no bote de Pirica, em caminho da morte. Houvesse Tieta nascido de seu ventre e no seria filha
melhor, mais dedicada. Pouco tempo Tonha a tivera em sua companhia, dois anos se muito; eram ento da mesma idade, duas adolescentes.
- Quando o velho me botou para fora de casa - lembra Tieta -, na hora que eu estava arrumando minha trouxa, vosmic me deu um dinheiro, pensa que me esqueci? Se
no fosse por vosmic e por me Mil eu saa daqui para enfrentar o mundo sem um vintm furado.
Tinham as duas a mesma idade naquela madrugada da partida de Tieta na bolia do caminho. Tieta a tratava de vosmic e de me, exigncia do Velho ranzinza. Agora
o faz de moto- prprio, j no so da mesma idade;
moa, loua e vistosa, a alegre viva do comendador paulista; velha e definhada, magra e sofrida, a viva do arruinado criador de cabras, encolhida na desolao
do vestido barato e negro, de chita.
- Agora prestem ateno, vamos conversar uns assuntos. - Deposita em cima da mesa o mao de dinheiro recebido de Josaf, reduzido da parte de Perptua e do pagamento
das despesas feitas e das missas a rezar.  vista do dinheiro, Elisa estanca o choro, Tonha olha, curiosa:
- So as economias do Velho - diz Tieta.
Tonha reconhece a fita cor-de-rosa ainda a atar o pacote:
- At tinha me esquecido. Voc encontrou dentro do colcho, no foi?
Ele fez um buraco no pano, todo ms botava mais, amarrado com essa fita, embrulhado num pedao de jornal. Me fez jurar, pela alma de minha me, nunca dizer nada
a ningum. Todo dia tirava para ver; acordava de noite, se punha a contar.
- Foi Pai quem retirou antes de morrer, daqui a pouco explico para qu.
Antes, quero dar a vosmic a sua parte.
- Minha parte?
- Metade do dinheiro que ele deixou  seu,  da esposa. A outra metade  das filhas, Perptua, Elisa e eu. Paguei a Perptua as despesas que ela fez com o funeral:
caixo, cova, padre, os gastos com a sentinela, os guarans e os sanduches. J dei tambm a parte dela, o que est a  o que sobrou. - Com a mincia de quem est
habituada a fazer contas, a manobrar crdito e dbito, informa sobre o total do p-de-meia, o montante das despesas, as divises feitas e quanto cabe a Tonha e a
cada irm. Conta as notas sujas e gastas, muitas vezes manuseadas, entrega uma parte  viva. - Esse dinheiro  seu, me Tonha, no d a ningum, guarde para alguma
necessidade urgente.
Depois que se vender o relgio, vai ter um pouco mais.
Separa o resto em dois montes, sua quota e a de Elisa, deixa-os sobre a mesa, ignorando a mo estendida da irm:
- Um momento, Elisa, oua primeiro o que eu vou dizer. O Pai morreu quando tinha acabado de fechar negcio com Jarde Antunes para comprar a terra e o rebanho dele,
uma propriedade que no  grande mas, pelo que sei,  muito bem cuidada e d uma boa renda. Faz divisa com a fazenda do Osnar.
O Velho me pediu para completar o pagamento, queria ter um pedao de terra e umas cabras. Acho que no era tanto pelo lucro, era mais pela satisfao.
Gostava dos bichos e gostava de ter importncia.
- Se gostava... - concorda dona Carmosina at ento ouvinte silenciosa. Para ela, a existncia de dinheiro escondido por Z Esteves no constitura surpresa.
- Sabia disso, Elisa? Dessa compra?
- Astrio me contou, seu Jarde disse a ele.
Tieta estende a mo, afaga os cabelos da irm, quem lhe dera possuir aquela crina negra.
- Ento, oua: o preo que Jarde e Josaf esto pedindo pela propriedade  bem convidativo, eles precisam de dinheiro contado. At seu Modesto Pires achou barato
e Osnar me aconselhou a fechar o negcio sem discutir.
- Assume um ar executivo, acostumada a lidar com dinheiro, a resolver negcios.- meu plano  o seguinte: juntamos as duas partes, a tua e a minha, eu boto o que
falta e compramos para tu e Astrio, a escritura passada em nome de vocs. Para no continuarem a viver nesse aperto, contando os nqueis. Com a loja e o criatrio,
vai dar de sobra. A propriedade d uma boa renda e ainda por cima  vizinha da de Osnar, ideal para Astrio. Estou ajudando os meninos de Perptua, quero ajudar
vocs tambm. Com a morte do Velho, quando a casa ficar pronta, vocs vo morar l, com Tonha. Era o que eu queria dizer. - Na voz, aquela satisfao provinda da
alegria de dar, de concorrer para melhorar a vida da irm e do cunhado.
- Feliz de quem possui uma irm como voc, Tieta. Voc  a maior.
Corao de ouro igual ao seu, no existe - exalta-se dona Carmosina, comovida; a amiga cresce em seu conceito a cada dia.
Elisa, porm, guarda silncio, os olhos fixos no cho. Certamente emocionada a ponto de no saber como expressar sua gratido. Num esforo, comea a falar, sem suspender
a cabea, nervosa, gaguejante:
- Carmosina tem razo, tu  boa demais, Tieta. Antes de te conhecer, em pensamento eu te imaginava uma fada e tu  mesmo. - Levanta a vista e pousa em dona Carmosina
a lhe pedir apoio para o que vai dizer: Agradeo muito o que tu quer fazer por mim e por Astrio, a compra da roa e a casa para morar de graa. - Uma pausa para
tomar flego e coragem. Mas no aceito. O que eu quero te pedir  outra coisa, at tinha conversado com Carmosina para ela falar contigo...
Uma sombra cobre o rosto de Tieta, sabe de antemo o que Elisa deseja:
- Tu no precisa de intermedirio para falar comigo. Diga o que  que quer. - Faz-se distante e fria.
Elisa eleva os olhos medrosos para a irm poderosa e rica. Decide-se, a voz vibra na sala:
- S quero uma coisa: ir contigo para So Paulo. Quero que tu me leve, arranje um emprego para Astrio, me...
No consegue concluir a frase, Tieta a interrompe, brusca:
- Tu quer ir para So Paulo. Fazer l o que, me diga? Botar chifre em teu marido? Ser puta?
O soluo irrompe do peito de Elisa, as lgrimas saltam-lhe dos olhos.
Estremece como se houvesse levado uma bofetada, cobre o rosto com as mos.
Esses soluos, essas lgrimas nada tm de comum com as choradas h pouco, na obrigao do nojo, no ritual da morte.  um pranto sincero, verdadeiro, produto de duro
e inesperado golpe, de um desgosto real, de um sonho roto.
Arreia a cabea sobre os braos, na mesa, geme baixinho num choro de criana, os cabelos se espalham.
Ergue-se Tieta, aproxima-se da irm mais moa, dezessete anos mais moa. Levanta-a, toma-a nos braos e a consola. Beija-a nas faces, limpa-lhe as lgrimas, acaricia-lhe
os cabelos, chama-a de Lisa, de minha filha, a voz doce e terna, maternal:
- No chore, Lisa, minha filha. Se nego,  para teu bem. L no ia prestar para vocs. Ruim para ti, pior para Astrio. Um dia, eu te prometo, quando for fazer uma
viagem, me badalar de frias, mando buscar vocs para irem passear comigo. Tu sabe que quando eu prometo, cumpro. Mas agora, o que tu vai fazer  ajudar teu marido
na loja, que ele precisa de tempo livre para o criatrio.- Levanta a voz de novo: - E nunca mais me fale em ir para So Paulo. Nunca mais.
Dona Carmosina no pode conter a emoo, enxuga os olhos midos com um lencinho bordado. Tonha assiste, apalermada, sem conseguir entender aquela confuso. Tieta,
deixando Elisa, vem abra-la, repetindo, ao despedir-se, a recomendao sobre o dinheiro:
- Guarde seu dinheirinho com cuidado. no empreste nem d a ningum. Nem a Elisa, nem a Astrio, nem a Perptua, mesmo que lhe peam. Eles no precisam. - Acena
para dona Carmosina: - Vamos, Carm?
Ainda afogada na decepo, Elisa volta a se abraar com Tieta, no desejo, quem sabe, de arriscar uma ltima splica apesar da proibio terminante. no chega a faz-lo.
Passos ressoam no corredor, Astrio entra na sala, estranha o desespero da esposa, crescendo em choro convulso, em altos soluos  sua apario. Qual a causa desse
pranto ardente, de ais to sentidos? Pela morte do Velho no h de ser.
- Aconteceu alguma coisa? - j lhe arde o estmago.
Dona Carmosina explica:
- Elisa est chorando de contente e agradecida. Tieta vai comprar uma fazenda para vocs.
Da imagem de Tieta refletida no espelho em noite de ano novo o enterro do velho Z Esteves, a conversa com perptua sobre herana, com o mesquinho complemento do
relgio, a pungente cena com Elisa refletem-se na face de Tieta, sentada diante do espelho, limpando a pele, sozinha no silncio da casa e da rua. Partiram todos
para o Te Deum na Matriz. O mundo de Agreste, aparentemente simples e pacfico, revela-se mais difcil e convulso do que o mal-afamado universo do meretrcio onde
ela se movimenta entre putas, rufies, cftens, gigols, patroas de randevus, desde a partida na bolia do caminho h vinte e seis anos. Mais fcil defender-se
e comandar no Refgio dos Lordes. L, os sentimentos, como os corpos, esto expostos. Aqui, a cada passo, ela tropea em simulao, engano e falsidade; ningum diz
tudo o que pensa nem demonstra por inteiro seus desgnios; todos encobrem atos por interesse, medo ou pobreza. Mundo de fingimento e hipocrisia, em acirrada luta
por ambies tacanhas, minguados interesses.
As nove horas, ao toque do sino da igreja, toque de recolher para a maioria da populao, a luz do motor extinguiu-se, voltando no entanto a funcionar s onze, iluminando
a cidade para a passagem do ano, as comemoraes da igreja e da Prefeitura, o Te Deum e os fogos. Quando as filhas de Modesto Pires ainda eram solteiras, vindas
em frias do colgio de freiras na Bahia, havia baile em casa do dono do curtume. Hoje, unicamente na penso de mulheres de Zuleika Cinderela a festa se prolonga
pela madrugada, iniciando-se aps o Te Deum e o foguetrio pois as raparigas, sendo filhas de Deus e cidads da comuna, comparecem  igreja e  Praa, para render
graas ao Senhor e aplaudir com entusiasmo o capenga Leoncio, coadjuvado pelo moleque Sabino, no fulgor do espetculo pirotcnico, com rojes, morteiros e foguetes,
encerrando-se aquela modesta maravilha com uma nica porm sensacional chuva- de- prata.
Depois do jantar, juntaram-se visitas na varanda: coronel Artur da Tapitanga, dona Mil, dona Carmosina, o vate Barbozinha, alm de Elisa e Astrio, do inconformado
Peto, de meias e sapatos, roupa limpa, e de Ascnio Trindade, cuja presena, de to constante, perdera a condio de visita.  luz Jas placas conversaram sobre o
Velho; o coronel e dona Mil recordaram acontecidos antigos, dona Carmosina bordou comentrios inteligentes. Esgotado o assunto principal, falaram da chuva e do
bom tempo, ou seja:
comentaram a prenhez de Stima Farath, filha de seu Abdula e dona Soraia, levantinos de ferrenhos hbitos feudais, mantendo a filha nica e atrativa trancada a sete
chaves e de repente descobrindo-a de barriga inchada de quase quatro meses, produto das ltimas chuvas de setembro, e se referiram a seu prximo casamento com Licurgo
de Deus, modesto e retinto empregado para todo o servio do armarinho, sem outro dote alm da escura beleza de homem, do riso claro, da doura dos modos, sendo o
inesperado matrimnio um jubiloso acontecimento do bom tempo do vero. Exercendo a arte sutil de comentar a vida alheia, esquadrinharam o armarinho procurando saber
onde se dera o fato principal, se em cima ou embaixo do balco, entre botes, agulhas, dedais e fitas, remexeram nas finanas dos Farath e saudaram com simpatia
a sorte do moleque Licurgo, a comer quibe cru em prato de ouro, imagem de dona Carmosina encerrando a discusso sobre o local do feito. Por duas vezes, o tema da
poluio e da Brastnio atlorou aos lbios da agente dos Correios e do secretrio da Prefeitura mas, ameaando polmica, no obteve seguimento na conversa infensa
a debates por ocorrer ao mesmo tempo em visita de psames e em noite festiva. Quando a luz voltou, todos partiram para a igreja. Cansada, Tieta preferiu ficar, desejosa
de solido, nunca pensara pudesse a morte do pai afet-la tanto.
Sozinha em noite de Ano-Novo, numa casa vazia! no acreditaria, se lhe contassem. Enquanto dona Olvia viveu, antes de se reunir com ela e com os filhos para o reveion,
Felipe vinha, infalvel, ver Tieta, trazendo-lhe um presente, quase sempre jia de preo. Morta a esposa, rompia o ano em companhia da rapariga, em boate de luxo,
onde, s felicitaes e aos votos de feliz Ano- Novo, sucedia-se alegre carnaval. Na animao da champanhota e dos brindes, a renovada ternura.
Ainda h um ano, a noite comeara de idntica maneira, numa boate elegante. Discutiram finanas e recordaram os dias iniciais daquela irremedivel (adjetivo de Felipe)
ligao. De lembrana, ele lhe ofertara a escritura de ampla loja no andar trreo do Edifcio Monteiro Lobato - homenagem do empresrio ao escritor paulista com
quem convivera -, prdio monumental no centro da cidade, em rua de intenso comrcio. Como obter maior renda? Alugando a loja ou nela instalando butique gr-fina,
de luxo? Com a butique, naturalmente, se pudesse ficar  frente do negcio. Mas onde arranjar tempo, se o Refgio a ocupava o dia inteiro? Melhor alugar, aconselhara
Felipe, embolsando, sem trabalho nem preocupao, invejvel bolada mensal.
Enternecida, Tieta lembrou o dia em que o conhecera, recm- chegado da Europa. Na vspera, Madame Georgette lhe dissera: Demain tu connaitras le vrai patron du Nid,
Monseigneur Le Prince Felipe. Tambm Felipe se recordava. Madame Georgette informara: Une petite mulatresse, comme vous les aimez; ancienne bergre de chvres, fraiche,
tendre mais aussi sauvage comme un chevreau. Ficou a taquin-la, enquanto danavam, ameaando casar-se ou amigar-se com menina bem moa, velho coroca necessita de
broto novinho. Velho coroca? To rijo ainda, ainda bom de cama, o aplombo de sempre, uma resistncia de cavalo ao beij-la, na hora da meia-noite, falou da irremedivel,
definitiva e maravilhosa aventura que era a ligao deles dois:
- E se eu te dissesse que tu foste a nica mulher que amei em minha vida?
A partir dessa frase mudara de sentido aquela convencional noite de Ano- Novo, para fazer-se inesquecvel noite de amor. Apenas fmda a gritaria, as felicitaes
e votos, ele a tomara pela mo, levando-a embora. Apesar de dona Olivia estar morta e enterrada havia seis anos, pela primeira vez Felipe convidou Tieta a visitar
o palacete na Avenida Paulista. De sala em sala a conduziu, sob o reflexo dos burilados lustres de cristal, pisando tapetes persas, encandeando os olhos nas alfaias
de ouro e prata, nos objetos de arte, colocados sobre os mveis negros, nos quadros dos mestres modernos, Picasso, Chagal, Modigliani, cujos nomes ela aprendera
ouvindo-os da boca dos ricaos, no Refgio, seguidos sempre da cifra astronmica com a qual reduziam-lhe s a beleza a investimento. Uma riqueza diferente, pesada,
nobre, quase solene, desconhecida para Tieta. Habituada ao luxo, ao convvio dos grandes das finanas e da poltica, todavia se sentiu enleada. ao vislumbrar a grandiosidade
do outro lado da vida de Felipe, no entende por que ele se prendera a uma simples pastora de cabras.
Dispensada a criadagem para festejar a noite de augrios, o palacete estava vazio como hoje est a casa de Perptua, onde um dia Tieta dormiu com Lucas e agora dorme
com Ricardo. Felipe exibiu-lhe a adega, as prateleiras de garrafas, os rtulos ilustres, escolheu o champanha - champanha, no, le meilleur champagne du monde, ma
belle - pondo a garrafa a gelar num balde de prata. Buscou as taas mais finas e raras da Bomia. Assim carregados, penetraram na alcova; deitados no leito do casal
beberam e se amaram. Velha cepa, bom vinho, Felipe compensa com erudita sabedoria a diminuda violncia. De comeo intimidada, Tieta recupera-se lentamente, numa
estranha emoo: pela primeira e nica vez na vida sente-se esposa.
Somente ento, deitada ao lado de Felipe no leito colonial da alcova do palacete da famlia Camargo do Amaral, deu-se conta da exata significao do sentimento a
lig-la ao milionrio comendador do Papa. Ainda h pouco parecera-lhe absurda aquela ligao na qual interesse, amizade, compreenso, desejo e prazer se misturavam.
Sobre os lenis de cambraia de dona Olivia, entendera enfim o significado da palavra amor, to gasta e repetida, to jogada fora na agonia das paixes e dos rabichos.
Amor, sim, singular e exclusivo.
Muitas paixes, tantas, to diversas. Passageiras ou renitentes, todas impetuosas, possessivas. As da menina- moa vida de homens; abrindo-se nos esconsos do rio,
nos altos dos cmoros de Mangue Seco, as da mulher dama em trnsito do serto para So Paulo. Durante o tempo longo de Felipe, rapariga s ordens, despesas por conta
dele, sua propriedade pessoal, o pijama sob o travesseiro, os chinelos aos ps do leito, repetidas vezes se apaixonara, a cabea virada, doidinha. Nunca, porm,
deixara de ser a terna amante, companheira e amiga do poderoso cinqento - quando o conheceu, Felipe completara quarenta e nove anos, aparentava quarenta - a envelhecer
nos seus braos.
Desconfiaria Felipe das aventuras da protegida, desvairados xods?
Tieta jamais recebera homem no Nid d'Amour, nem Madame Georgette permitiria tal leviandade, tampouco no Refgio dos Lordes, desde o dia em que ele comunicara a deciso
de mant-la com exclusividade. Encontrava-se com os eventuais amantes em apartamentos, garonieres ou em randevus bem mais modestos. Apesar das precaues tomadas,
Felipe, experiente e arguto, devia dar-se conta do fogo a consumi-la, exibindo-se no brilho dos olhos, no nervosismo dos gestos, no assanhamento na cama pois, quanto
mais enrabichada por outro, com maior ardor e ofcio a ele se entregava como a compens-lo.
Jamais Felipe demonstrara a menor suspeita. Nos ltimos meses, porm, quando os sinais da velhice comearam a lhe marcar a face bem tratada, mais alm da fleuma
e da sobranceria, Tieta percebera ou pensara perceber uma ponta de tristeza no olhar do Comendador, ao senti-la vibrante e incontida. Para no mago-lo cuidou de
reservar-se, controlando a nsia e o apetite. Para no mago-lo ou porque, de to presa ao marchante, sentia-se menos necessitada?
Por ocasio da morte de Felipe achou-se to sozinha e perdida, a ponto de romper a jura feita na hora da partida de Agreste - nunca mais porei os ps aqui- e vir
buscar segurana e foras, renovar o gosto de viver, no meio da famlia, no cho onde nascera e se criara, nos outeiros a tanger cabras, aprendendo ser a vida dura
prova, nos cmoros de areia fazendo-se mulher sob o peso do mascate com cheiro de alho e de cebola. Buscava respirao de ar puro, viso de cu lmpido, noite de
estrelas inumerveis, banho de luar.
Fugitiva da poluio de So Paulo, do deprimente comrcio do Refgio, da ausncia de Felipe, intil pijama, abandonados chinelos.
Nessa outra noite de Ano-Novo, to diversa da ltima, sozinha em casa da irm mais velha, diante do espelho, Tieta se interroga: valera a pena vir?
Sim, valera a pena, apesar do fingimento e da hipocrisia, da ambio e das discrdias da famlia Esteves, escondidos sob o manto da modstia e da paz. Fosse apenas
pelo encontro com Ricardo e j teria pago o sacrifcio da viagem. Puro, inocente, franco, sem malcia, sem maldade, ntegro. Nada nele era dbio, nem palavras, nem
pensamentos, nem gestos. Seu menino, seu menino de ouro. Nunca antes se apaixonara por um adolescente, quase uma criana. Preferira sempre homens mais idosos, agora
morre e renasce por amor a um rapazola.
Est na igreja o seu dividido menino, metade dela, metade de Deus.
Vestido de coroinha, a batina negra, a sobrepeliz branca, a estola vermelha, envolto em incenso, anjo mais revela a bruaca da Edna, montada nos chifres do marido,
espichara a vista prenhe de cobia, mordera os beios na inteno do lindo querubim. Vai morre rde fome a peste, pois ele nem sequer percebera a teso a maltrat-la
pois no tem olhos, riso na boca ou pensamento na cabea seno para a tia sabidria que colheu a flor da donzelice do sobrinho e lhe ensina o bom da vida.
Voltar aps o Te Deum e os fogos, acompanhando Perptua e Leonora.
Ao pensar na pseudo- enteada, Tieta balana a cabea, descontente.
Trouxera-a consigo para lhe proporcionar uma trgua na vida sem alegria, limpar-lhe os pulmes com o ar saudvel de Agreste, abrir-lhe em riso a boca amarga. Fizera
bem? Tudo indica que sim pois ela anda feliz, parece outra. Mas, e depois?  preciso fazer com que Leonora e Ascnio se decidam a ir aos barrancos da Bacia de Catarina,
inaugurando as grutas sob os chores.
A data da partida se aproxima, Leonora necessita e merece deitar com um homem por amor, at agora s o fez por ofcio ou engano. Tieta ter de cuidar desse problema,
resolv-lo. Na prxima semana, o Curral do Bode Incio estar pronto para ser habitado, ocasio propcia para levar o casal a Mangue Seco, onde, no deslumbramento
da noite martima e mgica, naufragam escrpulos e timidez, que o diga Ricardo.
Antes, porm, precisa convencer Ascnio a abandonar essa infeliz idia de abrir as portas de Agreste  tal fbrica de dixido de titnio, capaz de envenenar o ar
puro, de ofuscar a limpidez do cu, capaz de degradar o rio e o mar, terminando com os peixes e os pescadores. Contrabandistas? Sempre o foram mas no existem marujos
mais valentes e audazes do que os de Mangue Seco, enfrentando os tubares e as vagas do mar em fria. De sbito imensa piedade, incomensurvel ternura a invade,
esquece agravos, fingimentos, mentiras familiares. Gente pobre, pobre e adorvel gente de Agreste!
Todos lhe querem bem, sem exceo, os bons e os ruins. Fizeram- na herona e santa enquanto ela no passa de uma reles puta, pior ainda, de patroa de randevu, cafetina,
exploradora de putas.
Diante do espelho, Tieta se prepara para a cama. Perfuma-se, embeleza-se para Ricardo. Na vspera no o teve; entre o gabinete e o quarto, no corredor, a lembrana
do pai e av, recm- falecido e enterrado. Mas hoje ela espera seu menino. Luto de xibiu  curto, segredou-lhe de passagem.
Ao regressar a So Paulo j no haver Felipe. A prosa incomparvel, o riso divertido, a prudncia e a audcia, o saber sem medidas. Foge dessa ausncia definitiva
para a fugaz ausncia de Ricardo. Pouco falta para o rapaz vir a seu encontro na cama de dona Eufrosina e do doutor Fulgncio, de Perptua e do Major Cupertino.
Ali os dois casais se deram e se possuram, tambm ela e Lucas, quando o jovem mdico lhe revelou os requintes do prazer, as loucas e absurdas regras do ipicilone.
Nada se compara, porm, s noites de Tieta e Cardo, o fogo do sobrinho adolescente, a ardida togueira da tia em plena madurez.
Vir aps o Te Deum e o foguetrio; deve esperar na rede que Perptua e Leonora se recolham e durmam para somente ento cruzar numa passada o corredor e vir aninhar-se
em seu regao. Tieta chega  janela aberta sobre o beco, dali no enxerga a Matriz mas distingue o distante rumor das rezas.
O povo de Agreste agradecendo a Deus. Tambm ela deveria faz-lo mas nunca foi chegada a oraes e missas, pouco sabe de religio. Padre Mariano, interesseiro e
adulador, declara que ela, Tieta, viva de comendador do Papa,  parte integrante da Igreja de Roma. Devido a Felipe, reverendo? no era seu marido, apenas seu marchante,
ilcita relao. Talvez devido a Ricardo, levita do santurio, menino de Deus, seu menino. Ligao pecaminosa tambm, padre, em Tieta tudo  esprio, tudo  farsa.
Volta ao espelho, examina o rosto em geral alegre, nesse instante melanclico. Como acusar os demais de hipocrisia e fingimento? Ela, a viva Antonieta Esteves Cantarelli,
no passa de uma inveno, de uma intrujice armada pea a pea. Em Agreste houve Tieta, pastora de cabras, cabra ela prpria, em cio. Em So Paulo, existe, famosa
e rica proxeneta, Madame Antoinette, francesa da Martinica. Antonieta Esteves Cantarelli no existe.
Ser que no existe, que no serve para nada? Ricardo lhe fizera desprezar o lucro de um bom investimento nos terrenos do coqueiral para sair em defesa do clima,
do cu, das guas de Agreste, dando realidade e vida a Antonieta Esteves Cantarelli, a olhe dar uma causa e uma bandeira. Seu menino. Sorri para a imagem no espelho,
nem triste nem cansada.
Despe a camisola, estende-se nua na cama para esper-lo, vestida apenas com as marcas roxas dos lbios e dos dentes de Ricardo e vagos vestgios das queimaduras.
Estar dormindo quando ele entrar, acordar em seus braos, juntos rompero o Ano- Novo. Com atraso e sem champanha, detalhes de pouca importncia se comparados
 ternura e ao desejo desmedidos. Acendero os fogos da madrugada para saudar o Ano- Novo e, na barra da manha, em homenagem, praticaro o ipicilone duplo. O duplo,
no o simples. Para execut-lo como devido, na exatido das regras absurdas, loucas e no entanto rgidas e inalterveis, necessita-se de matrona experiente de cama,
da mxima competncia, e de adolescente vido de gozo. Ou vice-versa, um veterano de mil batalhas e uma recruta apenas pbere. Em qualquer dos casos, no desvario
da paixo.
Onde, nesta altura da narrativa, apresenta-se personagem nova, mais uma puta, por sinal, num livro em que j existem e na mesma hora em que Tieta estende-se nua
na cama para esper-lo a dormir, Ricardo, por entre a fumaa do incenso, v pela primeira vez Maria Imaculada e leva um susto. Muito moa, ainda menina, no deve
passar dos quinze anos. Vestido de organdi azul-celeste, branca flor nos cabelos crespos, jasmim- do- cabo, cheia de corpo, os olhos duas brasas, a boca a sorrir.
A sorrir para ele.
Durante a cerimnia festiva do Te Deum, muito do agrado do seminarista devido  pompa e ao jbilo das vestes e dos cnticos, Ricardo sentira-se cercado pela admirao
e pela cobia de pelo menos trs mulheres, todas lhe parecendo de interesse. Prximas do altar, uma na primeira fila da direita, outra na primeira fila da esquerda,
Cinira e dona Edna.
Na primeira fila da direita e nos limites do barrico das vitalinas, sentada no banco, Cinira revira os olhos, abre a boca splice e ameaa desmaiar ante a viso
divina, quando ele se adianta portando o incensrio. Na primeira fila da esquerda, ajoelhada no pequeno e baixo genullexrio, ao p de Terto que no parece ser mas
 seu marido de papel passado, dona Edna, magra e nervosa mas no a desprezvel bruaca das injrias de Tieta, os olhos de verruma, morde os lbios, arisca acenos.
Ah!, se pudesse peg-lo num canto da sacristia e cobri-lo de beijos! Ricardo atravessa em frente ao altar, detm-se  direita e  esquerda, ante a semi-virgem e
a adltera, na direo e na inteno de uma e de outra e lhes envia o aroma do incenso, quase uma mensagem.
Gostaria de poder atravessar a nave e chegar aos ltimos bancos, num dos quais, contrita e recatada, Carol, os olhos postos no altar, segue cada passo, cada gesto
do altivo coroinha. Tendo Modesto Pires voltado para Mangue Seco, para o seio da famlia, ela necessita ser duplamente discreta, vigiada que  pela populao, amsia
do ricalhao. no podendo ir at onde Carol se encontra, Ricardo ergue bem alto o incensrio e o agita no ar, a fit-la sorrindo, ofertando-lhe olorosa nuvem de
fumaa branca. Percebe ela a significao do gesto? Provavelmente, pois baixa os olhos e coloca a mo aberta sobre o corao, comprimindo o seio arfante.
Ricardo percorre com os olhos a nave da Matriz completamente cheia.
Quantidade de mulheres sentadas ou ajoelhadas. ao fundo, de p, os homens, exibindo roupas domingueiras,  exceo de uns poucos maridos mais ciosos e devotos, postados
prximo s esposas; Terto, por exemplo, que assim prova aos incrdulos ser o feliz consorte da apetitosa dona Edna. Em face do altar, Perptua e Peto ajoelhados
lado a lado em vistosos genuflexrios que exibem placa de metal com os nomes dos proprietrios: dona Perptua Esteves Batista e Major Cupertino Batista, para que
neles no se dobrem joelhos estranhos e indignos. Nem a honra de substituir o pai comove Peto, fazendo-o contrito e satisfeito. Queria estar entre os homens, ao
fundo ou, melhor ainda, no trio animado de comentrios, Aminthas destilando veneno, Osnar alardeando patifarias.
Ricardo esconde um sorriso ao ver o irmo a se coar, irrequieto, a cara de desgosto, de infinita chateao. Detalha os bancos onde o mulherio reza.
De p ,junto  parede, quase ao fundo, reconhece Zuleika Cinderela, algumas vezes a vira na rua, fazendo compras. Meia dzia de raparigas a seu redor, nenhuma delas
ousara sentar-se, grupo isolado,  parte. Foi ento que Ricardo pousou avista em Maria Imaculada e a reconheceu pois no era outra seno a tia Antonieta mocinha,
como se por milagre da Senhora Sant'Ana houvesse voltado  adolescncia quando, segundo ela mesma lhe contara, ia encontrar-se com namorados na beira do rio, na
sombra dos chores, cabrita rdega. A face aberta e franca, o fulgor dos olhos, o corpo esbelto mas no magro, os anis dos cabelos negras serpentes, a boca de gula.
Olhando para ele e rindo. Ricardo ergue mais uma vez o tmulo, acompanhando o gesto do padre Mariano a abenoar, d um passo em frente querendo ir ao encontro da
inesperada apario para a ddiva do incenso.
Terminada a cerimnia, todos tomam o caminho do ancoradouro onde Leoncio e Sabino j se encontram com os fogos e as achas de madeira, acesas.
Demora-se Ricardo na sacristia a retirar a sobrepeliz e a estola, ajudando Vav Murioca e padre Mariano na limpeza e arrumao dos objetos do culto. O padre estranha:
dona Antonieta no comparecera ao te de um, por qu? no estava se sentindo bem, ainda no abalo da morte do pai, explica Ricardo.
- Pessoa distinta e generosa, pilar da igreja - define o reverendo. Leve para ela a bno do Senhor que eu lhe envio.
Ao dar a mo a beijar ao seminarista, recorda-se :
- Nunca mais voc veio se confessar, qual o motivo?
- Estive em Mangue Seco esse tempo todo, tenho me confessado no Arraial do Saco com um professor do seminrio que est veraneando l.
- Qual?
- Frei Timteo.
- Est em boas mos, nas mos de um santo.
Na esquina da praa, embuada na sombra da mangueira, Maria Imaculada espera. Ricardo no se surpreende, adivinhando-a prxima; ao cruzar a porta da sacristia a
buscara com a vista. ao se encontrarem frente a frente, fitam-se sorrindo, ela pergunta:
- J est livre, bem?
- Vou ter de encontrar a me e a prima no ancoradouro.
- Tambm vou pra l.
Estava vazia a praa, apenas por detrs da igreja o vulto do padre, recolhendo-se  casa paroquial Vav Murioca partira apressado, antes de Ricardo, para no perder
nem um nico foguete. Andam uns passos em direo s margens do rio. Apenas deixam a rua e penetram no escuro, ela lhe estende os braos. Ricardo a acolhe, prendem-se
num beijo e nele permanecem. O gosto da tia mas outro perfume, cheiro agreste de mato. Ricardo toca lhe o seio e o modela na mo: um dia ser igual ao de Tieta,
quando de todo se formar no correr do tempo; agora  fruta verde, ubere de cabrita. As bocas se separam num suspiro para novamente se fundirem, ela amolece nos braos
de Ricardo.
- Tenho de ir.
- Demore mais um pinguinho s, bem.
Abrem-se em oferenda os lbios da menina:
- Me beije de novo, bem.
Bocas de fome e sede e o roar da lngua. A mo de Ricardo desce do boto do seio para as ancas recentes, altaneiras proas de barco em comeo de navegao; ao chegar
ao porto de destino alcanaro a grandeza da bunda da tia. Sucedem-se os foguetes, explodem morteiros e rojes.
- Preciso ir. Como a gente faz para se ver?
- Amanh te espero, bem, quando a luz apagar.
- Onde?
Ela ri, gaiata:
- Tu  aprendiz de padre no pode ir em casa de dona Zuleika. Vou esperar no mesmo lugar de hoje.
O beijo de despedida, prolongado na saudade, sob o foguetrio. Os dentes da menina marcam o lbio do seminarista, ai.
- Doeu, bem? Perdoe, Ricardo.
- Tu sabe meu nome?
- Se, mas tu no sabe o meu. - Ri novamente, vitoriosa.
- E como  que tu se chama?
- Maria Imaculada, bem.
- Feliz entrada de ano, Imaculada.
Parte correndo e ali a deixa na feliz entrada de Ano- Novo. Volta-se na curva do caminho a tempo de v-la coberta e iluminada pela chuva- de- prata.
At amanh, meu bem.
Da importncia do sobrenome Antunes e da promoo de Astrio ao posto de major - estou virando o maior fregus de seu cartrio, doutor Franklin - pilhria Tieta
ao cumprimentar o tabelio, na tarde do dia dois de janeiro.
Chega acompanhada de Astrio para ali encontrar-se com Jarde e Josaf.
- Ser que a senhora tambm quer saber se  herdeira das terras do coqueiral? Quase meia cidade j desfilou nesta sala nos ltimos dias pedindo para examinar os
livros antigos, tive de tranc-los no cofre com medo que rasurassem as folhas ou as rasgassem. Nunca vi uma coisa assim em toda minha longa vida de tabelio.
- Olhe que sua pergunta no deixa de ter propsito, doutor. no vim ver se meu nome est nos livros mas estou comprando uma propriedade dos Antunes, do velho Jarde
e do filho Josaf, para minha irm e meu cunhado, e eles esto vendendo por causa dessa questo do coqueiral Doutor Franklin, a par do assunto, concordou num aceno
de cabea enquanto sorria para Astrio: felizardo, beneficiando-se da cunhada milionria, presente de terras e cabras, bendito seja! O mundo  assim: uns nascem
empelicados, de bunda para a lua, encontram o prato feito, a papa dada na boca. Para os demais,  o que se v e sabe.
- , o nome dos Antunes consta dos livros, eu disse a Josaf, mas avisei logo que ele no est sozinho, tem muita gente...
- Antunes aqui, em Agreste, seu doutor Franklin, nunca ouvi falar que houvesse outros, fora de mim, de meu pai e de minha falecida me que Deus haja.
Interrompendo o tabelio, ressoa na porta a voz potente de Josaf.
Atravessa o batente, Jarde a reboque:
- Ns temos um papel, lhe mostramos e foi o senhor mesmo quem falou do nome nos livros. Telegrafei para Itabuna ao meu advogado, ontem de manha, assim dona Antonieta
me deu sua palavra. Fui incomodar dona Carmosina em casa dela no dia de ano. Comigo  assim, na rapidez, na cadncia grapina, no  essa leseira daqui. L, se o
fulano dormir no ponto, quando acordar est sem sua roa de cacau. Tomara que a fbrica venha logo, para mudar esses usos daqui, para dar pressa no povo.
- Voc teve foi sorte de dona Antonieta manter a palavra dada por Jos Esteves. no fosse assim, muito havia de penar para conseguir comprador e, se conseguisse,
o negcio ia se arrastar na malemolncia de nossa batida descansada.
O tabelio retira os culos, limpa-os no leno, sem pressa, tem todo O tempo do mundo diante de si, prossegue:
- Vou lhe dizer uma coisa, meu amigo. Pode ser que, com a vinda dessa indstria to falada, meu cartrio, que  um dos menos rendosos do Estado, aumente o movimento
e eu ganhe um pouco mais de dinheiro, de que bem preciso. Contudo, prefiro que essa tal de Brastnio no se instale aqui. Li o artigo de A Tarde, a carta ao nosso
poeta, me arrepiei todo. Antes j tinha ouvido falar na poluio causada pelas fbricas de titnio, o Comandante me contou do acontecido na Itlia, na Itlia ou
na Frana, no me lembro mais.
Prefiro nossa cadncia, devagar e sempre, a gua pura, o bom peixe, os usos daqui. - Repondo os culos, faz um gesto com a mo para impedir qualquer rplica, terminara
com aquele assunto: - Vamos  vaca- fria: Bonaparte, tome nota. Escritura de compra e venda da propriedade de nome...
- Vista Alegre... - murmura Jarde, taciturno. No cartrio no tem se quero consolo da viso das mamas de dona Antonieta, opulentas nas rendas abertas do quimono.
Josaf retira do bolso pequena agenda de capa azul, dita medidas, demarcaes, datas, nmeros, entrega as pblicas- formas do inventrio dos haveres de dona Gercina
da Mata Antunes, reduzidos alis a um nico bem, a Vista Alegre, plantao de mandioca e milho, criatrio de cabras. Bonaparte, filho do doutor Franklin, cabeorra
e baixote, uma pipa de banha, escrivo juramentado, anota os dados, recebe os documentos. Doutor Franklin marca a data da assinatura e do pagamento para da a trs
dias; feliz ou infelizmente, caro Josaf, Bonaparte no lavra um termo de compra e venda na cadncia grapina. Tieta paga o sinal, Josaf trouxe o recibo pronto:
a filha sabe onde pisa, no  como o velho tonto a largar dinheiro em mos alheias recusando comprovante. Tieta guarda o papel, dirige-se ao tabelio:
- Minha presena no vai mais ser necessria pois a escritura  passada em nome de Astrio e Elisa, so eles que tm de assinar. Me toco amanh para Mangue Seco,
estou dando a ltima demo de cal na choupana que constru.
- Ouvi falar. Bonaparte, que  muito de Mangue Seco, me disse que dos milagres que a senhora praticou aqui, nesses poucos dias, e foram vrios, o maior de todos
foi a rapidez com que levantou essa casa de veraneio. Botou aquela gente da praia, preguiosa como qu, na cadncia do nosso Josaf, a de Itabuna.
- De Itabuna, doutor? A cadncia de dona Antonieta  a de So Paulo, com ela  ajato. -a risada forte de Josaf.
- Devo a meu sobrinho Ricardo, ele tomou a frente, tacou fogo no pessoal, um menino que vale seu peso em ouro. A ele e ao comandante Drio, um amigo.
Ainda bem que Bonaparte no vale seu peso em ouro, seria soma considervel; nem por isso  mau rapaz, apenas no quer nem pode correr. E para que correr? - pergunta-se
o tabelio.
Em passadas largas, aberto em riso, Osnar invade o cartrio  frente da malta do bilhar, Aminthas, Seixas e Fidlio, e de quebra seu Manuel:
- Cad o fazendeiro? Capito Astrio, agora que voc  proprietrio de terras e criador de cabras, eu lhe promovo a major.
Cercam o amigo e companheiro, o campeo, o Taco de Ouro- manter o ttulo no atual torneio? Jarde e Josaf despedem-se, Josaf aperta a mo de Tieta:
- Fique sabendo, dona Antonieta, que tive muito prazer em lhe conhecer pessoalmente. Se tem uma pessoa direita em Agreste,  a senhora.
Com a senhora  po po, queijo queijo.
-  verdade - concorda doutor Franklin. - Dona Antonieta  um exemplo de bondade e correo. Mas antes de sair, Josaf, oua a resposta a uma pergunta que vou fazer
aqui a nosso amigo Fidlio. - Retira os culos, volta-se para os rapazes em torno a Astrio: - Fidlio, como  mesmo seu nome?
- Fidlio de Arroubas Filho.
- O nome completo, por favor.
- Fidlio Drea A. de Arroubas Filho.
- E o que ?
- Fidlio Drea Antunes de Arroubas Filho.
- Obrigado - agradece o tabelio e, brandindo os culos, se dirige a Josaf, que espera parado na porta. - Est vendo, Josaf? Outro Antunes.
Ainda tem mais: dona Carlota Alves... Sabe quem ? A diretora da escola particular. Ela no assina mas tambm  Antunes. Pelo lado da me.
Josaf no se altera, solta uma risada de quem nada teme:
- Uns Antunes que nem usam o nome. no so como meu pai e eu, Jarde e Josaf Antunes, s e com muita honra!
Para no expor publicamente seu maior trunfo, controla a vontade de repetir alto e em bom som o nome e as manhas do advogado a quem telegrafara e com cujo concurso
espera contar: doutor Marcolino Pitombo, especialista mximo em litgios de terras na regio cacaueira, famoso em Itabuna e Ilhus desde tempos imemoriais, quando
Uruuca se chamava gua Preta e Itajupe era a famigerada vila de Pirangi, onde se matava gente por um d c aquela palha. Doutor Marcolino Pitombo ganha no direito
e, se necessrio, no caxixe.
Grapina esperto, Josaf est certo de obter-lhe a aquiescncia pois, sabendo-o sergipano, em ateno  idade avanada e ao lugar de nascimento do causdico, mandara
pr  sua disposio passagens areas de Ilhus a Aracaju e vice- versa. Agreste encontra-se mais prximo da capital de Sergipe do que de Salvador, menor quilometragem
a enfrentar de carro. Josaf ir receber o advogado em Aracaju, assim, alm dos honorrios, doutor Marcolino ganhar provas de considerao e, de lambujem, visita
gratuita aos parentes e  terra natal.
Pensa em tudo, o diligente Josaf. Jarde pensa apenas nas cabras, em Seu M e nos entrevistos uberes de dona Antonieta, preciosos haveres perdidos para sempre.
Onde, com a chegada do progresso, instala-se em agreste um jornal mural; com breve notcia sobre a composio e o comportamento da torcida no campeonato de bilhar
no conseguira Ascnio trindade esfregar os doutos argumentos de herr professor karl Bayer nas fuas do Comandante, fazendo-o engolir o insulto e oferecer reparao.
Comboiando dona Laura, o exaltado marujo, aps o enterro de Z Esteves, sara diretamente do cemitrio para a canoa.
Rompe o ano com os pescadores de Mangue Seco, fazendo honra  saborosa moqueca de cao e arraia com a qual os moradores lhe retribuem a ceia de Natal. Delicados,
rigorosos ritos de amizade, exigem estrita observncia.
Enquanto aguarda a ocasio de exibir entrevistas e editoriais ao Comandante, Ascnio pensa na melhor maneira de levar o desmascaramento do cronista de A Tarde 
populao abalada com a leitura da Carta ao poeta De Matos Barbosa, seguida do incontrolvel disse-que-disse incentivado pela diablica dona Carmosina e pelo vate
Barbozinha elevado aos pncaros da glria. Nem a morte de Z Esteves, com a pompa do enterro de primeira classe, conseguira diminuir a comoo provocada pelo dramtico
grito de alerta lanado por Giovanni Guimares.
Aqueles que conheciam o jornalista pessoalmente, tendo privado com ele durante sua recordada visita a Agreste, tomavam de imediato partido a seu favor, saam em
misso de catequese, aliciando os demais, levantando a opinio pblica contra a Brastnio. Ascnio quebra a cabea: como colocar ao alcance da populao os artigos
e as declaraes, as pginas esclarecedoras dos jornais, pondo a questo em pratos limpos, demonstrando o exagero da crnica, a inexistncia de perigo maior, nada
alm da poluio normal, reduzindo s suas verdadeiras propores o problema da instalao da fbrica de titnio - afinal que espcie de merda era esse tal de dixido
de titnio?
Procurara infomar-se na entrevista do professor Bayer, no conseguira.
Tudo quanto sabe refere-se  importncia do produto, indispensvel ao desenvolvimento ptrio, e isso basta. Precisa levar a verdade a todos, convenc-los das vantagens
da Brastnio, do que ela significa em termos de riqueza e de progresso para o Brasil e para Agreste. Como faz-lo?
Sair mostrando os jornais pessoa por pessoa, impraticvel. Deix-los no Bar dos Aores,  disposio dos fregueses, no resolve, pois somente uma parte dos habitantes,
intelectualmente pondervel, numericamente desprezvel, os ler, sem contar o perigo das gazetas sumirem ou serem rasgadas, destrudas. Convocar o povo para lhes
dar conhecimento do contedo da matria publicada, em praa pblica, numa espcie de leitura coletiva? Idia tentadora mas complicada, difcil e perigosa. Em se
tratando da Brastnio, os pobres - e os outros tambm, conforme experincia anterior - poderiam pensar em nova distribuio de brindes e no os recebendo, se decepcionarem,
saindo o tiro pela culatra.
Por fim, recordando os tempos da faculdade, decide-se pelo jornal mural, exposto na Prefeitura. Pela primeira vez, em vrios anos de sinecura (mal paga), o tesoureiro
Lindolfo revela-se de real utilidade. Habilidoso proprietrio de uma bateria de lpis de cor, colou os recortes e, em vistosas letras, reproduziu as principais afirmaes
das entrevistas e dos editoriais, tudo encimado por um dstico indo de uma extremidade a outra da cartolina:
A Brastnio  Progresso e Riqueza Para Agreste! Culminando a obra de arte, desenhou enorme fbrica no centro de um panorama de felizes cidados empunhando festivas
bandeirolas e de prodigiosas benfeitorias: arranha-cus, vila operria, hotel magnfico, cinema digno da capital, nibus luxuoso e modernssimo. Primitivo ou primrio,
ao gosto e  cultura do fregus, o painel de Lindolfo ocupa a base da cartolina; entre ele e o elogio da Brastnio, os recortes estarrecedores.
Penduram o jornal mural na parede da sala do andar trreo onde se rene o Conselho Municipal quando d na cachola do coronel Artur da Tapitanga convoc-lo. Urge,
alis, faz-lo, pois certamente vai ser necessrio que os vereadores aprovem o pedido de instalao da Brastnio no municpio.
Ascnio conta como certa a apresentao do requerimento pela Empresa, dando por descontado o resultado dos estudos efetuados pelos tcnicos. Se a Brastnio no fosse
se estabelecer em Mangue Seco, por que iriam os diretores contratar companhia de terraplanagem para traar planos de alargamento e pavimentao da estrada que liga
Agreste a Esplanada?
Nem sequer a insolente declarao de dona Carmosina, feita aps a leitura dos jornais - na falta do Comandante, Ascnio esfregara entrevistas e artigos nas fuas
da agente dos Correios -, alterou as convices, o entusiasmo e o bom humor do secretrio da Prefeitura, em estado de euforia desde a chegada da carta e dos materiais
enviados pelo Magnfico Doutor.
Vazia de argumentos com que refutar a cincia de Herr Professor e o patriotismo dos proprietrios das gazetas, dona Carmosina contentara-se em afirmar, categrica
e depreciativa:
- Tudo isso no passa de matria paga. Est na cara.  preciso se muito tolo ou muito safado para no ver.
To eufrico, o progressista Ascnio, a ponto de cobrir Leonora de beijos quando lhe exibiu os jornais e a placa da rua Antonieta Esteves Cantarelli, em fogoso descontrole.
Cobriu Leonora de beijos, modo de dizer, sapecou-lhe quatro ou cinco beijos nas faces, no passou da o fogoso descontrole, ainda assim imprevisto em quem vive a
se cuidar para no parecer cnico aproveitador, da mesma indigna casta do vilo que a enganara e seduzira. ao v-lo em tal contentamento, ressuscitado, Leonora sente
vontade de sair pela rua cantando Aleluia, para saudar o renascido sol dos namorados.
Refletiram-se euforia e veemncia na brilhante atuao de Ascnio no campeonato de bilhar. Apesar do pouco treino - ultimamente abandonara por completo a verde mesa
dos brunswicks - estava fazendo boa figura, colocara-se entre os quatro semifinalistas. Nas quartas de finais, conseguira derrotar Osnar em sensacional partida,
enquanto Fidlio, jogador calmo e ardiloso, batia o impulsivo Lelu. Permaneceram na disputa apenas Astrio, Seixas, Fidlio e Ascnio, que convida Leonora para
assistir s prximas partidas:
- Venha torcer por mim. Todo mundo tem torcida, menos eu.
Realmente, para a fase decisiva do torneio anuncia-se a presena no Bar dos Aores de numeroso e inabitual pblico feminino. Somente em ocasies excepeionais as
mulheres freqentam o bar de seu Manuel, em geral abandonado  clientela masculina. A presena de moas e senhoras obriga a incmodo controle de linguagem e gesticulao,
transformando a atmosfera do recinto, habitualmente debochada, sem eias nem peias. Para o campeonato anual de bilhar, porm, quando  proclamado o Taco de Ouro do
ano, tornou-se tradio o gracioso desfile de esposas, noivas, namoradas, parentas e admiradoras dos disputantes.
Elisa, por exemplo, no falta. Elegantssima, aparenta ar distante e indiferente como se comparecesse apenas para cumprir dever de esposa incentivando Astrio. Em
realidade aproveita a ocasio para sentir o odor pecaminoso do bar onde, na parede principal, entre garrafas de bebidas, foram coladas as folhas de um calendrio
de mulheres nuas, loiras, nrdicas, morenas, orientais, mulatas, uma para cada ms, oferta de Aminthas ao amigo Manuel, lusitano vivo, lbrico e esteta, conforme
se l na dedicatria.
Segundo Osnar, o sargento Peto comeu as doze, uma a uma, na punheta. Ele e seu Manuel Comparecem as primas de Seixas, rebanho garrido e alegre. Dona Edna no perde
uma s partida, nem mesmo agora quando seus campees j se encontram fora do preo: o moo Lelu, que mais parece seu marido, e Terto que, como se sabe de sobejo,
sendo esposo de papel passado, no convence.
Derrotados os dois, vacila dona Edna na escolha de um novo predileto entre os quatro semifinalistas. Talvez se decida por Astrio, para aperrear Elisa, metida a
esnobe e a rainha da elegncia - elegncia de segunda mo, de vestidos usados, de refugos.
Vacilam igualmente algumas outras espectadoras. A maioria, porm, constitui a imbatvel torcida de Fidlio, animadssima, formada por donzelas de diferentes idades,
indo de jovens alunas do colgio de dona Carlota (Antunes) Alves  quase solteirona Cinira. Calado, enrustido, na aparncia um monge e cheio de admiradoras: um tipo
surpreendente esse Fidlio A., ou seja Antunes.
Ascnio estende o convite a Tieta. Ela recusa: acertada a escritura da propriedade de Jarde e Josaf, pouco lhe resta a fazer em Agreste. No dia seguinte, sem falta,
ir para Mangue Seco. no vai pela manha porque prometera a dona Mil almoar com ela. Imediatamente depois enfrentar o solo do comeo da tarde na lancha de Elieser,
levando Ricardo consigo para a arrancada final na construo do Curral do Bode Incio: a pintura e o pavimento.
- Torneio de bilhar? no, meu filho, prefiro o banho de mar na praia e o banho de lua nos combros de Mangue Seco. - Espreguia-se a prelibar tais delicias. - ademais,
quero gozar de minha biboca antes de ir embora.
- Ir embora? S depois da inaugurao da luz, no se esquea. - De to eufrico, Ascnio solta a lngua: - Estou preparando uma surpresa para a senhora.
- Para mim? Diga logo o que .
- Me desculpe, dona Antonieta, mas no posso. Penso que a senhora vai gostar.
Gostaria, isso sim, que ele perdesse o acanhamento e agarrasse Leonora, levando-a pata a cama. O jeito  empurr-lo, precipitando os acontecimentos.
- Mais uns dias e a biboca estar pronta, mando buscar Nora para ficar l, comigo.
- Para ficar em Mangue Seco?- empalidece Ascnio, treme-lhe a voz, de sbito esvaziado de euforia e entusiasmo.
Exatamente como previra Tieta. Em Mangue Seco, no fim da semana, ela tirar da cabea quente do rapaz a funesta idia de permitir a instalao no coqueiral de indstria
recusada em todas as partes do mundo, rechaada com horror, ameaa mortal para o clima e as guas de Agreste. Em troca, o colocar no leito de Leonora, o leito mais
suntuoso do mundo, as dunas de Mangue Seco, livres da poluio.
- Venha voc tambm, o Curral  pequeno mas se dando um jeitinho cabem as cabras e os bodes.
De como deus atende a um pedido sacrlego ainda bem que deus veio em seu auxlio, o deus dos namorados, atualmente o preferido de Ricardo, segundo tudo indica. E
o fez de forma aparentemente violenta, a ponto de se poder considerar, em julgamento apressado, cruel e injusta a ao da Divina Providncia. Para logo constatar-se
a precisa sabedoria da medida posta em prtica. No caso, vale a pena repetir o refro popular, citado por dona Mil a propsito da expulso de Tieta: Deus escreve
certo por linhas tortas.
Refletia o esforado aprendiz de padre e de homem sobre a empreitada em que se metera, buscando maneira de resolv-la, saindo airosamente da difcil encruzilhada,
trilhando caminhos a conduzi-lo primeiro aos braos juvenis de Maria Imaculada, depois aos balzaquianos de Tieta. no via jeito, beco sem sada.
Na noite passada, ao voltar dos fogos, acompanhando a me e Leonora, quando reinou silncio na casa, transpusera o corredor e tocara o corpo nu da tia. Com os primeiros
beijos, Tieta acordou e o prendeu nos braos, cingindo-lhe a cintura:
- Cabrito!
- Minha cabra!
Disse cabra com o pensamento na cabrita a pedir: me beije de novo, bem.
A voz desfalecendo em dengue ao trat-lo de bem, e ele se esvaindo ao ouvi-la pronunciar. Se pudesse, contaria a Tieta: hoje te encontrei, tia, no tempo de antanho,
molecota, de tocaia sob a mangueira, no escuro. Me perdoa mas preciso saber como era teu gosto de pastora, sem perfume francs, sem cremes nem ungentos, sem perucas,
negligs, colares de ouro, anis de brilhantes, quando cheiravas a jasmim-do-cabo e vestias organdi azul- celeste.
Naquela noite, rompendo com atraso o Ano Novo, Ricardo conheceu o singular prazer de possuir uma mulher pensando noutra. Melhor ainda do que o ipicilone duplo, executado
por Tieta, com sua colaborao, quando a primeira claridade da manh penetrou pela janela aberta. Foram trs no leito de dona Eufrosina e do doutor Fulgncio: ele,
Tieta e Maria Imaculada.
Como fazer para ir ao encontro da menina quando, s nove da noite, a luz se apagar? Mesmo nas suars de visitas demoradas, no tinha pretexto para tocar-se rua afora,
a me no fazia concesses em matria de horrios. Pensou em mil desculpas, inventou dezenas de razes, todas inconsistentes. O tempo passando e ele sem saber como
agir. Disposto a inventar qualquer mentira, fosse qual fosse. Alis j mentira  tia naquela manhzinha, pois ela notara a marca da mordida e o interrogara. Mordera-se
ele prprio, ao cobri-la de beijos e dentadas na hora extrema do ipicilone duplo.
Por cmulo do azar, alm do inevitvel Ascnio, a rodear a praa com Leonora, e do vate Barbozinha, na varanda a mentu para Tieta e Perptua, nenhuma outra visita
aparecera. ao soar das nove, Ascnio trar Leonora de volta; descero a rua, juntos, ele e Barbozinha. Perptua se recolher para as oraes noturnas. Tendo acenado
da porta o ltimo adeus, Leonora beijar Tieta desejando-lhe boa noite. Ento a tia, aps a longa toalete - demora o tempo da irm e da enteada se entregarem ao
sono - deitar-se - ia para gozar a boa noite em companhia dele, Ricardo.
Espia o relgio, falta pouco mais de meia hora para as nove e ele nada inventa, capaz de lhe permitir a escapada. Uma angstia atroz o possui, daqui a pouco Maria
Imaculada estar atrs do tronco da mangueira, a esper-lo.
Largando a gramtica da lngua portuguesa em que se recolhera para melhor pensar, Ricardo eleva o pensamento a Deus numa splica desesperada e mpia: Ajudai-me,
Senhor Deus, nesse terrvel transe!
Tiro e queda pois em seguida soam passos na calada, ouve-se a voz do padre Mariano a cham-lo pelo nome:
- Ricardo!  Ricardo! J est dormindo?
Acorre Perptua a receber o reverendo, querendo saber o motivo da visita e do apelo. Motivo triste, cara filha: levar a extrema- uno  velha Belarmina, viva de
seu Cazuza Bezerra, paroquiana muito da igreja, andando a passos firmes para os noventa anos. Acometida por um banal resfriado h poucos dias, piorara inesperadamente,
tivera uma vertigem. Estando doutor Caio ausente, a veranear, foi chamado a atend-la seu Alosio Melhor, substituto eventual do facultativo devido  sua condio
de dono da Farmcia Sant'Ana, lao comercial e nico a lig-lo  medicina. ao v-la largada na cama e no tendo conseguido encontrar-lhe o pulso, o boticrio mandara
um recado urgente ao proco: a anci agonizava sem sacramentos. Vav Murioca, metido a fogueteiro, queimara a mo na vspera, ao soltar um rojo; o reverendo vinha
em busca de Ricardo para o exerccio da caridade, ajudando a velhinha a morrer em paz com Deus. Obrigado, Senhor!, agradece o beneficirio em pensamento, enfiando
a correr a batina sobre o shorte. Afinal, dona Belarmina j vivera quase um sculo.
Viver alguns anos mais, com certeza, pois a viso do padre e do seminarista conduzindo os santos leos para a extrema- uno pregou-lhe tal susto que de estalo
lhe curou gripe e desmaio. Levanta-se lpida e para provar sade, de camisola de algodo com florinhas azuis bordadas na gola, executa uns passos de dana e mostra
a lngua para o farmacutico, o demnio da velha. Esclerosada, sim, agonizante, uma ova!
Apagavam-se as luzes quando o farmacutico, o padre e Ricardo abandonaram a casa de dona Belarmina que os conduziu at a porta:
- Seu Alosio, quando quiser agourar algum, v agourar sua me!
Acompanhando o reverendo  igreja para guardar os santos leos e a gua benta, Ricardo percebeu Maria Imaculada atrs da Mangueira e foi visto por ela. Ainda levou
o padre  casa paroquial, ouvindo-o trancar a porta. Na rua da Frente, Ascnio e o poeta se distanciam. Veio ento.
- Voc  to bonito de batina, bem.
Ricardo est leve e feliz, Deus lhe dera o bom pretexto sem causar mal a ningum, apenas a caminhada noturna de padre Mariano, obrigao do oficio de pastor.
Maria Imaculada no veste organdi azul- celeste, est de saia negra e blusa estampada mas traz nos cabelos, como ontem, jasmins- do- cabo e na boca o mesmo riso
fresco e claro. Foram se beijando pelo caminho; ao chegar  beira do rio, vendo-o indeciso, ela o toma pela mo e o conduz ao mais recndito esconderijo sob os chores
na Bacia de Catarina. Deitou-se, abriu a blusa, suspendeu a saia, nada por debaixo, apenas o corpo arrepiando-se ao correr da brisa.
- Vem depressa, bem, que estou com frio.
Ricardo empunha a batina, desabotoa o shorte, Maria Imaculada ri:
- Tu vai me santificar, bem.
Juntos voltam para a Praa. Ricardo, rindo  toa, toca-lhe o rosto, beija-lhe os olhos, enfia a mo nos crespos cabelos, guarda no bolso da batina o jasmim do cabo.
Despedem-se ao lado da mangueira.
- amanh venho de novo lhe esperar, bem. Na mesma hora.
- amanh vou para Mangue Seco.
- Vai demorar l, bem? - a voz ansiosa.
- Sbado estou aqui, tu pode me esperar.
- No deixe de vir seno vou morrer de tristeza.
- Venho como sem falta. At sbado, Imaculada.
- Espere mais um pouquinho, bem. Me beije outra vez.
No melhor do beijo, surge um vulto na Praa. Ricardo se desprende, Maria Imaculada dissolve-se na escurido. Caindo de bbado, Bafo de Bode se aproxima, vem da beira
do rio, fala aos arrotos mas o faz em voz baixa, evitando os gritos costumeiros. no em respeito ao sono dos demais e, sim, porque tambm ele tem seus protegidos:
- Castigue o pau, padreco, e viva Deus que  nosso Pai.
Onde o autor informa e doutrina sobre susceptibilidades regionais, cita nomes famosos no mundo das letras e das artes, buscando certamente com eles misturar-se,
com ocasional referencia as eleies para a prefeitura de agreste e em momento critico, quando ainda carecido de respostas positivas s questes colocadas com o
anncio da prxima instalao da Brastnio no coqueiral de Mangue Seco, ao pensar na populao do Saco, arraial de pescadores ameaados em sua atividade, Ascnio
Trindade recusara tomar conhecimento do problema, recordando a posio geogrfica do povoado, erguido na margem esquerda da foz do rio Real, no Estado de Sergipe.
Em voz alta, Josaf Antunes proclamou o mesmo raciocnio regionalista em conversa com Tieta: os sergipanos que se cocem.
Coaram-se, pois A Tarde, em quadro na primeira pgina, reclama a ateno dos leitores para candentes matrias impressas no corpo do jornal, referentes ao perigo
da poluio: notcia sobre as anunciadas eleies para a Prefeitura de Sant'Ana do Agreste, telegrama do senhor Raimundo Souza, prefeito do municpio de Estncia,
no Estado de Sergipe, e entrevista de Caryb, artista de fama internacional que tanto tem elevado o nome do Brasil no estrangeiro.
Sobre as eleies, breve grifo na coluna de Notas Polticas: circulam rumores segundo os quais a prioridade consentida na pauta dos trabalhos do Tribunal Eleitoral
para a marcao da data do prximo pleito para a escolha do novo prefeito de Agreste deve-se  manobra da Brastnio, interessada em colocar  frente da comuna, onde
pretende instalar a indesejvel e condenada indstria de dixido de titnio, homem de sua inteira confiana.
O telegrama do prefeito de Estncia ressuma indignao: O ignbil projeto da Brastnio de situar suas fbrica sem Mangue Secos a incalculvel ameaa para o Litoral
sul de Sergipe, para os bravos e honrados pescadores c toda a ordeira e laboriosa populao do arraial do Saco, para a rica fauna piscatria da regio, do mar e
dos rios, o Piau e o Piauitinga, que se juntam para formar o rio Real, pouco acima de Estncia, municpio cuja ecologia e economia sero violentamente afetadas
assim como as dos municpios vizinhos, tanto os de Sergipe quanto os da Bahia, Estados irmos, cujas vozes e forfas devem se unir em defesa da integridade do meio
ambiente.
No fosse o prefeito de Estncia conhecido por sua fina educao, poder-se - ia pensar que, ao classificar de honrados os pescadores do arraial do Saco, agisse na
oculta inteno de opor sua honesta atividade  faina ilegal de contrabando exercida pela duvidosa colnia de Mangue Seco. De idntica maneira, colocando o acento
sobre o fato dos projetos da Brastnio ameaarem igualmente a ecologia dos dois Estados, apelando para as relaes fraternas que devem unir os membros de nossa vacilante
federao, sobretudo quando vizinhos, tem-se a impresso de que o autor do telegrama responde com acerba crtica ao pensamento de Ascnio Trindade e  frase infeliz
de Josaf Antunes. no tinha conhecimento, porm, o eficiente e popular prefeito de Estncia nem da cnica declarao de Josaf, muito menos do desesperado recurso
de Ascnio, que no chegara a se expressar em palavras.
Devemos atribuir tais intenes, se em verdade existiram, a velhas queixas sergipanas contra certa tendncia colonialista dos baianos, verdadeira ou no.
Ao transcrever das colunas de A Tarde o enrgico protesto do digno prefeito de Estncia, no posso perder a ocasio de render pblica homenagem aos seus mritos.
Disseram-me ser ele proprietrio de tradicional indstria de charutos, infensa a qualquer tipo de poluio, fabrico de trato artesanal onde as folhas do tabaco so
enroladas sobre as coxas das exmias operrias, ganhando perfume e sabor especiais. Quem sabe, tratando-o bem como aqui o fao, receberei algumas caixas do estimado
produto. Em tempo de magros direitos autorais, preciosa oferta.
Quanto  entrevista daquele a quem a redao do jornal, num desparrame de elogios, trata de pintor notvel, de fama internacional, fazendo-lhe, ao que me consta,
justia  obra vasta e bela , como se depreende do texto, a segunda por ele concedida a propsito da Brastnio e o faz na qualidade de baiano ilustre e de proprietrio
de encantadora e rstica vivenda de veraneio em Arembepe.
Comea por se referir a uma primeira entrevista quando, antecipando-se a Giovanni Guimares, condenar a indignado a Brastnio, monstruosa ameaa a praia de Arembepe,
a toda a orla martima da Capital, a populao trabalhadora, aos peixes e mariscos, ao mar de Yemanj. A referncia fetichista denota a estreita ligao do artista
com os candombls, num dos quais concederam-lhe um posto, no sei se de babalorix ou de ia. Na segunda entrevista, felicita-se e felicita o povo da cidade da Bahia
pelo fato de que, ante a onda de protestos provenientes de todo o pas, inclusive de admiradores da beleza de Arembepe do porte de Rubem Braga e Fernando Sabino,
a Brastnio parece ter renunciado ao propsito inicial de cavar em Arembepe seu esgoto de fezes mortais. Vitria considervel mas, nem por isso, a luta contra a
Empresa deve sofrer soluo de continuidade, prosseguindo para impedir que a indstria assassina se instale em terras da Bahia ou em qualquer outra parte do territrio
brasileiro.
Entrevista arretada, de repercusso garantida, devido a projeo e popularidade do senhor Caryb. Alis, se at aquele momento apenas Giovanni Guimares, o prefeito
de Estncia e o poeta De Matos Barbosa, em d poemas publicados no Suplemento Literrio do mesmo jornal, havia elevado a voz em defesa de Agreste, do rio Real, da
costa de Mangue Seco dos municpios vizinhos, os protestos contra a instalao da fbrica e Arembepe sucediam-se cada vez mais numerosos.
Praia de pescadores conhecida pela abundncia e qualidade da fauna martima, pela extrema beleza da paisagem, pela quieta e pitoresca aldeia casario alegre, celebrada
em reportagens e artigos no Sul do pas, tem servido mais de uma vez de cenrio para filmes, proclamada em certo momento e por curto tempo capital dos hippies da
Amrica Latina, como lembrou certa feita o comandante Drio, Arembepe teve inmeros campe a defender-lhe a beleza e a paz, todos eles importantes, a comear pelo
egrg pintor acima citado.
Por coincidncia, trata-se do mesmo dbio personagem que j cruzou pginas deste folhetim com o aleivoso intento, coroado de xito, de adquiri a preo vil, ao ingnuo
padre Mariano, a imagem em madeira da Senho Sant'Ana, obra de santeiro do sculo XVII, de inestimvel valor.
Na ocasio, a quantia paga parecera enorme ao pacato reverendo, q entregou de mo beijada a carcomida santa ao espertalho. Pobre cu sertanejo! Encheu-se de remorso,
anos depois, quando dona Carmosina mostrou numa revista do Rio fotografias em vrios ngulos da imagem restaurada, pea maior na notvel coleo de mestre Mirabeau.
Somente deu-se conta do logro e desde aquele dia passou a existir um segredo tumulto entre ele e a agente dos Correios e Telgrafos. Se bem pouco afeita  igreja
proclamando-se ao mesmo tempo agnstica, incrdula e atia, promete dona Carmosina dar fim ao exemplar da revista e esquecer o incidente sensvel  ignorncia artstica
de um humilde sacerdote perdido nos confim de Judas.
Aproveito para contar haver dona Carmosina respondido ao mural Ascnio Trindade, pendurado na parede da ata do Conselho Municipal Prefeitura, com outro, maior e
ainda mais chamativo, com frases tiradas todas as matrias aqui citadas e da crnica de Giovanni Guimares, tudo letras garrafais. Completado com macabra ilustrao:
a fumaa ama saindo das chamins da Brastnio, pavorosa mancha de dixido de enxofre degradar para sempre o azul do cu, os efluentes gasosos; rio de peixes mo no
esgoto podre onde escorrem os detritos assassinos do sulfato ferroso cido sulfrico, os efluentes lquidos - dona Carmosina sabe tudo sobre dixido de titnio e
sua produo. O coqueiral de Mangue Seco reduzido  msera tapera onde uma populao de mendigos agoniza asfixiada.Obra de arte igualmente primitiva ou primria,
nada fica a dever  do tesoureiro Lindolfo; ao contrrio, a supera pois, ao realiz-la, o artista usou tintas de aquarela e no simples bateria de lpis de cor.
Trabalho de Seixas, amador que, nas horas vagas deixadas pelo bilhar e pelas primas - e pela repartio, acrescentamos, onde ele faz dirio ato de presena -, pinta
seus quadrinhos em segredo para evitar a gozao da malta. Segredo,  claro, do conhecimento de dona Carmosina.
Colocado entre as duas portas de entrada do Arepago, o jornal mural de dona Carmosina, em cujo centro esto a crnica de Giovanni Guimares, os dois Poemas da maldio
do vate Barbozinha, glria local, e o retrato do pintor Caryb, glria nacional,  muito mais lido e comentado do que o de Ascnio Trindade, posto na sala da Cmara
Municipal - a freqncia de pblico s duas reparties no admite termo de comparao. Na Prefeitura aparece apenas quem tem assunto a tratar, pedido a fazer; ali
se vai exclusivamente por necessidade ou obrigao.  agncia dos Correios vai-se por necessidade e prazer, para bater papo, ouvir os notveis em erudito cavaco,
informar-se do que ocorre pelo mundo, as poucas alegrias, as desgraas tantas, os perigos inmeros.
FIM
